Estávamos no aeroporto de Lisboa, enfim no chão. Diana não parava de olhar para tudo, e não havia nada o que olhar, pois nem sequer tínhamos saído do aeroporto ainda.

"Nossa, eu vou guardar isso para sempre na memória".
"Mas isso?" eu disse olhando ao redor.
"Você não entende" ela respirou fundo.
Não ficamos muito no aeroporto e logo saímos em busca de um táxi.
"Tenho que passar na casa da minha tia antes de ganhar o mundo".
"E eu na do meu pai" sorriu.
"Ele mora aqui?"
"Em Bruxelas, eu tenho vôo marcado pra lá em duas horas".
"Então o quê está fazendo aqui comigo?".
"Indo com você, senhor-qualquer-coisa" ela sorriu novamente enquanto chamava o táxi.
"Vai pegar seu vôo".
"Depois eu vou pra lá, meu pai sabe que eu sempre atraso" ela abriu a porta e entrou, e eu entrei em seguida. Dei o papel do endereço ao motorista e continuei:
"Você é louca".
"Depois podemos pegar um trêm até lá".
"Podemos?".
"Sim, é até perto".
"Não, quero dizer... Esse plural" sorri.
"Pensei que estivéssemos juntos nessa" ela me olhou.
Eu sorri "E estamos".
Na casa da minha tia, chegamos e já era noite. 5 horas de diferença é barra, mas o caminho nos deixara cansados, então dormimos sem muitos problemas. Minha tia não perguntara muito sobre Diana, o que foi bom, pois eu não saberia responder muita coisa além do nome dela.
Pela manhã, quando levantei, à caminho da cozinha, me deparei com Diana ao lado de fora, sentada debaixo de uma árvore do jardim olhando pro céu e fumando.
Fazia um frio desgraçado e o sol estava fraco, eu não me atreveria a ir lá fora logo após acordar, mas ela estava lá, sozinha. Eu queria ir, mas não sabia se devia, então eu fiquei olhando-a do cantinho da janela, bem escondido, para que ela não me notasse. Percebi que ela estava escondendo o cigarro, talvez por receio da minha tia, pois mal sabia que minha tia não se importava. Eu mesmo cheguei a fumar muitas vezes, na frente dela, quando nos fez uma visita na metade do ano passado, e ela jamais contara aos meus pais.
Saí de trás da janela e fui até ela, sem jeito, afinal, era apenas o nosso segundo dia de convivência.

"Oi"
"Oi"
"Por que ta aqui sozinha?" deitei ao lado dela.
"Não to sozinha" ela me olhou.
Olhei para os dois lados e respondi "Sim, você está".
"Ninguém nunca está sozinho quando se tem cigarro" ela sorriu.
Achei filosófico da parte dela pensar assim, e um tanto quanto problemático também.
"Quer um?" ela me ofereceu.
"Sim" peguei um cigarro e o acendi.
"Tá frio demais" ela acendeu o isqueiro e ficou fazendo formas no ar.
"Também acho".

Logo levantou-se e dissera que estávamos atrasados. Apressou-se no caminho do jardim até o quarto para pegar as coisas, e eu fui logo atrás.

"Pega suas coisas".
"Você diz isso como se eu tivesse muita coisa além de uma mochila" sorri.
"Pois pegue-a, precisamos ir. Receio não poder ver tudo o que tenho pra ver, e eu quero lembrar disso até meus 74 anos, no meu ultimo dia de vida, algumas horas antes de completar 75".
"Calma, até onde sei, esse é apenas nosso segundo dia aqui".
"Para mim, é o nosso segundo dia perdido" Ela se sentou na cama para amarrar o cadarço do tênis.
"É engraçado, não é?" eu disse.
"O quê?".
"Como vamos fazer isso. Andarilhos amadores. Vai ser uma aventura".
Ela sorriu "Eu espero que seja" e se levantou.

Calcei rapidamente meus tênis e fui avisar minha tia que estávamos de saída.

"Tia, corre aqui na porta".
"Oi, meu filh... Já vão? Mas já?".
"Tia, vamos comprar bilhetes de trêm para irmos à Bruxelas, ver o pai da Diana, e só então poderemos começar a nossa caminhada".
"Meus filhos, se cuidem por aí" minha tia foi até a gaveta do armário, que alí perto ficava, e entregou algo à Diana.
"Isso é pra você, não sei se você tem, mas ter além nunca matou ninguém".
"Matou sim" Diana sorriu e agradeceu com um abraço. Minha tia sorriu de volta e retribuiu o abraço.
Quando olhei, logo sorri, pois era uma carteira... De cigaro. Minha tia não tia jeito mesmo.
"Pois, tia, precisamos ir".
"Tenham cuidado, suponho que não seja tão perigoso, mas me preocupo por vocês" minha tia me abraçou.
"Calma, tia" retribuí o abraço.

