Codinome Thea
1 Capítulo 01 — Wanderess
Notas iniciais

— VIRA! VIRA! VIRA! VIRA! — Os adolescentes gritavam, batiam nas paredes, faziam barulho. Elliot encontrava-se no centro de uma pequena roda com uma enorme garrafa de vodka na mão. A bebida descia goela abaixo rapidamente, enquanto o garoto fazia uma careta engraçada, tentando não botar tudo para fora. Uma menina vestindo um uniforme de torcida cronometrava a brincadeira em um canto, dizendo em voz alta o tempo que ele aguentava. Quando, enfim, parou, a pequena platéia vibrou, fazendo ainda mais barulho do que antes, gritando vivas e batendo palmas. A sala de estar estava lotada de jovens enlouquecidos, cada um com seu respectivo copo vermelho e par de olhos embaçados. Alguns estavam tão fora de si que poderiam ser confundidos pelos viciados vagando pela avenida principal; tudo isso em uma simples house party.
Alguém vomitava no canto.
Elliot colocou a mão na frente da boca para evitar fazer o mesmo, tentando conter a bebida no estômago. Sua cabeça parecia prestes a explodir, e o mundo rodava em um caleidoscópio de cores brilhantes. De repente, sentiu a necessidade de gritar, como um sexto sentido másculo dizendo no canto da sua mente: "Vamos lá, orgulhe essas coisas que chama de colhões".
E ele urrou, e as pessoas responderam. Eram um bando de animais se divertindo na calada da noite, sem preocupações, sem medos, vivendo o agora.
Sentiu um par de braços magros envolvendo sua cintura, e dedos ágeis armados com unhas enormes arranhando seu tórax. Antes mesmo de ver quem era, soube. O hálito fedendo a tequila e a voz manhosa, que parecia estar sempre gemendo, a denunciaram.
— Elli-oooot.... Vem cá me controlar — Chloe sussurrava em seu pescoço, suas palavras tropeçando umas nas outras, marcadas pela embriaguez. Mas quem era ele para julgar, todos estavam transbordando álcool. O corpo magro e quase sem curvas da garota encontrava-se coberto por um pedaço de pano justo e brilhante que mal podia ser chamado de vestido, e seus cabelos loiros, lisos, pendiam descontrolados.
Ah, ela era sexy. Como queria levá-la para um dos quartos vazios no andar de cima e simplesmente devorá-la. No entanto, isso seria levar vantagem de sua situação, e nem a ex-namorada mais gostosa do mundo o faria perder a cabeça nesse nível. Era simplesmente errado. E de onde vieram aqueles pensamentos iniciais? A vodka provavelmente impedia-o de lembrar dos meses tortuosos ao lado de Chloe, todas as suas reclamações sem sentido, surtos de ciúmes e abusos psicológicos. Não, não precisava reviver aquilo, muito menos desejava.
— Chloe, você está chapada. Vamos procurar um copo d'água para tentar acalmar seu estômago e clarear sua cabeça, vai me agradecer de manhã.
— Sempre cuidando de mim... — Ela agarrou seu braço direito, usando-o como apoio para se manter de pé, já que os saltos altíssimos que usava dificultavam o trabalho — Sabe o que eu quero? Você, agora. Vaaaaamos, eu sei que você quer! Você sempre me quis, e sempre vai querer, Elliot.
O garoto desviou a tempo de evitar a tentativa falha dela de beijá-lo, sem um pingo de surpresa; aquilo já era de se esperar. Embora seu corpo dissesse "sim" – evidências no volume em suas calças, ansiando pelo contato tóxico daquela menina – o resto de sua sanidade continuava insistindo no "não". E, se havia algo que aprendeu nos dezoito anos de vida cheios de besteiras, foi a escutar o lado racional mais vezes. Ele geralmente estava certo.
Precisava deixá-la em segurança, sem tocá-la.
Elliot procurava desesperadamente por alguém disposto a ajudá-lo naquela situação, pois, do jeito que as coisas estavam caminhando, nunca conseguiria levar a acompanhante até a entrada da casa e enfiá-la em um táxi. O último item em sua lista de desejos era bancar a babá na última festa do colegial, precisava se livrar dela o mais rápido possível. Ninguém parecia notá-lo, o que significava apenas uma coisa: estava sozinho nessa. Ele xingou baixinho e, segurando Chloe pelos ombros, começou a guiá-la até a varanda, ziguezagueando entre os colegas de classe. Quase todos sorriam ou acenavam em sua direção; quase todos pareciam conhecê-lo, algo compreensível.
