Coeur
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Sentiu os olhos castanhos do rapaz à sua frente pairarem sobre si, inquisidores, esperando uma resposta.
Lembrou-se daquela cicatriz em especial que ainda ardia. Uma verdade que ainda lhe deixava na boca um gosto amargo, mesmo que os anos a tivesse varrido da memória da maioria.
Mas ele lembrava.
Lembrava daqueles olhos determinados.
De sua interminável esperança.
Do som e do brilho do metal das espadas no campo de batalha.
De cada sorriso que lhe dera, de cada lágrima que chorara.
Ele lembrava.
Lembrava de tê-la ouvido clamar por seu nome até o último momento.
E ele não fez nada, somente assistiu. Até última chama. Não fez nada para salvá-la, nada para impedir.
Ao contrário: ele a matou. Matou-a porque não a impediu enquanto era tempo. Matou-a porque não lhe deu a devida importância.
Matou-a porque não a amou o suficiente.
Mas aquilo não deveria tê-lo marcado tanto como o marcou, certo? Ela fora uma entre milhares de seus filhos e, além de tudo, não foi a primeira nem a última que vira morrer. E aquele era o curso que a vida tomaria, afinal de contas, mesmo que tivesse sido diferente naquela época: pois era aquela a sina que cada um deles tinha de carregar, e nada nem ninguém poderia mudá-la.
Ela era uma mera humana e ele, algo muito maior, muito mais duradouro.
Algo que ele mesmo não podia definir.
xxxxx
“Engraçado. Como as coisas são... Um dia você é a caça, e no outro, o caçador, não?”
Não se esquecera daquele momento, mesmo já não recordando exatamente quando foi que ocorrera. Tinha apontado para a testa o cano de metal de uma arma: brinquedinho novo aquele que seu rival descobrira ser muito útil para intimidar pessoas, rival este que agora se deleitava com sua expressão.
Ambos sabiam, porém, que simples armas eram inúteis para eles.
Franziu o cenho e mirou os olhos por detrás da pistola: uns olhos verdes odiosos, cheios de satisfação. Olhos de quem agora sentia nas mãos os prazeres de ter poder e olhos que o francês conhecia de tempos atrás.
“Va à la merde.”
O sorriso do inglês se desfez. Ouviu um click do gatilho e o estrondo que se sucedeu. Disparara.
Caíra de costas e desfalecera quase simultaneamente, mas teve a impressão de ter ouvido a gargalhada estridente do inglês ecoar em sua mente.
Nunca odiara tanto o dono daqueles olhos quanto odiava agora.
E, mais tarde, quando acordou (pois um tiro não o mataria — sua capacidade de regeneração era muito maior do que a de um humano comum), viu-se jogado de cabeça em uma sucessão de fatos tão vertiginosa que sentia o tempo passar mais rápido do que deveria.
Mais sobrevivia do que vivia — foram tantos confrontos e tantas dores de cabeça que já não se lembrava mais de como era ter paz.
E foi num desses dias, em que já não pensava ter mais forças para continuar a lutar, que ele a conheceu.
Achou que era uma piada e até chegou a rir quando ouviu os comentários: uma garota que, vejam só, se dizia enviada de Deus e pedia por tropas para enfrentar os ingleses e recuperar os territórios do norte. Se existia mesmo, era uma louca!
Não se dera o trabalho de verificar a veracidade do boato até ficar sabendo que um exército fora de fato cogitado para ser concedido à tal de Jeanne d’Arc. Um absurdo! Não conseguira acreditar até serem devidamente apresentados um ao outro.
“Apresentados”, aliás, era um eufemismo.
Naquele dia foi organizada uma conferência na Corte Real de Chinon para julgar se era mesmo digna a causa da menina. Já estava prevenido de que encontraria a figura por ali, de uma forma ou de outra, mas fora surpreendido pelo vulto da garota que correu em sua direção enquanto ele andava até pelos arredores do castelo, sem dar-lhe nem a chance de abrir a boca.
