Coisas De Garotos E Garotas
3 Capítulo 2 - Trote
Notas iniciais
Na segunda semana de aula, rolou o trote. Fomos pegos de surpresa numa terça-feira. Eu já esperava – eu e as meninas. Os veteranos entraram na sala e nos mandou para o banheiro – as meninas teriam que colocar o sutiã por cima da blusa e os meninos, a cueca por cima do short. Saímos de mãos dadas, por baixo da perna, intercalados – menino, menina, menino -, até o pátio. Rebecca olhava para os veteranos, temerosa. Tem 80 alunos na minha sala. Esperamos no pátio até que todos estivessem prontos e de mãos dadas ao restante do grupo. Assim que todos estavam no pátio, começou oficialmente o trote. Saímos da faculdade gritando “Todo calouro é burro!” de mãos dadas; os meninos sem camisa e nós, com arcos na cabeça.
A fila que se formava era enorme. Andamos até a praça que havia perto da faculdade, gritando, sendo zoados, com veteranos berrando em nossos ouvidos e os carros buzinando quando passávamos por eles. Bernardo estava a duas pessoas a minha frente, enquanto Bento, estava atrás de mim.
Caio, o menino que reconheci, estava atrás da Pilar e ela, a três pessoas atrás de mim. Chegando à praça, fomos instruídos a sentar no chão. Fizemos uma roda, Pilar e Rebecca se sentaram cada uma do meu lado.
- O que será que vão fazer? – perguntou Rebecca olhando de mim para os veteranos e vice-versa.
- Fiquei sabendo que eles usam ovos, farinha e leite no trote. E que temos que chupar um chokito. – ela me olhou com cara de nojo.
- Ai! Não quero fazer isso. – resmungou ela.
- Ora vamos, o trote é uma experiência importante pelo qual passamos na faculdade. Conhecemos com quem vamos conviver por dois anos e fazemos amizade. – discursou Pilar. Concordei com a cabeça e olhei em volta. Um veterano escolheu uma menina loira de cabelos curtos fazendo-a ficar de pé no meio da roda. Deram o chokito pra ela. Rebecca me olhou fazendo cara de nojo e ao mesmo tempo alivio.
- Você vai ter que chupar o chokito dando a volta e mostrando pra todo mundo! – falou um veterano. Mandaram-nos ficar de pé e a menina foi andando e chupando o chokito. Uma das veteranas apontou para Rebecca. Ela me olhou assustada e foi até a veterana.
- Tragam os ovos. – gritou a veterana. Um veterano trazia um menino – Caio – até onde Rebecca e a veterana estavam. Foram chamados mais duas meninas e um menino. Os dois garotos foram colocados um ao lado do outro. As meninas foram postas em frente aos meninos. Apontaram pra mim e eu fui até eles. Mandaram-me agachar ao lado de Caio. Rebecca estava em frente a ele.
- O que vão fazer? – perguntou ela.
- Você vai levar uma cusparada de leite na cara, se Caio for muito mau. E eu, ovos no cabelo. – falei, olhando para ela e depois para os veteranos.
- Como você de tudo isso? – perguntou-me ela. Dei de ombros, apenas. Chamaram Bernardo, que foi posto ao lado de Caio, bem a minha frente. Ovos foram colocados em nossas cabeças, segurados por Caio. O mandaram segurar o leite na boca, e Rebecca a enlaçar Caio com os braços.
- E então calouros, comecem a punhetação! – as meninas agachavam e subiam em frente aos meninos ainda com os braços enlaçados. Os ovos foram quebrados em nossas cabeças e o leite cuspido. Metade do leite foi no cabelo de Rebecca. Ela olhou para Caio com fúria nos olhos.
- Você podia ter cuspido por cima do meu ombro! – reclamou ela, empurrando Caio.
- Se não quer se sujar o que está fazendo aqui? – perguntou ele indo pra cima dela. Bernardo se pôs no meio, afastando Caio de Rebecca. – Mó patricinha mimada! – xingou ele.
