Ah, mais uma segunda-feira... O clima aqui em Tours está bem quente tem uns 4 dias, e eu estou na escola. O calor me incomoda intensamente, me impedindo de realizar qualquer atividade que requeira o mínimo de concentração. Acabei de entrar em aula, e estou em meio a uma aula de biologia teórica, e como sempre, minha atenção não está voltada para as palavras pronunciadas pela professora.

Antonie Saint, o que chamam de menino mais bonito da escola, acabou de chegar e está vindo em minha direção agora com um sorriso assustadoramente autoconfiante, e um tanto duvidoso. Metade da sala diz que Antonie é fissurado por mim, com todas as forças, que eu acho bem suspeito considerando que eu sou a única da sala inteira, (algo me faz pensar que da escola inteira também) com quem ele ainda não se relacionou.

–Bom dia, Lesllie! Está linda como todos os dias hoje.

–Bom dia, Ant. Obrigada.

Só depois de responder que percebo os olhares constantes de Abra e Lis pra minha direção. Não conheço nenhuma das duas, mas, pelo que dizem na escola, Abra foi quem mais foi ferida pelo dono dos tão penetrantes olhos verdes. Eu imagino que ela tenha sido cativada. Que ela tenha se apaixonado a ponto de querer ficar com ele para sempre, mas, como todos devemos imaginar, Antonie não é do tipo de pessoa que se prende a alguém...

Abra apesar de não demonstrar simpatia para pessoas como eu, parece ser uma pessoa bem legal. Ela tem os cabelos vermelhos como chamas ardentes, e seus olhos castanho-claros. Algo bem raro aqui na cidade onde moro. Já sua amiga, Lis, é um tanto diferente. Ela olha com desaprovação à qualquer um que olhe para Abra por mais de 50 segundos friamente cronometrados em sua mente. Lis tem namorado em outra turma, e pelo que dizem, Abra o odeia tanto como odeia a Antonie. Há quem diga que ele já foi o grande amor da vida de Abra. Mas Lis simplesmente ignorou o fato, e por ele ser bonito, popularmente aceitável e estar solteiro, não viu motivos para não se relacionar.

–Bom, classe. Agora vamos às perguntas! Lesllie, levando em conta a sua concentração na aula e seus rabiscos na mesa, pode começar respondendo a primeira pergunta! — disse a professora Beatriz com um tom cortante de desaprovação e ironia.

Minha respiração se tornou ofegante, minhas mãos começaram a suar, e meu coração acelerou num ritmo quase preocupante. Adrenalina. Qualquer coisa que eu fizer agora vai me proporcionar menos dor do que me proporcionaria normalmente. Calculo minha rota de impedimentos até a porta enquanto ponho minha mochila nas costas, e ao soar do meu nome através da boca da professora, eu disparo com toda a rapidez que já tive em minhas pernas, pulo três mesas, duas cadeiras e uma lixeira, e assim que saio da sala começo a correr com mais força até chegar no banheiro feminino. Numa escola normal, isso daria uma suspensão, ou quem sabe até uma expulsão. Porém, estamos falando de Gaspar Sain't. Uma escola interna para pacientes com distúrbios ou deficiências mentais. Eu estudo numa escola para loucos. E isso é, geralmente o que os loucos costumam fazer... fugir de problemas.

Ok, vou explicar mais um pouco. Fui internada aqui bem nova, e não me lembro de nada antes daqui. Não sei quem é minha família, pais, se tenho irmãos ou não, mas isso não importa. Todos aqui tem um ou mais problemas psicológicos específicos, desde os mais normais, até os mais bizarros. Bom, o meu? Talvez o meu problema tenha sido nascer. Eles dizem os problemas de todos a todos, mas nunca disseram absolutamente nada sobre mim. Eles dizem que eu sou a mais antiga aluna internada aqui, e que a diretoria era completamente diferente quando eu entrei e que eu não fui "registrada no sistema oficial corretamente". O que eu acho bem estranho, considerando que o que mais se encontra nesse lugar são médicos que poderiam de diversas formas me fazer um diagnóstico. Mas não. Todos os problemas foram descobertos, todos foram diagnosticadas. Menos o meu. Menos o de Lesllie Marie Claire...

Vou falar um pouco sobre as pessoas da minha turma...

Antonie, apesar de toda sua autoconfiança em seus cabelos ruivos e seus olhos verdes, sofre de distúrbios temperamentais graves, também conhecido como bipolaridade. Acredito eu que esse seja o motivo pelo qual ele se relaciona por tão pouco tempo com tantas pessoas... Lis é esquizofrênica e acha que todos que observam Abra por mais de 50 segundos cronometrados em sua cabeça, querem mata-la. Abra, por sua vez, sofre de depressão intensa, e já cortou os pulsos 3 vezes desde que foi "matriculada" aqui no ano passado. Luna possui o interior de sua mente conturbado por vozes, que segundo ela gritam cada vez mais alto. Joseph, tem três amigos imaginários, cujo um deles é o amor da sua vida desde a infância, com quem ele acha não ter chances, por ser uma pessoa de muito bom coração. Dayana e Patrick tem síndrome do pânico num nível tão alto, que se sem remédios friamente controlados, se desesperam e tentam cometer suicídio de todas as formas possíveis. Lira é a pessoa mais calada de toda a escola. Ela costuma passar seus dias sentada na janela olhado pro lado de fora como se fosse um pássaro preso numa gaiola. Nunca descobri a deficiência dela, mas ela sabe, já disseram a ela há um tempo, e foi algo que a fez chorar. Alicia, Pierre e Natalie tem níveis diferentes de depressão, e por causa da depressão, Pierre sofre de transtorno de boderline. Dominique sofre de transtornos alimentares, bulimia e anorexia. Anne e Aimée têm narcolepsia. E assim é formada a minha sala de primeiro ano.

