Cola e curativos
1 Tenho um pouco de cola, mas não posso dar meus cur
Tenho um pouco de cola, mas não posso dar meus curativos
.
.
.
Seus dedos sangravam, os cortes feitos pela porcelana ardiam como o inferno.
“Droga!” Praguejou quando tentou unir, novamente, um pedaço ao outro e ele escapou rolando pela mesa.
O coração era delicado, com muitos cacos a juntar.
“Por que diabos aceitei esse martírio?” A questão repetia-se em sua mente.
Cansada, havia conseguido consertar apenas uma pequena parte, que permanecia firme onde a cola aderira bem nas junções. Porém, aquela fora sua primeira tentativa, quando os dedos ainda estavam hábeis e límpidos, sem marcas, e o trabalho não parecia tão penoso.
Como pode ser tão tola?
As tentativas subsequentes machucavam, arrancando lascas de pele e manchando a porcelana, tornando a tarefa pegajosa e difícil. Cada pequeno caco que pegava abria um novo corte em seus dedos, a dor lhe obrigando a fechar os olhos e soltar o coração, em uma sequência de tentativas inúteis.
Suspirou. Não adiantaria, caso continuasse suas mãos ficariam em carne viva.
Reuniu todos os pedaços e os colocou em uma caixa, fechando com cuidado, deixando rastros vermelhos para trás.
— Desculpe, não posso fazer isso — entregou o coração, ainda partido, para seu dono — terá de continuar sozinho.
Com um breve aceno, de dedos repletos de curativos, despediu-se. Não era seu trabalho.
Fale com o autor