Cold Coffee
18 It comes back to you
Notas iniciais
Capítulo XVII
Diana
Sabe quando o destino realmente não está do seu lado? Então, pode-se dizer que eu já estava, de certa forma, familiarizada com essa sensação.
Depois do total desastre da festa de Halloween, eu simplesmente não consegui parar de pensar em Philip. Nosso "abraço", apesar de ter sido totalmente acidental e ter durado míseros segundos, foi a única coisa depois daquelas longas semanas que me fez sentir alguma coisa além de estresse e frustração. Eu sabia que estava voltando à estaca zero, e que os sentimentos da Diana de 10 anos estavam tomando conta de mim novamente, mas era algo tão involuntário e natural que eu não tinha forças para evitar.
É claro, eu continuava estressada com tudo – talvez ainda mais do que eu estava antes da festa. Mas agora eu estava, além de estressada, confusa. Ou seja, logo quando eu tinha certeza de que as coisas não tinham como piorar... Elas pioraram.
Porém, no início de novembro, eu tive algo para agradecer: matérias. Nunca pensei que seria algo pelo qual eu estaria grata, mas as provas que chegavam e as férias que seriam logo depois deram entrada para uma coletânea intensa de conteúdos novos nas aulas. Consequentemente, todo o espaço que eu tinha no cérebro acabou sendo ocupado por isso, e os pensamentos que eu estava tendo por Philip tornaram-se menos frequentes – apesar de ainda ocorrerem uma vez ou outra. Além disso, eu tinha uma boa e válida desculpa para não sair com Leonard, o que era sempre um bônus.
Numa quarta-feira, uma semana após a festa, eu estava caminhando para o dormitório quando vi uma figura correndo loucamente em minha direção. Primeiramente, me assustei, mas à medida que a pessoa se aproximou de onde eu estava, percebi que a atleta em questão era Jade. Quando ela chegou em mim, pôs a mão em meu ombro e abaixou seu rosto.
— Caminhadas noturnas? – eu perguntei. Ela estava recuperando o fôlego e demorou um pouco para se recompor.
— Eu... Eu preciso falar com você.
— Custava esperar que eu chegasse no quarto?
Ela me olhou, seus olhos arregalados exalando urgência.
— Você e Philip.
Oh.
— O que aconteceu, Jade? Não pode esperar até amanhã? – eu disse, numa tentativa desesperada de postergar qualquer contato com Philip. Jade negou rapidamente com a cabeça.
— É urgente! Vem, vamos procurá-lo.
Jade pegou o meu braço e retomou sua corrida, dessa vez me levando junto. Minha mochila batia contra minhas costas e o meu coração estava duplamente acelerado, tanto pela corrida quanto pelo fato de que havia uma considerável possibilidade de encontrarmos Philip. Minha fuga triunfal após ele ter me abraçado fora o nosso último contato, e eu tinha certeza de que isso tornaria o clima ainda mais estranho entre nós.
Chegamos perto do dormitório masculino e, como o esperado, encontramos Philip indo até a porta sozinho. Ouvi Jade agradecendo silenciosamente e, com isso, ela aumentou sua velocidade. Eu, por outro lado, andei mais devagar, abrindo margem para minha amiga começar a conversa com ele sem que eu tivesse que me pronunciar.
Philip olhou confuso para Jade assim que ela apareceu em sua frente, quase como um segurança maluco impedindo-o de entrar numa boate. Ela parou, novamente ofegante, e esperou que eu os alcançasse para começar a falar.
Enquanto eu andava em sua direção, Philip virou para trás e seus olhos se encontraram com os meus. Senti um arrepio inigualável que só ele causava em mim e, imediatamente, olhei para o chão, sentindo meu rosto ficar cada vez mais vermelho.
— Phi-Philip. – Jade disse.
— Ja-Jade.
— Eu prec.. Preciso falar com você e com Diana, urgentemente – ele abriu a boca para argumentar. – Não, não pode esperar.
Philip olhou para mim novamente.
— Er... Tá. Fala logo.
Jade ajeitou seu cabelo e respirou fundo, como se estivesse analisando cada palavra que sairia de sua boca. Se antes eu estava nervosa por encontrar Philip, agora eu também estava nervosa com o que ela tinha que dizer.
— Ok. Tá. Hm. Eu estava voltando da minha última aula do dia, agora pouco, e... Quando cheguei no dormitório, vi Leonard.
Eu soltei um bufo.
— E a sua... Sua namorada, Philip...
Philip franziu as sobrancelhas e mordeu o lábio.
— Eu não... Tem certeza de que era Margaret? – ele perguntou.
— Absoluta. Eles falaram... Sobre vocês dois.
Jade olhou para mim e, em seguida, para Philip.
— Falaram o que? – eu perguntei, ansiosa.
— Hm... Bom, o Leonard estava nervoso com ela porque ela estava aparentemente desistindo de alguma coisa. Eu não entendi de primeira, mas depois... Pelo que os dois estavam falando, o Leonard está pagando a Margaret para sair com você, Philip.
