"Não vou viver

Como alguém que só espera um novo amor

Há outras coisas no caminho onde eu vou

Às vezes ando só trocando passos com a solidão

Momentos que são meus e que não abro mão

[...]"

Nunca fui do tipo que escuta MPB, mas encontrei essa música aleatoriamente e, depois que percebi o quanto combinava com meu estado de espirito, não consegui parar de ouvir. Nesse exato momento, estou escutando à aproximadamente seis horas seguidas.

Bem, não é como se eu estivesse mal por algo ou alguém especifico, mas, de certa forma, estou sim. Não sei explicar muito bem. É só que... Fazia tempo que eu não me sentia tão sozinha quanto estou me sentindo agora. Não tenho ninguém em quem confio pra falar sobre tudo que me vem a cabeça, não tenho ninguém para escutar minhas loucuras no meio da madrugada, não tenho ninguém para conversar a respeito das minhas frustrações. E eu me conheço muito bem: sei que, quanto mais eu guardo para mim mesma, maior vai ser a explosão depois — tenho pena de quem estiver perto, do indivíduo que desencadear tal explosão.

Não, não é isso. Não é esse o problema. É esse vazio por dentro que tenho sentido ultimamente. Vazio que nem mesmo meus joguinhos estão sendo capazes de preencher, nem minhas músicas, nem ir correr. Estava prestes a dizer que não sinto nada, mas aí eu estaria mentindo: sinto ódio pelo meu último ex e pela minha faculdade, sinto carinho por alguns amigos e um outro ex, sinto medos, muitos medos. Mas, o que mais me preocupa é meu desinteresse.

Desinteresse nem sempre foi um problema na minha vida, só começou a ser por volta da época em que eu fui diagnosticada com depressão, coisa de quatro anos atrás. Atualmente, é um dos problemas mais graves na minha vida. Eu demorei cerca de um ano e meio para me interessar a estudar os assuntos vistos na faculdade. Demorei um ano para me interessar e começar a estudar francês, mesmo já estando fazendo o curso a meses. Demorei muito para me interessar por algum ser humano e eventualmente entrar em um relacionamento com o mesmo e, três anos e quatro relacionamentos relevantes depois, voltei para a estaca zero.

Ninguém mais me interessa nessa vida. E nem posso dizer que é saudade de algum ex ou algo do tipo, pois retomei contato com único dentre eles que de fato amei, o Breno, e não senti absolutamente nada. Da última vez que me senti de um jeito mais ou menos assim, foi porque ainda estava muito presa a um ex namorado, Thiago, e foi justamente nessa época que conheci o Breno. Só que, dessa vez, a sensação está bastante diferente.

A verdade é que eu tenho medo. De fato, medo é o melhor termo pra descrever como eu me sinto no momento: tenho medo que aconteça de novo, que eu venha a conhecer alguém que eu goste de verdade, que tenhamos experiencias maravilhosas e, então, o relacionamento acabe e eu fique extremamente sofrida por aí, mesmo tendo sido eu que decidiu terminar; também tenho medo que eu jamais encontre ninguém tão bom quanto ou melhor que o Breno, que continue achando todo mundo desinteressante pra todo o sempre e continue com esse vazio existencial na minha vida.

Só sei que estou aqui, tentando me acalmar, me forçando a focar em outras coisas, mas temo que isso não seja o suficiente para que eu volte ao normal. Aí fico aqui perdendo horas da minha vida com pensamentos que certamente não me levarão a nada. Apenas aguardo ansiosamente o momento em que poderei estar cantando o próximo trecho da música.

"[...]

Já sei olhar o rio por onde a vida passa

Sem me precipitar e nem perder a hora

Escuto no silêncio que há em mim e basta

Outro tempo começou pra mim agora

[...]"

Sei que é estúpido ter pressa, sei que só tenho que ter paciência e que o tempo vai cicatrizar isso aqui dentro, mas é que o vazio dói demais. Não sentir nada é tão ruim, a indiferença mata por dentro aos pouquinhos.

Pauso a música no tablet, sento na cama e inspiro profundamente. Ao olhar para o lado, vejo meu celular sozinho e esquecido, vibrando loucamente como se fosse explodir a qualquer momento. Expiro lentamente e pego o aparelho, desbloqueando a tela em seguida. Mais de mil mensagens no cartagram, das quais lerei trinta no máximo.

Primeiramente, respondo Roberta que perguntava sobre que filmes iriamos ver amanhã — optando por Esquadrão Salva Vidas. Em seguida, verifiquei o grupo da faculdade, caso alguém tivesse dado algum aviso importante — tipo que o campus explodiu, não que eu estivesse desejando isso -, mas, nada além de papos sobre jogos. Dou uma passada rápida nas outras conversas, só pra ver quem tinha falado comigo, e me deparo com mensagens de Henrique — nada mais nada menos que o ex por quem sinto ódio absoluto — perguntando se eu poderia ser a dupla dele na cadeira de programação.

Respondi que já tinha dupla, bloqueei a tela e joguei o celular em qualquer lugar da cama de novo. Quase esqueci que pagaria três cadeiras junto com este indivíduo nesse período, provavelmente porque ele faltou a primeira semana de aula inteira.

E por que tamanho ódio dele? Bem, ele não fez nada. E foi justamente esse o maior problema. Tentando resumir um pouco, ele gostava de mim mesmo na época que eu ainda estava com o Breno. Cerca de dez dias depois de ter terminado com ele, estava num estado de espirito extremamente foda-se a sociedade, e acabei por me aproveitar de um ser humano que já estava em minhas mãos a tempos — no caso, o Henrique. Desde o inicio, deixei bem claro que não queria nada com ele, que queria apenas ficar um tempinho e depois tchau.

Porém, o individuo babaca não se conformou. Começou a dizer pra todo mundo que eu era namorada dele, mas, me tratar como uma que é bom ninguém quer. Ele apenas não se importava comigo de maneira alguma, parecia que me queria ao lado dele só pra exibir, só pra dizer "oi gente, tenho uma namorada", só pra ter alguém para momentos de carência e só. Sempre desprezou meus problemas, nunca deu importância em momentos como por exemplo quando eu estava doente, nunca esteve lá quando eu mais precisava dele. Não aguentei muito e me livrei deste ser, e até aí tudo bem, estava tranquila e tentando manter amizade com ele. Até que ele começou a se fazer de coitadinho pros nossos amigos, a forçar a barra pro meu lado como se nunca tivéssemos terminado, a querer saber da minha vida não por se preocupar, mas por pura curiosidade.

Eu sei que um dia ele vai significar absolutamente nada para mim mas, por enquanto, apenas tento controlar todo esse ódio sob controle.

Bem, continuar pensando tudo isso não vai me levar a absolutamente nada. Procuro meus materiais e, por fim, ponho tudo em cima da escrivaninha antes de começar a estudar. Afinal, se meu emocional está essa bagunça, não posso me dar ao luxo de permitir que a vida acadêmica fique tão bagunçada quanto.

Notas finais
Bem, próximo capítulo pretendo colocar alguns diálogos e talz.
Creio que não tem muito o que gostar até agora, mas espero que não tenham odiado.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.