Codinome: Estrela da Noite
17 XVII
Notas iniciais
A última coisa que Estelar pediu para fazer comigo foi olhar o pôr do sol. De acordo com ela, Tamaran tinha mais de três sóis, mas nenhum deles ia embora, muito menos nascia do jeito que o sol terrestre fazia. Todacs as manhãs, dizia ela que acordava o mais cedo possível para assistir tudo de cima, quase fora da atmosfera, a fim de admirar mais de perto.
Engraçado como, para mim, foi uma sensação mais de estranhamento do que de admiração. Afinal, eu já vira o sol nascer e se pôr várias vezes. Percebi, enquanto a encarava, o quanto o calor do astro gigantesco fazia bem verdadeiramente por dentro, como se eu estivesse com as baterias totalmente carregadas. Talvez fosse por isso que minha mãe amasse tanto aquilo que via? Por que a fazia se sentir poderosa?
Ela partiu alguns minutos depois, sem fazer muita cerimônia com amigos e comigo. Um abraço foi o que nos acordou para a despedida, e nem foi tão ruim assim. Estávamos totalmente resolvidas e de bem com tudo o que se havia de estar. Eu agora a admirava, e fiquei ainda mais feliz por saber a verdade de muita coisa, por mais que ainda não fosse tudo. Houveram lágrimas entre ela e Donna, e o berreiro só aumentou quando Mutano deu para Estelar uma espécie de esfera verde, muito parecida com a que ela tinha em seu antigo uniforme. Tio Victor...
Meu pai, no entanto, apenas acenou com a cabeça e deu um sorriso sem dentes. Ela fez o mesmo. O clima pesou e chegou a doer em mim, em certo ponto. Teriam eles brigado antes de chegarem à Terra? Teria a decisão dela de me contar tudo vindo disso? Dizer que lágrimas não me subiram a visão pelo momento e por todo o resto seria a maior das mentiras, e eu já estava farta de esconder e reprimir sentimentos só para me sentir mais forte. Mesmo assim, não derramei nenhuma lágrima. Contraditório, não?
Eu gostaria muito de ter mais tempo com ela, de saber não só coisas do passado, mas também, avaliar seu jeito, seus costumes, o que tinha por trás de todo aquele cabelo cor de fogo. Deixara bem claro que eu poderia visitar Tamaran quando quisesse, e sinceramente, fiquei tentada a isso. O planeta, por mais devastado que tivesse quando eu e conheci, tinha resquícios de gigantes florestas tropicais. Quando reerguido, podia realmente ser um lugar lindo.
Depois de sua partida, os olhares foram totais dirigidos para mim. Sorrisos de abriram e vários abraços se seguiram. Afinal, era meu aniversário. 20 anos de pura personalidade forte, um tanto arrogante, mas muito forte e desafiante. Cada um me abraçava mais forte e mais fraco, por alguns motivos aqui e ali. Tia Donna não conseguia parar de chorar, o que me fez rir e esquecer do clima tenso e de todo o resto. Pela primeira vez, estávamos ignorando o fato de o mundo ter sido quase destruído.
Éramos uma família comum. Por uns segundos, podíamos ser...
Mesmo sem me ater a isso, recebi alguns presentes. Caçador de Marte, o qual nunca havia nem sequer trocado algumas palavras comigo, deu-me uma espécie de rocha super rara de seu planeta natal. O tamanho de mais ou menos uma moeda de dez centavos. Tio Garfield repetiu o presente que fora dado por minha mãe. Explicou-me que, quando tio Victor estava a fazer o uniforme de minha mãe, criou várias daquelas esferas, as quais encapsulavam e reluziam o poder de Estelar três vezes mais forte. Muitos, como tia Donna, não tiveram tempo, muito menos cabeça para me dar algo, e compreendi totalmente com o mais largo dos sorrisos. Meu pai, no entanto, não se mostrou deveras harmonioso. Saiu assim que Estelar partiu, não participando das felicitações. Alegou que estava a supervisionar a missão a qual os Jovens Titãs estavam a participar, e que eu devia ficar a postos imediatamente.
Se aquilo me entristecia? Bastante. Quando Dick Grayson pousou seus pés na Terra, fui uma das primeiras a ir de encontro com ele. Eu era sua filha, eu tentei protegê-lo! Por que me tratar tão bem em sua chegada, para depois me tratar como se eu não existisse? Justo no meu aniversário?
