Colégio Basílius
3 Intro 01 - Jack: Reabilitação
Notas iniciais
JACK
Washington, D.C.
Cerca de 6 meses atrás
— Como sabe, você tem obrigações a cumprir com a sociedade, senhor Jack Hanther. O que você fez foi algo muito grave e irreversível. — diz a psicóloga Miene com sua inseparável prancheta na mão. Não era uma mulher muito alta, mas comparados à Jack todos pareciam ser. Tinha cabelos loiros na altura da orelha, a pele muito clara e calmos olhos azuis que alguns diziam ajudar a deixar seus pacientes tranquilos.
— Poderia, de fato, mas isso não aconteceu. O importante é que ele sobreviveu ao incidente. — Responde o garoto em um tom inocente e preocupado. Jack era o contrário de sua psicóloga. Embora seus cabelos também fossem curtos na altura da orelha, eram escuros como o fundo de um poço. Sua altura era menor que a média dos garotos de sua idade. Sua pele também era clara, embora não tanto quanto a dela, e seus olhos eram jóias vermelhas e hipnotizantes.
— Sim, exato. Você melhorou muito o seu comportamento durante o tempo em que esteve aqui. — Ela apoia a prancheta no colo e o encara fixamente. — E por isso eu conversei com algumas instituições e uma delas é muito engajada em ajudar jovens em situação como a sua. Acontece que dentre o perfil de jovens apresentados para esta instituição, você foi um dos selecionados para receber uma bolsa de estudos, o que vai lhe ajudar ainda mais na sua reinserção ao convívio social e na purificação de sua energia conforme aprender e prestar serviço. Semestralmente você terá o meu acompanhamento para que possamos ver como você está se saindo, o que está achando deste programa e se está te ajudando de alguma forma. O que me diz?
— Parece bem melhor do que ficar preso aqui. Ênfase no preso. — Jack estava naquele hospital psiquiátrico de reabilitação há seis anos, por ter atacado seu pai de forma violenta e com vestígios sobrenaturais incompatíveis às suas capacidades.
O lugar onde morava era pobre, precário e negligenciado pelo poder público, sendo aquela região um alvo de fácil para a influência de alguns espíritos e energias negativas. De uns anos para cá a energia negativa no mundo vinha crescendo muito rapidamente e isto era capaz de afetar algumas pessoas, principalmente os mais vulneráveis, como crianças e pessoas espiritualmente ou psicologicamente abaladas, fazendo-os agir de forma considerada não natural (como comportamentos violentos ou manifestando habilidades mágicas descabidas) por influência destas energias, portanto não podiam ser inteiramente responsabilizadas por alguns atos realizados por conta de uma deficiência astral.
Naquele hospital ele se achava cercado de pessoas que considerava loucas ou estúpidas, já que por mais que assim como todos os outros também estivesse preso em um 'hospício', como alguns chamavam, ele se comportava como uma pessoa normal, diferente da maioria. Além, é claro, de sua personalidade egocêntrica e cínica, disfarçadas por uma máscara de bom-moço. De vez em quando ele conseguia fazer com que dois ou mais internos idiotas brigassem entre si e que na maioria das vezes desencadeava uma briga maior ainda, o que para ele era algo bastante divertido.
— Eu aceito essa bolsa. Vai ser muito divertido estudar lá e conhecer novas pessoas que não sejam tão... hã, perturbadas quanto as daqui. — Ele aceita a oportunidade com um sorriso contente, porém falso, no rosto. Já imaginando as novas possibilidades de discórdia que poderia causar nesta instituição.
Miene segue falando sobre a real importância daquela bolsa, já que embora se divertir fosse parte importante do processo de reabilitação, ele também deveria se preocupar em compreender melhor as relações sociais, como funcionam as energias e as gravidades de ações que prejudicam a vida humana e coisas relacionadas que vão ficando cada vez mais distantes de seus ouvidos conforme Jack mergulha em seus próprios pensamentos, ignorando-a embora ainda mantivesse a expressão de quem está prestando atenção.
A chance de sair dali de uma vez por todas lhe fez pensar um pouco em como havia sido sua estadia naquele lugar.
Embora conseguisse se divertir de vez em quando provocando desavenças desnecessárias sem precisar levar a culpa por elas, a maior parte de seu tempo ali foi pacata e tediosa. Tinha a obrigação de participar de sessões coletivas, para expressar-se com os outros internos sobre o por que foi colocado ali e como se sentia em relação à isso agora. Também ouvindo o relato de outros, bem como os choros e soluços de arrependimento, real da parte de alguns e extremamente forçado por parte da maioria que tentava desesperadamente parecer recuperados e arrependidos do que fizeram na esperança de serem absolvidos, o que não dava muito certo, pois na percepção de Jack só fazia com que parecessem patéticos e às vezes até mesmo cômicos.