— Que diabos, Jade? – Philip indagou, nervoso.
— É sério. Leonard deixou claro que tem medo de que algo entre você e Diana aconteça... Esse foi o jeito dele de impedir isso. E, convenhamos, é a cara daquele filho da puta fazer esse tipo de coisa!
Eu não sabia o que dizer, mas Jade tinha razão. Leonard faria uma coisa dessas em questão de segundos por ciúmes, e naquele momento eu senti uma mistura de sentimentos: raiva, confusão e tristeza. Eu queria ir até ele e perguntar quem ele pensava que era; queria dizer a ele tudo que estava implorando para ser dito dentro de mim; queria mostrar a ele que não é assim que se consegue as coisas na vida –por meio de ameaças, dinheiro, ou qualquer tipo de exerção de superioridade que ele adorava praticar. Todas as células do meu corpo estavam prontas para se livrarem da toxicidade que Leonard trazia consigo, porém eu precisava esperar. Aquele momento, com Jade e Philip ao meu lado, não seria o certo para começar a resolver as coisas.
Por isso, decidi permanecer quieta, deixando que Jade e Philip fossem os únicos a falar. Eu não confiava em mim mesma e suspeitava que, caso abrisse a boca, todas as verdades seriam ditas sem pestanejar.
— Você está brincando, né, Jade? – Philip disse, num tom um pouco mais alto. – Sério...
— Philip, por que eu brincaria sobre algo assim? É sério!
— Não, Jade. Eu já esperava.
Jade e eu o olhamos confusas.
— Olha, eu... Eu odiei ter tido que me afastar de vocês, porque vocês sempre foram minhas amigas. E Diana...
Ele olhou para mim e eu senti que iria explodir.
— Eu... – ele estava frustrado. Seus punhos estavam cerrados e ele parecia que iria chorar, uma visão que doeu como uma faca sendo enfiada em meu peito. – Eu e Margaret estamos dando certo. Isso só pode ser mentira.
— Philip, mas eu juro que não é, cara! Você não entende? Eu vi com os meus próprios olhos – Jade suspirou, com raiva. – A Diana continua namorando um imbecil e você está se investindo em alguém que foi basicamente contratado por esse imbecil! É insano!
Ficamos em silêncio por alguns segundos, que pareceram uma eternidade. Philip parecia estar pensando seriamente e eu podia sentir a frustração de Jade com a situação. Ela olhou para mim, esperando que eu falasse alguma coisa, mas Philip acabou se pronunciando.
— Você está vendo só pelo lado de vocês. Não é culpa minha que Leonard e Diana estão juntos até agora. Eu já parei de ligar pra isso. Agora, por favor, não envolva a mim e Margaret nesse negócio.
— Caralho! Mas eu to falando...
— Não, Jade. Você está pensando só em si mesma. Vocês duas, na verdade, sempre foram assim. Sempre olhando pro próprio umbigo – ele disse, sua raiva visível em cada palavra. – Eu cansei disso. Já estou estressado por conta de outras coisas e você me vem com isso. Eu não quero saber de nada relacionado a Leonard, nunca mais, e se eu não tinha deixado isso claro antes então estou deixando agora.
— Philip, você não vê o quão idiota está sendo? Isso é sério! Ele está pagando a Margaret pra ser a sua namorada! – Jade gritou.
— Eu já disse que cansei disso, Jade. Mesmo que Margaret esteja sendo paga por esse ridículo, o que eu acho improvável; que seja, pelo menos estamos juntos. Ela me faz feliz e é isso que importa. Agora vocês que se resolvam.
— Vocês que se resolvam?! Que merda é essa? Philip, você não é assim. Acorda! E Diana, você também! Por que está calada sendo que isso envolve você também? Por que voltou com aquele embuste sendo que você tinha me deixado claro que estava insatisfeita com ele?
— Jade... – eu disse. Pressionei minha unha contra a palma da minha mão para conter minha raiva. – Eu...
— Quer saber, acho que minha presença aqui já não é mais necessária.
Philip ultrapassou Jade e entrou no dormitório sem olhar pra trás, deixando entre eu e ela uma nuvem densa e negra. Durante toda aquela conversa, enquanto os dois discutiam, eu sentia que estava sendo cada vez mais inútil. Eu não estava aguentando ficar em meu próprio corpo, sentindo ódio constante de mim mesma e Leonard. Eu precisava resolver isso rápido.
— O que foi isso?! Diana, vocês dois são impossíveis! O Philip falando umas asneiras e você calada, pelo amor de Deus! Vocês precisam se resolver e...
— Eu preciso ir.
Jade me encarou, surpresa.
— Onde você vai? Não pense que você vai se safar, a gente tem que conversar sobre isso!
— Jade, eu preciso ir. Eu... Eu esqueci o meu caderno no prédio 5. Preciso ir lá pegar antes que tranquem as portas.
— DIANA!
— Eu volto depois.
E, assim, eu saí correndo, sabendo que eu não dormiria naquela noite caso não falasse tudo que tinha que falar com Leonard. Terminar o que tinha que terminar com ele, botar senso na cabeça dele e fazer com que ele parasse de importunar todas as pessoas ao meu redor: era esse o meu objetivo.