Ao chegar no banheiro feminino, vou para a última cabine, e me sento de costas pra porta, no chão, e começo a pensar. Na vida. Em tudo. Olhando fixamente para um vaso sanitário. Em pensar que eu pergunto em todos os cantos se eu realmente tenho alguma deficiência... Nesses momentos que a vida me responde da forma mais sutil. Resolvo cochilar um pouco, ainda observando a maravilhosa anatomia do vaso sanitário público branco até que consigo cochilar. Depois de mais ou menos 5 minutos, o sinal toca, e eu acordo com o som de um bater de portas. Olho pela abertura de baixo das cabines, e consigo ver na última cabine pés pequenos e vestidos com tênis delicados e vermelhos. Logo em seguida ouço o som de alguém se sentado no tão delicado vaso sanitário, mas, não da forma convencional para fazer necessidades fisiológicas, mas com a tampa fechada. Eis então que um som de caneta riscando alguma superfície maciça ecoa pelo banheiro silencioso. Seja quem for está escrevendo algo nas paredes. Algo comum aqui, muitas pessoas escrevem declarações de amor, letras de músicas e algumas outras babaquices. Mas isso não me pareceu uma babaquice... O som da respiração ofegante, e o desespero que pode ser sentido pela pessoa que veio escrever me fizeram cogitar isso...

Cinco minutos se passam e ela ainda está lá. Escrevendo... O som de uma respiração ofegante e os barulhos do atrito da caneta na parede se propagam pelo banheiro silencioso... Ouço uma fungada. Seja quem for, está chorando. Com o passar de alguns breves segundos ouço a porta abrindo. A menina lava o rosto, e fica algum tempo parada, imóvel. Algo me faz pensar que ela está se olhando no espelho.

–Idiota! — exclamou ela

A doce voz rouca de Abra pôde ser facilmente identificada. Espero um tempo até que tenha certeza de que ela saiu de lá.

Só então que saio da minha cabine e me dirijo para a cabine onde pude observar os tênis vermelhos de Abra Follin.
Depois de trancar, fui passando os dedos em todas as escrituras das paredes até que uma delas deixasse um borrão. Um longo poema escrito com letras de forma e sem o uso de aspas foi deixado na parede, como o desabafar de uma dor.

"Dos olhos mais verdes, mais cinzas mais brancos.

Dos cor de esmeralda, azuis ou bem francos

Dos olhos escuros, brilhantes ou foscos

Dos mais distantes, mais penetrantes ou toscos

Dos mais cativantes, dos mais apaixonantes, os seus...

Não o dele, não o dela, nem o disso nem o daquilo.

Os seus olhos castanhos, brilhantes, cortantes, e inevitavelmente cativantes.

Permita-me pra sempre admirá-los?"

Abra... A delicada menina dos cabelos cor de fogo está sofrendo por amor... Sofrendo por um tão raro amor de olhos castanhos... Como já antes disse, aqui na região é bem raro a existência de pessoas com os olhos castanhos. A grande maioria possui seus olhos verdes, azuis ou cinzas.

Desconsiderando o fato de que pode ser uma mera metáfora, os únicos que sobram com os olhos castanhos são Patrick, e Dayanna. Mas, Abra não aparenta ser lésbica. Não que eu queira criar um modelo social pra pessoas homossexuais, mas na minha concepção ela aparentaria ao menos um pouco. Abra é daquelas meninas que "soltam glitter demais". Ela se arruma perfeitamente e faz de tudo para agradar ao máximo todos os meninos que a ela rodeiam. Menos Antonie, claro. Mas é meio óbvio que Abra não vá gostar de Antonie...

Confesso que o poema de Abra na parede do banheiro me deixou um pouco curiosa. Querendo saber quem, e por quê.

Me levanto, limpo as mãos sujas de tinta de caneta e sigo de volta à sala. Beatriz me olha com uma certa desaprovação, e ignorando-a, eu apenas entro e me sento no mesmo lugar de onde sai.

–Necessidades fisiológicas impossíveis de serem adiadas. -Disse a ela tentando me justificar.

A professora reage como se tivesse acreditado. Na realidade, acho que ela só se sentiu constrangida demais pra fazer mais perguntas.

O sinal bate. Hora do almoço. Por ser uma escola interna onde nós nunca retornamos ao lugar onde nascemos, onde teríamos nossas próprias mães pra cozinhar, a comida daqui é bem gostosa. Pelo menos é o que todos que andam comigo acham. Nos intervalos, eu costumo andar sempre com um grupo de 4 pessoas. Eu acho que não só aqui como em todo o mundo, no ensino médio, sempre vão haver aqueles grupinhos fechados de pessoas, que sempre são rotuladas pelo que elas costumam fazer, ou por como elas costumam agir. Fazem parte do meu grupo Dayanna, Dominique e Antonie. Nós somos rotulados como os excluídos, ou os esquisitos. Não costumamos nos relacionar com muitas pessoas da escola, e aparecemos com um humor diferente a cada dia que se passa (Antonie principalmente). As pessoas às vezes até tem um certo medo da gente, porque quando estamos felizes, mostramos isso por cada poro do nosso corpo.

O cardápio de hoje é o mesmo da segunda passada. O mesmo da segunda retrasada, o mesmo da segunda da primeira semana do mês. Macarronada com carne de carneiro, e salada. Nada muito comum mas também nem um pouco inovador. Mas pelo menos tem um gosto bom.

Encontro com Dayanna na saída da sala, que me parece estar bem preocupada com alguma coisa. Seu rosto avermelhado, suas mãos úmidas de suor e suas pupilas dilatadas me mostraram isso.

–O que houve? -tentei manter um tom calmo pra não desespera-la mais ainda.

–Ant... Abra. -disse ela gaguejando nas poucas palavras que acabara de dizer.

–Continua, Day.

–Ant foi falar com a Abra poucos minutos depois de você ter saído da sala. Nada alarmante, ele só foi pedi-la uma informação sobre o jornal da escola, e ela o beijou.

