Codinome: Roy Harper
5 Guerra
Notas iniciais
Fui treinado, desde cedo, para ser ágil, rápido e preciso. Como uma flecha. Por coincidência, Oliver Queen e sua gama milionária de problemas apareceu tempos depois, quando minhas habilidades estavam no início do ápice. Eu saí de uma reserva indígena após a morte de meu pai e Arco Valente, respectivamente, e troquei florestas cheias de mosquitos malditos e a tranquilidade da mata pela caótica Star City, em uma mansão de luxo com tudo do bom e do melhor.
A flecha e eu nos tornamos um só no mesmo dia em que nos encontramos. Arco Valente já havia me apresentado um (irônico e estúpido, porque ri disso na minha mente) arco, mas nada como o dia em que, no CT de treinamento do Arqueiro Verde, o alvo sob minha mira ocular, todas as expectativas de um homem voltadas para um garoto de 14 anos que sequer havia visto um par de peitos real que não fossem os da minha mãe, quando recém nascido.
Ágil, manejando a peça de madeira, a corda fina. Rápido, executando com destreza e disparando a arma em um pequeniníssimo período de tempo. Preciso.
A flecha não acertou em cheio o alvo no primeiro dia, nem no segundo. Talvez tenha chegado lá no décimo quarto, mas depois daí, ninguém escapava da mira do ridículo Ricardito. E puta merda, como eu odiava esse nome!
Mas o Arqueiro Verde gostava. Ele quem dera, oras! Mais para curtir com a minha cara do que qualquer outra coisa. Até hoje me pergunto porque Oliver olhou para o órfão de pai e mestre e pensou: “ahn, vou dar uma de Bruce Wayne. Ricos e solitários gostam de garotinhos por perto”. De verdade, ele nunca quis ou precisou de um parceiro, tanto que tudo nosso se restringia apenas as missões. Quando tudo acabava, ele voltava a ser o magnata cheio de problemas de adulto, e eu, somente uma criança perdida no mundo, sem direção alguma.
Claro que não vou pagar de bom moço, coisa que nunca fui na vida, e dizer que Oliver foi o culpado da minha decaída com a merda da cocaína. Há vários jeitos de preencher a solidão, e eu tinha muito dinheiro, redtube e mãos preparadas à vontade, mas não. Preferi entupir o nariz com pó na sugestão de alguns capangas até que legais. Naquela época, eu já era metade Ricardito metade Arsenal: metade Oliver Queen e metade Titã. Eu não tinha um pai com Oliver, mas com certeza tive/tenho os melhores irmãos que alguém poderia ter com os Titãs.
São eles que mais me machucam, de fato. Porque não consigo melhorar para vê-los bem. E só faço besteira, uma atrás da outra.
Lá estavam eles salvando minha pele novamente. Chegaram acabando com tudo, desde o galpão abandonado que ficava na parte de cima até o teto subterrâneo do esconderijo. Por cima, vinham o projétil Dick Grayson de Batman, Moça Maravilha e seus maravilhosos... Braceletes, iguais aos de sua queridíssima conterrânea Donna Troy, que vinha logo atrás. Seguidos por Mutano, Superboy, Namor e Miss Marte. Debaixo, ainda sob ameaça, estávamos eu, meu parceiro de vida e (principalmente) morte Jason Todd, Jade e a bebê, a qual não parava de chorar. No meio disso tudo, a Liga das Sombras inteira, que vinha de personagens conhecidos como Cara de Tigre e Mortífera até outros que eu nunca havia visto, comiam nosso couro.
Tudo ao mesmo tempo. E eu estava ao chão.
Só depois de rapidamente desviar de um soco qualquer que voltei à realidade: aquilo era uma guerra e eu precisava proteger Jade e a criança a todo custo. Eu meti todos naquela zona. O choro ensurdecedor era parte de mim, uma pequenina parte que veio ao mundo e merecia coisa muito melhor do que um pai como eu.
Os movimentos ora sobressaltavam-se ora ficavam lentos novamente, mas entre um soco e outro (posso ter ficado lento e um tanto fraco, mas sempre soube bater bem), desviando dos destroços que caiam da épica batalha de gigantes acima de nós, consegui chegar até Jade, a qual, com o bebê em um dos seus braços, agarrava com o outro sua faca e mantinha-se em alerta.
