Colégio Interno

76 Resultados, querubins e despedidas.


Os dois dias se passaram. As notas foram liberadas e mudadas no site, e estávamos prestes a recebe-las. Tudo havia sido feito as pressas na noite anterior, então nenhum de nós havia pregado o olho.

— Como você está? – perguntou Gabriel, afagando meus cabelos.

— Uma pilha de nervos.

Não por mim, obviamente. Graças aos Céus, eu tinha uma mentezinha privilegiada, o que me permitia me dar ao luxo de não precisar me matar de estudar para garantir nota. Mas o mesmo Céu que me permitiu este bem chamado sapiência me transformou num animal sentimental. Estava muitíssimo preocupada com aquele bando de babuínos que eu amava tanto.

— Calma – disse Rodrigo, pulando em meu colo – Desde quando Amanda Froidefond se preocupa com nota?

— Desde que ela adotou três camelos pra família.

— Eu sou um camelo? – perguntou Rodrigo, fazendo uma carinha confusa

— Sim, um belíssimo camelo.

— Camelo tem duas corcovas ou uma só?

— Duas.

— Prefiro ser um dromedário.

Para preservar minha sanidade mental, optei por não perguntar o porquê de o garoto preferir dromedários. Apenas assenti e acenei, como um bom pinguim de Madagascar. Rafa entrou no quarto, correndo e esbaforido, e jogou o notebook sobre o meu colo.

— Não tive coragem de ver.

— Eu acho que seria mais fácil se víssemos no grande mural, lá embaixo...

— Vão expor essa coisa pra TODOS os alunos verem?! Eu vou passar uma vergonha imensa, ó Deus! – gritou e esperneou Rodrigo.

— Ninguém manda ser burro! – retrucou Desirée – Eu nunca tive vergonha das minhas notas, e...

— Ah, com todo o respeito, Dê, mas não fode! – gritou Gabriel – Estamos todos desesperados demais pra um ataque de Hermione, ok?

— Não precisam – vangloriou-se Bê – Eu e o amiguinho ali fizemos um ótimo trabalho com os computadores.

— Só se for, porque suas notas... – guinchou Thi, decepcionado – Fui colar de você e meu filho, estava pior que eu.

— Voce tá reclamando das minhas... Ah, por Deus, vamos descer.

Ficamos sentados por tanto tempo em frente àquele mural que chegou uma hora que simplesmente esquecemos o objetivo central de estarmos lá: combinamos a viagem, comemos macarons, lavamos roupa suja, recitamos poemas e falamos sobre o nosso exímio contrabando de animais. Sobre como marcamos aquele maldito internato e sobre como fora maravilhoso estar ali, mesmo que odiássemos admitir.

E aquilo era um fato: eu vim pro Institute Ferdinand de Saussure sem a menor expectativa de mudança; pra ser bem franca, eu esperava ser expulsa dali e botar fogo no lugar o mais rápido possível. Esperava que eu e Bruna entrássemos para a história de expulsão mais rápida de todos os tempos. Mas o destino – e aquele anjo gordo com algumas flechas que alguns chamam de Cupido – reservava algo maior pra mim.

O cupido e o querubim sobrepeso sabiam que, naquele lugar, eu me encontraria. Eu encontraria alguém pra tirar aquele azedume do meu peito. Encontraria amigos. Amigos de verdade, não como aqueles 1600 ingratos que me largaram quando a festa acabou. Amigos dispostos a fazer tanto – incluindo adotar chinchilas, excluir duas ex-colegas de quarto e passar por dias de confinamento no quarto sem surtar ao lado de uma Froidefond de tpm – sendo que os conheci há tão pouco... É inacreditável. Utópico. Maravilhoso.

Essa escola me rendeu uma perna quebrada, um relacionamento terrorista, milhões de noites em claro e uma gastrite nervosa. Mas em compensação, me trouxe um namorado, dois irmãos, cunhados, uma família completa.

Agradeço todos os dias àquela festa.