Imagino como Antonie deve ter ficado... Ele não é muito bem que meu melhor amigo, mas talvez eu entenda um pouco do que se passa na mente dele. Sua bipolaridade o impede de seguir um relacionamento sério com alguém sem deixar de gostar dessa pessoa ou se apegar por outra... E, pelo que me parece, Abra não soube entender isso. Mas, beija-lo em meio à uma aula na frente de todas as pessoas da sala? Um tanto quanto radical e desesperado demais...

–Logo depois Abra fez exatamente como você fez e saiu em disparada da sala. Lis tentou ir junto, mas Beatriz a impediu antes que ela conseguisse cruzar a porta. -Dayanna continuou. -E o que mais me assusta é que Abra pegou uma bolsa esquisita antes de sair da sala. Todos ficaram comentando que talvez ela pudesse cometer suicídio de novo, e alertaram aos psiquiatras da escola para procurarem ela.

Como raios eu não pensei nisso? Alguém chorando e mostrando um desprezo intenso por si mesmo, e depois de descobrir que era Abra nem cogitei a possibilidade de que ela quisesse cometer suicídio? Quase inacreditável...

–Mas, alguém sabe onde ela está agora? — perguntei, com uma mistura de raiva e desespero na voz.

–Nem mesmo Lis faz ideia... Já tentaram ligar diversas vezes pra ela, mas na última tentativa, ela desligou o celular.

Não que eu entenda a mente de um automutilador suicida, mas, acho que se eu estivesse nas condições de Abra, eu só ia querer ficar sozinha. Sem vozes de pessoas, sem pressões psicológicas... O único lugar onde isso pode ser possível aqui nessa escola é ou o próprio quarto de Abra (o que seria previsível demais, porque todos irão procura-la lá) ou a sala de atividades de inverno, onde, em sã consciência ninguém entraria em pleno verão pra fazer algo que não seja fugir do mundo.

–Okay, Dayanna. Obrigada pelas informações.Diga a Dominque e Antonie que eu vou demorar um pouco pra almoçar hoje. Tenta tomar conta da alimentação de Dominique pra mim, Day!

O quarto de Abra, como já antes disse, seria um lugar previsível demais pra procura-la numa situação dessas, então decido começar logo pela sala de atividades de inverno.

Em cheio. Lá está Abra, a menina do cabelo cor de fogo, no canto onde daqui a alguns meses estará completamente coberto por neve artificial decorativa... Entro sem fazer nenhum barulho que possa chamar a atenção de Abra pra mim, até que chego perto o suficiente para me anunciar.

–Foi um bom poema...

Aquilo pareceu deixa-la um pouco irritada, já que ela apertou com mais força o objeto que estava em sua mão direita. Acho que Abra tem um grande ressentimento por mim, por isso não deve estar gostando da ideia de receber ajuda de uma pessoa tão imprevisível...

–Vai embora, Lis... Não quero você aqui. Não quero ninguém aqui no momento. Só some... — exclamou abra com a voz trêmula sem sequer olhar em minha direção.

–Desculpa, mas Lis está ocupada demais tentando arrombar a porta do seu quarto. Você foi esperta em tranca-la. Nunca pensaria nisso.

–Le-s, Lesllie! — gaguejou ela.

–Sim, Abra. Sou eu, Lesllie Marie. — sentei-me do lado dela. Não tão perto, nem tão longe. Apenas o que se dizia necessário no momento.

–Obrigada, mas o poema não é meu... — disse ela, virando o rosto para a mesma direção que estava olhando antes de eu entrar.

–Achei que fosse pela ausência de aspas. Perdão. Mas, de quem seria então? — deixei minha curiosidade falar mais alto do que minha razão.

–Antonie... Ele fez pra mim quando ainda não tinha outra opção melhor com que ele pudesse se divertir...

–Me pareceu amor verdadeiro... — disse mais uma vez, sem usar a cabeça antes de falar.

–O mesmo amor verdadeiro que hoje ele sente por você... — nesse momento seus olhos se encheram de lágrimas que pareciam pesar uma tonelada cada...

–Ah, Abra. Ele não mede os sentimentos que tem. Não mede as atitudes que toma. Ele é bipolar. Tem horas que não é o Antonie ali dentro!

–Nem ele, nem Lis. E todos possuem motivos "plausíveis" pra me decepcionar sem sentir culpa. — ela disse de forma pesada, começando então a deixar as lágrimas caírem de seus olhos.

Foi então que aconteceu algo que me deixou completamente surpreendida. Abra se deitou em meu colo, como se fossemos amigas de tempos, e simplesmente chorou.

–Eu queria tanto ser você. A única que não cedeu aos encantos de Antonie, a única que, além de Dayanna consegue ser amiga dele... -disse Abra sem se quer olhar pra mim.

–E por isso você o beijou? Pra ten...

–Foi na esperança de que ele se lembrasse. Na esperança de que ele voltasse a sentir o que antes pra ele era infinito. Interminável... — disse Abra antes que eu conseguisse terminar minha especulação — Mas, dessa vez quem não sentiu nada fui eu. E, a vida perdeu o sentido depois disso. Como se meu coração tivesse sido congelado.

Abra estava falando cada vez mais baixo, e já sem se mexer para olhar para mim. E só então que eu reparo seus lábios sem cor e seu corpo gelado.

–Abra, deixe eu ver seu pulso! -tentei continuar calma e não parecer agressiva, o que foi totalmente frustrado, já que gritei loucamente e comecei a suar. Isso fez com que ela recolhesse o braço pra perto do corpo e se encolhesse por completo — Abra?!

–Você não vai fazer isso, Lesllie, por favor.

–Me desculpe, Abra. Vou ficar te devendo essa.

Tento pegar Abra no colo, mas fracasso por ser magra e pequena demais pra isso. Corro até a mesa em que Ant, Dominique e Day estão sentados, e grito por eles com todo o desespero que poderia haver dentro de mim.

Atonie não permite que Dominique pegue Abra antes dele, logo o mesmo acaba a levando para a enfermaria sozinho. Ninguém pôde de fato ver o corte ainda, mas Dominique encontrou várias gazes encharcadas de sangue dentro da bolsa de Abra.