Embora não criasse laços com os outros internos, Jack os observava bem durante as sessões para que pudesse aprender um pouco de cada e principalmente do que foram capazes de fazer para chegar ali. A grande maioria era composta por jovens pirados assassinos em série de gatos de rua, auto-mutiladores ou jovens desnecessariamente agressivos, que eram também os mais fáceis de manipular. Internos com histórico de atividades paranormais, como Jack, era um pouco mais raros, e eram justamente os que mais lhe interessavam.
Geralmente eram jovens garotos e garotas que, assim como ele, tinham um comportamento mais tranquilo, porém com delitos mais interessantes do que maltratar gatos ou ferir a própria pele com a ponta de um lápis e também mais misteriosos, que nunca eram explicados por completo, restando à ele usar a dedução e imaginação para tentar descobrir como de fato as coisas aconteceram.
Um deles era Louis. Um jovem magro, de aspecto cansado e de olhos azuis, que participou de várias sessões em comum com Jack. Era extremamente calado no início, sempre ouvindo os relatos dos outros e nunca comentando sobre o seu, até que após alguns estímulos da psicóloga começou a participar ativamente, comentando o quão triste se sentia por ter sido obrigado pelas vozes a queimar os irmãos enquanto dormiam e que faria diferente se pudesse voltar atrás, mas nunca deixara claro como os havia queimado, embora alguns boatos digam que as chamas começaram por magia, e o que deixava Jack mais interessado era que Louis nunca deixava claro que fazer diferente queria dizer que não os teria queimado.
Jessy, a garota loira, alta e com óculos fundo de garrafa. Participou de poucas sessões em comum com Jack, mas gostava bastante de falar, o que tornava fácil entender sua situação mesmo em poucos encontros.
Ao que parece, queimara o rosto do pai com produtos químicos como retaliação aos abusos que ela e o irmão sofriam. Não mostrava dor nenhuma ao fazer comentários sobre o pai, que faleceu por ter ingerido tal produto, além de também ter tido seu rosto corroído e desfigurado. Jack não tinha certeza, mas achava encontrar alegria no tom de Jessy quando falava sobre o que houve com o pai como se, assim como ele, por dentro ela também estivesse fingindo.
Havia também Pietra, uma garota grande, forte e de cabelo cortado, frequentemente confundida com um rapaz. Alegava sempre compreender que o que fizera fora ruim e que desejaria não ter tido aqueles impulsos. Em seus relatos, Louis sempre perguntava se os impulsos eram vozes. Ela nunca deixava claro nos depoimentos o que havia feito de errado, mas rumores diziam que ela esmagou a cabeça de três professores contra a parede porque a colocaram de castigo, ou que esmagou-os contra o chão porque lhe deram notas baixas, ou que bateu as cabeças de uns na dos outros simplesmente porque ela quis. Eram muitas versões diferentes, cuja única coincidência eram os três professores e as três cabeças amassadas.
Pensar no caso deles deixava Jack nostálgico a respeito do próprio
Salem
Cerca de 6 anos atrás
Não era a primeira vez que via seu pai caminhar na rua com passos tortos, sozinho e incomodando as mulheres no caminho. Estava sozinho em casa há bastante tempo, quase que o dia todo e com bastante fome. Já era tarde da noite e sua última refeição fora uma uma sopa no almoço há mais de oito horas atrás, cujo caldo tinha sabor de água suja, oferecido por uma vizinha também miserável, mas que ao menos se importava com ele e acompanhava de perto a irresponsabilidade do pai, tentando ajudar como fosse possível.
Um dia o jovem se cansou de aguardá-lo chegar e decidiu trazê-lo de volta para casa. Desceu as escadas do prédio e foi à rua ao seu encontro, atravessando ruas e vielas em busca dos bares os quais ele costumava frequentar, até que o encontra sentado no chão e escorado em um poste.
— Pai, finalmente te encontrei. — Ele corria, se aproximando do homem, que embora não fosse tão velho já tinha uma aparência bastante acabada devido aos vícios. — O senhor está muito bêbado para andar sozinho por aí, pai. Deixe-me ajudá-lo, por favor. — Disse o garoto de forma polida e piedosa, segurando-o pela cintura para que não caísse, embora fosse muito pequeno. O homem o encarou por alguns segundos, mas não respondeu e se deixou ser levado pelo filho.
