Coisas de família.
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
— Sabe o que dizem por ai não? Que mesmo depois de tanto tempo, o Líder de Seita Jiang ainda nutre sentimentos por uma certa SanRen.
— YU ZIYUAN!
Jiang FengMian encarou a mulher com fúria, antes de sair magoado, batendo a porta do cômodo, enquanto Yu Ziyuan continuava a gritar ofensas e calúnias às suas costas. Não conseguia acreditar que sua mulher fora capaz de dizer todos aqueles absurdos na frente dos garotos; na frente de Wei WuXian. Porém, infelizmente, nenhum deles eram verdadeiros. Deus sabe o quanto FengMian queria que fossem. O quanto queria poder dizer, sem culpa, que ainda amava aquela mulher. Só assim não sentiria o amargor daquela verdade suja e imunda que carregava consigo. Se sua mulher pudesse ver a verdade dentro de seu coração, ela saberia que o problema não era sua paternidade em relação a Jiang Cheng.
O problema era seus sentimentos em relação a Wei WuXian.
Yu Ziyuan estava certa, FengMian amou e muito SanRen. Amou a mulher desde quando a viu pela primeira vez. Continuou a amá-la mesmo no dia em que seu noivado foi oficializado, contra sua vontade. Continuou a amá-la quando se casou e foi forçado a formar uma família. Continuou a amá-la mesmo no dia que descobriu que ela também se casaria na semana seguinte; e quando ela se casou; e quando estava feliz ao lado do marido; quando seu filho nasceu. Continuou a amá-la até o último dia de sua vida, quando soube de sua morte trágica. FengMian continuava a amar SanRen mesmo que ela não pertencesse mais a esse mundo. Isso tudo porque era fácil se lembrar dela, ainda mais enquanto via Wei WuXian crescendo, e se parecendo cada vez mais com a mãe.
Wei WuXian sempre fora um jovem vivo, divertido, de bem com a vida, mesmo que esta sempre fosse cruel com ele. FengMian se lembrava muito bem do dia em que encontrou Wei WuXian jogado ao relento, com frio, fome, sujo e amedrontado, como se fosse um resto de alguma coisa morta e sem valor. Ainda se lembrava do brilho nos olhos de Wei WuXian ao ser amparado e protegido por ele. Era uma criança adorável, graciosa e muito esperta.
O problema, é que o tempo passou rápido e logo, aquela criança fofa, se tornou um rapaz divertido, belo e cativante. FengMian acreditava que Wei WuXian, às vezes se esquecia do quanto era parecido com sua mãe, e por isso o abraçava sem medo ou receios de despertar algo adormecido dentro dele. Mas toda vez que Wei WuXian sorria, era SanRen quem FengMian via.
— Tio Jiang? — Wei WuXian pousou as mãos sobre os ombros do tio, o tirando de seus pensamentos.
— A-Xian… — FengMian colocou sua mão sobre a de Wei WuXian, mas logo se arrependeu do contato, que era pra ser algo natural entre eles.
— Eu lamento que a senhora Yu sempre acabe brigando com o senhor por minha causa.
— A culpa não é sua.
— Muito menos do A-Cheng. Eu sei que o senhor o ama de verdade como seu filho, o que ele realmente é, e que o único motivo pelo qual o senhor implica tanto com ele é apenas ciúmes.
— Ciúmes?
— Sim, ciúmes. O senhor não gosta do jeito que somos próximos não é verdade, tio Jiang? O senhor teme que, algum dia, possamos ter um relacionamento a mais; mais que irmãos. — Wei WuXian pode ver a tenção nos olhos de FengMian – Desculpe tio, não quis lhe faltar com respeito, eu só queria dizer ao senhor o que sinto. Eu sei porque eu vejo como o senhor me olha. Sabe tio Jiang, eu nem sempre estou dormindo quando o senhor vem dar boa noite.
— Não diga dessa forma, assim você me faz parecer um homem sem escrúpulos.
— Eu não disse que era. Na verdade, o senhor sempre foi um exemplo de respeito, talvez até demais.
— Respeito nunca é demais, A-Xian.
— Mesmo quando ele é a causa de todo o seu sofrimento?
— Mesmo assim.
Aquilo foi a deixa para Jiang FengMian se entregar. Acabara de confessar que sofria por amar um garoto que tinha a idade pra ser seu filho; que fora criado por si, como um. Mais uma vez se levantou, mas desta vez não furioso e perturbado e sim, culpado, por ter que admitir seus sentimentos a Wei WuXian.
— Tio – Wei Wuxian segurou seu braço, o impedindo de sair – O senhor não precisa sofrer por minha causa. O senhor fez muito por mim durante anos, e tudo o que quero é poder retribuir. Se é o que deseja, posso ir ao seu quarto hoje a noite, depois que todos se recolherem.
O som de um forte estalo fez com que alguns pássaros voassem assustados de uma árvore próxima. Wei WuXian levou a mão ao rosto, onde uma marca vermelha queimava feito brasa. Ficou com medo dos olhos de FengMian que o encarava com certa mágoa.
— Respeito nunca é demais; qual parte disso você não entendeu?
— Desculpe, tio.
— Não tente pagar pelo pecado dos outros. Yu não tem culpa, A-Cheng não tem culpa; você não tem culpa – FengMian acariciou a face de Wei WuXian ainda vermelha pelo forte tapa – Eu sou o único pecador, por desejar um sentimento que é errado. Você não me deve nada, A-Xian. Seu carinho e companhia durante todos esses anos foram muito mais do que eu poderia merecer. Quero que seja feliz. Nem vou dizer a você que procure uma boa moça e construa uma família, até porque não sou cego; sei dos sentimentos que tem por Lan Zhan – Wei Wuxian olhou o tio com espanto e vergonha – Tudo bem, não precisa ficar com pena de mim. Vocês são jovens e tem uma vida toda pela frente, merecem ser felizes.