Ao chegar na enfermaria, os procedimentos que já quase se tornaram monótonos são novamente realizados no pulso marcado por cicatrizes de Abra. Ela fica ali por uns instantes, recebendo alguns litros de sangue cujos já ficam guardados à espera de Abra, caso aconteça alguma coisa como essa.

Abra fica internada com um sedativo fraco, enquanto nos dirigimos para a cantina onde almoçamos. Todo o percurso é feito em silêncio, mas eu podia jurar que vi Ant chorar. Essa semana, quem tem feito o prato de Dominique sou eu, mas, quando eu cheguei na mesa onde eles estavam, vi seu prato vazio e sujo pelo que parecia ser restos de comida. Olho para ele da forma mais desconfiada possível.

–Quanto você comeu, Dominique?

–O suficiente, querida Lesllie. E-eu ju-ro! — gaguejou ele.

Olho para Dayanna pedindo uma confirmação, e a mesma volta seu rosto para o próprio prato, e logo em seguida, olho para Antonie que fica levemente avermelhado, e pressionado resolve falar.

–Ele não comeu nada, Lesllie. — pude ouvir uma bufada de decepção vinda de Dominique que logo em segunda rebate.

–Me devolve tudo, Antonie!

–Você pagou pra que ele não me dissesse? Dominique! Pensei que você estivesse melhorando...

O olhar de Dominique se entristece, e ignorando o fato, eu toco em suas bochechas num ato de tentar mostrar o quão magras e profundas elas estão. Pego ele pela mão e o levo até a fila da cantina, que pelo horário, se encontrou bem vazia. Sirvo-o um prato com uma dieta bem balanceada, e pondo à mesa, digo que se ele não comer, eu diria para a secretaria da escola para coloca-lo no soro, o que o convence a começar as primeiras garfadas. Dominique às vezes se recusa a comer, e geralmente é quando algo à sua volta da errado. Ele se sente mais gordo a cada problema que o rodeia, o que me faz acreditar que Dominique enxerga no espelho não a aparência física, mas a emocional. O peso que ele sente não é o de seu corpo, mas o de sua alma...

Quando nós terminamos de comer, começamos a conversar sobre coisas aleatórias, mas o assunto sempre acabava caindo em Abra. Todos decidem ir para seus quartos, e eu me sinto no dever de ir visita-la na enfermaria.

Ao chegar, encontro-a deitada, acordada, sozinha, com alguns rastros de lágrimas no rosto. Enquanto eu chego, ela vira o rosto e olha para mim de uma forma um tanto quando apelativa, e desesperadora.

–Por que você não me deixou lá, Lesllie?

–Abra, eu não sou sua amiga, não te conheço direito, mas eu gosto de você. Eu jamais deixaria uma vida deixar de existir nos meus braços, ainda mais precisando tanto de ajuda quanto você precisava. Eu vim te ajudar a melhorar a partir de hoje, se Lis deixar.

–Lis acabou de ir embora. O namorado dela a ofereceu morar em Paris e ela aceitou. Enquanto eu dormia, ela fez as malas e já foi embora. Se quer se despediu de mim, quem me avisou foi a enfermeira Claire...

–Ela realmente era a sua melhor amiga, Abra?

–Eu nunca disse isso. Lis era apenas quem sentava comigo nas aulas. Tudo sobre a nossa suposta amizade inseparável é mentira.

–Você precisa fazer amigos novos.

–Queria poder compra-los. Acha-los em uma esquina como se estivessem esperando especialmente por mim, mas não, Lesllie. Não é assim, e mesmo se fosse, dentro de uma escola interna não tem esquinas. Não é assim. Nunca foi. E aposto que não foi assim com você, Dayanna, Dominique...

–Suponhamos que colégios internos tenham esquinas e eu esteja em uma, esperando especialmente por você agora. Você se importaria de andar no grupo dos "excluídos?"

–Não creio que isso vá dar certo. Mas a gente sempre pode tentar. Aliás, o que mais eu tenho a perder, não é mesmo?!

Abra deu um pequeno sorriso no momento em que fizemos esse "acordo". Só então que me dei conta que eu nunca a tinha visto sorrir. Abra era dona de um dos mais belos sorrisos já antes contemplados pelos meus olhos, e isso me deu uma felicidade instantânea por ela.

Alguns minutos se passaram, Abra já havia pegado no sono, e eu continuei ali com ela, sentada na poltrona do lado de sua maca, segurando sua mão. Até então que a enfermeira Claire entra, e com um tom brando, diz que Abra já podia ser liberada. A suave e baixa voz da enfermeira não foi o suficiente para não acordar Abra, que como num susto, acordou e pediu para que ela repetisse o recado. Quando soube que podia ser liberada, Abra se levantou, foi ao banheiro e pôs de volta as suas roupas de antes.

–Que horas são agora?

–São sete da noite. Você ficou com sedativos por um tempo...

–Onde estão os seus amigos? — disse Abra com um tom triste e confuso.

–Você deveria dizer nossos, na verdade. Eles estão lá em cima. Vieram aqui mais cedo, enquanto você dormia, os três, e perguntaram por você. Onde você quer ir agora?

–Eu quero ir no meu quarto. Tomar um banho, tirar o cheiro de hospital, voltar a ser... Abra.

–Então vamos, eu vou contigo. Vou te ajudar a fazer algumas coisas, já que você está fraca por ter perdido bastante sangue e por não comer a bastante tempo. Depois que você tomar um banho, vamos direto para a sala de jantar.

Abra e eu nos dirigimos até o quarto dela, à passos curtos e lentos, até que acontece o que eu estava evitando de todas as formas... Ant surge de um lugar qualquer, e sabe-se lá porque, surge bem no meio do caminho de Abra.

Confesso que senti grandes doses de medo, e apreensão pelo que Abra poderia fazer, como ela iria reagir.

