Notas iniciais
Depois de um longo período de sofrimento, fazendo meu cérebro ter trabalho escravo (talvez ele tenha sido danificado, nunca saberemos), aqui está, com mais palavras que os dois primeiros, o terceiro capítulo. Boa leitura ♥

Eu acordo de madrugada pelo que eu acredito ser uma dor de cabeça. Não consigo mover direito o meu corpo por uma dormência esquisita que nunca tinha experimentado antes. Olho pro lado, estou sozinha. Logan, que dormiu do meu lado, já havia levantado é fechado o cômodo onde ficava sua cama com as persianas.

O cheiro de maconha era forte e quase sufocante. Uma angústia atordoante tomou parte de todo meu corpo, fazendo com que eu começasse a me dar conta do que poderia ter acontecido. Encosto no meu corpo dormente e percebo que estou completamente nua. Sento na cama me cobrindo com os lençóis e acho minhas roupas completamente rasgadas no canto da cama. Nesse momento eu já não ouço nada a não ser o meu coração que batia a mil. O que raios aconteceu aqui? Procuro meu celular e logo o encontro embaixo do travesseiro.

"Abrsa eu prciso d sua ajud rugente, estoi no aurto do Logn"— eu tento digitar mas não consigo fazer nenhuma palavra completa, pelo tanto que minhas mãos tremiam.

Por algum motivo misterioso, Abra entende perfeitamente o que eu disse, e aparece no quarto em menos de 5 minutos. A adrenalina e confusão não haviam me permitido acessar nenhuma das minhas emoções até o momento em que eu vi Abra na minha frente. Foi então que eu comecei a chorar, mas não conseguia sentir as lágrimas no meu rosto.

–O que houve, Less? — Ela disse, quase sem cor em seu rosto, vindo em minha direção para um abraço. Abra se sentou atrás de mim e me segurou tão forte, que quase foi capaz de conter o meu pânico.

—Precisamos sair daqui, onde está sua roupa? — continuou ela ao me perceber incomunicável. Eu aponto para a roupa rasgada no chão do quarto, ela pega em prontidão, e me ajuda a me enrolar em um lençol. Era o suficiente para sairmos dali e irmos direto para algum agente de controle ou sala azul. Eu me levantei com muita dificuldade, e andava como bêbada, entendendo estar sob efeito de alguma substância. Abra precisou de bastante força pra conseguir me guiar até nosso destino.

Ao sair do quarto, percebemos que a sirene vermelha que sempre acende quando alguém tenta fugir do campus estava acesa. Abra olha pra mim com os olhos marejados, e tenta de alguma forma aliviar meu sofrimento com um cafuné.

Eu não sinto o caminho até a sala azul, que acabou estando mais perto do que a enfermaria, e avisamos do que tinha ocorrido. Abra, em prontidão, pergunta quem foi o aluno perdido, e o que havia acontecido.

–Logan Obsession. Mais cedo acharam com ele algumas drogas que não fazíamos ideia de que estava sob posse dele, mas entenderam que já era um hábito antigo que ele mantinha. Por ele ser um aluno de alta confiabilidade e bom comportamento há anos, ninguém fiscalizava ou desconfiava… um agente de controle entrou no quarto dele pela manhã e viu uma cena de crime que obviamente não foi divulgada porque ainda está sob investigação. Mas o que houve com você? — Perguntou Dulce, ao perceber meu comportamento anormal e o fato de eu estar na sala azul mesmo não tendo nenhum tipo de problemas mentais.

–Ao que tudo indica, eu fazia parte da cena do crime… — essa foi a primeira coisa que eu consegui falar hoje desde que acordei. Abra olha pra Dulce, que chega perto de mim com uma lanterna, apontando para os meus olhos.

—Less, você vai ficar bem. — Eu entendia tudo, mas aparentemente não estava conseguindo me comunicar com palavras. Dulce já havia acionado a equipe médica, que chegou correndo em questão de minutos. Lanternas, alfinetadas, exames… Fui revirada do avesso… dormi. Não sei se por conta do entorpecente, ou por algum remédio que os médicos me injetaram. Mas, a sensação era de morte.