Elliot McFoster, líder do grêmio estudantil, capitão do time de lacrosse, membro integral do grupo dos populares – sim, isso ainda existe – e provavelmente o cara mais popular do St. John High School. Famoso por ser uma pessoa decente em uma legião de babacas, enquanto as meninas sonhavam com seus cachos de um loiro sujo, o maxilar quadrado e marcado e seus olhos azuis gentis, os meninos estavam contentes em chamá-lo de amigo. Os professores o amavam, apesar de suas notas baixas e o alto grau de dificuldades acadêmicas, e os funcionários agradeciam aos céus por encontrarem um rapaz disposto a ajudá-los a arrumar a cantina depois do horário.
Em poucas palavras, McFoster era bom.
— Elli-ooooot, por que está tentando se livrar de mim? — Chloe agarrou o braço do garoto com mais força desta vez, fincando as unhas perigosas em seu bíceps. Devia ter percebido que estavam atravessando a porta de entrada, indo para o jardim ao invés da bela suíte que ela desejava — Quem você pensa que é? Está dizendo não para isso?
A garota se soltou do apoio gentil de Elliot e gesticulou para o próprio corpo, como se simplesmente não acreditasse que um ser humano fosse capaz de negá-lo. Seus olhos vermelhos e dilatados estavam mais turbulentos, embaçados, e sua voz assumia um tom mais e mais agudo. O loiro sabia que não tinha muito tempo antes do inevitável ataque de nervos, e começou a puxá-la na direção de um Volvo preto estacionado na calçada. Finn Ulrich, seu melhor amigo, um garoto alto e largo, atlético, negro e dono de um sorriso simpático, estava sentado no capô do carro, bebendo uma lata de cerveja barata, observando a cena de longe.
— Finn, pelo amor de Deus, leve ela para casa! — Elliot empurrou-a delicadamente na direção do assento do passageiro. Com a mão livre, abriu a porta do automóvel e ajudou-a a se sentar — Querida, por favor, se acalme. O Finn vai te ajudar a chegar em casa, ele está sóbrio e vai dar tudo certo, ok?
— AH, O TODO PODEROSO, SANTO MCFOSTER! — Chloe agora berrava a plenos pulmões, tentando se livrar do sinto de segurança, mas chapada demais para se lembrar de como se solta uma fivela — BOM DEMAIS PARA MIM, É ISSO MESMO? NÃO FOI O QUE PARECIA, DOIS MESES ATRÁS, QUANDO ME FODEU COM FORÇA!
Elliot sentiu as bochechas ficarem vermelhas de vergonha, conforme todos os estudantes se divertindo no jardim se viravam na sua direção, segurando a risada. Era evidente que pensavam a mesma coisa: mais um episódio do seriado cômico de segunda categoria que um dia foi o relacionamento de Elliot e Chloe. Fechou a porta do Volvo com força e se afastou, instantaneamente aliviado.
— Cara, você precisa sair daqui, só vai piorar, McFoster — Disse Finn, sentado atrás do volante, solidário — Vou levar a princesinha para casa e te encontro na Madalena, suave?
— Te vejo lá, Ulrich.
Conforme o carro se afastava, saindo da rua cercada dos dois lados por enormes mansões, Elliot sentia o aperto no peito diminuir de intensidade. Chloe Anderson representava tudo o que mais abominava no colegial, e tudo que mais queria deixar para trás no ano seguinte, na faculdade. Infelizmente, também representava uma parte bastante significativa não apenas de seu passado, mas também de seu presente. Uma vida de futilidades; roupas caras, aparelhos eletrônicos, más influências, dinheiro jogado fora em bebidas e festas, tinha a impressão de que desperdiçara seu último ano nessas bobagens, e este reconhecimento o entristecia de maneira quase sufocante. Em apenas algumas horas — 16, para ser mais exato — seria um rapaz formado; em apenas alguns meses, estaria iniciando seu primeiro período em uma universidade, estudando business e jogando lacrosse. Seria um recomeço.
Antes que mudasse de ideia, entrou em seu Jeep cinza e dirigiu, seguindo as placas para chegar no centro da cidade. Seu celular cuspia uma série de instruções que o levariam na tal boate Madalena, um lugar recém-aberto no Soho no qual nunca estivera antes. O carro seguia pelas ruas lotadas de New York, congestionadas mesmo sendo a noite de uma quarta-feira. Queria se livrar daquele sentimento desconfortável de insuficiência, e Finn estava certo, ir para um lugar sem conhecidos era a melhor solução. Os dois, no final, conseguiriam o que tanto desejavam: uma despedida da escola antes da formatura, sozinhos, sem os riquinhos do Upper East Side.
Passados alguns minutos no silêncio de sua bolha, Elliot avistou o letreiro neon vintage da Madalena. O estabelecimento parecia pequeno do lado de fora, portas-duplas pretas e solitárias entre dois enormes depósitos, aparentemente abandonados, guardada por um segurança com cara de "não me toque". Uma pequena fila se formava na calçada, jovens de todos os jeitos mostrando seus documentos e estendendo a mão direita para receber um carimbo com um "M" elegante. Elliot estacionou o carro em uma rua paralela e voltou andando para encontrar o amigo. Ficou esperando encostado na parede do armazém por algum tempo, até ver a figura de Finn surgir das sombras, um arranhão feito por unhas muito bem cuidadas marcando seu pulso.