Ao ver Antonie, Abra simplesmente para, e fecha as mãos com a maior força que consegue, considerando que está com os pulsos costurados. Ainda com roupa de hospital e os cabelos bagunçados, Abra sai em disparada, correndo pelo corredor que leva à seu quarto. Foi então que o barulho intenso da madeira se espalhou por todo o corredor vazio, quando ela caiu. Antonie correu em disparada na direção de Abra para prestar socorro, mas parou ao ver meus gestos de desaprovação e meus pedidos de distância.

Ao chegar perto dela, eu a acho consciente, porém aos prantos no chão. Sem forças, sem sangue suficiente pra pulsar nas veias. Pego-a no colo e percebo o quão leve e pequena ela é. Coloco-a na cama, mas ela se senta na mesma hora.

–Abra, você precisa descansar agora. Você não tem noção da quantidade de sangue que perdeu, e precisa deixar que seu organismo o reponha. -disse eu num tom de súplica.

–Okay, Lesllie, mas eu preciso de um banho. -a rouquidão na voz de Abra quase impediu que sua voz saísse nessa frase.

Ao levantar, Abra cambaleia, e acaba se sentando de novo na cama. Posso sentir um apelo por ajuda no olhar que ela acabara de lançar em minha direção.

–Você quer ajuda, Abra? -disse com um pouco de constrangimento e medo da resposta que ela me daria.

–Acho que sim. Se você não se importar. Lis costumava me ajudar a fazer esse tipo de coisas nesses momentos...

Estendo o braço pra que ela se apoie neles, e seguro-a até o banheiro. Eu a ajudo a tirar as roupas de forma que ela entra no banheiro apenas com sua lingerie. Lá ela pede pra que eu encoste a porta, e toma um banho demorado, enquanto eu fico apreensiva do lado de fora, com medo de que ela caia ou se machuque enquanto toma banho. Ao fechar do chuveiro, noto uma demora de Abra para se enxugar e se vestir, e ao ficar mais atenciosa à situação, ouço alguns ruídos de choro, porém como não há nada que eu possa fazer, eu apenas finjo que não ouvi nada. Ao sair do banheiro, com seus cabelos envolvidos por uma toalha, e só com sua lingerie, Abra se joga na cama onde costuma dormir, e fica alguns segundos observando o teto. Posso ver algumas lágrimas enchendo seus doces olhos castanho-claros, e então decido começar uma conversa tentando fazer com que ela desabafe.

–Pensei que você não sentisse mais nada...

–E não sinto. Sentir é algo certo, constante. O que eu sinto, apesar de ser bem intenso é breve.

–Compreendo... -sinto meu celular vibrando, e decido olhar rapidamente só pra entender o que era. Logo percebo que era uma mensagem de Ant:

"Ant: Me deixe entrar, Lesi, eu preciso vê-la!!! 19:45"

–O que houve? -disse Abra olhando para meu celular.

–Ant... Ele quer entrar. — Abra faz que sim com a cabeça — Se cubra, vou abrir a porta!

Abra se cobre com um dos lençóis que havia em sua cama, e só então eu abro a porta. Assim que abro, vejo que Antonie tem em mão três rosas tão vermelhas quanto os cabelos de Abra, que visivelmente foram arrancadas por ele, já que estão com os cabos bem curtos e os espinhos retirados de forma irregular. Ele anda até ela e profere as palavras mais sinceras que eu já vi saírem dele, e entrega as rosas nas mãos dela, segurando-as tanto as mãos quanto as rosas.

–Eu não queria tê-la decepcionado, Abra. Nunca fiz nada com esse intuito. Não sei o porque você me beijou, ou o porquê de fugir de mim constantemente, desde então, mas eu creio que eu te devo desculpas por tudo. Então, querida Abra, me perdoe. Por tudo. Até mesmo pelas coisas que eu não sei que fiz. Por favor, aceite os rosas como um pedido de desculpas, e as desculpas como um pedido de convívio sadio.

Confesso que nesse momento eu tive muito medo de como Abra iria reagir. Se ela ia surtar, se ia tentar algo contra a própria vida, se ia bater inconscientemente em Antonie... Fiquei na atividade para levantar do sofá as preças e ir ajudar Ant com qualquer das coisas que pudessem acontecer. Mas, para a minha enorme surpresa, Abra simplesmente levanta os olhos para enxergar Antonie, e sorri. Da forma mais forçada e perceptivelmente tensa que alguém pode fazer isso, mas sorri. Eu pude ouvir o suspiro de alívio que Antonie deu no momento em que viu aquele sorriso, e, foi tamanha a sua felicidade que seus profundos olhos de esmeralda se encheram das mais alegres lágrimas, e ele simplesmente a abraçou. De forma sincera, afetiva. De forma linda. Eu não sei se me sentia feliz ou triste, mas eu pude sentir amor emanando daquele abraço.

Ficaram se abraçando, os dois por minutos até. Ambos choravam inconsolavelmente nos ombros um dos outros até que decido os deixar à sós.

–Espero vocês no refeitório. -disse com a voz baixa, sem querer interromper o tão doce clima da situação, e me dirigi diretamente ao refeitório.

Ao passar de aproximadamente meia hora, descem ambos com as mãos dadas, e os olhos brilhantes para o refeitório.

Dayanna e Dominique já estavam sentados junto à mim na mesa, já começando a comer a refeição. Ant e Abra sentam junto conosco e eu podia ver a cara de dúvida estampada no rosto dos outros integrantes do grupo. Todo o jantar foi silencioso, até que eu resolvo interromper o silêncio com um esclarecimento.

–Bom, Day, Nique, Abra agora é a mais nova integrante do grupo dos estranhos. Eu vou me mudar pra cama onde Lis ficava, por isso, Ant, pode ir pro quarto dos três mosqueteiros.

–Yes!!! -exclamou Antonie -Não via a hora de sair do quarto do time de futebol. -disse Ant, claramente animado.

–Bom, Abra, seja bem-vinda ao nosso grupo. Saiba que todos aqui te queremos bem. -disse Dominique fazendo com que todos balançassem a cabeça em afirmativa.

