Coisa da Vila
1 Capítulo Único
Notas iniciais
É apenas algo que escrevi..
Fazem anos desde postei uma história por aqui...
Escrevi de um ponto de vista diferente..
Espero que goste ☺
Fazem anos desde postei uma história por aqui...
Escrevi de um ponto de vista diferente..
Espero que goste ☺
A luz fraca do amanhecer o rapaz se levanta um tanto sonolento as seis, arruma-se rapidamente, pede a bênção de sua mãe e se despede de sua irmã mais nova que ainda se arruma para ir para a escola.
Ele sai em busca de trabalho, em busca de uma vida melhor, mais digna. Ele se lembra do choro da irmã mais nova, com fome, envergonhada por ter que pedir o que comer aos vizinhos, que de bom grado dividiam o que tinham sem pedir nada em troca mas o orgulho ferido ia além da dor em seu estômago.Enquanto caminha pelos becos segura seu diploma firme nas mãos, junto ao dinheiro da condução, espera que a entrevista de emprego, tão esperada, lhe dê um futuro melhor. Na cidade, tão diferente de sua vila, as pessoas tem olhares hostis, expressões mau humoradas e muita pressa para se afastar dele. Sua roupa não é das melhores, algo que sua mãe conseguiu num bazar, seu tênis está gasto, um pouco rasgado mas limpo, ele não se importa mas as pessoas que o entrevistam sim."Colégio ruim." Dizem, só se esquecem que é o único que ele teve acesso. "Mora numa favela!?" O olhar de reprovação só não é pior que o olhar que dão ao seu tom de pele.Ele cansou da humilhação, tantas entrevistas e nenhum emprego, nenhuma saída. De volta ao seu lar um amigo lhe oferece um emprego, de olheiro, que paga melhor que o emprego no centro da cidade, que ele perde por "não se encaixar nos padrões da empresa". Sua mãe, cansada e velha, não pode trabalhar, sua irmã é muito jovem e seu pai, desse ele nunca soube, o pouco que o governo dá é mais parecido com as esmolas que ele pedia com sua mãe quando era mais jovem. Aceita o emprego receoso mas o dinheiro é necessário. "Dinheiro sujo" sua mãe grita aos prantos, sua irmã observa de longe, triste, calada. O "dinheiro sujo" paga as contas, compra comida, material escolar de sua irmã, remédios para sua mãe, calçados e roupas novas, coisas que antes eram raras.Os moradores olham para ele com receio no começo mas depois o receio é substituído por respeito, respeito que as pessoas que vem de fora do morro não demonstram.Sua mãe, cada vez mais doente, e sua irmã mais calada, se afastam mas ambas de barriga cheia. Aos poucos sua irmã volta a falar e sua mãe melhora, tomando todos os remédios. A vida é mais fácil, até que ele segura uma arma, fria e pesada em sua mão, suas mãos estão tremulas enquanto aponta para o homem que diz não ter como pagar a dívida, as dívidas precisam ser pagas, aquele homem pagou com a vida. É rotina matar. É rotina ver o respeito dos moradores. É rotina ter mulheres em sua cama, embora as únicas que lhe importam são sua mãe e sua irmã. Sua rotina muda quando policiais sobem o morro, eles chamam de "pacificação" mas continuam atirando, dando ordens e com o mesmo olhar hostil que ele recebeu tantas vezes.Eles o chamam de vagabundo, bandido e dizem que ser traficante era escolha. Escolha ele não teve, ninguém quis empregar um garoto negro, podre e vindo da periferia. Sua mãe estava doente, sua irmã tinha fome e ele, além da fome, tinha frustração, humilhação e raiva acumuladas numa vida de miséria, então aquela vida foi sua única saída. A televisão não mostra a miséria, o jornal não relata a humilhação de quem vem de onde ele veio.Um.Dois. Três.Quatro.Quatro tiros, morto em um tiroteio, a irmã e a mãe choram no caixão enquanto os vizinhos sussurram o quão jovem ele era, quantas oportunidades perdeu, seus amigos atiram para o alto, prometem vingança. Ele nunca será vingado. Sua família voltará a miséria. Oportunidades nunca teve. E respeito, que ele tanto queria, não vão ter por quem vem de onde nós viemos.
Notas finais
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