Coexist
22 Capitulo 22
Notas iniciais
Eu sorri antes mesmo de abrir os olhos. Podia sentir o cheiro e o calor do corpo de Temari enroscado no meu. Depois de cinco dias longe, aquela era uma sensação indescritível. Senti uma mão no meu cabelo, fazendo carinho, e finalmente abri os olhos, encontrando dois mares esverdeados me olhando.
—Bom dia. –ela disse.
—Bom dia –respondi, a voz rouca pelo sono –Acordou faz tempo?
—Faz algum. –ela respondeu –Mas você não deixou eu levantar.
—Não deixei? –perguntei confuso.
—Não. –ela respondeu e riu, corando. –Eu tentei sair do seu abraço e você me apertou mais forte... Então eu desisti, está bom aqui de qualquer forma.
Eu sorri pra ela.
—É, está bom mesmo... –murmurei, fechando os olhos e afundando o rosto na curva do pescoço dela –Ta chovendo ainda.
Era uma constatação. O barulho de chuva lá fora era alto e estava relativamente frio do lado de fora do coberto, como constatei quando pus o braço pra fora, logo voltando-o para dentro da coberta novamente.
—Está. –ela respondeu, mesmo sem necessidade. –Ta cedo também...
Levantei a cabeça e olhei para o relógio na escrivaninha. Ela tinha razão, mal tinha amanhecido.
—Vamos dormir mais um pouco então. –resmunguei.
Ela concordou com um aceno de cabeça e se aproximou mais de mim. Meus braços já estavam ao redor dela e ali permaneceram. Peguei no sono logo que fechei os olhos.
OoOoOoOoOoOoOo
Lembro vagamente de sentir Temari deixando meus braços em algum momento e, quando acordei, eu estava mesmo sozinho. Levantei depois de alguns minutos em que eu conseguia escutar apenas o barulho da chuva, sem qualquer sinal de Temari em casa.
Procurei-a pelos cômodos e não achei. Olhei pela janela, a chuva estava forte, ventava. Franzi o cenho, me perguntando onde aquela kunoichi maluca poderia ter ido com esse tempo. Fui até a cozinho novamente e ela tinha deixado o café-da-manhã preparado pra mim, mas o chá já estava frio. Olhei no relógio na sala. Era quase hora do almoço. Eu tinha dormido demais.
Estava com fome, então comi o que ela deixou e lavei a louça que usei e a que tínhamos deixado no dia anterior. Coloquei as roupas que eu tinha usado durante a missão para lavar e sentei no sofá, me perguntando novamente onde diabos Temari tinha ido sem me dizer nada. Fiquei alguns minutos ali, olhando do relógio para porta, até que me convenci a levantar e ir escrever o relatório da missão que eu, como líder do esquadrão, tinha que apresentar para o Hokage. Fui até a escrivaninha em meu quarto e lá sentei, puxei um pergaminho e comecei a escrever. A tarde foi se arrasando entre alguns rascunhos e minha preocupação com Temari só aumentava conforme a tarde se transformava em noite. Não que eu achasse que algo de grave podia ter acontecido com ela, Temari era uma kunoichi forte e mesmo que tivesse saído das dependências da vila dificilmente algo a pegaria desprevenida ou algo assim. Mas eu não podia deixar de me preocupar com sua demorar e de me irritar com o fato dela ter saído e não ter me avisado pra onde ia. O relatório da missão maçante também não ajudava a me manter de bom humor e mesmo que eu tentasse racionalmente dizer pra mim mesmo que eu não precisava me preocupar com Temari, eu continuava preocupado.
