Coeur de Porcelaine

2 Capítulo I- Alone in the Entrance Hall


Notas iniciais
Tradução do Título: Sozinha no Hall de Entrada. Boa leitura!

A porta deu para um enorme hall de entrada, adornado com bibelôs de porcelana, alguns deles de aparência macabra. À direita, uma dama de porcelana. Embora as feições da boneca fossem belíssimas, de maneira que parecia até surreal, parte de seu pescoço estava cortado, “Provavelmente pelo leque que ela tinha em mãos”, deduziu Bianca. Do lado esquerdo, havia uma mesa comprida, repleta de vasos, todos pintados à mão. As pinturas iam do mais delicado ramo de flores, até a mais brutal crueldade. Alguns deles possuíam dizeres tão assustadores quanto a própria arte. O assoalho de madeira parecia chorar a cada passo. Aquela casa tinha um ar triste, em todos os aspectos, porém, fascinante, ao mesmo tempo em que era completamente sombria e fazia arrepiar a espinha da garota que ali se intrometia.

Tudo parecia abandonado há anos. Uma camada espessa de poeira se alojava por todos os cantos, o que logo fez com que Bianca espirrasse. O som ecoou por todo perímetro. Até além de onde a luz, já fraca, permitia enxergar. Ignorando todos esses fatos, ela continuou andando pelo hall, até chegar ao que parecia uma sala. Era bem maior que o lugar anterior, até mesmo maior que o refeitório do internato– que, diga-se de passagem, era imenso. – Bem ao centro do teto, um candelabro que, mesmo infestado por teias de aranha, era de detalhes admiráveis. Bianca perdia-se em pensamentos observando atentamente seu redor. “Provavelmente alguma família bem rica viveu nessa casa. Devem ter se mudado faz bastante tempo. Não consigo imaginar porque deixariam um lugar tão bonito assim chegar a esse estado...” Fora puxada de seu devaneio por um som repentino, que a fez congelar de medo.

–Tem alguém aqui?- Gaguejou o mais alto que conseguiu, trêmula. Até notar o que causou o barulho e julgar-se tola. Um pequeno rato. Deveras nojento.

–Com certeza as garotas do dormitório estariam todas gritando agora. Quanta besteira minha. É muito improvável, pelo estado em que isso aqui se encontra, que haja sequer alguma alma por aqui. — Disse a si mesma, suspirando aliviada. Assim, continuou a explorar o local.

Chegou a um ponto em que a luz pálida da lua já não iluminava bem, assim, procurou por uma vela. Não foi tão difícil, visto que várias caíram do candelabro. E mesmo que estivessem quebradas, serviriam para algo. O problema seria achar algo para acendê-las. “Bem, na cozinha deve ter algo que me sirva. Já que estou na sala, não devo estar tão longe da copa... Se eu conseguir encontra-la, logo logo chego à cozinha.” Bastou alguns passos para que Bianca chegasse à uma passagem larga. O cheiro do local a nauseou no mesmo instante. Era impossível ver com clareza o que havia naquela sala, contudo, o odor estava apodrecido há muito tempo. Apalpando paredes, ela conseguiu alcançar a cozinha, a luz da pequena janela à esquerda do grande fogão industrial, parecia destacar alguns poucos fósforos soltos ao chão.

Ao acender a vela, pôde-se notar que havia duas portas na cozinha. Bianca não estava muito certa por qual entrou. Notável que não era seu forte guardar caminhos. Embora, talvez ela realmente não quisesse se lembrar, com medo do que poderia ver na sala de jantar. Saiu pela porta à sua frente, num lugar onde, provavelmente as empregadas faziam uso. Mais uma vez, fora surpreendida por um odor mórbido, contudo, mais fraco que o primeiro. Seguiu o “aroma” e descobriu uma estufa, repleta de orquídeas. Mortas, é claro. A porta, que era de vidro, parecia trancada e Bianca não se arriscaria a força-la, uma vez que não tinha muita sorte com coisas fáceis de serem quebradas. À frente da estufa, uma escada estendia-se descendo a perder de vista.

Bianca teve a impressão de ouvir uma melodia vinda de baixo. “Que ridículo. Como isso seria possível?” Sacudiu a cabeça, a fim de afastar o devaneio. Ou aquilo que acreditou ser. A escadaria realmente parecia não acabar, quanto mais ela descia, mais os degraus se estendiam pelo breu adiante, bem como, curiosamente, o volume da melodia aumentava, agora tinha certeza de que estava ouvindo algo, bem nítido. Cantando uma canção em espanhol. A voz soava triste. Bianca, que não entendia a língua muito bem, tentou acompanhar a letra. Conforme foi chegando mais perto da origem do som, diminuiu a respiração. Pode entender com clareza a canção.

–“Es sólo otro día, otra noche fría. No sé si me buscas o si me esperas ... No puedo dejarte y menos olvidarte. No puedo saber qué quieres de mí. Puedo tocarte e incluso verte. Ven hacia mí Vamos, más cerca... Puedo sentirte tan cerca de mí...”

O calafrio percorreu a espinha de Bianca. Contudo, ela não sentiu tanto medo quanto esperava sentir. Pelo contrário, sentiu um estranho conforto preencher seu corpo. A voz era tênue, suave. Parecia embalar sua alma. Nem ao menos a cera a escorrer em sua mão foi capaz de tirá-la do transe no qual se encontrava. Chegou ao lugar que provinha a doce e triste melodia. A porta estava aberta, por ela, um feixe fraco de luz amarelada escapava. Sem hesitar, a garota abriu a porta, devagar. Diferente de todas até então, essa não rangeu, nem gemeu, ou cantou. O espanto, misto ao encanto, tomou conta mais uma vez da pálida expressão de Bianca.

Um quarto repleto com a maior variedade de bonecas, feitas de porcelana. Todas de traços meigos, delicados. Algumas estavam quebradas, parte de seus corpos jaziam no chão. Porém, seus olhares, cada um deles, carregava tamanha tristeza, tão profunda e intensa, que Bianca foi tomada por uma imensa angústia. Como se algo pressionasse seu coração, a ponto de quebra-lo. Segurar o pranto fora praticamente impossível. Com ambos os olhos fechados, recolhida em uma dor que jamais conseguiria descrever ou explicar, Bianca sentiu uma mão fria tocar-lhe o rosto, afastando as lágrimas que escorriam por sua bochecha rósea. Os dedos eram macios, tão delicados quanto... Porcelana.

Notas finais
Tradução do trecho da canção: É apenas outro dia, outra noite fria. Não sei se me procuras ou se me esperas. Não posso te deixar e menos te esquecer. Não posso saber o que quer de mim. Posso te tocar e inclusive te ver. Venha para mim. Vamos, mais perto... Posso te sentir tão perto de mim. Esse trecho está quotado justamente porque não é de minha autoria. É de um jogo chamado Silent Hill, do primeiro. Quem quiser ouvir: https://www.youtube.com/watch?v=5EffJHOuJIU Não, o jogo não tem /nada/ a ver com a fic. Eu só achei que essa música se encaixaria perfeitamente no sentimento que eu estava procurando. Enfim, espero que tenham gostado. Comentem para eu saber o que acham! Muito obrigada se você leu até aqui.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.