Eu sabia que ele estaria na quadra perto do refeitório – ele e seus amigos faziam partidas de diversos esportes lá quase toda quarta-feira por motivos desconhecidos à minha pessoa. O problema era que a distância do dormitório masculino até a quadra era um tanto grande, então eu tive que usar todas as minhas energias para chegar lá o mais rápido possível e terminar logo aquilo que eu desejava fazer.
Quando cheguei na quadra, vi Leonard e um bando de garotos jogando futebol, e me segurei para não revirar os olhos perante aquela cena. Tive que entrar na quadra e sentir de perto o cheiro de suor humano para chamar sua atenção.
Leonard instantaneamente parou quando me viu em frente à porta, que dava entrada para a quadra, e veio correndo até mim, com algumas exclamações raivosas dos outros jogadores.
— Diana! Que surpresa! – ele disse, chegando perto com seu corpo suado. Eu me afastei dando um passo para trás.
— Leonard, precisamos conversar.
— Agora? É que estamos no meio de uma partida. Estou no meio do massacre contra o time do Johnson, aquele filho da puta.
— É importante.
Leonard fez um sinal para um de seus companheiros de time e me guiou até embaixo de uma das árvores que cercavam a quadra. Estávamos no escuro e eu não pude deixar de sentir medo naquele instante – uma pontada de hesitação crescendo no meu estômago –, porém não havia nada que pudesse me impedir. Depois de tudo o que Jade havia falado, não mais.
— E aí, o que houve?
Eu respirei fundo.
— Leonard, que diabos você está fazendo? Eu achei que me ameaçar já fosse o suficiente, mas... Pagar outra pessoa pra ficar com outra só por ciúmes, isso já é surreal!
— Do que você está falando?
— Ah, não se faça de bobo, por favor! Esse papel você já reservou a mim no momento em que me ameaçou a ficar contigo, mas agora não mais. Por que você não entende que eu sou uma pessoa, com escolhas e vontades próprias, que não são limitadas a você? Por que você quer controlar cada coisinha da minha vida, até mesmo a vida amorosa dos meus amigos?
Eu podia sentir que ele estava nervoso, mas eu não iria parar naquele momento.
— Você é insano. Jade, Philip e Margaret não merecem isso, e eu também não. Pare com essa mania de achar que pode controlar as coisas com seu dinheiro e seus recursos. Isso não vale nada.
— Então... Você sabe de Margaret. – Leonard disse, simplesmente, após uma longa pausa.
— Sim, eu sei – ele me olhou hesitante. – Que foi, achou que pudesse esconder isso e viver um "felizes pra sempre comigo"? Nem ferrando. Nós não seríamos felizes nem se nos esforçássemos. Você precisa entender isso. Você está querendo forçar... Me ameaçar a ficar com você, manipular a vida amorosa de Philip, impedir que Ja-
De repente, Leonard se aproximou de mim e segurou o meu pulso, tão fortemente que caso eu fizesse um movimento ele poderia quebrá-lo.
— Cala a boca. Diana, por que você faz isso, meu Deus? Só complica as coisas. Achei que já tivesse entendido. Você não vai terminar comigo, porque eu posso fazer muito mais do que arruinar a reputação da sua amiga. Eu posso te arruinar também. Arruinar o seu amiguinho Philip. Acha que pode ir contra mim nessa batalha? Nem ferrando.
A força que ele exercia em meu pulso era inigualável; eu nunca havia sentido tanta dor e tanto medo antes.
— Seja feliz ou triste comigo, não importa. Você nunca me viu perdendo alguma competição, porque eu sempre ganho. E eu já ganhei contra você e o seu amorzinho de infância. Sem desculpas. Ou você quer apostar o contrário?
Lágrimas correram pelo meu rosto, que estava de lado para o de Leonard. Eu não consegui encarar seus olhos – era como se uma força diabólica o tivesse possuído.
— Me... Me solta. – eu disse, simplesmente.
— Retire o que disse. Diga que está comigo. – ele segurou o meu pulso com mais força.
Várias imagens apareceram em minha mente. Philip me abraçando; eu e Jade conversando em nosso quarto; nós três nos divertindo quando crianças. Porém, as memórias felizes rapidamente deram espaço às memórias escuras: minha briga com Philip; a discussão recente que presenciei entre ele e Jade; a voz de Leonard ecoando pela minha cabeça, me ameaçando e brigando com Philip. Aquilo tudo me inundou tão instantaneamente e acabou me paralisando. Eu não sabia o que fazer.
Angustiada pela dor no pulso e pelas confusões internas, naquele momento a areia movediça na qual eu estava me puxou totalmente para o fundo, me deixando agora num buraco negro sem saída. Os olhos de Leonard me perfuravam e, sem que meu melhor julgamento pudesse argumentar, minha boca se abriu e eu me ouvi dizendo entre lágrimas:
— Eu... Eu retiro o que disse.
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