Era tarde da noite e não havia ninguém a vista na rua. Jack passou pela rua de seu prédio, um cortiço em mal estado com mais pessoas morando lá do que deveria. Aquele era um bairro pobre e qualquer espaço desocupado era rapidamente reocupado por famílias necessitadas de abrigo.
Jack entra em casa e coloca seu pai bêbado sentado no sofá rasgado e desconfortável de sempre.
— Me dê esta garrafa. Já bebeu demais e precisa descansar agora. — O garoto pega a garrafa da mão do homem bêbado que reluta em entregá-la, embora estivesse fraco demais para mantê-la. Além disso a garrafa estava quase vazia, então logo ele desiste e a entregasse de vez.
Quando Jack puxa a garrafa para si, a porta de entrada que estava semiaberta se fecha sozinha e com bastante força. Jack segura o bico da garrafa e a balança em movimentos circulares tentando deduzir o quanto de líquido ainda restava no interior.
— Você bebe muito mesmo. Quase não sobrou uma gota sequer e aposto que essa não foi a única garrafa. — Cansado de enrolar, Jack segura o bico da garrafa com força e a bate violentamente contra o rosto do pai que estava sentado e distraído pelo álcool. A garrafa se quebra em pedaços e fere a pele do homem com diversos cortes pequenos que sangravam em finas filetas, gritando de forma abafada, pois embora estivesse sentido bastante dor com o golpe, não tinha fôlego para gritar alto demais.
Enquanto uma de suas mãos se colocava no rosto ferido o homem estendia a outra mão a sua frente em uma tentativa inútil de se defender.
O bico da garrafa quebrada ainda estava inteiro nas mãos de Jack, com a extremidades quebrada bem afiadas. Com mais um golpe ele crava aquele pedaço de vidro na mão que o homem usava para tentar se proteger fazendo-o gritar mais uma vez, desta vez mais alto, e cair deitado no sofá.
— PARE! O QUE ESTÁ FAZENDO? — Gritava o homem adulto, que conseguira encontrar voz em meio a embriaguez. Suas mãos sangravam mais do que o rosto e numa tentativa torta de se levantar para atacar Jack ele acaba caindo do sofá para o chão.
— Você é inútil como ser humano e principalmente como pai. — O garoto falava com uma voz calma e tom sério, apesar da situação. — Não traz nada de bom à sociedade e ainda perturba a paz dos outros na rua. Você tem um filho. Esqueceu-se disso? Deveria ser mais responsável. — Ele caminha em passos lentos atrás do homem que se arrastava no chão em direção à porta sem velocidade. Neste momento a voz de Jack parece se duplicar, como se outra voz dividisse a frase com ele — Se eu apagar você, ninguém sentirá sua falta. Na verdade, se sentirão mais aliviados por não terem de vê-lo outra vez.
Jack aponta suas mãos para o pai, como se o quisesse pegá-lo a distância, e seus olhos se enchem de uma coloração negra. O homem, que estava quase alcançando a porta, é puxado do chão e lançado contra a parede por uma força desconhecida. Ao chocar-se contra a parede, ele fica lá mesmo suspenso como uma roupa em um cabide invisível. Os cacos de vidro da garrafa espalhados pelo chão levitam ao redor do garoto.
Depois mais um grito desesperado do homem que se balançava suspenso ao ar sem conseguir descer, a porta de entrada do quarto se abre com força, arrombada por homens adultos da vizinhança que certamente ouviram os gritos. Quando a porta é aberta os cacos de vidro, aparentemente controlados por Jack, são disparados contra o pai, ferindo-o gravemente em diversas partes de seu corpo. Os vizinhos que entram no quarto veem a cena final espantados e então imobilizam o garoto, cujos olhos enegrecidos retornam à coloração normal.
Washington, D.C.
Cerca de 6 meses atrás
Jack se lembra que naquele dia as coisas que fizera não estavam sob seu controle, como se algo maior o estivesse controlando, mas que no fundo aquela realmente era sua vontade, embora não fosse bem isso o que ele contava em seus depoimentos. O devaneio de Jack termina ali. Estava de volta ao consultório com a psicóloga Miene, que ainda falava.
— ...para que então, quando estiver formado, possa ajudar de forma expressiva a extinguir as energias impuras que influenciam jovens como você e seus amigos do centro de reabilitação e prejudicam a vida de tantas outras pessoas. O que acha?
— Acho incrível — Ele mente, não tendo prestado atenção na maior parte das coisas que ela havia falado. — Estudar lá será uma oportunidade muito boa para mim. Vai ajudar muito a me tornar a pessoa melhor que eu quero e preciso ser. — Mais uma vez ele a encanta com seu sorriso cinicamente simpático. — Que instituição é essa mesmo?
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