Eu acordo em uma sala branca, sozinha, e o céu estava claro. Eu estava na sala de internação, com uma roupa específica daqui, em segurança. Olho pros lados e não acho ninguém, confirmando que eu estava sozinha. As dores na minha cabeça não haviam passado, mas eu já conseguia sentir meu corpo normalmente. O que raios aconteceu hoje? Meu coração acelera novamente, a um ponto que um alarme dispara e as enfermeiras entram na sala onde eu estava. Com elas, vem também Abra. Com um sanduíche na mão, ela aparentava estar muito preocupada.

—Bom dia, raio de sol. Como você está se sentindo? — disse Abra com sua voz tipicamente rouca, como quem tenta trazer algum tipo de acalento. Eu coloco a mão na cabeça, passo pelos olhos e esfrego meu rosto. Engulo saliva e minha garganta dói muito. Mas, afinal, o que Abra está fazendo no meu quarto na enfermaria... Sem Liz? Abra e eu mal nos conhecemos.

—Bom... dia? — Eu digo lentamente e sentindo muita dor na garganta. — O que aconteceu?

—Você não lembra? — disse Abra como quem se alivia esperando uma resposta positiva. E eu, por mais que me esforce, não consigo me lembrar de absolutamente nada. Era tudo muito confuso pra mim, e a última coisa que eu consigo me lembrar era a mais ou menos uma semana atrás. Minha corrida em disparada até o banheiro, para fugir da pergunta de Beatriz na aula.

—Acho que não. Onde está Liz? Por que você está aqui comigo? — Abra faz uma expressão triste, e todo o alívio que ela parecia sentir ao fazer a pergunta vai embora.

—Não tem mais Liz. Agora nós somos amigas. Você é minha Liz. Você me salvou, nós nos tornamos amigas, e temos andado juntas há mais ou menos uma semana, Lessi. — Disse Abra, assertiva. Isso não fazia o mínimo sentido. Eu sempre vi Abra como a menina mais bonita da sala, intocável, inacessível e... da Liz. Abra era como se fosse uma propriedade da Liz. Como assim? Ela morreu? Fugiu? Recebeu alta? Quando foi o último exame psiquiátrico da Gaspar?

—Eu estou muito confusa. Por que eu estou aqui? — meus olhos se encheram de lágrima quando perguntei. Consequentemente, também os de Abra. As enfermeiras interrompem nossa interação nesse momento, e me explicam de forma mais clínica o que me havia levado para lá.

—Leslie, hoje é dia 15/09/2016, são 17:49. Você sofreu um abuso sexual enquanto estava sob efeito de entorpecentes fortíssimos. Você se lembra de alguma coisa? — exatamente assim que a enfermeira terminou de falar, alguns flashs apareceram na minha cabeça. Um home de cabelos pretos, de madrugada, tocando meu corpo, e eu o pedindo que parasse. Ele aceita, e levanta para beber água. Me oferece, eu aceito. Depois disso acordo nua, com minhas roupas rasgadas espalhadas pelo quarto e peço ajuda... de Abra.

—S-si-sim... — eu disse gaguejando, lembrando de tudo que havia acontecido de forma totalmente nauseante. Eu não acredito que havia sido violada por um homem. Eu nunca tinha sentido atração sexual por nenhum deles, por mais que mantivesse algumas relações românticas de vez em quando. Tudo para mim era muito ingênuo e natural. Mas, aos 15 anos de idade eu fui... violada.

—Os exames feitos em você constataram que não houve penetração, mas foi encontrado esperma no seu cabelo e em partes do seu rosto e boca. As devidas medidas já estão sendo tomadas, Logan foi encontrado, expulso permanentemente da escola e mandado diretamente para uma penitenciária para pessoas com deficiências cognitivas. Todas as medidas judiciais a seu favor serão devidamente tomadas. — na minha boca? Eu não conseguia acreditar. Eu vomitei assim que a enfermeira falou, quase sujando os pés de Abra, que estava do meu lado acariciando meu cabelo.

