Coeur Faible
4 Parte 3
Quase duas horas e meia. Londres fora deixada para trás e Manchester já nos dava boas vindas. Pelas ruas Mancuniuns andavam calmamente, roupas leves e sorrisos nos rostos.
– Onde é a casa de Jesen?.
– Levenshulme.
Segui com o carro para esta área urbana, com pouca presença industrial. Quando já estava dirigindo pelas suas ruas, consegui perceber claramente que a maioria das lojas abertas e com grande movimento de pessoas eram as de fast-food e cafés.
Depois de algumas orientações de Henrie e algumas esquinas viradas, estávamos numa rua tranqüila e residencial.
– Qual delas? — Perguntei.
– Aquela — Apontou para uma bonita casa quase no final da rua. Tinha um grande jardim com diversas flores.
Estacionei o porshe e saí juntamente com Henrie. Uma senhora de idade avançada passou por nós oferecendo um delicado sorriso, devolvi o cumprimento com um sorriso falso e amigável. Quando chegamos na porta, McMahon bateu algumas vezes até um senhor de cabelos pouco grisalhos atender.
– Senhor Jesen? — Perguntei. Ele acenou positivamente com a cabeça. Com um grande sorriso saquei a arma discretamente e apontei para ele, que nos olhou surpreso. — Não vai nos convidar para entrar?
– Mas o que... — começou uma frase, mas não o deixei concluir. Pressionei o cano da OTs-38 em seu peito e mordi levemente meu lábio inferior. Henrie deixou um sorriso largo cobrir seus lábios e então sussurrou logo em seguida: — Vamos Jesen... Eu quero saber mais sobre a morte de Lucy...
– E de Paul McCartney — Acrescentei.
Jesen ofegou e se afastou um pouco, deixando um espaço livre para que Henrie e eu pudéssemos passar. Ainda com a arma apontada para seu peito esquerdo vi McMahon começar a andar pela casa e mexer em alguns livros velhos que estavam perfeitamente guardados numa estante de cor escura. Ele tinha a péssima mania de querer bisbilhotar tudo.
A casa da minha vítima com certeza era elegante e tinha um ar de casa de família, que nos fazia sentir em nosso próprio lar. O bege do sofá combinava com as cortinas de mesmo tom. No tapete felpudo um gato branco dormia calmamente, ignorando os dois invasores em sua casa.
– Como foi a vida depois de Lucy? — Perguntei.
– Melhor impossível. Só de tirar desse mundo uma criatura nojenta como aquela me senti realizado. Sem tirar a grande quantia que ganhei — Jesen respondeu. Um sorriso desafiador no canto de seu lábio.
– Estou me sentindo como você agora. Em poucos minutos te matarei e ficarei satisfeita de retirar um inútil desse mundo — Era difícil explicar a excitação que corria por minhas veias. Havia esperado tanto tempo para estar cara a cara com o homem que matara Lucy e desfizera a maior banda de todos os tempos. Nenhuma morte seria tão divertida quanto a de Jesen.
– Eu sou humano, eu tenho filhos, eu tenho uma vida. Não preciso sugar a energia de ninguém, muito menos proteger quem faz isso — Provocou-me mais uma vez.
Balancei a cabeça negativamente suspirando em desaprovação e mirei em sua perna esquerda, o tiro silencioso fazendo-o gritar.
– O que vocês ganham com isso? — Ele gritou. — Protegendo aquelas aberrações.
– Você nem imagina Jesen — Ri sarcasticamente. — Eu quero ver o sofrimento estampado em seu rosto. Será gratificante para mim.
– Prefiro sofrer a não sentir nada — aproximou-se de mim, seus olhos fervendo em ódio — Quando minha mãe teve sua mente sugada por um succubus, eu jurei vingança. Lucy só foi o começo de tudo.
Sorri sarcasticamente. Cada palavra que saía da boca daquele homem aumentava minha vontade de matá-lo.
– Não creio que foi um succubus que alimentou do prazer sexual imaginário de sua mãe — Dei de ombros. — Provavelmente foi um inccubus.