A chuva parou quando o sol começou a se pôr e eu observei da janela da sala onde eu fumava os tons de rosa, laranja e vermelho se misturarem no céu. Comecei a pensar em o que eu faria se Temari não voltasse até mais tarde, meu peito se apertava. Eu queria sair para procura-la, mas não tinha nem mesmo ideia da onde ela poderia estar. Voltei para o relatório depois de terminar o cigarro e conclui as últimas linhas. Suspirei pesadamente, olhando no relógio. Kakashi ainda estava em seu escritório essa hora. Eu podia sair e ir entregar o relatório e procurar Temari pelo caminho, sem parecer que de fato eu estava procurando. Bufei, subitamente mais irritado. Eu não tinha que me preocupar com o fato dela achar que eu acho que ela não sabe se defender sozinha numa situação dessa. Tinha sido ela a sair sem me falar nada e me deixado o dia inteiro me perguntando onde ela estava. Ela não tinha o direito de ficar irritada comigo caso eu aparecesse procurando-a.
Comecei a andar de um lado para o outro dentro de casa, bolando um esquema da vila em minha mente para saber onde eu podia começar a procura-la. Quando eu finalmente estava pronto para sair atrás dela, a porta se abriu e Temari entrou.
Ela me olhou com um sorriso leve. O cabelo estava preso nos dois rabos de cavalo, mas estava bagunçado e um pouco sujo. O quimono que ela usava estava meio molhado, como se ela tivesse tomado chuva até a hora que ela parou, o leque estava atado em suas costas, aparecendo por cima de seu ombro e ela tinha uma sacola do Ichihaku na mão.
—Tadaima. -ela disse pra mim, que estava parado no meio da sala a olhando.
Alivio me invadiu por um pequeno instante antes de toda a irritação voltar com força.
—Onde você estava? -perguntei transparecendo toda irritação em minha voz.
O sorriso dela se desfez.
—Porque você está falando desse jeito comigo? -ela perguntou fechando a porta atrás de si.
—Porque eu estou falando com você desse jeito?! -repeti sua pergunta, indignado -Eu estava a ponto de revirar a vila atrás de você!
Ela levantou uma sobrancelha pra mim.
—Por quê? -perguntou confusa caminhando até a cozinha.
Eu fui atrás dela. Ela colocou a sacola com o que provavelmente era nosso jantar em cima da pia enquanto eu respondia:
—Você saiu de casa sei lá que horas e não disse onde ia! -ela se virou para mim -Eu acordei sem sinal seu e você sumiu o dia inteiro!
—Você parecia cansado ainda, não quis te acordar. -ela respondeu e franziu o cenho -E ainda não estou entendendo porquê você está falando nesse tom comigo.
—Temari -chamei, a irritação subindo a cabeça — Você sumiu o dia inteiro sem se dar o trabalho de me dizer onde ia!
— Eu sei o que fiz ou deixei de fazer, Shikamaru. -ela resmungou – Mas isso ainda não explica por que você está tão irritado.
—Eu fiquei o dia inteiro igual idiota me perguntando onde você estava. -respondi -Droga, Temari! Eu fiquei preocupado!
—Preocupado com o que? – Ela perguntou, pude notar que ela estava se irritando com jeito que eu estava falando com ela, mas isso só me deixou mais zangado. – Agora eu sou uma moça indefesa que não pode nem sair de suas vistas sozinha?
—Não é questão de você sair sozinha, Temari. -expliquei sem muita paciência – Mais de eu saber onde você estava.
—Pra que você precisa saber? -ela continuou com a ironia – Pra me salvar caso eu precisasse?
—Temari, você está distorcendo o que eu estou falando! -esbravejei.
—Eu estava treinando com a Niyla. -ela respondeu, também sem paciência -Baki-sensei me pediu para ajudá-la a treinar para a terceira fase do exame no dia que você saiu naquela missão e desde então estou treinando com ela todo os dias.
— Eu sou adivinho pra saber disso? -perguntei irônico – Você não me disse ontem nada sobre o que fez nos dias que eu estava fora.
—Claro -ela respondeu também irônica – Você estava mais preocupado com outras coisas do que conversar.