— Preciso de uma bebida, cara — Reclamou, enquanto entravam na fila. Não pôde deixar de notar que era impossível ouvir qualquer música do lado de fora, e que as outras pessoas ao seu redor pareciam ter saído de um post hipster do tumblr, estilosos e com um ar diferente.
— Relaxa, lá dentro a gente arranja alguma coisa — Finn respondeu, tirando as duas carteiras de motorista falsas do bolso traseiro da calça jeans. Nelas, ambos os adolescentes de 18 anos pareciam ter 21, o que permitiria sua entrada na boate.
Após passarem pelo segurança, sem problemas, adentraram o universo atrás das misteriosas portas-duplas, e logo foram surpreendidos pela batida alta de uma música desconhecida por ambos. Os amigos se entreolharam, animados, e continuaram por um corredor iluminado apenas por lâmpadas de luz negra até outro par de portas. Abriram-nas, e tiveram de segurar o fôlego diante daquela visão inesperada: um enorme espaço, sem janelas, com o pé direito alto, lotado de jovens adultos e adolescentes pulando. Não havia pista de dança, qualquer lugar era a pista de dança. Vários palcos individuais estavam espalhados, com postes de pole dance e pequenos holofotes, ocupados por garotas e garotos belíssimos, que conseguiam transmitir sensualidade estando plenamente vestidos. A parede direita da boate era ocupada por um bar extenso, também lotado. Todos ali parecia seguir a mesma linha das pessoas na fila, bem-vestidos, com coroas de flores, barbas, camisas xadrez, jaquetas de couro, colares, pulseiras, acessórios de todos os tipos. A música também era peculiar, muito diferente dos remixes geralmente usados em festas colegiais; estas pendiam mais para o gênero alternativo, e muitas pareciam terem sido gravadas enquanto o cantor estava viajando.
— Ulrich, você acabou de nos enfiar em uma balada hipster — Gritou Elliot, tentando se fazer ouvir. Seus olhos secavam uma morena que dançava ali perto, e seus lábios se curvaram em um sorriso malicioso — Eu te amo, cara!
— Vamos curtir nossa última noite de liberdade, McFoster! — Os dois se cumprimentaram em um high five e partiram na direção do bar.
Em poucos minutos o que sobrara de sobriedade da última festa fora destruído pelo álcool, e os amigos ficaram tão bêbados quanto se era possível. As doses não paravam de chegar, e, com elas, a vontade de sair conversando com desconhecidos e dançar.
Durante algum ponto da noite, Elliot se viu sozinho na multidão, a cabeça girando novamente. A boate brilhava com uma luz azul intensa, e alguns pontos se destacavam com desenhos feitos com tinta que brilha no escuro; ele mesmo estava com os braços pintados, embora não soubesse como ou quando isso tinha acontecido. Sentia-se leve, alegre, como se pudesse fazer qualquer coisa, e pulava perto de um palco individual no extremo oposto ao bar. Sua camisa de flanela xadrez estava amarrada na cintura, e usava apenas uma regata branca para cobrir o peitoral definido. Ele se mexia de acordo com o ritmo da música, e seu corpo era apenas uma extensão daquela multidão alucinada, uma onda em perfeita sincronia. E foi quando a viu.
De início ela parecia uma miragem, bela demais para ser verdade. Era uma mancha vermelha em um oceano de tons cinzentos, chamava a atenção. A garota em questão era uma ruiva natural, com cabelos ondulados que pareciam flutuar ao redor de sua cabeça, que dançava no palco mais próximo. Seu rosto parecia ter sido esculpido em mármore, tamanha a perfeição: olhos castanhos ferozes, uma constelação de sardas, lábios carnudos e sobrancelhas desafiadoras. Vestia um conjunto de couro preto que ressaltava suas curvas bem distribuídas, e a sua expressão de puro deleite com a música merecia ser fotografada. McFoster, lutando contra sua mente enevoada pelo álcool, tentava decifrar o estranho sentimento de que já a havia visto antes; flashes daquela cabeleira ruiva desafiavam sua memória, mas todo o resto era apenas um grande borrão.
Ela percebeu que estava sendo observada quase que imediatamente, pegando Elliot no ato. Ele, bêbado daquele jeito, nem se esforçou tentando disfarçar, apenas continuou olhando, um sorriso malicioso no rosto. Ela retribuiu, mexendo os quadris como se o desafiasse a se aproximar. Ele quase derreteu. Ela sabia disso.
Ele e ela.
Atraídos como imãs, destinados a se encontrar.
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