Enquanto eu andava pelos corredores em direção à enfermaria, para tirar aquela droga de gesso da perna e voltar à ativa, lembrei das poucas vezes em que não era somente Alfred que planejava minhas festinhas destinadas a somente alguns membros da Batfamília e dos antigos Jovens Titãs. Nos meus cinco anos, tio Tim – o qual eu não via fazia anos – trouxe-me uma espécie de mochila a jato com formato de asas de morcego. Eu pirei, mas meu pai quase nos matou. Bárbara, ainda um tanto duvidosa em relação aos meus sentimentos com ela, sendo uma madrasta não tão presente, ficou mais de canto, mas me observava com um sorriso largo. Ela dizia “você se parece tanto com o seu pai...” enquanto enrolava alguns fios de cabelo meu em seus dedos. E lá estava o Batman, ou melhor, meu pai. Ainda trajava as vestes do homem morcego, porém havia tirado a máscara e, de raro costume, sorria. Colocou-me por sobre os seus ombros e me fez apagar as velas, de lá de cima, sabendo que eu não conseguiria...
— Mar’i? Mar’i, já terminamos. – Roy tocou meu ombro, me acordando do meu momento nostálgico.
— Oh, obrigada. – Encarei minha perna, a qual já estava com um aspecto bem melhor, apesar de pouco bronzeado. – Me desculpe, estou com a cabeça nas nuvens.
— Pois é. Fazer 20 anos não é tão fácil quanto parece.
— Não é isso, Arsenal. É... – De repente, ele parou de jogar os pedaços do gesso fora e veio até a maca em que eu estava, encarando-me por trás de sua máscara rubra. – Por isso que quase quebrou a cara do Lobo quando ele xingou minha mãe? Vocês tiveram um...
— Agora sabe porque me senti tão horrível por tê-la machucado. – Sussurrou alto o suficiente para que eu pudesse ouvir.
— É estranho saber de tudo tão rápido e tão intensamente desse jeito. – Admiti, deixando tudo o que estava preso sair por boca fora. Claro que Roy Harper não era tio Victor, mas ele teria de servir. – Ainda mais depois do meu pai ter saído dessa reunião super secreta que parece ter pisado em seu calo.
Ele nada disse, somente sentou ao meu lado.
— Mar’i, descobertas são difíceis, boas ou ruins. Dick quase morreu, e duvido muito que ter de ir a reuniões e salvar o resto do mundo estivesse em seus planos. Sei que é meio barra ter que dividir o pai com uma liga de heróis além de toda a população mundial, mas só tenta dar um tempo pra ele.
Pude perceber, por mais que a máscara ocultasse, um amargor gigantesco no seu olhar, como se ele soubesse como eu me sentisse. Claro que eu havia ouvido histórias sobre o grande parceiro do Arqueiro Verde, principalmente tia Donna, a qual me contara que eles haviam tido um caso depois da morte de seu marido, o que só deixou tudo na minha cabeça ainda mais confuso. Teria a ligação entre ele e Oliver Queen sido tão grande ao ponto de abalá-lo?
— Bem, — Após o longo silêncio, Roy levantou-se e me ofereceu a mão. – se sente melhor? Precisa de mais alguma coisa antes de voltar ao campo?
— Na verdade, sim. Poderia começar a me falar desse seu caso com minha mãe? Sabe, presente de aniversário. – Uma expressão surpresa e um tanto assustada apareceu em seu rosto, o que só deixou meu sorriso malicioso ainda maior.
Após gaguejar muito, o que me fez rir, Roy Harper suspirou fundo.
E as palavras foram saindo, ora como facas ora como ursinhos coloridos.
— Após seu pai ter deixado a liderança dos Jovens Titãs para assumir o manto do Batman, o grupo ficou bastante dividido e estava por um fio de sumir. Sua mãe acabou voltando pouco tempo depois de descobrir que estava grávida de você, e durante quase um ano, ela reservou seu tempo entre Tamaran e a Terra, mas sem ter contato com o que sobrou dos Titãs ou de sua antiga vida. Digamos que, nessa época, eu não estava me comportando bem, e duvido muito que você não saiba do meu histórico com drogas. Todo mundo sabe, afinal. – Concordei com a cabeça. Tia Donna havia deixado escapar muita coisa sobre minha mãe, mas não sobre aquele detalhe na vida de Arsenal. – O Capuz Vermelho, mas você deve conhecê-lo melhor como... Tio Jason? Ele me ajudou muito, eu o ajudei nos seus problemas e sua mãe, meio que apareceu do nada. Nós viramos uma liga conhecida como Os Fora da Lei, e acredite, a gente viveu muita coisa mesmo juntos. Kory é incrível, Mar’i, incrível em todos os aspectos. Eu tive muita sorte de ter despertado um pouquinho da atenção alienígena dela e até hoje sou grato por tudo o que vivemos. Claro que eu não fui para ela o que seu pai foi, mas... Enfim. – Dando de ombros, ele virou de costas para mim. – Acho melhor não se atrasar. Olívia e Damian não conseguem se sair tão bem entregando suprimentos como Minotaur, o que é uma ironia porque as pessoas parecem não ter medo de um touro bípede com roupa.