— Você não está dizendo que a única coisa com a qual me preocupe quando cheguei foi em transar com você, está? -respirei fundo.
Ela corou de leve, mas cruzou os braços e disse:
— Se é o que você entendeu, deve ter algum fundo de verdade, né?
Passei a mão no rosto, sem querer acreditar que ela estava falando aquilo.
—Você sabe que isso não é verdade. -respondi por fim e corei também ao dizer: -Até porque, você parecia bem empolgada com a possibilidade também.
Ela corou mais, mas não mudou o tom ao responder:
—Isso não muda o fato que foi a primeira coisa que você pensou quando pôs os pés em casa.
—Isso também não muda o fato que você mais que depressa quis também. -cruzei os braços e emendei antes que o assunto continuasse desviando: -E nós conversamos enquanto jantávamos, você podia ter me dito.
—Que seja. -ela declarou e descruzou os braços, batendo com as mãos nas laterais de seu corpo e passando por mim de volta pra sala.
—Temari! -chamei indo atrás dela e ela se virou.
—O que é? -ela perguntou irritada.
—Você não tem o direito de ficar brava comigo! – Eu exclamei – Foi você que saiu sem dar satisfação de onde ia!
—Agora você sabe onde eu fui. -ela respondeu.
—Agora eu sei depois de passar o dia inteiro pensando onde diabos você se enfiou!
—Ta, Shikamaru! -ela esbravejou –E desde quando eu te devo satisfação de onde eu vou ou deixo de ir?
Encarei-a com o cenho franzido alguns segundos, surpreso com sua pergunta. Demorei um pouco para conseguir responder, indignado o que ela estava dizendo aquele tipo de coisa.
— Desde que você está praticamente morando na minha casa? -perguntei irônico. -E desde que você é minha namorada e eu me preocupo?
—Sou sua namorada, não sua filha ou sua propriedade. -ela respondeu -Não sou obrigada a te dar satisfação. Nem se eu fosse sua esposa, ainda assim eu não seria obrigada a isso.
—Você e eu estamos morando na mesma casa! É uma questão de consideração, Temari! -eu já estava ficando cansado de tentar explicar pra ela algo que era obvio.
—Se isso faz com que eu deva te dar satisfação, eu vou pra droga de um hotel! -ela determinou e já se encaminhou para porta -Depois venho buscar minhas coisas.
Bufei, sem acreditar no que ela estava fazendo. Ela alcançou a maçaneta, mas não abriu a porta, minha sombra se fundindo a dela, a paralisando.
—Shikamaru -escutei sua voz me chamar, era contida, mas estava furiosa. -Me solta a-go-ra!
—Você vai resolver as coisas dessa forma? -perguntei sem desfazer o jutsu.
—Eu mandei você me soltar! -ela esbravejou mais alto.
Fiz ela soltar a maçaneta e virei de costas, fazendo ela se virar também. Desfiz o jutsu e a encarei, os olhos verdes queimavam de raiva.
—Você vai resolver as coisas dessa forma? -repeti a pergunta.
—O que diabos você quer que eu faça? -ela voltou a esbravejar.
—Não sei. -bufei- Mas qualquer coisa que não seja dizer que vai embora na primeira discussão que nós tivermos!
Ela me encarou. Ao mesmo tempo que eu estava magoado com sua atitude e deixei isso bem claro com o meu tom de voz, aquilo era um desafio. Eu não estava jogando. Estava chamando ela de covarde com todas as letras. Nossos olhos se encontraram, queimando um ao outro, irritados, ao mesmo tempo que avaliávamos pela primeira vez desde que aquela discussão começou qual seria o próximo passo.
Ela se afastou da porta e veio em minha direção, apontou o dedo pra mim e sibilou:
—Nunca mais! Nunca! Ouviu bem?! Nunca mais use seu jutsu contra mim dessa forma.
Então virou as costas pra mim e entrou no banheiro batendo a porta com um estrondo que ecoou por todo apartamento.
