Coisas de um Glicosaminoglicano

2 Sistema Complemento segundo um glicosaminoglicano


Notas iniciais
OLÁ PESSOAL! Desculpem a demora para atualizar! É que a federal tem um talento incrível pra induzir resposta imun- opa- bloqueio criativo (acho que estudei imunologia demais UASHUHSHA) Enfim, aí está a historinha do sistema complemento. Quem quiser ler antes da provinha de terça pra dar uma reforçada... Beijos meus glicosaminoglicanos lindos ♥

–BUÁÁÁÁÁ! Eu não fiz nadaaaa! Ah! Me deixem ir embora!

–Silêncio durante o interrogatório! – esbravejou um macrófago mal-encarado do tipo M2.

Um crime havia sido cometido durante a última Operação Inflamação de Homosapiensópolis. Durante o processo de reparação de tecido, algumas bactérias turistas haviam sido confundidas com invasoras e haviam sido brutalmente mortas pelo Sistema Complemento. Testemunhas foram chamadas para depor e auxiliar na reconstrução do crime e apontar o verdadeiro culpado.

Na sala de interrogatório estavam Lipério, o mediador lipídico mais escandaloso da cidade; a Interleucina -2, uma citocina com problemas de superego. E a terceira testemunha ainda não havia chegado.

–Quando ela vai chegar? – o macrófago que pedira silêncio esbravejou novamente.

–Não sei. Mandamos a intimação logo depois que coletamos as provas no local. – reclamou um outro.

–Essas celebridades... Acham que estão acima de qualquer autoridade...

As células do sistema de imunidade inata se movimentaram inquietas dentro da sala de interrogatório. Lipério choramingava baixinho e a IL-2 agitava seus domínios convulsivamente murmurando:

–Multiplicar, multiplicar, multiplicar...

–Bom... Enquanto ela não chega, vamos adiantando os depoimentos. – o macrófago agitou uma projeção de seu citoplasma e uma prancheta e uma caneta apareceu. – Vamos começar pelo chorão.

Ao ouvir a ofensa, Lipério abriu novamente o berreiro.

–BUÁÁÁÁÁÁ! E-eu não sou chorão! S-só est-tou com med-d-do! V-vocês querem me m-matar!

O macrófago com a prancheta suspirou.

–Ninguém vai matar você, Lipério. Só queremos saber a sua versão do que aconteceu com os turistas.

Demorou alguns minutos para que as células fagocíticas convencessem que ninguém ia mandá-lo para os lisossomos. Fungando, o pequeno mediador lipídico endireitou-se e encarou o macrófago à sua frente.

–T-tudo bem. Eu vou dizer quem foi o culpado.

A tensão dentro da sala aumentou. Todos olharam atentamente para o lipídio chorão.

–Como sempre eu estava fazendo a minha ronda avisando as células endoteliais sobre o que estava acontecendo no tecido. Foi aí que eu vi as bactérias de aproximando de um grupo de lectinas. Elas estavam falando algo sobre elas serem bonitinhas quando uma delas reconheceu a manose da bactéria e se ligou. Logo as outras imitaram o movimento. Aquelas bactérias burras... Acharam que era algum tipo de truque ou número que as lectinas apresentavam como parte do tour pela cidade.

–Então quem começou tudo foram as lectinas?

–Sim.

–Muito bem. Prossiga. – o macrófago rabiscou avidamente em sua prancheta.

