Cold Coffee
6 Best friends, right?
Notas iniciais
Capítulo V
Diana
"É, Waters. Quem diria."
Eu não sabia o que dizer, muito menos como reagir. Philip estava com uma expressão indescritível em seu rosto: algo que estava no meio do espectro entre raiva e medo, e meus olhos estavam receosos em olhar para o rosto de Leonard. Mesmo sem tê-lo em vista, eu sabia que ele estaria borbulhando de raiva, quase que de forma caricata. Abri a boca, esperando que as palavras saíssem, mas no final o único som que soltei foi um leve: Uh.
— Como foi a França? – Leonard perguntou, sarcástico. – Ou eles ficaram cansados desse teu rostinho ridículo e te mandaram embora?
Philip olhou para mim confuso, e pelo olhar tentei transmitir as minhas mais sinceras desculpas. Eu havia o envolvido na minha mentira, e não tinha mais volta. Era como uma bola de neve, vindo cada vez mais rápida em minha direção.
Felizmente, Philip e seu raciocínio rápido entenderam o contexto.
— Fiquei lá o tempo que precisei, Leonard. Motivos pessoais.
Leonard riu.
— Motivos pessoas. Aham, conta outra. Você acha que eu não sei do que aconteceu? Entre você e Diana? Me poupe.
— Leonard, nada aconteceu. Sempre fomos amigos. – respondi, tentando mascarar meu nervosismo com um falso tom de confiança em minhas palavras.
— Talvez pra você, Diana, mas e pra esse otário aqui? Ele com certeza sentia algo por você.
— O que eu senti ou não senti por Diana não é da sua conta. Sabe, nem tudo relacionado à Diana tem que ser da sua conta. Já ouviu falar em espaço pessoal?
— Philip – sussurrei, aflita. – Leo, calma. Eu realmente achei que Philip ainda estava na França, e foi uma surpresa ter encontrado ele aqui. Por isso estava conversando com ele. O que quer que você tenha pensado, não é a verdade.
Leonard aparentemente ignorou minha presença no local e estava focando apenas em sua raiva armazenada por Philip.
— Olha o que você fala, seu merda. Você age como se tivesse algum tipo de autoridade sobre mim, eu hein. Como se fosse superior. Desencana! – Leonard retrucou, avançando para cima de Philip. Consegui impedi-lo com meus braços, e Philip manteve-se imóvel.
— Eu realmente... – Philip começou. – Não sei mais o que dizer. Leonard, você superou todas as expectativas que eu tinha de você. Tipo, sério mesmo. Quer dizer, eu já sabia que você era babaca, possessivo, ciumento até demais... Mas isso que você está fazendo agora... Surreal.
— Surreal vai ser o que eu vou fazer com essa tua car...
— Leonard! – eu disse, alto suficiente para chamar a atenção de uma ou duas pessoas que passavam ao redor.
— Diana! O que? Tá querendo defender esse cara agora? – Leonard perguntou, defensivo.
— Não estou defendendo ninguém! Só quero que você pare com essa babaquice. Daqui a pouco algum inspetor pode passar por aqui...
Leonard revirou seus olhos.
— Eu levo uma suspensão na boa se isso significar nunca mais ver a cara de covarde do Waters na minha frente. Sério, Diana, como você conseguiu ser amiga dele? Só de pensar...
— Talvez seja porque a sua namorada é uma pessoa boa e que não julga as pessoas por uma primeira impressão – Philip revidou, e pude sentir sua voz trêmula apesar da postura que ele estava assumindo. – Você nem me conhece, Leonard. Não sabe nem metade da história.
Eu pude sentir que Leonard estava prestes a avançar contra Philip e meu cérebro estava em pane. Por mais que Philip fosse forte, ele não teria a audácia que Leonard tinha durante uma briga, então provavelmente sairia machucado. Eu não queria que aquilo estivesse acontecendo, mas não adiantava lamentar naquele momento. Por isso, me virei para Leonard e rezei para que as minhas palavras fossem o suficiente para tirá-lo dali.
— Leonard. Olha, eu sei que as coisas podem não parecer...
— Não, Diana, eu não quero mais saber. Sinceramente, dane-se esse garoto. Depois eu converso contigo sobre isso. Ele me deu dor de cabeça. – Leonard apontou para Philip e depois se virou para ir embora, deixando-me sozinha com meu amigo de infância que estava visivelmente decepcionado.