Os Titãs foram uma boa distração, porque durante uns minutos eu e Jade conseguimos nos olhar nos olhos trocando tantas informações perdidas que nem pude contar. Por uns minutinhos de nada, Lian estava salva, mesmo que berrando de medo nos braços da mão. Eu tinha uma paixão louca por Jade, era incontestável. Éramos atraídos pela loucura um do outro, e foi daquilo que um ser humano tão puro e cheio de luz veio ao mundo. De nós dois, pessoas tão horríveis que fizeram coisas tão ruins. Ela acenou com a cabeça para mim, como se estivesse totalmente por dentro do que se passava em minha mente.
Jade dizia com o movimento algo como: “Sim, somos um lixo, mas fizemos essa pequena coisa maravilhosa, e se vale a pena viver por alguma coisa nessa droga, que seja pra ver essa criança sendo... O que não formos”. Juro que escutei isso tudinho só com a força do pensamento.
Infelizmente, não tive tempo de fazer o mesmo movimento, pois o rugido estridente do animalesco Cara de Tigre nos fez voltar para a estaca zero, e em um impulso que não sei de onde veio, tomei Lian no braço e me desloquei para as costas de Jade, a qual entendeu o recado e dispôs do braço livre para utilizar sua outra faca. Tomou todo o impulso necessário e voou para cima do bicho, usando de toda a sua sabedoria em luta e malandragem.
Fiz a única coisa que conseguia com uma criança aos prantos no braço e resquícios de droga no sangue: corri. Em círculos. Desviava de concreto solto e golpes, e todos gritavam ao mesmo tempo algo como “A criança!” “Peguem a criança”. Do nada, bem ao meu lado, Dick cravou os pés no chão, enfiou uma corda grossa em minha cintura e apertou um botão de seu cinto. Podia jurar que o vi piscar por dentro daquela máscara, mas do nada, abriu-se um grande buraco no meio da guerra, como uma espécie de tática de luta ensaiada.
Os Novos Titãs eram realmente bons.
Fui puxado para cima em uma velocidade assustadora, e naquele momento só conseguia pensar no quanto que meu corpo seria útil como escudo para proteger Lian, e entre toda essa confusão, meus amigos evitavam que qualquer um, seja inimigo ou poder do mesmo, nos alcançasse. Quando percebi, já estava dentro da nave titã, a qual escapava da guerra ainda mais rápido.
A criança, por incrível que pareça, pareceu gostar de toda a confusão, soltando uma pequena gargalhada. Eu a encarei no fundo dos seus olhos redondos e enormes, sem saber se procurava por aquela alegria berrante que acabava de ouvir ou se tentava, de alguma forma, associá-la a algum traço meu. Seus cabelos eram tão ruivinhos...
— Roy! — A voz e os passos estalados de Bárbara desviaram totalmente meus pensamentos. Ela se ajoelhou ao meu lado e começou a examinar rapidamente eu e a criança. Depois de suspirar de alívio, voltou a falar. — Venha, vamos levar a bebê para um local mais seguro.
Foi ai que eu percebi o quão fraco e nervoso eu estava ao ponto de precisar de uns segundos para levantar. Bárbara foi compreensiva o suficiente para me esperar e inteligente o suficiente para não questionar minha fraqueza. Segui seus passos dentro da aparentemente enorme nave até chegarmos a uma ala com várias cadeiras e macas, todas muito bem equipadas com apetrechos de segurança e equipamentos médicos.
Delicadamente Bárbara tirou Lian de meus braços e me indicou uma das cadeiras para que eu pudesse sentar. Fiz o que me sugeriu com os olhos, mais por falta de força ao ficar em pé do que qualquer outra coisa. Ao longe, eu a vi trocar as fraldas, examinar pulso, coração, até mesmo sussurrar-lhe uma canção de ninar potente o suficiente para fazer o bebê dormir. De fato, uma legítima mãe.
Teria Bárbara Gordon se tornado mãe? Estariam ela e o Dick...