— Os resultados saíram! – gritou uma garota aleatória, seguindo o coordenador que vinha trazendo milhões de folhinhas.

— Vão nos sufocar – avisou Henrique, sem mexer um único músculo.

— Deixe que tentem – guinchou Chris – Eu não vou sair do lugar

Ri baixinho e percebi o amontoado de gente que se reuniu em volta das folhas, soterrando até mesmo o pobre coordenador. Suspirei, entediada, levantando-me e puxando Gabriel e Thiago, um por cada braço.

— Vamos, saiam da frente, a pseudo abelha rainha quer passar! – gritou Thiago.

— Ei! – resmunguei.

O mais estranho é que, de fato, abriram passagem. Após garantir a minha boa nota, fui conferir a de cada um dos garotos.

— Média.

— O que? – gritou Rodrigo.

— Média.

— Que tem? – resmungou Thiago – Seja mais específica.

— Todos nós passamos, seus merdas! – gritei – Nós vamos à Lefkada!

E ali, no meio daquela muvuca caótica, eu e meus meninos – todos eles, incluindo o terrorista que me pressionou, Ivan, com quem flertei há meses, Chris, cuja irmã causou discórdia e quase a matamos por um terrorismo tão pesado quanto o de Nick, Rafael, o amigo x que nos ajudou a passar e todos os meus irmãozinhos – e suas respectivas namoradas – minhas amigas maravilhosas – nos abraçamos.

Era aquela coisa mágica do destino e do querubim que eu havia dito antes.

É algo bem maior que isso, para ser bem franca. Maior que destino, carma, sina... Aquilo era, na menor das definições, amor.

O cuidado, zelo, carinho e, sobretudo, a quantidade de vezes em que tentamos nos matar, mas não conseguimos justamente por sabermos que não podíamos viver um sem o outro não podia ser explicado de outra maneira.

O que existe entre os jovens do Chambre 657 é algo que, apenas quem por lá passou noites em claro, quem ficou ali preso na tempestade, quem morou, quem derramou lágrimas, quem tirou à força duas colegas de quarto, sabe. É a ligação psíquica que existe entre os moradores e visitantes, que quem vê de fora não entende.

Aquele quarto, aquelas pessoas, aquela escola, foram a minha redenção.

Quando subimos de volta ao quarto para pegarmos as malas e voltarmos pra casa, pra minha casa, onde todos passaríamos dois dias antes da grande viagem, tudo o que eu senti foi um pequeno vazio se abrindo; eu me senti como Harry Potter dando adeus à Hogwarts. Sabia que agora, minha casa era outra.

— Que foi, pequena? – perguntou Gabes, quando entramos no elevador e eu fitei a porta fechar-se com os olhos marejados – Tá tudo bem?

— Não tenho certeza – respondi, sincera – Quero dizer... Eu me sinto em casa aqui.

— Já ouviu falar que ‘Lar é onde o coração está’?

Gabriel afagou meu rosto docemente e eu assenti, abraçando-o e o imprensando sobre a parede do elevador.

— Pois então – continuou – O seu tá com a gente, coisinha.

— Que belas palavras – ironizou Gustavo – Agora podem esperar até estarem no quarto dela, onde terão privacidade par terminarem o que nem começaram aqui?

Notas finais
Assim termina CI. Da mesma maneira aleatória com que começou. Uma fanfic que eu comecei em 2010 e não tinha a menor pretensão de terminar, e que quando veio pra esse site, tomou descomunal proporção e eu deixei esfriar. Não sei se ainda tem alguém que a lê, mas já digo que será repostada e terá, SIM, a continuação que prometi. Eu cresci com cada personagem. Todos eles me enriquecem, me nutrem, têm um pouquinho de Amanda - no caso, a escritora - em sua essência. Eu agradeço à vocês que tiveram paciência de ler, se emocionar e gargalhar com cada uma das minhas bobagens. Vocês são o motivo do término de Colégio Interno. TALVEZ um novo recomeço. Quem sabe? Obrigada, mais uma vez, por tudo.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!