Quando Leonard já havia ido embora definitivamente, olhei para Philip e senti as lágrimas ameaçando cair. Chorar na frente dele não era uma opção, logo eu sabia que precisava sair dali rápido. A última coisa que estava nos meus planos era que nosso reencontro tivesse acabado daquele jeito, e eu odiava ter que ir embora assim, sem uma despedida decente. Porém, Philip provavelmente detectou meu dilema e se pronunciou sobre o caso antes que eu pudesse fazer qualquer coisa.
— Diana... Tudo bem. Eu mal ouvi o que ele falou. Foram zumbidos pra mim.
— Philip, eu... Eu sinto muito que nosso reencontro tenha ocorrido dessa forma. – eu disse, com meu mais sincero sentimento.
— Chega de desculpas. Nada aconteceu, ok? – Philip sorriu. – Te vejo por aí.
E, com isso, fiquei sozinha, vendo Philip se afastar cada vez mais. Eu tinha certeza de que Philip estava escondendo sua decepção comigo, até porque desde o começo ele se mostrou insatisfeito com Leonard e eu como namorados. No entanto, fiquei agradecida por ele não ter comentado nada. A raiva que Leonard sentia por quase todo mundo era algo que me incomodava, ainda que as pessoas pensassem o contrário. Quando algum episódio violento dele acontecia, eu tinha vontade de cavar um buraco e ficar embaixo da terra até aquilo acabasse, quase imóvel pelo constrangimento.
Acabei voltando para o quarto quando o céu começou a escurecer. Encontrei Jade lendo algum livro e, assim que ela me viu, seus olhos arregalaram e eu senti sua curiosidade em relação ao que havia acabado de acontecer.
— E aí? Como foi?
Eu achei que aquele era o momento em que eu fosse chorar, mas acabei rindo.
— Foi por água abaixo, amiga – Jade ficou confusa e triste, mas logo fui esclarecer o motivo do desastre. – Começamos bem, nos desculpamos sobre tudo... e aí Leonard apareceu.
Jade deu um suspiro raivoso.
— Tá brincando, né? Impossível! Porra, aquele garoto... – ela estava no processo de extravasar sua raiva quando se deu conta da minha expressão impagável no rosto. – Di, eu falo isso sempre, por mais que você não goste... O Leonard é muito... Como posso dizer... Namorar ele é tipo estar presa numa gaiola. Você não tem liberdade pra nada!
— Jade, não quero falar sobre isso agora. Por favor.
Jade sabia que eu estava mal e se manteve calada enquanto me deu um abraço forte e aconchegante. Eu via verdade nas coisas que ela alegava serem a realidade, mas minha teimosia falava mais alto.
Acabamos cochilando na cama de Jade e assim passamos a noite. A lembrança de nossas festas do pijama e das brincadeiras que fazíamos naquela época inundaram meus pensamentos, o que me tranquilizou profundamente perante os desastres que ocorreram naquele dia.
—---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
— Ok. Você prefere... soluçar infinitamente ou estar sempre com a sensação de que vai espirrar, mas nunca acontece? – Jade perguntou enquanto pegávamos nossa comida no refeitório.
— Cara... Soluçar infinitamente. Odeio quando vou espirrar mas o espirro não sai! – respondi, rindo. – E você?
— Como eu que fiz a pergunta, não preciso responder...
— Ah, nem vem, Jade! Não tem essa no jogo não, eu hein.
Jade pensou na sua resposta e finalmente disse:
— Acho que... Soluçar também.
Rimos enquanto procurávamos por uma mesa no salão e imediatamente meus olhos pararam naquela em que sentava Leonard, sozinho. Jade percebeu que eu estava indo até lá e disse que não era uma boa ideia.
— Ele vai virar o Hulk, amiga. Tem certeza que é um bom investimento?
Continuei meu caminho porque sabia que, caso eu deixasse ele sozinho, ele teria mais tempo para pensar e provavelmente ficaria com mais raiva. Eu não pretendia me desculpar pelo que disse, mas sim reverter a situação e fazê-lo pensar em outra coisa.
No momento em que botei minha bandeja ao lado da dele, ele levantou os olhos para me ver. Não consegui decifrar aquilo que seus olhos demonstravam e tentei ignorar o arrepio que senti ao vê-lo.
— Então... Leo, você já provou o cookie de chocolate que eles servem aqui?