— O senhor também merece, tio.
— Eu estou tentando, A-Xian… estou tentando. Agora vá. Sabe que A-Cheng sempre fica muito triste quando eu e a mãe brigamos, você precisa ir lá animar ele.
— Eu vou, tio.
Wei WuXian fez uma breve reverência ao tio e saiu correndo à procura de Jiang Cheng.
FengMian viu Yu Ziyuan indo em direção ao cais do Píer. Foi de encontro a ela, para tentar resolver toda aquela situação.
Esperou Yu se sentar, de costas para ele, antes de voltar a se aproximar. Retirou um pequeno objeto das vestes e se preparou para mais um diálogo difícil.
— Por que está aqui, não vai deixar seu pobre e querido A-Xian sozinho, vai?
Jiang FengMian colocou uma caixinha sobre a mesa e a empurrou em direção a sua mulher. Yu abriu. Era um prendedor de cabelo verde-jade. Yu riu desdenhosa, sabia que FengMian tinha o péssimo hábito de lhe dar presentes quando se sentia culpado por brigar com ela.
— Minha senhora, estou profundamente magoado com suas palavras de agora pouco.
— As palavras só machucam se tiverem uma ponta bem afiada de verdade nelas.
— Mas nada do que disse ali é verdade. Eu amo Jiang Cheng, e sei muito bem que é ele quem tem meu sangue.
— Então, por que também ama tanto Wei Ying? — FengMian se mostrou apreensivo, mas manteve a pose firme – Por que ele é filho da SanRen?
— Eu já superei esse sentimento, eu não a amo mais já há muito tempo.
— Eu sei… eu sei muito bem disso, meu senhor. — Yu Ziyuan ficou abrindo e fechando a caixinha com o prendedor de cabelo. – Mas ama o que restou dela.
— O que restou dela são apenas lembranças.
— Não se faça de tolo, não fica bem na sua idade. Já disse isso a ele; como se sente?
— Ele sabe. — FengMian teve que forçar para que aquela verdade saísse de sua boca. Sua mulher sempre foi perspicaz. Era provável que tenha notado seus sentimentos antes mesmo dele. – Descobriu sozinho.
— Hum, que engraçado, essa parte esperta dele é como se tivesse herdado de mim; como sou tola. — o olhar de Yu se tornou melancólico – Mas conheço Wei Ying como se tivesse nascido de meu próprio ventre, e sei que ele se preocupa demais com os sentimentos dos outros, principalmente com os seus, meu senhor. E então, ele já se ofereceu para confortá-lo em seu leito?
— Claro que não! — FengMian sentia que poderia perder o controle, caso Yu insistisse muito naquele assunto.
— Que bom, fico feliz que ainda tenha respeito pela nossa família, acima de seus desejos particulares. — Yu lhe empurrou a caixinha de volta – Você deve dar presentes como esse apenas a quem você ama.
— Por que faz isso comigo, por que me humilha dessa forma; me odeia tanto assim?
Yu Ziyuan se levantou, mas antes de sair se virou uma última vez para falar com o marido.
— Apesar de dizer coisas tão duras sobre você durante todos esses anos, eu sempre soube que se casou comigo por obrigação, e aceitei isso. Fui eu quem criei esse boato de que seus sentimentos pela Zangse SanRen continuavam a existir. Fiz isso porque comecei a notar a forma que passou a olhar para Wei Ying, depois que ele cresceu; acredite, teria sido bem pior se os boatos fossem outros.
Yu Ziyuan saiu, deixando FengMian remoendo todas aquelas coisas que começavam a vir à tona.
***
Naquela mesma noite, depois do grave incidente envolvendo a senhora Yu e a amante do jovem Líder da seita Wen, o Píer fora atacado e gravemente destruído. Não havia mais escapatória, a família Jiang teria que lutar sozinha agora, já que seus servos pareciam não dar conta do inimigo; e sem a presença de FengMian, que saiu do Píer, depois que discutiu com sua mulher.
Mas Yu Ziyuan estava disposta a salvar o que restou de sua família, como sempre fez, durante toda a sua vida.
Usou a força de Zidian para prender Jiang Cheng e impedir que ele se envolvesse em uma luta que certamente terminaria em mais derramamento de sangue Yunmeng. A senhora Yu ficou um pouco abalada quando, em um vislumbre, viu o prendedor de cabelo cor de jade, preso aos fios do jovem Wei. Acabou fazendo o mesmo com Wei WuXian.
— Senhora Yu, me solte, o que pensa que está fazendo? O tio Jiang nunca vai me perdoar se algo acontecer à senhora.
— Cale a boca, seu insolente! Ele já escolheu. — o olhar da senhora Yu se tornou suplico – Me ouça bem, Wei Ying! De agora em diante, você cuidará para que nada de ruin aconteça a A-Li e a A-Cheng. Eles são responsabilidade sua e quero que dê a vida por eles, se for necessário; assim como eu daria. E… cuide bem do seu tio, entendeu? VOCÊ ESTÁ ME OUVINDO, WEI YING?
— Sim senhora.
Wei Wuxian baixou a cabeça aos prantos junto com Jiang Cheng, que gritava implorando para que a mãe ficasse. Wei Sabia que a senhora Yu estava se entregando, que estava deixando o caminho livre para o marido tentar ser feliz, ao lado de quem ele realmente amava.
Fale com o autor