- Seu energúmeno! – falou ela. Peguei-a pelo braço, tirando-a de perto de Caio.
- Você tá aqui pra se sujar ou não? – perguntou uma das veteranas para Rebecca, aproximando-se de nós.
- Vou ficar com cheiro de leite durante a semana toda. – resmungou ela.
- Não só com cheiro de leite. – a veterana virou-se para um dos amigos, pegou os ovos e indo até Rebecca, estourou um ovo na cabeça dela. – Agora vai ficar com cheiro de ovo também. – Rebecca fez cara de choro, mas não deixou nenhuma lagrima escorrer. Voltou para a roda, sentando-se junto com os demais. Acabei voltando também e sentando ao seu lado. Pilar catava uma bala tic-tac num pote cheio de farinha, e outros calouros esperavam para fazer o mesmo. Na quinta tentativa, um deles achou.
No final, todos estavam ou sujos de ovo, ou de farinha, ou de leite. Um veterano chegou com um saco e de lá tirou as tintas. Pintaram-nos, fazendo desenhos. Tinta foi jogada no meu cabelo. Meu short estava do lado do avesso, minha regata amarela estava salpicada de tinta azul. Meus braços tinham listras roxas, rosas e pretas. Tinta branca escorria pelo meu cabelo. Minhas pernas estavam roxas. Rebecca e Pilar também estavam pintadas. O sutiã de ambas continham cores que ao todo formavam um arco-íris. Foram dados copos e estimaram que devêssemos voltar com no mínimo 30 reais. E lá fomos nós.
Pilar e Rebecca se juntaram a mim e fomos até a praia que tinha atrás de nossa faculdade. Caminhávamos e parávamos todos que passavam pela gente. Consegui algumas moedas com uns senhores que passaram por mim. Parei uma menina e consegui uma moeda de 10 centavos. Passou-se uma hora que estávamos andando e pedindo dinheiro. Nosso copo estava cheio de moeda. Decidimos então voltar pro bar onde os veteranos estavam.
Um grupo de meninos veio na minha direção, Pilar estava ao meu lado e tentava tirar um pouco de tinta que havia em seu umbigo. Eu segurava seu copo e ela, segurando sua blusa com a boca, tirava com a unha a tinta. Fomos obrigadas a parar quando o grupo parou e não nos deixou passar.
- Hm, calouras. Estudam aonde? – perguntou um loiro. Pilar parou o que estava fazendo e ainda segurando a blusa com a boca, olhou para mim e depois para os meninos. O loiro sorriu e levantou as sobrancelhas.
- A única faculdade que tem aqui por perto. – respondi, em tom grosso. Os garotos riram e nos encaravam.
- Querem moedas? – perguntou outro. Eu ia responder, mas Rebecca apareceu atrás de nós do nada.
- Vamos voltar? – perguntou ela sem olhar para os moleques.
- Opa, agora estamos em par. – comentou o terceiro. Revirei os olhos, dei as costas pros garotos segurando as meninas pelos braços e voltei para o bar de onde saímos – onde os veteranos nos esperavam para contar o dinheiro. Os garotos nos seguiram. Chegando ao bar, entregamos os copinhos com as moedas para a veterana que havia tacado ovo em Rebecca. Ao todo conseguimos 90 reais. Passamos pela barreira que haviam feito com as mesas, onde seria realizado a choppada. Pegamos nossas bolsas e saímos. Um dos veteranos nos chamou:
- Ei, não vão ficar? – perguntou. Olhei para as meninas.
- Querem ficar? – Pilar me olhou e deu um sorrisinho travesso: ela queria. Olhei para Rebecca. Seu cabelo, amarrado num coque, beirava a podridão, com ovo e leite.
- Não sei gente. – disse ela.
- Qual é, fica! – pediu Pilar. – Você já tá toda suja mesmo, qual o problema em ficar mais um pouco assim? – Rebecca franziu a testa e olhou para o veterano.
