Coexistência
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Há coisas na vida que não fazem muito sentido, no caso da minha, ela em si não faz algum. De uns tempos pra cá, entendi que não é preciso procurar explicações, conceitos, sentimentos, emoções, frustrações... Essas coisas simplesmente aparacem quando você está quase desistindo de tudo. A vida é uma eterna prova de resistência, e nós, seres humanos, somos apenas piões nesse tabuleiro gigante que termina na morte.
Não costumo falar muito sobre mim, então posso ser qualquer coisa. Ainda não tenho câncer, mas ja tive depressão. Não sou estrangeiro, mas me chamo Fredderick, conhecido como Fred, ou Frederrota, como eu mesmo me chamo. Não tenho medo de quase nada, só de sair do quarto e me deparar com o mundo fora da minha realidade alternativa. Sou quase cego, mas na verdade queria ser cego porque sinto que ninguém me enxerga mesmo, então seria bom ficar de igual pra igual. Isso é tudo sobre mim, fora isso sou um ser humano comum, que respira, come e dorme, mas não muito.
Bem, a questão é que houve um tempo, belo tempo, em minha vida que eu fui muito feliz por causa de uma garota. Minha vida ao lado dela era puro efeito LSD, se é que vocês me entendem. Foi muito bom e assustadoramente ruim viver esses dias contados que agora são apenas fragmentos de felicidade, dor, tudo e nada.
Ponto de Partida
Eu estava de saída, indo viajar, conhecer novos horizontes. Era muito importante pra mim essa saída meio que repentina da casa dos meus pais. Mal acabei o ensino médio e avisei logo que queria mochilar na europa. (Minha mãe falara que eu tinha o direito de chamar como quiser, mas ela queria custiar toda essa aventura, e que eu tinha que levar comigo um cartão de crédito sem limtes.)
"Mãe, pai, está na hora" eu disse enquanto ajeitava a mochila nas costas e saía pela porta com um sorriso no rosto.
"Filho, sua tia mora em Lisboa, por favor, passa ao menos alguns dias la com ela." disse mamãe procurando as chaves da casa na sua bolsa que era maior que minha mochila.
"Pai, diz pra mamãe que eu tenho quase 19 anos." eu disse enquanto me abaixava para amarrar o cadarço.
"Ele tem quase 19" disse meu pai enquanto dava um enorme suspiro e desligava o alarme do carro. (Meu pai era muito calado, e eu sabia que isso era uma auto sensura, ele se privava de demonstrar emoções. Seu poder de percepção era incrível e eu sempre gostei de ter herdado isso dele.)
"Vamos!" eu disse cheio de entusiasmo já entrando no carro.
No caminho até o aeroporto, tudo estava estranho. Eu estava muito nervoso, meu pai parecia normal e minha mãe só sabia chorar.
"Calma, mãe, eu não vou morrer. Esqueceu que seu Fred aqui está crescendo? Isso não pode se evitar. Preciso dar um up na minha vida, ou morro daqui uns dias, deitado no minha cama"
Meu pai me olhou pelo espelho do carro.
"Se morrer vai ficar lá mesmo porque é muito caro pra trazer o corpo" disse meu pai com um tom sério, mas logo sorriu.
Chegando ao aeroporto, meu vôo já estava para sair. Mamãe se desesperava mais e mais. Meu pai me dava breves olhadas rápidas, como quem dissesse "Eu posso não dizer nada, mas é somente porque não consigo verbalizar as palavras. Eu sei que vou chorar alguma hora". O clima estava tão pesado que parecia um velório, eu já estava quase chorando.
"din don" meu vôo sendo anunciado na tela.
"Mãe, até daqui alguns meses. Prometo escrever e mandar fotos. Eu te amo e vou sentir saudades, de verdade" abracei minha mãe fortemente enquanto ela chorava no meu ombro direito. Passamos alguns segundos alí e fui até meu pai.
"Ô, pai..." disse enquanto via cair uma lágrima. "Não chora, logo estarei de volta, menos tristes e renovado com a vida. Eu ainda nem saí daqui, mas já sinto bem, imaginem quando eu voltar"
Meu pai deu dois tapinhas em minhas coisas e eu embarquei.
Despedidas são uma droga. Eu tava segurando todo o choro, não queria parecer mais bobo do que já sou. Então eu fui, fui sem olhar para trás, para não ter vontade de sair correndo para os braços da minha mãe, para não ter vontade de ouvir papai tocando piano para me acalmar, para não ter vontade passar horas na minha cama olhando para o teto sem fazer nada. Chega! Essa vida que eu levava não era mais minha, eu estava morrendo psicologicamente e precisava deixar tudo para trás se quisesse sobreviver. Então eu fiz.
Já no avião, sentei na janela. A janela não era o meu lugar, mas passageiro da poltrona ao lado não chegara até então. Depois de estar certo que ficaria na janela, ouço uma voz:
"Desculpa, mas acho que esse é o meu lugar" disse a dona do lugar.
"Opa, eu peço desculpa. Pensei, que não fosse chegar" levantei e a deixei sentar.
"Eu deixaria você ficar aí se eu não fosse tão apaixonada por paisagens. Tenho que aproveitar cada uma como se fosse a última"
Eu sorri e ela correspondeu. Sentamos e logo começamos uma conversa.
"Bem, eu sou Diana, mas pode me chamar de Di. Ninguém me chama assim, mas bem que eu queria"
"Sou Fredderick, mas pode me chamar de qualquer coisa" sorri.
"Tudo bem então senhor-qualquer-coisa" ela sorri.
O avião decolava e, sem perceber, ela segurou minha mão enquanto isso, mas logo soltou sem nem sequer se dar conta de nada. Eu não estranhei nem nada, só a olhei rapidamente.
Horas e horas de vôo até que finalmente ela abre a boca para puxar assunto.
"Então, senhor-qualquer-coisa, o quê farás em Lisboa?"
"Vou dar um alô para uma tia e só, depois disso vou começar a minha jornada pela europa"
"Não brinca!" ela falou toda feliz. "Eu também vou mochilar!"
Sorri achando aquilo tudo muito legal e no mínimo inusitado. Ela ficou muito alegre e dava para notar.
"Nossa, então já tenho uma companheira, é isso?" sorri.
"Isso mesmo, e eu também, não acredito"
Okay, que tipo de pessoa sai sozinha de casa para mochilar na europa?
R: o tipo de pessoa que se chama Diana ou Fredderick.
Depois daquela pequena conversa, eu estava muito entusiasmado com tudo que estava por acontecer. Eu sabia que não iria sair nada como planejei, seria infinitamente melhor.
Fale com o autor