E assim, completamente ignorando meus esforços para estabelecer uma conversa, ele se levantou, como se eu fosse uma estranha pedindo esmola. Eu já esperava que algo assim fosse acontecer, e senti vergonha de mim mesma por ter tentado. Jade, que havia sido testemunha de tudo, olhava para Leonard como se estivesse o aniquilando em sua cabeça. Não pude deixar de rir.
— Homens... – Jade suspirou. Estava no processo de cortar o meu bife, tentando esquecer a ida repentina de Leonard, quando Jade do nada se levantou e acenou para alguém no outro lado do refeitório. Levantei meu olhar e vi que a pessoa para quem ela estava acenando era Philip, e ele estava acenando de volta.
— Jade! – sussurrei. Ela ignorou meus esforços para impedir que Philip viesse e, quando me dei conta, os dois estavam se abraçando e iniciando uma conversa.
— Philip, Diana me contou que você estava aqui mas eu não pude acreditar... Você não mudou quase nada... – Jade comentou enquanto Philip sentava-se.
— Sim, a mesma cara de bebê. Infelizmente – Philip respondeu, rindo. – Vocês também estão quase a mesma coisa. Estão mais baixas, por algum motivo?!
— Ah, vai te catar, Philip! – respondi. No começo me senti envergonhada da minha resposta tão casual, mas Jade e ele estavam rindo e de repente nada mais importava. Éramos nós três, que nem antigamente, contra o mundo.
— Não pude resistir... – ele comentou, rindo.
— Philip, rápido, o que você prefere: comer só pizza pelo resto da sua vida ou poder comer de tudo menos pizza pelo resto da sua vida?
— Caraca, Jade, que pergunta cruel! Você sabe que eu amo pizza!
— Exatamente por isso, Philip. É o jogo. – respondi, enquanto Jade fingia uma risada maléfica.
— Vou escolher a última opção... Porque, tipo, se você comer pizza o tempo todo vai acabar se enjoando. Certo? – eu e Jade olhamos para ele, incrédulas. – Por favor, me digam se minha lógica é aplicável.
— Cada um com seu cada um... – Jade declarou por fim, sorrindo.
Ficamos jogando O que você prefere durante o almoço inteiro, quase como se o tempo que passamos distantes tivesse sido anulado. Não havia nenhum tipo de vergonha ou silêncios desconfortáveis; falamos como se não tivesse amanhã. Fiquei grata à Jade por ter proporcionado esse momento, porque se tivesse dependido de mim, teríamos passado o almoço sozinhas, com a nuvem negra de Leonard pairando acima de nós.
Quando Philip teve que ir embora, combinamos de nos encontrar qualquer dia desses. Jade zoou a escolha anterior dele no jogo e eu sugeri comermos pizza na frente dele sem que ele pudesse pegar um pedaço. No final das contas, ele foi embora sorridente.
Assim que fiquei sozinha na mesa com Jade, ela me olhou nos olhos e perguntou sinceramente após um considerável silêncio:
— O que você acha dele?
E, com meu coração batendo um pouquinho mais rápido que o normal, minhas bochechas levemente avermelhadas e um sorriso que não cismava de sair do meu rosto (apesar dos meus esforços), eu respondi:
— Não sei... Veremos.
Jade tentou esconder seu sorriso e disse que estava atrasada para uma de suas aulas. Como eu ainda tinha alguns minutos para mim mesma, decidi pegar meu telefone.
A minha conversa com Leonard foi a primeira coisa que apareceu, e ao ler seu nome, senti um peso inexplicável cair em minhas costas. Por mais que Leonard tivesse extrapolado e falado algumas coisas ruins à Philip, eu tentei me colocar na posição dele. Leonard sabia que eu e Philip tínhamos uma história que começou bem antes de ele ter aparecido e, conhecendo ele, suas suposições devem ter ido ao pior caminho. Não que tais suposições estivessem definitivamente erradas; a questão era que sua reação seria impulsiva e violenta, mesmo ele não sabendo as circunstâncias do passado, e as consequências acabariam sendo desastrosas.
Apesar de tudo, meu relacionamento com Leonard foi uma das coisas que marcou os meus anos finais na escola, e, ao contrário do que alguns podem pensar, tivemos sim alguns momentos juntos em que me encontrei feliz. Por isso, ter visto ele triste, mesmo que suas ações tivessem sido erradas, me deixou com um gosto amargo na boca.
Contra meu melhor julgamento, acabei mandando a ele uma mensagem.
Leo, me desculpa, mesmo. Podemos conversar?
Fale com o autor