–Depois que as lectinas ligam, é aquela gritaria. Elas começaram a gritar pra chamar a atenção das MASPs. Aí vieram a MASP1 e a MASP2. Como elas sempre acham que as lectinas estão pedindo socorro, elas se ligam e vão atrás do Sistema Complemento. Por que elas SEMPRE acham que as proteínas C podem resolver tudo? É irritante! Pra elas é como se o Sistema Complemento fosse a Polícia Suprema da Cidade. Acontece que elas não passam com um bando de proteínas com problemas de identidade e auto-afirmação. Elas mal aparecem no tecido é já vão se quebrando e recombinando só pra quebrar outra proteína. Ridículo. Se querem ter crise existencial, que se limitem a elas mesmas. Enfim, como eu ia dizendo... Apareceram a C4 e a C2 aos berros filosofando alguma coisa sobre alma gêmea. E elas começaram a se lamentar dizendo que queriam se amar como as integrinas faziam com as N-selectinas. No meio da confusão, as MASPs perderam a paciência (como acontece toda santa vez), e disseram para elas que podiam resolver o problema. Resultado: MASP1 e MASP2 que estavam ligadas na lectina quebraram a C4 e a C2. Aí o circo já estava armado. Gritando mais alto ainda, os fragmentos das duas proteínas começaram a se agitar de um lado pro outro. Demorou uns três minutos pra elas perceberem que elas podiam ligar umas as outras. Elas se uniram e começaram a berrar algo sobre agora elas terem se encontrado e que iam mudar de nome.

–Qual o nome?

–C3 convertase.

–Hm, então as proteínas do SC começaram isso tudo por causa de crises existenciais?

–Sim! Você não ouve o berreiro sem sentido que elas aprontam toda santa vez que acontece alguma coisa de errado na cidade?

–Muito bem. Então recapitulando: as bactérias turistas foram mexer com as lectinas, que enfurecidas se ligaram às manoses de suas membranas. Começaram a gritar por socorro, e as MASPs 1 e 2 a socorreram para que elas parassem de gritar. Então, as MASPs pedem ajuda para o Sistema Complemento, mas apareceram duas proteínas, C4 e C2 filosofando sobre existencialismo?

–Sim.

–E acabaram sendo clivadas pelas MASPs que mentiram sobre resolver o problema delas. Era só para elas pararem de gritar, certo?

–Na verdade, se você olhar bem, elas realmente resolveram o problema. Só que as proteínas C não se contentam com nada. Sabe aquele ditado: ‘você dá um peptídeo, mas o outro quer o domínio todo?’. Isso define essas frescas dramáticas. Depois de assumirem a nova ‘identidade’ como C3 convertase, elas ligaram na membrana das bactérias turistas e começaram a entoar mais babaquices. E o pior é que quando uma começa a fazer isso, aparecem TODAS. E foi o que aconteceu. A C3 apareceu e viu a cena. Se contagiou com o discurso e foi correndo direto pra C4 e C2 unidas dizendo que também precisava se encontrar. Resultado? Tick! Mais uma proteína clivada. Só que pra piorar, o fragmento maior da C3 se ligou à C2 e a C4 e começou a falar de filosofia amorosa. E novamente disseram que precisavam de um novo nome.

O macrófago apenas arqueou seus complexos de golgi induzindo o mediador a continuar.

–C5 convertase.

As células dentro do interrogatório suspiraram.

–E depois?

–Depois aconteceu a mesma coisa, só que a vítima do discurso foi a C5. Só que a C5 é mil vezes pior que a C3. Então quando ela começou o discurso dela vieram C6, C7,C8 e C9 Nessa altura as bactérias já haviam entendido o que estava acontecendo e começaram a gritar. No furor do debate sobre a verdadeira identidade delas, o fragmento maior da C5 combinou-se com a C6,C7 e C8, pois haviam se convencido que a verdadeira função delas no mundo era ser a base de sustentação das C9s (manipuladoras de uma figa!). A C9 é uma metida a besta só porque é especializada em assassinato! – Lipério fez uma pausa pra recuperar o fôlego — Bom... Finalmente elas ancoraram aquele monte de C9s (eu gosto de chamar de Poly9), que tem aquela forma de tubinho. Ancoradas pelas coitadas das Cs manipuladas, as C9s então acrescentou mais bactérias à sua lista de vítimas. E elas terminaram a ação berrando algo sobre serem na verdade partes de um todo perfeito... Tinha um nome... Não me lembro agora...

–Complexo de Ataque à Membrana, MAHAHAHAHAHAHAHA! – riu a Interleucina-2 quebrando atmosfera séria da sala. – Multiplicar, multiplicar, MULTIPLICAR!

–Ah – Lipério olhou assustado para a citocina com ar psicopata e arrastou sua cadeira alguns nanômetros dela como se estivesse com medo de ser contagiado ou morto. – Obrigado por lembrar.