Ajoelhou-se diante dele, tomando-lhe uma das mãos e beijando-a rapidamente. Hábito até bem comum para com pessoas de idade mais avançada ou de maior poder dentro de uma hierarquia,e França estava até acostumado, mas fora pego de surpresa.
— Chamo-me Jeanne d’Arc e estou aqui a seu dispor. — Tivera primeiramente a impressão de que era um homem, pelos trajes que ela usava, mas tanto pelo tom da voz quanto pela delicadeza das feições, percebera facilmente que era uma moça. — É uma honra poder finalmente conhecer-te pessoalmente.
Abriu a boca para falar, mas não soube bem o que dizer. Antes que pudesse completar um raciocínio, recomeçou Jeanne:
— Venho aqui para salvar a ti e a nossos compatriotas. Dou-lhe a minha palavra. — Ainda tinha a mão dele entre os dedos dela.
Aquela situação era surreal demais, mas a menina lhe dizia aquilo com tanta certeza e com tanta determinação que chegava quase a acreditar.
Passou-lhe pela cabeça que talvez conseguisse entender agora como é que se sentia uma garota ao ser pedida em casamento. Devia ser algo parecido.
Não percebeu, mas os guardas que estavam por perto se entreolhavam, tentando segurarem-se para não rirem da cena.
A loira pediu licença, dizendo-lhe que precisava se preparar-se para o encontro com o delfim[1] Charles e desapareceu por dentro do castelo da mesma forma que apareceu, deixando no francês um olhar confuso.
Retomou seus afazeres, ainda pensando na mulher que o abordara. Se não fosse louca e se não estivessem em guerra, talvez a convidasse para um jantar, porque, de fato, achara ela era uma gracinha.
Mas achava aquilo de certa forma fantástico. Fantástico pensar que uma garota queria enfrentar os ingleses.
Incrível a fé humana, não?
Queria poder acreditar também que aquilo daria certo.
Queria mesmo.
Mas, com olhos que presenciaram de quase tudo naquele mundo, não era tão fácil assim.
xxxxx
Além de louca, Jeanne era também teimosa: convencera ao delfim e à Igreja que a entregassem um exército e a mandassem para a batalha. Financiaram os custos da expedição e mandaram um pequeno exército nela.
Estavam agora a caminho de Orléans.
França fora mandado junto do exército para servir como uma espécie de “guarda-costas” dos três comandantes à frente das tropas, entre os quais estava Jeanne.
O que era, na verdade, uma mentira deslavada. Sua função real era relatar ao reino detalhes da tentativa de retomada e o que mais lhe parecesse ser útil para batalhas futuras. Claro que entraria em combate, quando fosse necessário, entretanto, o reino (e até mesmo ele próprio) não acreditava na vitória de Jeanne.
E por estarem certos da derrota foi que se surpreenderam ao saberem que a situação estava favorável para os franceses. Mais ainda quando viram Orléans liberta do poderio inglês.
Só podia ser Deus que estava realizando um milagre sobre o Reino da França.
E parecia que aquela era mesmo a única explicação plausível.
França, porém, que presenciara cada batalha, sabia que, além da benção de Deus, aquela batalha foi decidida pela força que tinha aquela menina: mesmo durante os confrontos, não hesitou, não desistiu, comandou tudo com a firmeza e a destreza necessárias a um bom líder.
Em poucos meses, obtiveram a vitória e a esperança devolvida aos franceses: vibravam e aplaudiam o feito da brava Jeanne.
Jeanne, por sua vez, também comemorava. E tinha no rosto algo que só podia se chamar felicidade. Algo que era bastante raro, pois era bem séria, no geral.
Lembrava-se de ter sido envolvido num abraço caloroso dela, que tinha lágrimas de alegria nos olhos e cantava sua vitória.
Parecia ser até outra pessoa.
Reconsiderou a idéia de convidá-la para um jantar, mas, quando tentou, foi repelido bravamente com a moça dizendo-lhe algo sobre manter sua pureza.