Mais um tiro foi disparado, acertando o sensível órgão que batia aceleradamente em seu peito esquerdo. Os olhos do homem se arregalaram e sua boca curvou-se em dor. Seu peito subia e descia tentando desesperadamente levar oxigênio para seus pulmões, mas era fácil perceber que isso tinha se tornado uma tarefa extremamente difícil. Em poucos segundos o piso claro da sala passou a ter uma coloração vermelha escura, e em poucas horas talvez, seu corpo seria achado sem vida.
– Você nem imagina Jesen.
Saímos da casa depois de termos certeza que nenhum vestígio fora deixado para trás. Entramos no porshe e saímos de imediato da rua calma onde minha mais recente vítima morava.
Já era final de tarde quando estacionei o carro numa rua qualquer. Estava com um pouco de fome e cansada também, não conseguiria fazer uma viagem para Londres agora.
– Pensando pra onde ir? — Henrie perguntou-me.
– Vamos achar algum pub por aqui — E voltei a acelerar o carro pelas ruas calmas de Manchester.
O céu começava a adquirir um crepúsculo alaranjado enquanto algumas estrelas timidamente começavam a mostrar um pouco de seu incrível esplendor para quem quisesse admirá-las. Aos poucos as luzes das casas começavam a se acender e alguns adolescentes passavam a conversar alto pelas ruas que eram iluminadas por postes e a luz do luar.
Meu peito ardia fortemente quando a fumaça do recém tragado cigarro invadia meus pulmões. Após soltar o ar de um modo calmo e despreocupado, observei a fumaceira esbranquiçada desaparecer aos poucos. Com a boca entreaberta suspirei longamente. O gosto da nicotina marcando meus finos lábios e calma dominando meu cérebro.
– Quando voltaremos para Londres? — Henrie perguntou antes de levar à boca o copo contendo um conteúdo castanho claro. McMahon sempre fora apaixonado com uísque.
– Passaremos a noite aqui. Pela manhã voltaremos para o Under Four Feet.
Estávamos sentados em bancos prateados e altos, com o acento revestido em couro. Atrás do longo balcão à nossa frente três homens com camisas sociais serviam drinks aos freqüentadores do luxuoso bar Soft Ray. Uma pequena caixa de som no canto esquerdo tocava uma música calma de letra romântica falsa. Algumas pessoas arriscavam uma dança lenta, enquanto outras preferiam ficarem sentadas apreciando o ambiente.
As palavras de Jesen rondavam minha cabeça e me faziam chegar na conclusão que eu já havia chegado tantas vezes antes. Nossos protegidos, as succubus e inccubus, precisavam ser mais cuidadosos durante as refeições. Se tivessem sido, muitos problemas com os quais tivemos que arcar, talvez nunca tivessem existido.
Deixei uma risada irônica escapar pelos meus lábios ao constatar que ainda muitos confundiam nossas bestas. Jesen havia confessado sobre o inccubus que usou sua mãe, mas havia pensado que era uma succubus. A mente de sua mãe havia sido sugada e ele nem ao menos sabia pelo o que!
Os inccubus são do gênero masculino enquanto as succubus do feminino, portanto eles sugavam a mente das mulheres através do prazer sexual imaginário e elas os dos homens. Fácil, sem dificuldades para entender.
Sorri forçadamente tentando parecer gentil para um dos homens atrás do balcão. Ele veio até mim e perguntou se eu queria ser servida de algo. Apenas neguei com a cabeça.
– Eu queria saber onde tem um hotel para eu e meu amigo ficarmos — Lancei um olhar rápido para Henrie. Vi quando o sorriso do charmoso homem à minha frente desapareceu em questão de segundos.
– Lady, aqui temos ótimos hotéis — Começou com um sorriso tímido, e rapidamente explicou-me como chegar num hotel que segundo ele era um dos melhores da região. Agradeci e fui até o porshe, McMahon logo atrás de mim.
– Então, espero que seja um bom hotel — Comentou, a frase carregada de ironia. — E caro.
– Henrie, meu amigo. Sobre ao preço do hotel, isso realmente importa? – Rimos. — Não pagaremos, de qualquer forma.
Fale com o autor