Coisas Erradas

1 Capítulo Único


Quando Merlim e Arthur entraram nos aposentos do príncipe, a fúria era presente e perceptível no rosto do mais velho. Arthur poderia estrangular alguém e, como Merlim parecia ser o alvo mais próximo, seria ele mesmo.

- Pode tirar esse sorriso de escárnio do seu rosto – o príncipe quase rosnou para seu servo, que de servo só tinha o nome, porque a atitude era totalmente diferente.

- Não sei do que você está falando – ele respondeu sincero.

- Percebi muito bem quando você estava rindo de mim pelo o que o rei Mantis disse.

Foi apenas nesse momento que Merlim se lembrou e ai sim começou a rir. Ele tentou disfarçar, mas não conseguiu. O Rei Mantis era conhecido em todo o reino por seu impecável conhecimento sobre literatura, artes, todo o tipo de assuntos acadêmicos e que envolviam um mínimo de inteligência. Isso faria com que ele se desse muito bem com pessoas como Gaius e Merlim, mas com reis e príncipes que colocam a espada na frente de qualquer outro assunto e situação, ele normalmente parecia exibido e arrogante.

- Aquele velho idiota acha que é tão esperto porque decorou meia dúzia de versos de um poema qualquer. Como se isso fosse ajudá-lo quando um outro lorde colocasse sua espada contra o seu pescoço – Arthur ainda resmungava.

- Na verdade, mesmo você não teria muitas saídas se tivesse uma espada contra o seu pescoço.

A expressão de ódio no rosto de Arthur fez com que Merlim parasse de falar naquele exato momento e começasse a limpar o quarto.

Ainda nervoso, Arthur anunciou que gostaria de tomar um banho. E lá vai mais trabalho para Merlim prepará-lo. Tudo bem que Merlim adorava ver Arthur se banhar, mas isso não vinha ao caso.

Dentro da velha tora de madeira, Arthur pode literalmente esfriar a cabeça e pensar no que tinha acontecido. No começo pensou que estava se preocupando com uma besteira. E daí que ele não é o príncipe mais instruído do mundo? Seu pai também não era e vinha sendo um ótimo rei, certo? Sim, ele discordava de 80% das decisões do pai, mas não por o homem ser burro, mas por ser cabeça dura e, muitas vezes, ligeiramente cruel.

Contudo, logo em seguida, ele percebeu que talvez esse seja o centro do problema. Talvez Camelot tenha passado tanto tempo em guerra, se protegendo de outros reinos, de magia e de todos os outros tipos de ameaças porque ainda não tivera um rei capaz de fazer com que isso tudo acabasse, um rei inteligente o suficiente para manter o reino em verdadeira paz. Ele temia que esse rei não viria através dele também.

- Merlim – ele disse, de repente, dando um susto no pobre servo, — preciso de uma resposta honesta.

- Sim, senhor – ele respondeu, largando a vassoura que estava na sua mão.

- Estou falando sério, Merlim, resposta direta sem se preocupar em ferir o meu orgulho.

- Nunca me preocupo com isso, senhor – Merlin respondeu.

- Você me acha estúpido?

Merlin analisou bem a resposta que daria. As suas palavras a seguir poderiam definir se sua cabeça continuaria colada no corpo ou não. Apesar de que, o homem havia dito para ele não se preocupar com orgulho ferido.

O mago suspirou, pensando na melhor maneira de falar o que queria dizer.

- Não estúpido, mas desleixado, talvez...

Arthur o encarou e Merlin correu para se explicar.

- É só que... às vezes você fica tão focado em outros assuntos que não percebe o que está bem na sua frente.

- Talvez eu note as coisas, apenas não diga por não achar o momento oportuno – ele se explicou.

- Pode ser, mas eu... bem... nunca vi acontecer. Normalmente você só reage ao que acontece no momento que acontece e percebe as coisas quando alguém te explica.

- Então você está dizendo que eu sou estúpido? – Arthur acusou.

- Não! Apenas que... podia ser mais observador, talvez ler um pouco mais. Já notou como é a sua letra cursiva? O senhor me faz umas listas às vezes que eu simplesmente não consigo entender.

- Isso porque eu sou um príncipe que defende esse reino de forças inimagináveis, não tenho tempo para ler ou escrever cartinhas de amor.

- Até porque não teria para quem escrever – Merlin disse a contragosto.

- O que quer dizer com isso? – Arthur agora se levantou, seu orgulho aparentemente ferido. – Eu sou o príncipe Arthur de Camelot, poderia ter qualquer donzela que quisesse.

- Ainda assim não corteja nenhuma delas – Merlin deu de ombros. – É apenas uma das coisas que ninguém realmente entende a razão. E vai molhar mesmo o quarto todo?

- Não, apenas me cansei do banho – ele levantou os braços enquanto Merlin se aproximou com uma toalha. Ele passou o tecido pelos braços do príncipe, sentido o suave aroma de sua pele. Merlin balançou a cabeça, não deveria pensar em coisas desse tipo. Suave aroma de sua pele...

Ajudou o mestre a sair da tora e observou devagar cada músculo de seu corpo. Terminou de secar o homem e precisou de muita boa vontade para voltar a arrumar o quarto quando o outro decidiu trocar de roupa ali mesmo, na sua frente.

Enquanto isso, Arthur parecia pensativo, o que Merlin disse ecoando em sua mente. Ele poderia ter qualquer uma das donzelas, porque não se incomodava em cortejar nenhuma delas. O que havia de errado nele?

Deitou-se na cama ainda pensativo e, quando Merlin ia soprar as velas que iluminavam o quarto, Arthur se manifestou.

- Acho que eu sei por que não me importo com nenhuma das donzelas... – ele disse de repente.

Merlin ficou parado, encarando as velas, sem coragem de olhar para o príncipe.

- O que você...

- Talvez seja porque não quero nenhuma donzela. Isso é tão errado da minha parte? Olhá-las, achá-las deslumbrantes, mas meu desejo não passar disso?

- Não acho que... – o servo começou a gaguejar, — que tenha... algo de errado nisso.

Arthur mordeu os lábios, encarando Merlin. Ele deitado assim em sua cama era uma visão dos céus, que Merlin tentava esquecer ou desfocar, mas não conseguia.

O príncipe levantou e caminhou devagar até Merlin.

- Acha mesmo? Que não tem nada de errado desejar algo que todos diriam ser errado? – ele se aproximou mais, a tensão preenchendo o quarto.

- Acho – Merlin disse antes de sentir os lábios do loiro tocando os seus próprios lábios.

Os braços fortes do guerreiro o envolvendo, enquanto os músculos tocando o seu corpo. Nada ali era calmo, o desejo queimava na veia de ambos, a ansiedade pelo toque, pelo sabor, pelo calor do contato enchendo cada um deles. A distância da cama foi percorrida rapidamente...

Quando Arthur acordou, estava ofegante. Os lençóis molhados de suor e outro líquido inquietante. Ele sentou na cama, tentando respirar direito. Um único pensamento em sua mente: preciso parar de sonhar com Merlin.

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