Eu quis rir, eu quis abraçá-lo, realmente as sensações se misturavam demais, e por mais que a história fosse “bonita” ou qualquer outra coisa longe de ruim, eu não soube bem como receber tudo aquilo, somente confirmei com a cabeça, agradeci pelos cuidados e parti para minhas obrigações.
O que me deixou surpresa foi encontrar todo o meu grupo junto, quando Olívia devia estar no centro de São Francisco, Damian em Gotham e Minotaur dando conta do que os outros dois não conseguiam. Porém, todos se encontravam atrás da Torre Titã.
— A carga de vocês acabou? – Perguntei enquanto tentava ajustar o meu mais novo uniforme na minha cabeça. O capacete apertava um pouco dos lados, mas a maneira como o mesmo deixava meus cabelos mais altos e soltos era realmente muito bonito.

Na imagem, temos: Mar'i em seu novo traje, Avia (já falecida) e uma pequena participação de Minotaur
— Não. Estávamos a esperar todos nós por você, pequena roxa. – O que surgiu no rosto animalesco de Minotaur foi quase um sorriso.
— Queremos te desejar parabéns, todos nós juntos. – Olívia deu um leve empurrão no ombro de Damian, o qual estava a olhar para qualquer outra coisa, até que finalmente nos encaramos.
Há algumas horas atrás, Damian Wayne, ou melhor, Ibn, estava contando tudo sobre sua vida, sua real vida, além de admitir que sentia alguma coisa por mim que não fosse ódio. Tantos acontecimentos vieram de uma vez ao ponto de eu não conseguir parar para refletir comigo mesma o que todo aquele momento significou de verdade para mim. Lá no fundo, suas palavras ficavam tocando em minha mente como uma espécie de gravador quebrado, e algo dentro do meu coração palpitava nem que fosse um pouco.
Ali, com seu jeito marrento e os sentimentos ocultos por trás de uma máscara, quase quis vomitá-lo ao vê-lo, mas minha segurança e aparente felicidade foi maior.
— Muito obrigada a todos vocês. De verdade. – Sorri, me aproximando das poucas caixas cheias de comida e outros suprimentos. – Agora vamos trabalhar, titãs!
— Sim sim! – Olívia quase cantarolou as palavras.
Minotaur seguiu para leste. Era incrível como conseguia empilhar mais de 5 caixas em seus ombros sem derrubar nada enquanto corria a passos largos e quase trêmulos. O Robin do momento preferiu por usar uma moto velha que com certeza pegou na mansão Wayne para facilitar nas suas entregas. Eu e Olívia preferimos ficar juntas no centro, uma por ar e outra por terra.
Não era uma conhecedora vasta da história de todos os Jovens Titãs, principalmente dos que partiram mais cedo, como Avia, porém, havia curiosidades perceptíveis com a convivência que já me eram de praxe. Damian, por mais óbvio que fosse, tinha a mania de não olhar nos olhos de alguém quando estava ser contrariado com razão. Minotaur trocava a ordem das palavras na frase como um verdadeiro Yoda por causa de sua origem no oriente. Olívia não sabia de jeito nenhum esconder alguma coisa. Enquanto ajudávamos os civis, ela por ora me encarava e sorria, sempre muito atenciosa a todos os meus movimentos e tudo mais. Com certeza havia alguma coisa por trás.
... E se Damian tivesse contado a ela sobre o que ele tinha me dito?
... E por acaso, teria problema nisso?
... Eles sempre pareceram próximos, sempre pareceram com um... Casal (?)
— Tá, Olívia, o que foi? – Perguntei, pronta para tomar voo enquanto sustentava Olívia no ar.
— O que foi o que, Mar’i? – O sorriso travesso no rosto mais uma vez. Argh!!
— Você, por acaso, está escondendo alguma coisa de mim? Ou quer me contar alguma coisa? Porque sério, suas risadinhas e sorrisos cínicos entregam qualquer jogo que você esteja jogando comigo.