“Nem tudo é perfeito”, murmurou para si mesmo, com um suspiro.
xxxxx
— Se eu tivesse nascido como um de vocês, qual nome acha que eu teria~?
Não se lembrava o quanto havia bebido naquela noite, mas certamente não foi pouco para deixá-lo no estado em que estava.
Jeanne cumpria com o que dizia: logo após a batalha de Orléans, seguiu com seus homens para arranjar a coroação do delfim Charles, até então impedida pelas atuais questões políticas. Finalmente poderia assumir o trono da monarquia francesa e abalar um pouco com as pretensões inglesas.
— Não diga besteiras, senhor. — Jeanne tinha na voz um tom um pouco áspero. Não se sentia à vontade na atual situação.
Fora coroado o delfim, agora rei Charles VII da França, e a comemoração permitida pelo resto da noite: bebida e boa comida, aqueles soldados mereciam um pouco de descanso.
— Não me chame de “senhor”, Jeanne. Não sou velho! — E riu. Ria de tudo naquele dia. — Responda à minha pergunta: qual acha que seria? Não me deixe mal. Responda, Jeannette~! ♥
Jeanne, que fora obrigada por ele a sentar-se ao seu lado, encarou-lhe com seus olhos azuis e suspirou, dando-se por vencida.
— Francis.
— Francis? Aha, Francis parece mais um apelido[2]... — Dessa vez gargalhou.
— É um bom nome.
— É, é mesmo. É um bom nome... Pode me chamar de Francis, então...
Não se lembrou mais do que aconteceu no resto daquela noite, depois disso. Mal sabia é que despencou sonolento na mesa, deixando uma Jeanne aturdida procurando por alguém que desse destino para aquele problema.
Teve a impressão de que, além de lutar por ele, virara também sua babá.
Mas era um bom sujeito, apesar de tudo.
xxxxx
Seguiram-se mais confrontos após o de Orléans. E mais vitórias também. Era quase certa a vitória francesa naquela guerra ou ao menos era o que pensavam os esperançosos franceses.
Mas ele não sentia-se feliz, porém.
Jeanne chorava e isso o fazia sentir-se um pouco triste também, de uma certa forma.
— Por que chora? — perguntou ele. — Vencemos hoje.
Ela lançou-lhe um olhar meio magoado.
— Não sou de ferro, vê? — Mostrou-lhe os braços cheios de ferimentos.
Era verdade. Chagas como aquelas cicatrizariam facilmente se fossem nele, mas não nela.
Porque ela não era de ferro, afinal.
Ajudou-a com seus curativos, recebendo dela agradecimentos em silêncio: sorria-lhe um sorriso sincero.
Sentiu naquele dia um mau pressentimento que veio a se confirmar mais tarde.
xxxxx
A notícia pegou a todos de surpresa: Jeanne fora capturada e presa numa batalha em Compiègne.
Partiu em silêncio, sem avisar a ninguém. Nem mesmo ele soubera.
Quisera ele partir em seu resgate. Quisera e quisera-o fervorosamente, mas foi impedido por seus próprios homens. Garantiram-lhe que proveriam sua liberdade.
Mas, no entanto, não o fizeram.
E Jeanne, então, fora vendida aos ingleses.
xxxxx
As chamas já ardiam altas quando o francês chegara ao local da execução, porque tentaram persuadir-lhe novamente que não fosse ao encontro dela.
E permaneceu ali, sem poder fazer nada, até o final, em meio a gritos e choros, tanto dele quanto dela.
Amaldiçoou, pela primeira vez na vida, a Deus e ao mundo.
Não esperava que fosse sentir tanto aquela perda. Nem que doesse tanto, tanto quanto doía.
Talvez fosse aquilo que chamassem de um coração partido.
xxxxx
E lembrava-se de ter esmurrado o inglês e rolado com ele pelo chão como um garoto rebelde na flor da idade. Em pouco tempo, os dois loiros estavam com suas roupas já não mais tão nobres sujas de barro.