Diana olhara tudo, como se quisesse gravar para sempre cada momento. Me pareceu o tipo de pessoa que faz questão de lembrar de tudo, pra ter certeza que valeu a pena. De certo modo, eu era assim, entretanto com menos paixão e tristeza no olhar. Era assim o olhar dela: cheio de paixão e, em contra partida, triste, um olhar de saudade, talvez.
Enfim, saímos em busca de bilhetes de trêm. Apesar de não serem caros, compramos os bilhetes de um cara, perto da plataforma. Ele estava desistindo de ir pois levara um belo pé da namorada, e sorte a nossa, pois a saída do trêm era em 20 minutos.
Fomos comprar jujubas, pois Diana era louca por jujubas. Ela saiu correndo do nada enquanto eu pagava o cara pelos bilhetes, fui atrás sem entender nada.
"Corre, senhor-qualquer-coisa".
"Quê? Espera" saí correndo atrás dela após pagar pelos bilhetes.
"Você corre feito mulherzinha" diz ela se divertindo com a situação, até finalmente parar de correr.
"É aqui que vendem minhas jujubas" diz ela, ofegante.
"Não acredito" eu disse, quase sem poder respirar.
"Qual é? Foram poucos metros".
"So que eu pensei que você tava correndo de um tsunami, ou sei lá, e me assustei" encostei no braço dela, empurrando-a de leve.
"Ah, claro" ela riu e fez um L com a mão na testa, me chamando de perdedor.
"Sai fora, sua louca".
Ficamos alí rindo da situação após comprar as jujubas, até enfim pegarmos o trêm. Ficamos conversando na cabine por muito tempo, sobre muitas coisas aleatórias.

"Okay, entre saltar de um avião ou de uma ponte, você prefere..."
"Morrer" respondi.
"Que sem graça. Eu não quero morrer, tenho muito medo disso"
"Pois bem, ainda vamos ficar nesse trêm por mais um tempinho, deveríamos dormir" eu disse.
"Não estou cansada".
"Nem eu, mas estou com sono assim mesmo".
"Não gosto dessa sensação".
"De dormir?".
"Não, essa sensação anterior ao sono, de fechar os olhos e não enxergar nada".
"Não precisa ter medo, qualquer coisa, é só abrir os olhos e voltará a enxergar".
"Por enquanto sim, mas e quando eu abrir os olhos e ainda sim continuar na escuridão?" ela se virou para janela e ficou olhando o lado de fora.
"Como assim?" perguntei sem entender.
"Eu..."

Por alguns segundos, senti como se mundo dela tivesse desabando.

"Eu tenho uma doença" continuou "Degenerativa que vai me deixar cega algum dia. Por enquanto, até enxergo bem, mesmo com uns fleshes vez ou outra. Mas tudo bem, eu to bem. To tentando encarar isso como se fosse comum ficar cega antes da fase adulta, é assim que eu to suportando".

Ela não me pareceu nada bem naquele momento, apesar das palavras ditas afirmando que sim. Eu não sabia o quê fazer ou dizer.

"Você tem sorte, vai poder ver a luz do dia por muito tempo, até o final da sua vida".
"Di..."
"Você me chamou de Di" ela sorriu e continuou a falar:
"Olha, tudo bem, é sério. Vamos parar de falar sobre isso, afinal, não estamos aqui pra isso. Talvez devéssemos mesmo dormir um pouco".
"Ou podemos conversar mais" respondi.
"Acho melhor descansar, mesmo não estando cansada".
"Tudo bem então".
Ficamos alí em silêncio, mas ninguém dormiu. Vai ver foi o melhor jeito de lidar com a situação naquele momento.
Desembarcamos e Diana fez uma ligação, o pai dela foi nos encontrar em um café alí próximo.
"Pai!" ela se levanta.
"Que saudades" ele a abraça.

Passaram uns minutos se abraçando, até ele se dar conta de minha presença.

"Eu não sabia que você estava acompanhada".
"Ah, Fred, esse é o meu pai, o Lúcio, e pai, esse é o Fred".

Me levantei e estendi a mão, ele a apertou firmemente.
Sentamos e começamos a conversar, o pai dela parecia muito relutante sobre deixá-la sair sozinha por aí, mas ela sempre argumentava, muito sensata, e dizia que precisava daquilo e explicava tudo de uma forma, que parecia coisa de vida ou morte, e, por fim, ela me usou como argumento conclusivo, afirmando que não estaria sozinha enquanto eu a acompanhasse. Acho que o pai dela não gostou muito, mas era melhor que nada.
Por fim, mais uma despedida, a última para que então começássemos uma trajetória.
Ela não quis ir até a casa do pai, dissera que precisava ir logo. Então a despedida aconteceu alí mesmo, foi breve.
Ao sairmos do café, lembramos que ainda não tínhamos passagem e nem roteiro. Então ela voltou ao café e me pediu pra esperar alí mesmo. Fiquei uns 15 minutos esperando, até que ela voltou:

"Feito, comprei online. Vamos, mas o destino vai ser surpresa. Comprei bilhetes para o horário mas próximo de agora. Sempre quis conhecer esse lugar" ela me puxou pela mão e só fizemos voltar para a plataforma, que não muito longe ficava, e apanhamos o trêm.
No trêm, eu ainda não sabia o destino. Ela fez questão de não dizer e dormir, só pra me contrariar.
Agora sim tudo ia começar de verdade, pensei. De alguma forma, senti que Diana era uma pessoa destinada a aparecer na minha vida. Como um anjo, um anjo muito louco, mas tudo bem. Só o que pude fazer naquele momento, foi torcer para que o dia seguinte chegasse logo até pegar no sono. E assim foi.

Notas finais
Prometo que ainda vou escrever um capítulo que preste
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.