— Uau, Estrela da Noite, calma ai! – Pediu, parecendo desconfortável ao estar sendo carregada daquele jeito. – Não é nada demais. É só... Espere chegar na Torre Titã, ok?
Revirando os olhos, fiz o que me pediu. Fui muito grosseira, se parasse para analisar bem.
Ao chegarmos, pude perceber que tudo estava silencioso até demais, mesmo que por ora, visse um ou outro integrante da liga perambulando pelos corredores. Olívia, sem fazer mais cerimônia, indicou o caminho até meu quarto e praticamente me empurrou para dentro da escuridão, a qual foi morta rapidamente com todas as luzes e velas que haviam no recinto.
— Surpresa!! – O grito se estendeu por todo o recinto.
Lá estavam: tia Donna, tio Garfield, Minotaur, Damian (?), a então Olívia, Roy e meu pai, todos batiam palmas e jogavam fitas coloridas pelo ar. Um mini bolo decorado apenas por uma vela roxa se concentrava no meio de tudo, junto com algumas garrafas de vinho.
— Foi tudo o que conseguimos arranjar em pouco tempo, desculpe! – Pediu Olívia, saindo de trás de mim e se juntando ao resto. – Feliz aniversário, Mar’i!
Ok, aquilo realmente havia superado todas as minhas expectativas em relação ao dia que já estava quase por acabar. Todos ali sorriam, bebiam e comiam como se, por um único segundo, nada de ruim estivesse acontecendo com o mundo. Era mais do que comemorar mais um ano de vida meu: era comemorar a vida, a oportunidade de estarem ali, de serem parte de algo maior que ainda resistia apesar de tudo. Eles precisavam daquilo, e eu não iria estragar nem fazer nada para atrapalhar.
E por que diabos eu iria de fazer aquilo, afinal?
Juntei-me a todos, já abrindo uma das garrafas de vinho. Meu pai não me dirigiu muito a palavra, somente uns sorrisos e o tal abraço de aniversário. Roy não encostou nas bebidas, preferiu comer todo o meu bolo, quase devorando a vela junto. Eu nunca vi tia Donna tão bêbada, mas era incrível como sua risada contagiava o lugar. Ela, de acordo com o que eu sabia sobre as amazonas, não iria envelhecer, por mais que seu aspecto parecesse cansado, idoso. Olívia estava mais falante do que nunca...
Damian mantinha-se quieto, somente com sua taça de vinho e mil e um pensamentos soltos. Não dirigiu a palavra a mim nem sequer uma vez durante toda a festa.
Já era bem tarde quando Minotaur vomitou pela segunda vez e todos perceberam que a festa já tinha dado o que precisava. Olívia se ofereceu para limpar meu quarto, mas todos estavam tão bêbados – a não ser meu pai, que saiu um pouco mais cedo da festa e Roy, o qual estava entre cochilos e goles de água – e eu podia muito bem cuidar daquilo tudo sozinha.
— Eu a ajudo. – A voz grossa, mas tipicamente familiar de um membro dos Wayne veio do fim do quarto, e por um segundo pude ver um sorriso malicioso estampado nos lábios de Olívia. Apenas confirmando com a cabeça, acordou Roy com alguns petelecos na testa, tirando-o do meu quarto, saindo logo em seguida.
Lá estávamos nós. Eu e o filho do morcego.
Nesta imagem: Mar'i e Damian. Damian/Ibn, ao ficar mais velho, adere o cabelo mais comprido, além de ter parcialmente aceitado o legado de seu avô, Ra's Al Ghul
Devíamos conversar? Eu deveria começar a pensar em tudo para então respondê-lo de verdade? Porque, mesmo que eu odiasse admitir, eu havia fugido dele, havia fugido do que parecia ser um problema, quando na verdade, era a coisa mais comum que se poderia acontecer na vida de qualquer um.
Eu nunca fui um ser muito sentimental, era verdade. Mesmo que minha época de escola e faculdade tenha sido curta, ainda cheguei a conviver em sociedade, com pessoas completamente normais. Mesmo assim, nunca dei espaço para ninguém se aproximar, e quando em algum momento pensei em dar, abusavam disso e usavam-me mais como chacota. “A garota dos olhos estranhos”, “a garota alienígena”, dentre outros xingamentos não tão suaves quanto esses.