Demorou para que se apartasse a briga (pois estavam tão atônitos que não tiveram reação num primeiro momento). Fora agarrado e empurrado pelos homens de Inglaterra, até que este fizesse sinal para que o soltassem.
Viu no olhar do inglês compaixão; compadecimento.
Não pôde fazer nada senão cair aos pés do inimigo, debulhando-se em lágrimas.
Nunca sentiu tanta humilhação e tanta mágoa de uma só vez.
— Angleterre... Por que...? — Sua voz não era mais que um sussurro rouco.
— Desculpe. — Surpreendeu-se ao ouvir essas palavras virem da boca do outro. — Me desculpe, mas é uma guerra. E você já devia estar preparado para esse tipo de perda.
Palavras duras, mas que eram verdade. E a verdade dói.
Era uma guerra e, pela primeira vez, percebeu que não podia fazer nada. Havia enfrentado tantas e tantas delas, mas era a primeira vez que sentira na pele o quanto eram impiedosas.
E a primeira vez que via o quão grande era sua própria inutilidade.
xxxxx
“Irmãozão França, você acredita em Deus?”
Vindo de quem vinha, a pergunta chegava até a ser engraçada.
Por algum motivo que desconhecia (essencialmente por não ser exatamente o que se podia considerar “um exemplo a ser seguido”), aquele garoto volta e meia vinha aconselhar-se com ele. Divertia-se na maioria das vezes, aproveitando-se da ingenuidade do italiano, mas dessa vez resolveu parar para pensar antes de responder.
Itália parecia um pouco abatido das últimas vezes que o vira. Passava por uns maus bocados, ultimamente.
— Ah! Desculpe! Desculpe! Não precisa responder se não quiser! — Itália balançava as mãos de um lado para o outro, aflito.
— Hm?
— É que você pareceu um pouco triste quando eu perguntei...
— Não é nada. — Sorriu para despreocupar o outro. — E, respondendo à pergunta, acredito, sim. Certamente, há um Deus lá em cima, mas... não sei se é um milagre ou um castigo Ele ter nos dado um coração, não acha?
Itália o olhou sem entender, mas pôs-se a refletir sobre o que havia ouvido.
O loiro viu passar uma sombra de tristeza nos olhos do outro. Imaginou que soubesse o que se passava em sua cabeça naquele momento.
— Bem! Deixemos de melancolia, porque de melancolia o tio França não entende bem! Ele entende é de amor! — Pulou da cadeira e deixou de lado a taça de vinho que segurava. — Você me ama, Itália?
— Amo, sim, irmãozão França — Sorriu também.
— Eh... Não era bem dessa forma que eu estava dizendo, mas... A noite é uma criança e eu não tenho nada para fazer hoje! Que tal irmos jantar?
— Romano diz que não posso sair com você, porque você é um pervertido.
— Assim me magoa, Itália. — Fingiu um biquinho choroso. — Esqueça o Romano e vamos mostrar ao mundo nosso amor! ♥
— França... Você está perto demais. Eh! Não encoste aí, faz cócegas!
Arranjou uma desculpa e conseguiu sair das “garras” do francês e voltar para casa, despedindo-se meio nervoso.
França sorriu consigo mesmo.
Fosse como fosse, prometeu a si mesmo desfrutar a vida que tinha como se fosse o último momento, porque não sabia quantos anos mais lhe restavam, nem sabia se o amanhã seria bom ou ruim.
Ser feliz era o mínimo que poderia tentar fazer, mesmo que as dores do passado batessem à sua porta vez e outra.
Notas finais
[2]Ao pé da letra, "Francis" significa "Francês"
Ah! Nessa época, não existiam pistolas, o que aconteceu foi que o exército inglês introduziu as armas de fogo no combates, mas eram ainda muito primitivas. Considerem as pesquisas dessa humilde ficwriter que não queria ter que re-escrever, sim?
AH, deixem reviews! Críticas, elogios, esporros, é tudo bem-vindo! Porque dei sangue e suor para escrever, quero reviews~!
Fale com o autor