- Fica aí caloura. – pediu ele. Acabamos entrando novamente no espaço que foi designado para a choppada, jogamos nossas bolsas no chão e pegamos umas cervejas. Já estávamos na nossa terceira cerveja – cada uma – quando Bernardo e Bento chegaram. Bento sorriu ao me ver, entrou, pegou uma cerveja e veio até nós. Bernardo pegou uma cerveja e foi conversar com um veterano.
- Tem tempo que vocês estão aqui? – perguntou Bento.
- Não, têm uns quinze minutos. – respondeu Pilar. Ficamos conversando por um bom tempo, até que Bernardo se juntou a gente.
- Será que rola uma sueca? – perguntou ele sorrindo para Bento.
- Tá de saca, né irmão? Olha quanta mulher e você querendo jogar sueca. Seu gay! – disse ele, olhando-nos e rindo. Bernardo o mandou “tnc” e olhou pra mim, bebericando de sua cerveja.
As horas foram passando e o espaço estava diminuindo. Quanto mais gente chegava, maior era minha vontade de sair dali. Eu já havia bebido demais, tudo rodava. Eu era fraca demais para cerveja, não sei por que havia ficado. Pilar estava tão animada conversando com Bento que não quis atrapalhar. Rebecca ria de algo que Bernardo dissera, ele me lançava olhares de vez em quando. Eu estava encostada na parede do bar, com um copo de cerveja na mão, tentando ao máximo respirar. Eu sentia cheiro de cerveja a cada lufada de ar que vinha na minha direção. Eu precisava sair dali, aquilo estava me sufocando. Minha cabeça rodava e estava com falta de ar. Tinha muita gente ali, rindo, conversando, dançando — onde não havia espaço -, bebendo, se pegando. Deixei o copo em cima de uma das mesas e fui abrindo passagem entre a galera. Notei que Bernardo me olhava e franziu a testa ao me ver sair dali as pressas. Conseguindo, finalmente sair, fui para rua e recostei-me num dos cantos do bar. Fechei os olhos. Tudo girava. Senti mãos em meu ombro e abri os olhos, tomando um susto.
- Você está bem? – perguntou Bernardo com seus olhos pretos em cima de mim, cheios de preocupação.
- Está tudo girando. – respondi. Senti minha cabeça pesar. Bernardo segurou minha cabeça, fazendo-me abrir os olhos e olhá-lo.
- Acho melhor você ir pra casa. – disse ele. Acabei sorrindo sem perceber que sorria. – Você fica linda sorrindo. – o ouvi dizer. Meus olhos se fecharam de novo. – Marina, acorda! Não durma. Vamos, tem alguém pra te acompanhar até em casa? – franzi a testa e o olhei.
- Pilar mora perto de mim, mas não sei onde ela está. – falei, olhando para onde a multidão se instalara.
- Onde você mora? – perguntou ele.
- Laranjeiras.
- Certo, pelo menos é perto. – ele olhou em volta, suas mãos me aparavam. – Consegue ficar aqui sem cair? Ou sem dormir? – assenti e ele sumiu da minha frente. Minha cabeça girava. A segurei entre as mãos. Meu estomago doía. Quero ir pra casa. Bernardo voltou sozinho. – Pilar sumiu. – falou. — Disseram que a viram com Bento, mas, não sabem muito bem onde os dois estão. Bom, eu vou te levar pra casa.
- Não, espere... preciso falar com a Pilar, saber se ela está bem... onde ela está? E Rebecca?
- Rebecca está bem. Está falando com Caio, parece que se acertaram. Da ultima vez que a vi estava engolindo ele. – disse, e acabou rindo. Meus olhos se fecharam. – Ok, vamos. – ele me segurou pela cintura fazendo-me mover os pés. Notei que segurava minha bolsa e sua mochila. Passou meu braço em volta do seu pescoço e sua mão apertava minha cintura. Fomos até o ponto de ônibus.
- Onde você mora? – perguntei.