Damian Wayne era a última pessoa em mente quando coisas como declarar sentimentos ou até mesmo sentir puramente algo vinham à tona em minha vida. Porém, foi para ele que eu desabafei quando a fraqueza tomou conta do meu ser, foi para ele que eu assumi meus medos inseguranças, foi ele a quem eu ouvi quando tudo em volta dele parecia ser escuro e frio. Foi a primeira vez que meu coração se mostrou mais rápido, mais humano.
— Na-não precisa me ajudar se não quiser. Dou conta disso tudo sozinha. – Disse após um silêncio quase que fatal. Comecei a pegar todas as fitas coloridas que se encontravam no chão, e ele, sem dizer nada, recolheu as taças deixada pelos poucos cômodos.
Era a primeira vez desde minha saída da mansão Wayne que eu estava vendo-o sem seu uniforme de Robin. Usava uma calça escura e uma camiseta de mangas compridas tão negra quanto a cor de seus cabelos. Estes, rebeldes, espetavam-se para todos os lados. Sem máscara, e aparentemente, sem segredos, sem proteção.
O que se seguiu depois foi silencioso e grosseiro ao mesmo tempo. Arrumávamos tudo sem que ao menos houvesse proximidade, e quando tudo estava totalmente limpo, ele finalmente se propôs a falar.
— Feliz aniversário, Mar’i. – Seu corpo já ia em direção à porta.
— Damian. – Suspirei fundo. – Continuarmos desse jeito não vai dar certo.
Suas sobrancelhas se arquearam em curiosidade.
— Digo, desse jeito. – Indiquei o espaço entre nós. – Nós somos colegas de equipe e você é o líder, tecnicamente. Precisamos nos comunicar e agir normalmente, ignorando qualquer coisa que tenha acontecido. Não concorda?
As duas mãos foram até os bolsos da calça. O olhar vago se estendia por qualquer canto do quarto que não fosse eu.
— Não se preocupe. Sei muito bem diferenciar o que preciso fazer para salvar o mundo e o que preciso fazer para conviver com você. Acredite, um não precisa do outro.
— Então vai ser assim? Vai fingir que eu não existo só porque não correspondi aos seus sentimentos? – Eu percebi que tinha excedido meu limite com ele, mas agora que já estava ali, não iria mais parar. Seu olhar finalmente estava cravado ao meu, eu finalmente tinha sua atenção. – Isso não é justo. Não sou obrigada a sentir o que você sente!
— E eu também não sou obrigado a tratá-la como você bem quiser! Meu jeito é esse e não vou mudar só porque você acha que o tenho. Não sei onde estava com a cabeça quando sugeri para Olívia essa festa, muito menos quando contei pra você como me sentia!
— Foi... Você? – Perguntei, apontando para o saco de lixo o qual continha toda a distração do mundo real. – Por que fez isso?
— Satisfação também entra no pacote do que eu acho que não devo mais a você, Mar’i. Se me der licença.
Dessa vez, ele estava fugindo. Tudo continuaria mal resolvido, as mil e uma sensações permaneceriam gritando dentro de mim e não havia mais tio Victor, ou Roy Harper, ou ninguém que pudesse entender e ouvir minha explosão. Só Damian daria conta daquilo, e ele me devia por tudo o que fiz por ele. Sem perceber, ele havia se tornado importante. Cada detalhe, desde a maneira como ele agiu ao pensar que quase morri até todos os seus desabafos, tudo... Indícios de seus sentimentos. Ele queria fazer o que eu também queria fazer, e aquilo estava nos matando.
— Ibn. – Chamei-o, mesmo que seu corpo já estivesse um pouco distante do quarto. Apesar disso, minha voz foi alta e clara o suficiente para fazê-lo voltar um tanto mais surpreso. Eu não havia errado a pronúncia de seu verdadeiro nome.
Não erraria mais conosco também.
Sem esperar por mais minutos assassinos, aproximei-me dele e toquei seus ombros, abraçando-os com minhas mãos.
— Eu realmente não sei como fazer isso. – Confessei, esperando de Ibn o que ele, mesmo sem perceber, havia prometido me dar. Segurança.
— Continue tentando. – Pediu.
Foi quando nossos lábios se encontraram. Sem que eu tivesse noção, estávamos trancados em meu quarto, a luz baixa refletindo nas partes metálicas de meu uniforme, as quais, pouco a pouco deixavam meu corpo. As mãos de Ibn invadiram cada espaço meu e eu fiz o mesmo, explorando o quão de mais profundo e não-egoísta havia dentro de seu coração. Naquela noite, meu lado humano aflorou, transpassando por meus beijos todas as inseguranças, todos os conflitos, tudo o que travava meus músculos.
De repente, eu não tive mais medo.
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