–Muito bem – o Macrófago da prancheta se espreguiçou. – Obrigado pelo depoimento, Lipério. Agora vamos à segunda testemunha.

Ele se virou para a proteína vibrante que se agitava em sua cadeira olhando com um olhar psicopata para um de seus domínios.

–Clones... Clones...

–Senhorita – a célula fagocítica pigarreou. – Pode começar a depor.

Ela voltou seu olhar penetrante para a célula, que recuou levemente. Com uma risada baixinha, começou a falar.

–Eu não tenho muita coisa pra falar não, hihihihi. Aconteceu quase como o chorão aí disse.

Lipério começou a se agitar para protestar, mas o olhar de um dos macrófagos e a lembrança da risada maligna da IL-2 o fizeram calar-se.

–A única coisa que ele mentiu foi sobre o detalhe do comecinho. Não tinha lectina nenhuma. As bactérias foram mexer com um anticorpo que elas acharam bonitinho, hihihi. Lógico que o anticorpo ligou nelas. Só não me lembro se era um IgG ou IgM. Formado o imuno-complexo, começou aquele berreiro quando elas perceberam o que estava acontecendo. . MAHAHAHAHA! Isso não é clássico? Bom, com a gritaria, a C1 acabou sendo atraída. E foi ELA que clivou a C4 e a C2, não as MASPs. Depois aconteceu tudo exatamente como o Lipério disse-Mais alguma coisa a acrescentar?

A IL-2 manteve-se em silêncio. Parecia estar se lembrando de algo importante. Todos olharam-na ansiosos. Por fim ela agitou um domínio como se fosse retomar sua fala, mas nesse exato momento, um linfócito T passou pela janela da sala do interrogatório.

–EXPANSÃO CLONAL! — berrou a Interleucina 2. – Clones, clones, clones, cloneees!

Foram necessários dois macrófagos para segurá-la e acalmá-la. Depois do surto, foi impossível fazê-la falar de novo.

–Ai, que trabalheira. – reclamou o que tomava as notas dos depoimentos. – Está gravando tudo?

O outro assentiu prontamente.

–Bom, agora falta a-

–Eu concordo que isso é realmente exaustivo. — uma voz feminina e sedutora soou atrás da porta da sala de interrogatório. Todos se mexeram nervosos, arrastando cadeiras e se endireitando.

Ela havia chegado.

Lipério suava frio e tinha vontade de sair gritando. Não estava preparado para encarar uma celebridade com ela. Os macrófagos se agitavam tentando organizar suas organelas da forma mais harmoniosa e atraente possível. Só a Interleucina-2, que continuava dando tiques esporádicos murmurando ‘mitose,mitose’ repetidamente, não pareceu afetada pela chegada dela.

A porta se abriu e uma nuvem de brilho e purpurina tomou conta da sala. Por um instante, ninguém viu nada, mas assim que a poeira cintilante baixou eles puderam vislumbrar uma das maiores celebridades de Homosapiensópolis

Ela.

809,57 gramas por mol.

Fórmula molecular C23H38N7O17P3S.

Sim, era ela.

A diva, maravilhosa, estupenda e apaixonante Acetilcoenzima A!

A enzima entrou desfilando na sala com seus anéis emplumados, óculos escondendo seus nitrogênios penetrantes e remexendo sua cauda com enxofre. Atrás dela estavam seus três seguranças: piruvato, oxalato e citrato.

–Eu não tenho muito tempo, então serei rápida. Contarei para vocês a verdade.

Parecia até uma cena de filme. A maravilhosa Acetil-CoA discursando como uma heroína sobre a verdade de um terrível crime.