Suspirei, frustrado e irritado. Eu não queria ter discutido com ela. Eu conhecia Temari o suficiente para saber que ela se irritaria com a forma que falei com ela e acabaríamos discutindo. Mas eu também era humano e ela não estava certo em fazer o quê fez. Pelo menos, por orgulho ou razão, ela não tinha saído da casa igual uma doida por causa dessa briga idiota.
Foi até a cozinha e olhei dentro da sacola que ela trouxe. Dois lámens. Eu as vezes não conseguia entendê-la. Ela teve a consideração de trazer comida para mim, mas não pode simplesmente me avisar que ia sair e passar o dia fora. Eu bufei, mais frustrado, menos irritado, e arrumei a mesa na sala pra comermos.
Ela saiu do banheiro de toalha e carregando o leque. Eu acho engraçado, mas não senti vontade de rir. Ela fechou a porta do quarto mais delicadamente do que a do banheiro, mas ainda assim bateu. Quando ela saiu, foi direto pra cozinha, sem olhar pra mim.
—A comida está aqui, Temari. -chamei.
Ela voltou para sala e me encarou por um momento antes de sentar e começar a comer. Comemos em silêncio, cada um remoendo a briga na própria cabeça. Ela terminou de comer primeiro e levou sua louca para pia. Eu terminei tão logo ela saiu da cozinha para o quarto e levei a minha.
Eu estava saindo da cozinha e ela saiu do quarto com meu travesseiro e um coberto nas mãos e me estendeu-os.
— O que é isso? -perguntei franzindo o cenho.
— Não vou dormir na mesma cama que você. -ela explicou ainda irritada -Você dorme no sofá.
Levantei uma sobrancelha.
— Eu não vou dormir no sofá -disse -Você que está incomodada com a minha presença. Eu não dou a mínima se você vai dormi comigo, mas eu vou dormi na cama.
Não era verdade. Eu me importava sobre onde ela ia dormir e eu não queria dormir sem ela, mesmo brigados. Ela respirou fundo, parecendo morder a própria língua.
—Ótimo. -ela declarou e voltou para o quarto, trocando o meu travesseiro pelo seu e passando por mim -Eu durmo no sofá, então.
Bufei, passando as mãos no rosto, sem acreditar que ela ia querer discutir novamente.
—Para de graça, Temari. -eu pedi indo atrás dela.
—Você disse que não dá a mínima se eu durmo ou não com você. -ela disse já jogando o travesseiro e o coberto no sofá -Então me deixa em paz.
—Não tem a mínima necessidade de você dormir no sofá. -continuei, ignorando o que ela disse. -Vai pra cama.
—Não.
—Eu durmo na merda do sofá, Temari. -esbravejei já cansado daquilo -Só vai pra cama.
—Não. -ela repetiu -Não sou de cristal e você pode parar de dar uma de cavalheiro pra cima de mim. Quem vai dormi no sofá sou eu, fique você na sua cama.
Bufei de novo. Entrei para o quarto e me troquei, vestindo a roupa que eu usava como pijama. Arrumei as coisas que eu precisava levar para Kakashi no dia seguinte e peguei meu travesseiro e um coberto, voltando pra sala. Joguei ambos no chão, do lado oposto ao sofá da mesa de centro, e fui apagar a luz.
—O que é isso? -Temari, que tinha acabado de deitar, perguntou.
—Não vou dormir na cama também. -disse e apaguei a luz. -Se você sabe ser teimosa, eu também sei.
—Shikamaru! -ela exclamou.
—Boa noite, Temari. -eu disse, deitando no chão e me cobrindo.
—Você é intragável! -ela esbravejou.
—Você é pareô duro pra mim nisso. -retorqui -Boa noite.
Pensei que ela ia continuar querendo discutir, mas ela bufou audivelmente e se calou. Virei para o lado oposto ao que ela estava e tentei dormir.
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