— Ela está com tudo certo, Roy. Estamos todos bem e seguros agora. — Falou, atrapalhando meus pensamentos. Quando dei conta, ela já estava próxima a mim.
— Eu realmente não sei como serei capaz de agradecer e compensar vocês por tudo isso... — Suspirei. Parecia que a cada dia que se passava, minha dívida com o pessoal ficava cada vez mais alto. — Como estão os outros? Para onde estamos indo?
— Hoo, calma ai, garotão. Pode ficar tranquilo. Está tudo funcionando lá, sabe como a Liga é amadora, principalmente para os novos Titãs, treinados pelo pessoal da velha guarda. — Soltou um risinho. — Estão lutando para conseguir trazer Lince em segurança também.
Foi quando percebi que, até o momento, eu não havia pensado em nada que não fosse Lian e no quanto eu teria que lutar para manter um ser humano tão frágil vivo. Logo eu, o pior pai do mundo. Mas os Titãs estavam lá, os velhos e os novos que nem me conheciam, lutando por mim, e Jade também estava por sacrificar a vida em nome do bebê.
E ainda por cima, sentia minha pressão cair, a cabeça doer e o nariz implorar por uma leve carreira de pó. Com certeza estaria morto daqui para o início da manhã. Bárbara pareceu perceber, como sempre, a minha tristeza, e preferiu por voltar a assumir o comando de pilotagem da nave.
Durante algum tempo, houve somente o silêncio até que, em poucos minutos, senti a nave pousar.
— Vamos, temos uma casa esperando por vocês. — A morcega sorriu.
Eu conheceria aquele cheiro de bares baratos e cidade em ascensão de longe. Estávamos em Star City, mas conhecida como o meu inferno particular e lugar de onde eu vim. Mais precisamente, em um pequeno prédio abandonado perto da estação de metrô. Pousamos no telhado deste, e nada como o modo camuflagem da nave, o qual estávamos usando desde a partida em Gotham e uma rápida troca de uniforme não resolvessem nossa escapada secreta até ali.
Bárbara me guiou até o terceiro andar, onde um apartamento modesto, mas bem mobiliado, inclusive havia um puta quarto de bebê digno de filme! Eu olhava para tudo com um misto de culpa e alívio. Então eu não precisaria ficar na sombra dos Titãs mais uma vez, mas eu sabia que tudo ali tinha um toque do dinheiro Wayne. Ou seja, nada como Dick Grayson para sempre me lembrar do quanto eu deveria andar na porra da linha, como se ter um bebê já não fosse o suficiente.
Após instalar Lian em seu quarto, ainda dormindo seu sono mais do que precioso, escutei da sala as vozes de Bárbara e Dick, a qual se misturavam em um misto de perguntas e indignações. Ao trocar de roupa e me dirigir até ali, a surpresa de minha presença tornou tanto as vozes da mulher quanto a do comunicador mudos.
— Desembuchem. — Foi meu único pedido, pausando bem as sílabas para perceberem que não deveriam haver joguinhos comigo.
O garoto prodígio cuidou de começar a falar. Mesmo sem eu querer admitir, éramos mais parecidos do que realmente aparentava.
— Acabamos de sair do local da luta. O esconderijo de Jason foi destruído, tivemos que permanecer por lá pós luta para falarmos com algumas autoridades...
— A Jade, Grayson. Onde ela está?
Após um longo estalar de língua, ele proferiu as malditas palavras: — Foi por isso que a luta acabou rápido e com todo mundo vivo, Harper. Jade nos traiu e voltou para a Liga. Ela... Falou que recusaria Lian e voltaria para eles.
Ok. Então era isso. Agora eu realmente precisava entender direito toda a merda que estava a me rodear para só então fazer alguma coisa a respeito, e urgente.
A tão premeditada Batgirl apenas me encarou fundo e assentiu com a cabeça, algo como “vá em frente, mas não demore”. Peguei um chapéu de basebol que estava em cima da mesa, coloquei e saí de lá.
— Por favor, tome conta de Lian por enquanto. Não vou demorar.