Ao findar do tempo do jantar vamos todos para sala de jogos onde seria passado um filme. O filme da noite era "As vantagens de ser invisível". O filme já havia passado outras vezes, e era um dos meus preferidos.
Durante o filme, Ant e Abra conversaram muito, e como eles estavam muito perto de mim, foi inevitável ouvir a conversa constrangedora deles. Ant estava também com alguns papeis na mão, meio danificados, amassados, molhados e etc. Algo me fez pensar que eram os poemas que Ant costumava escrever a Abra. Ela parecia tão convicta e confiante no amor perfeito e infindável... Eu senti que precisava lembra-la da bipolaridade de Ant que a cada dia era menos controlada pelos remédios...
Resolvi olhar para o lado e simplesmente não quis acreditar no que eu estava vendo... Dominique estava envolvendo Dayanna com os braços, e dando beijinhos na testa dela. E a cena do filme nem era de terror, ou triste, nem se quer romântica... E logo Dayanna, a menina que se dizia sem atração física por seres humanos, estava não só gostando como também correspondendo. Me senti um pouco traída.
Só então que eu percebi que estava numa furada. Dois casais apaixonados aos beijos me envolvendo enquanto eu estava lá, sozinha, com fritas hambúrguer com bacon extra e refrigerante diet na mão. Eu pensei que nunca fosse passar por isso. Aliás Dominique era tão magro que perdeu toda a beleza que podia ter, e Dayanna era tão desleixada quanto eu, e ainda usava como desculpa que nunca iria se relacionar com ninguém, então não precisava ser decente.
Eu pude ouvir daqui o barulho do beijo deles. Era perfeitamente claro que nenhum dos dois nunca havia feito isso antes, então era como assistir duas focas brigando por um peixe que ambas seguram na boca mas não conseguem partir. Aquilo me nauseou. Eu terminei de comer todo o meu lanche concentradamente para não acontecer de olhar sem querer para nenhum dos lados, e percebo que não passaram se quer 15 minutos de filme ainda. Decidi levantar e ir até meu quarto. Eram 22:37 e eu estava sem uma mísera gota de sono. Peguei meu notebook e comecei a mexer no tumblr. Respondi umas asks e escrevi um texto rápido que estava pensando no momento... Mais uma ask chega e eu vejo que é de um anônimo.

"Les, eu sei que é você. Nunca falei contigo, mas sou daqui da Gaspar. Onde você foi? Eu estava te desenhando e percebi que você estava bastante solitária. Eu ia te chamar pra conversar um pouco, mas eu estava com vergonha, até que você sumiu... Você está bem? Se der desce pra eu poder terminar o desenho."

Fiquei confusa por alguns minutos, mas, depois de tudo que eu vi hoje, eu percebi que não tinha nada a perder. Decidi responder a Ask antes, mas quase me esqueci disso.

"Olá, anônimo. Vou ver se volto mas não garanto. Obrigada pelo convite, mas se me ver, apareça. Não se esqueça de que eu não faço ideia de quem você é."

Passo mais uma vez no stand de lanches e pego mais uma porção de fritas com refrigerante, e vou pra uma cadeira encostada na parede dentro do salão de jogos. Procuro, e não avisto ninguém com um bloco de desenhos ou um notebook. Logo aparece um menino do segundo ano, alto, com cabelos intensamente pretos e com uma barba média, totalmente apaixonante. Eu já tinha o visto antes, mas nunca tinha reparado como agora. Não me lembro da última vez que vi alguém tão alto, Pelo que me parece, ele era do time de basquete.

–Lesllie Marie Claire... Sou Logan. Que bom que você ouviu meu pedido, eu não podia deixar meu desenho pela metade.

–Que tipo de stalker você é? Mesmo sabendo, devia pelo menos me perguntar o nome pra disfarçar. Mas, prazer, Logan.

–Vamos sair desse salão, tem muita pegação desnecessária aqui dentro. -disse ele com uma voz sedutora, ganhando um pouco da minha admiração pelo que tinha acabado de dizer.

Nos dirigimos até o jardim principal da escola onde nos sentamos na grama, ignorando os bancos dispostos nela. A grama é macia e está úmida. O lugar mais confortável que estive hoje. Os barulhos da noite, as estrelas, o doce aroma da grama em fusão com as flores do jardim. Tive a sensação de que eu não podia estar em um lugar melhor.

–Então, Lesllie. Diga-me mais sobre você. O que faz nos seus dias, por que você está aqui? Vamos nos conhecer!

–Então quer dizer que não sabe?! Surpreendente, senhor stalker. -isso arranca um sorriso de canto de boca dele.

–Não foi você que me disse que era pra eu fingir que não sabia e perguntar? — disse ironicamente -Mas, dessa vez eu juro que não sei.

–Sou a única aluna não diagnosticada da Gaspar Sain't. Mas acho que tenho algo parecido com esquizofrenia ou autismo. Talvez um pouco dos dois. E, nos tempos vagos eu costumo desenhar e escrever aquelas coisas do tumblr.

–Então quer dizer que aquilo tudo no seu tumblr é autoria? -disse ele com um tom que quase me convenceu de que ele estava sinceramente surpreso.

–São sim. Meu tumblr é feito só de autorias. Mas, e você, Logan. Me diga sobre você. Seu sobrenome, sua doença. Sua... família. -terminei a frase com um certo pesar, por causa da palavra que eu costumava nunca pronunciar.