- Catete. – disse ele.
- Não precisa me levar em casa, já estou melhorando. Eu só precisava de um pouco de ar. – minha respiração já voltava ao normal e minha cabeça já não girava tanto.
- Está tudo bem. Você é um bom motivo pra sair de lá. – disse ele me encarando.
- O que vai falar pro Bento? – meu ônibus estava vindo e levantei o braço fazendo sinal, acabei cambaleando e Bernardo me segurou. O ônibus parou, peguei meu bilhete único e subi no ônibus, com Bernardo atrás de mim, me ajudando. Passamos pela roleta e sentamos no meio do ônibus — eu me joguei no banco. Bernardo me olhou e deu um risinho.
- Você é fraca mesmo pra bebida. – comentou.
- Só com cerveja. Me faz mal.
- Então por que bebe? – perguntou, virando-se totalmente pra mim.
- Só passei da conta hoje, acontece. – os sacolejos do ônibus não estavam me fazendo bem. Fiquei enjoada. – O que vai falar pro Bento? – perguntei de novo.
- Sobre o que?
- Sobre seu sumiço. – abri a janela torcendo para que o ar gelado fizesse com que meu enjoo passasse.
- Ele estava entretido, não vai sentir minha falta.
- Está falando dele com a Pilar? – perguntei. Passei a mão pelo rosto. Eu estava mesmo enjoada.
- É. Eles estavam se divertindo. Quando passamos pelo bar os vi juntos, ela estava bem. E não se preocupe sua amiga não corre perigo, ele é um cara maneiro. – ele sorriu. Assenti. Chegando, finalmente no ponto que eu devia descer, me levantei puxando a cordinha. O ônibus parou e descemos. Eu não aguentava mais. Fui até um canteiro e vomitei. Vomitei toda a cerveja. Senti mãos em meus cabelos o afastando do meu rosto. Apoiei-me na árvore e botei tudo pra fora. Quando senti que não havia mais nada para vomitar, me levantei. Limpei minha boca na blusa mesmo, dane-se. Fui até o meio fio e me sentei. Meu coração palpitava em meu peito. Eram 20h da noite e eu estava ali, sentada ao meu fio, com Bernardo de pé atrás de mim, esperando que eu melhorasse. Ele, por fim, acabou sentando ao meu lado. – Você está melhor?
- Eu sinto muito por isso, sinto mesmo. – olhei pra ele. — Meu estado deve estar deplorável. – eu estava suja de tinta, meu cabelo parecia uma palha, e meu bafo de vomito era broxante. – Nunca mais eu vou beber. – prometi a mim mesma.
- Todos falam isso depois do primeiro pt. – disse ele. – Você tá bem pra caminhar, ou precisa vomitar mais? – neguei com a cabeça e levantei. Levantando-se, Bernardo pegou minha bolsa e me acompanhou até em casa.
Chegando, me entregou a bolsa e colocou as mãos nos bolsos.
- Desculpa mesmo pelo que você viu. – resmunguei. Ele riu. – Do que está rindo?
- Qual é Marina, parece que isso nunca aconteceu com ninguém. Você está tratando isso como um crime. Relaxa. – disse ele, dando de ombros.
- Mas foi nojento.
- Não vou dizer que foi a cena mais emocionante da minha vida, mas, deixa pra lá. Só espero que você esteja bem.
- Estou bem, estou bem melhor. – afirmei, olhando em volta. – Obrigada por me trazer em casa, valeu mesmo. – cambaleei e ele me segurou. – Bela maneira de começar uma amizade.
- Que isso, tudo bem. – ele me fitava e deu um sorrisinho de lado. – Só me prometa que não vai me fazer ver uma cena daquela novamente – ele riu passando a mão pelo cabelo. Fiz uma careta com nojo de mim mesma. – Estou brincando, não se preocupe com isso. Bom, a gente se vê amanhã. – se despediu e esperei ele virar a esquina para entrar em meu prédio.
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