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As ruas de Star City mantinham seu ar revolucionário com cheiro de esgoto, no fim das contas. Eu andava pela calçada, chutando latas amassadas que vinham pelo caminho e pensando duas vezes se eu não deveria entrar no primeiro beco do Down State e esfregar a minha cara inteira no pó. Era o único jeito daquele misto de raiva, culpa, dor, tristeza, responsabilidade e meninice diminuir. Se eu havia sobrevivido ao Crocodilo, com certeza estaria bem respeitado entre a máfia e não precisaria de tanto dinheiro assim. Daria até para vendar alguns daqueles móveis...
Mas ai, a gargalhada de Lian me minha na cabeça, ao ponto de me fazer parar no meio da rua e olhar para os lados, sem acreditar que o som vinha unicamente de minha mente.
Eu gostaria de pular a parte na qual reflito sobre como eu seria um péssimo pai, já que eu mal tive um, e meu “padrasto” era, se não, pior que o Bruce Wayne nesse aspecto. Se tem uma coisa que eu não queria na vida era ter filhos, e se por alguma bizarrice do destino (ou falta de camisinha mesmo) eu os tivesse, não gostaria que eles crescessem como eu. Alguém que nunca sequer viu o rosto da mãe, nem em fotografia.
Foi unicamente por aquilo que eu acelerei o passo e preferi entrar no primeiro bar que encontrei. Fui direto para o balcão e pedi por uma dose pura de uísque.
Eu queria, caralho. Queria muito melhorar, voltar aos tempos de glória onde eu tinha uma mente brilhante, músculos suficientes e minha pontaria imprescindível para lutar do lado do bem, ter meus amigos felizes em trabalhar comigo, garotas legais de ficar e uma não filha para cuidar. Agora, minha retomada era muito mais sobre pagar minhas inúmeras dívidas e, de um jeito ou de outro, transformar a vida de alguém que não entende nada e algo, ao menos, ameno. Virei a dose sem pensar duas vezes e comecei a arquitetar como diabos eu faria para voltar aos treinos e saber a hora certa de dar leite.
De súbito, senti uma mão encostando meu ombro, e nada como seu colarinho de bad boy mauricinho para me fazer sorrir, verdadeiramente feliz por saber que ele estava bem e aparentemente não puto comigo. Jason estendeu os braços para me abraçar, e logo sentou ao meu lado, olhando com um pouco de desdém para meu copo.

Comecei a matutar sobre como ele havia me achado ali. Ou o GPS de Dick era realmente potente e compartilhado ou todo mundo achava Roy Harper um cara muito previsível. Preferi ficar com a maldita primeira opção.
— Acho bom pegar leve. Perdi meu lugar favorito por sua causa hoje, Harper. — Ressaltou, chamando a garçonete para anotar seu pedido. O mesmo que o meu, só que em maior dose.
— Como foi? Ver a megera nos dando um pé na bunda? — Perguntei sem olhá-lo. Sabia que o seu olhar revelaria pena e eu não precisava daquilo em meus pensamentos recém proativos.
— O de sempre. Para ser bem sincero, eu esperava que ela o fizesse, mas sabe, não a culpo. Estava estampado na cara dela que ela tinha planejado isso desde o início. Ela sabia que Lian estaria segura contigo, independente das suas condições ou não, já que nós não nos abandonamos, ao contrário dos malditos do Ra’s Al Ghul. Jade ama Lian, mas ama mais ser uma megera. — Após seu sorriso cínico, virou a dose.
— Acho que... Estou perdido a partir de agora. — Confessei, agora finalmente me dando por vencido aos olhos do cara que era com certeza meu melhor amigo.
Após deixar de lado o seu copo, ele usou do mais verdadeiro de seus sorrisos para me dizer: — Não, meu amigo. Agora, você tem um motivo para se achar. Finalmente se achar, Roy. Eu e todos ali estávamos dispostos a ficar do seu lado e ainda estamos. Você vai conseguir.
Um silêncio fraternal se instalou, e para sair do clima e dar umas risadas, dei um soco em seu braço e pedi mais uma dose.
Talvez o sentido de culpa e responsabilidade ainda pesasse uma tonelada, mas como situações desesperadas pedem medidas ainda piores, era tudo ou nada.
E eu seria tudo.
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