–Quem começou isso tudo foi a C3b (o fragmento maior da C3). Ela já estava lá. Ela aproveitou que as bactérias estavam distraídas com alguma coisa e se ligou à membrana delas. Então ela começou a filosofar sobre necessitar de ajuda, e que fazia parte de um todo maior que iria fazer um bem pro mundo. Ouvindo a ladainha, o fator B apareceu. O bobinho foi tentar consolar a C3b e nhac! A gulosinha ligou nele. Ficaram os dois lá, presos na membrana das bactérias. Em desespero, o fator b começou a gritar e a C3b continuou a ladainha falando que ainda se sentia incompleta. Foi aí que apareceu a ‘mamãe’ dela emocionada com a choradeira (argh! Crianças!). A C3. E como toda boa mãe, ela foi lá e satisfez o desejo da cria. Com a ajuda do fator B (a C3 estava gritando algo sobre ter se transformado numa C3 convertase), ela clivou a C3 e aí PUFF! Surgiu uma gêmea! Felizes da vida, as duas se combinaram e recomeçaram o berreiro dizendo que AINDA estavam incompletas. Affe. Eu lembro de elas estarem atrás de uma tal de C5... que depois foi clivada também e...

–Mentirosa! – berrou a IL-2 colocando-se de pé na cadeira. – Mentirosa! Como que a C3b apareceu assim do nada?

A Acetil-CoA baixou os óculos e fuzilou a outra proteína com seus nitrogênios.

–Você acabou de me chamar de MENTIROSA?

Os três seguranças se agitaram.

–Acalmem-se todos! – pediu o macrófago que estava mais próximo da porta.

Lipério estava encolhido na cadeira rezando para que a IL-2 esquecesse de sua existência... O que teve o efeito completamente contrário. A proteína enlouquecida virou-se para ele e começou a acusá-lo:

–MENTIROSO! Tem que ser digerido! Digerido!

Diante da ameaça, Lipério abriu novamente o berreiro.

–BUÁÁÁÁ! Eu não quero ser metabolizado!

O caos se instaurou na sala. A Acetil-CoA esbravejava para a IL-2, e os macrófagos estavam completamente perdidos. Não sabiam se calavam a boca do Lipério primeiro ou apartavam a briga. Nem os seguranças foram suficientes para segurar a celebridade enfurecida.

Quando tudo parecia perdido, a porta foi violentamente aberta. Todos pararam o que estavam fazendo e olharam para a figura recortada contra o vão da porta. Era o neurônio que coordenava as salas de interrogatório. Ele havia se esticado de seu posto para vir até ali.

–Senhores, não é mais necessário que se faça o interrogatório.

–O quê? – todos berraram em uníssono (com exceção do Lipério que choramingava e a IL-2 que gritava ‘anáfase’ repetidamente).

–Foi comunicado que as bactérias turistas eram na verdade bioterroristas disfarçados. Então, a operação foi realizada com sucesso.

Todos demoraram alguns segundos para absorver a informação. O primeiro a quebrar o silêncio foi o macrófago responsável pelas notas.

–Muito bem... Então acho que nós podemos dispensar vocês...

–Espere aí um minuto! – esbravejou a celebridade proteica. – Nós ainda não decidimos quem é que estava certo sobre o ocorrido.

–Senhora, mas não é mais necessári-

–É SIM! Minha dignidade está em jogo!

–TELÓFASE! MENTIRA! – a IL-2 não parava de dar espasmos psicopatas.

–Sobre o que é a discussão? – perguntou o neurônio.

–Estávamos tentando averiguar a versão do ocorrido verdadeira.

O neurônio olhou para os lados até se deparar com o macrófago que ficara responsável por vigiar a porta.

–Ué? Mas não foi você que fagocitou as bactérias? Até recebeu uma condecoração por ter tido uma resposta tão rápida à infecção! Tanto que no início todo mundo achou que você tinha se enganado!

O macrófago começou a suar frio. Todos voltaram vagarosamente seus olhares para ele.

–É que... Eu...

–Explique-se – exigiu a Acetilconezima A.

–Eu... Eu tinha me esquecido.

–Esquecido!? Mas que palhaçada é essa? Como você se esquece de uma coisa tão importante dessa!?

–Ahm...

–Uai... – o neurônio olhou atônito para a celebridade. – Mas senhora, você não sabe. Macrófagos não são células do Sistema Imune Adaptativo. São da divisão do Sistema Inato. Eles não tem memória imunológica...

Moral da história: os macrófagos nunca se enganam, mas sempre esquecem!

Notas finais
E aí gostaram? Ajudei? UM BEIJÃO GENTE
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.