—Eu entendo que seja algo extremamente difícil pra você, mas você precisa manter a calma. Vamos administrar alguns remédios para que você consiga lidar com as suas emoções nos próximos dias, mas precisamos do seu consentimento para isso. Você aprova? — a enfermeira pergunta, como se eu tivesse alguma opção de escolha. Eu faço que sim com a cabeça, e começo a chorar. Logo entra um faxineiro que limpa o chão. Todos na sala estavam em silêncio absoluto, e eu só conseguia ouvir os bipes da máquina que estava monitorando meus batimentos cardíacos. Abra sobe na maca, e deita comigo, me aconchegando em seu peito e acariciando meu cabelo. Aquilo era quase maternal, e muito calmante.

–Vai ficar tudo bem. Eu prometo. — ela disse com uma voz fraca que quase não sai. Com a administração dos ansiolíticos, eu acabei pegando no sono junto com Abra.

Acordo já de noite com o som da enfermeira entrando no quarto com uma prancheta, que que eu logo entendo ser para me liberar da observação dos médicos. Abra ainda estava comigo, mas mexia no celular sentada na poltrona do lado da minha maca. Eu havia me lembrado de algumas coisas, mas ainda era tudo muito confuso na minha cabeça. Eu não me lembrava do homem que me violou. Não sabia o porque eu estava com ele naquela cama, ou o que me levou a confiar nele a ponto de aceitar aquele copo de água.

—Leslie, os próximos dias vão ser difíceis. Você vai precisar processar vários tipos diferentes de sensações, e todos os dias precisará de acompanhamento psicológico. Não falte nenhuma das cessões que ficarão marcadas diariamente as 19h. Caso você falte, você terá asteriscos na sua fixa, e você conhece as consequências disso. — disse a enfermeira de forma bem fria. Eu assenti com a cabeça.

Eu levanto da cama, Abra logo em seguida também se põe de pé. Ela me pega pela mão e me dirige ao quarto que antes era dela e Lis, mas aparentemente agora era nosso.

—Toma um banho, hoje é noite de filme, tem comidas gostosas. Tenta se distrair. — disse Abra tentando melhorar as coisas. Eu aceito a sugestão e tomo um banho, escovo os dentes e me visto. O filme de hoje era alguma história de romance na qual eu não consegui prestar nem um pouco de atenção. Eu abri meu computador, e encontrei no Tumblr um ask de um homem. E esse foi o gatilho para que eu me lembrasse de Logan. Me lembrasse de tudo, inclusive de comportamentos que eram claramente bizarros e que eu antes não havia enxergado como problemáticos. — É claro, eu fui burra! — Acabei dizendo em voz alta, com os olhos cheios de lágrima. Do meu lado estavam Abra, Antonie, Dayana e Dominique. Abra olha pra mim, segura meu rosto com suas mãos geladas e diz:

—Você não teve culpa de absolutamente nada. O culpado já está preso, e ele é o único culpado disso tudo. Você se encantou por um cara bonito, que na verdade era um delinquente. Mas te mostrou ser um cara bonito e bacana. Você foi enganada. Tudo vai ficar bem logo logo.

Como eu pude acreditar? Como eu, logo eu, pude acreditar que alguém gostaria de mim por quem eu sou? Que coisa mais estúpida. Óbvio que ele queria sexo, e só. E além de tudo ele usava drogas, como eu consegui confiar em um homem que eu conheci há semanas, e estava sempre sob efeito drogas? Enquanto eu pensava nisso eu acabei arranhando todo meu braço com as unhas, de forma que começou a sangrar. Antonie, assim que percebe, me ergue no colo e me leva diretamente para a sala azul. Eu não luto contra, apenas permaneço imóvel no colo de mais um home que nitidamente era extremamente mais forte que eu, e poderia fazer comigo o que quisesse. Mas eu confiava em Antonie, e não tinha nem mais forças pra lutar contra absolutamente nada que me atacasse.

Minha dose de ansiolíticos é aumentada. Aquilo simplesmente parecia um pesadelo dos piores possíveis... Eu fico tão sonolenta que a única alternativa que me resta era dormir. Antonie e Abra me levam pro quarto. Abra não autoriza que Antonie ultrapasse o limite da porta, o que me deixa extremamente aliviada. Abra não para de me observar se quer por um segundo em todos os meus movimentos. Eu deito na cama, resgato um ursinho de pelúcia que tenho desde que entrei na Gaspar, e adormeço como morta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.