–Logan Exuperri Obsession. Um nome um tanto estranho, mas, eu não me envergonho dele, porque talvez eu seja obcecado por muitas coisas. Eu tenho uma doença rara no cérebro que eleva meu nível de QI à escalas sob humanas. Isso não seria tão ruim, se não fosse misturado com um nível mediano de autismo. Mas é perfeitamente controlável com as drogas que eles tem aqui. Então eu só sou um cara inteligente. Suficientemente sedutor? -disse ele num tom irônico abrindo o mais encantador sorriso já contemplado pela humanidade. Ele deu uma pausa, tirou o sorriso do rosto e logo continuou -Bom, minha família... Eu sinto falta dela. Eles me internaram aqui antes de eu fazer 3 anos, porque eu não era aceito em nenhuma creche, e desde então eu apresentando graus de autismo, não podia ficar sem supervisão. Os remédios que o hospital me passou eram bem caros, e meu pai era só mais um agricultor, nós não tínhamos dinheiro pra isso... Daí eles acharam a escola perfeita, e de graça. E, não pensaram duas vezes. Nos primeiros 10 anos, até eu fazer 13, eles vinham me visitar todo mês, me traziam presentes, ou uma garrafa de vinho da adega que meu pai tinha conseguido, mas... Depois dos 13, eles tiveram outro filho. Me visitaram mais uma única vez, dois meses depois de eu completar 13 anos, me deram a notícia, depois só voltaram quando eu tinha 15. Foi ano passado. Eles me contaram que meu irmão era totalmente normal, e deixaram bem claro que preferiam ele, e se dedicariam a ele agora. Hoje eu tenho 17, e desde então não vejo mais meus pais. Nem meu irmão. Eu não sei como ele é, não sei nem o nome dele. Sinto falta disso. Sinto falta da minha família. Ano passado eu tentei suicídio, mas, cara. Eles devem ter alguma espécie de magia negra que traz pessoas de volta a vida. Porque, por suicídio, nenhuma alma morreu nesse lugar, e cara, isso é uma escola pra pessoas com problemas psiquiátricos, você tem ideia de quantas pessoas tentam suicídio aqui?! — disse ele bem revoltado, mas era uma pergunta retórica. — Foram 97 comprimidos pra autismo. eu achei na dispensa de remédios, e fingi que os meus tinham acabado, e como eles confiavam na minha sanidade, permitiram. Mas, eles lavaram meu organismo, e não me restou se quer sequelas... — pude notar lágrimas nos olhos dele — Mas, e você, Les? Me diz da sua família.

Eu não tenho uma. — digo, olhando pra baixo. -Ninguém nunca me explica nada sobre de onde eu vim nem nada disso. Eu fui internada aqui bem cedo, bem antes de ter noção das coisas. As vezes eu fico pensando nas noites que não consigo dormir, em invadir o sistema dos médicos daqui e ver tudo. Minha deficiência, meu histórico tudo. Mas, não sei se daria certo. Talvez eu seria descoberta, e punida por isso. Então é melhor não.

–Entendi. Talvez eu possa te ajudar nisso um dia. -disse ele dando mais um de seus sorrisos sedutores.

–Seria uma boa. -correspondi o sorriso, deixando então um estranho silêncio que deu voz às cigarras, e as criaturas da noite.

–Então... Posso continuar te desenhando? -disse ele claramente constrangido com o silêncio.

–Claro. Mas, me diz, o que você faz nos tempos vagos? -assim que terminei de falar, senti alguns pingos de chuva em mim. Eu estava toda de branco, e só me lembrei agora da ausência de um sutiã por debaixo da roupa com a qual eu dormiria. Eu apenas ignoro, mas fico apreensiva com a possibilidade das gotas engrossarem.

–Eu costumo desenhar. E olhar o seu tumblr. Talvez todas as suas outras redes sociais, e talvez eu tenha mais alguns desenhos seus. Talvez eu esteja apaixonado também. Mas, nada disso é extremamente confiável. Minhas fontes não são completamente seguras. -disse ele sem parar de encarar o desenho. A chuva começara a engrossar. E engrossar. Até que o chuvisco virou um temporal de verão e estávamos bem longe da entrada da escola. Corremos às pressas apesar de ele não entender o porque. Ao chegarmos eu estou encharcada, e obviamente minha blusa ficou transparente. Ao perceber que eu estava tampando a blusa com as mãos, Logan tira a própria camiseta, que por sua vez era tão preta quanto seu cabelo, e me dá. Eu visto, sem pensar duas vezes, e reparo que enquanto eu vestia ele olhou tudo o que poderia olhar. Fico um pouco constrangida, mas compreendo que seja um instinto inevitável. Eu vou para o meu quarto e Logan vem junto, e entra comigo.

–Eu vou tomar um banho. Vou te arranjar uma calça jeans larga que eu tenha, e você pode ficar sem camisa. -eu disse, insinuando com isso um elogio ào belo físico de Logan Obsession.

Eu peguei a calça jeans mais larga que achei no meu guarda-roupas, e ele vestiu apenas ela. Ficou engraçado, mas parecia que Logan era incapaz de deixar de ser bonito...

Tomei um banho bem rápido e vesti meus pijamas, mas dessa vez com um sutiã por baixo. Logan estava exatamente no mesmo lugar.

–Me mostra algumas autorias suas, Les? -disse ele animado, com uma voz fofa.

–Estão em outro quarto. Me mudei pra esse hoje. Me desculpe. Mas, eu posso ler alguma coisa do meu celular, quem sabe.

–Seria ótimo!

Eu pego meu celular e abro o tão usado bloco de notas. O primeiro poema que aparece é um bobo, quando eu imaginava me apaixonar por alguém, que era tão diferente de todos os outros. Achei que devia explicar algumas coisas antes de ler, para não deixar aquele clima estranho.

–Bom, eu vou ler esse que abriu, mas, olha, eu nunca me apaixonei. Eu gostava de me imaginar como se eu estivesse apaixonada por alguém, quando eu era mais nova. Era legal, um pouco estimulante. Mas, esse poema não tem um destinatário.

"Mas ela é linda mesmo sem ter beleza alguma.
Ela é a mais formosa das rosas, mesmo que seus espinhos sejam dos mais vorazes.

Ela encanta quando canta, quando anda e até se fala...

Com doce voz, seus doces passos, e suas encantadoras palavras de nuvem."

–Esse eu nunca tinha lido. Mas é lindo como todos os outros... -diz ele olhando para os meus olhos, fixamente, com um sorriso torto, no canto direito da boca. Seus olhos verdes quase penetram a minha alma, e eu posso senti-lo por completo. Eu não compreendia o que estava acontecendo, não entendia o porque estava acontecendo. Até que Logan começa a passar as costas da mão pelo meu rosto como um ato de carinho, como se estivesse querendo ver se eu era real. Passou a mão várias vezes por todo o meu rosto, inclusive minha boca, até que chegou perto. Me deu um beijo na bochecha que seguiu para o canto da boca, até que me beijou de verdade. Foi intenso, apaixonante, e quase inacreditável. Aquele situação se tornava cada vez mais inacreditável, mesmo que não tenhamos saído da decência. Mas, isso não mudava a situação de que eu estava deitada na cama de Abra de pijama aos beijos com um quase desconhecido e autista. Ele para começa a me olhar como se fosse apaixonado por mim há longos e longos anos. Deitado do meu lado, com os olhos brilhando tanto que eu podia dizer até que tinham lágrimas...

Até que de repente a porta abre. Abra aparece, de mãos dadas com Antonie, que parece bem surpreendido ao me ver na situação em que me encontrava. Abra logo fecha a porta, e consigo ouvir umas risadas de Antonie que me deixam bastante irritada. Logan se senta na cama, e me puxa para que eu também faça isso, e, sentados, um olhando pro outro ele ajeita meu cabelo e sai em disparada para seu quarto. Inclusive, o antigo quarto de Antonie, onde só ficavam os garotos do time de futebol e basquete. Acertei no meu palpite quando disse que ele era do time de basquete da Gaspar.
Eu me levanto, ajeito os cabelos e endireito o pijama, até que alguns segundos depois, entra Abra, sozinha, que me olha com um sorrisinho. Eu, sem o mínimo controle de risos, acabo rindo de volta.
Me agarro a um ursinho de pelúcia que tenho comigo desde que entrei na Gaspar Sain't, e logo começo a falar com um olhar que eu tenho certeza que está entregando o quão apaixonada eu fiquei.

–Logan. Segundo ano, time de basquete... Estávamos conversando no jardim quando começou aquele temporal, e quando eu vim pra cá, ele simplesmente me seguiu. Ele estava com uma calça minha, porque a dele ficou encharcada, e eu não achei nenhuma blusa minha que servisse naqueles braços dele. Nós não fizemos nada na sua cama, e desculpa por estarmos aí, inclusive, é que a cama de Lis... — "Sua cama" interrompe Abra — Minha cama era muito isolada, e, ele apenas se sentou aqui. Eu não pensei que ele fosse me beijar. Aliás eu o conheci hoje.

–Quanto à minha cama, Les, relaxa. Mas, me diz, somos amigas agora, certo? — disse Abra com uma feição curiosa.

–Claro!

–Então me explica melhor tudo isso!

–Tudo bem. Bom, eu estava no salão de jogos observando o muito agradável clima romântico entre você e Ant, e Day e Dominique, até que fiquei um pouco nauseada e fui pro meu quarto. Vesti meus pijamas, e ia ficar no Tumblr até conseguir pegar no sono. Foi então que Logan falou comigo, através de uma pergunta anônima, e disse que estava me desenhando, e pediu pra que eu voltasse para o salão, porque ele não tinha terminado de me desenhar. Eu exultei, mas decidi descer, aliás, eu não tinha nada a perder, e estava sem nenhuma mísera gota de sono. Eu desci, e, ao vermos o clima que estava na sala de jogos, decidimos ir pro jardim principal da escola... Nós conversamos bastante, ele me falou algumas coisas sobre o problema, a família, e várias outras coisas sobre ele. Até que começou a chover. E, eu contei que tinha colocado pijamas, né? Agora, me diz, quem dorme de sutiã? Exatamente, e meu pijama era branco! Eu só consegui me lembrar desse detalhe quando a chuva aumentou bastante, e eu já estava molhada. Ele me deu a blusa dele, que era preta, pra que eu pudesse subir tranquilamente. Eu tomei banho, ele me pediu pra que eu mostrasse alguma das minhas autorias, e depois que eu mostrei um texto meu, ele simplesmente me beijou.

–Foi bom?

–O melhor da minha vida. Ele me contou que era perdidamente apaixonado por mim, e que nem acreditava que estava acontecendo. E, sinceramente, eu acho que também não acreditava.

–Caramba, Less. Eu fico muito feliz por vocês!

–Obrigada, Abra. Mas, e ai, me diz como foi com o Ant hoje? Depois que eu saí do quarto? Rolou alguma coisa?

–Então... Eu sei que você já sabe disso, mas, a gente não ficou só abraçado. — disse Abra soltando alguns risos sem graça — Antonie me abraçou por um tempo, depois ficou me olhando cara a cara. Ele me beijou de uma forma tão delicada, que parecia que não era mais a vida real, sabe? Ele ficou me beijando, até que quando foi apoiar a mão na minha cintura, percebeu que eu estava sem blusa, e então, nós nos deitamos, e, quando Ant cogitou a possibilidade de aprofundar mais o momento, a agente de ordem deu três batidas rápidas na porta, que fizeram com que Ant se assustasse e caísse em cima de mim, e quando a agente de ordem viu, ficou toda vermelha e fechou a porta rapidamente, se desculpando. Nós rimos intensamente depois que ela fechou a porta, até que eu me vesti e nós decidimos descer. Eu não dei a mão pra ele, basicamente ele roubou a minha mão de mim, pra mostrar pra todos que nós tínhamos voltado. Eu achei isso a mais nobre atitude de Antonie. Eu estou completamente apaixonada por ele outra vez... — terminou Abra, com muita empolgação, porém não havia perdido sua expressão triste.

–Abra, eu não queria te dizer isso nesse momento tão feliz pra você, mas você não pode se deixar esquecer que o Antonie é bipolar, e já te machucou por isso. Não se entregue totalmente a ele, como se ele fosse o mais importante pra você. Lembre-se sempre que não existe apenas um Antonie ali dentro.

–É verdade... Eu tinha me esquecido disso. Mas, obrigada, Lesllie.

–Vamos dormir, que amanhã vai ser um longo dia pra nós duas, Abra.