Codinome: Estrela da Noite
11 XI {ou quase fim do mundo: final}
Notas iniciais
Ganho de poderes, treinos pesadíssimos, joelhos ralados... Eu já tinha me machucado bastante ao longo da minha vida até então, mas nada daquilo se comparou com o que eu senti não só fisicamente como mentalmente também. No início, minha consciência não se deixou trabalhar em cima de hipóteses, pois a dor que se instalara em todo o meu corpo não me permitia nem ao menos pronunciar uma ou duas palavras. Só depois de um tempo – dias, até. Quem sabe? – em que eu finalmente me permiti voltar a “viver”.
Eu havia acordado em uma sala com pouca luz e muito, mais muito fria. As paredes não tinham revestimento, eram todas em pedra e barro, o que chegava a sujar um pouco o chão. Este, por sua vez, pareceu ter sido feito nas pressas com uma cerâmica velha e escura. Meu corpo se encontrava em cima de uma maca. As roupas de escrava tamaraneana haviam sumido, dando lugar a uma calça jeans claro e uma blusa tomara-que-caia preta cheia de estrelas vermelhas.
Nem um pouco na moda, por sinal.
Meu ombro e braço direito estavam totalmente cobertos por uma bandagem improvisada e suja com um pouco de sangue. Outras partes como minha testa e meu pé esquerdo também estavam revestidos por esparadrapo. Tive que respirar o ar mais fundo de meus pulmões para conseguir me mexer sem sentir tanto os ferimentos. Eu me lembrava de ter caído do céu após ser atingida por um raio laser. Caído como uma estrela cadente...
Três macas ocupavam o resto do espaço fora a minha. De resto, alguns equipamentos médicos e dois armários consideravelmente grandes. Uma espécie de batcaverna para casos de emergência, eu supus após algum tempo.
Tive de fazer muito esforço e aguentar fortíssimas dores de cabeça para só então ter lembranças dos últimos acontecimentos, acontecimentos estes que me levaram até aquele estado. Torre Titã, era isso! Portas cinzas gigantes, uma luz vívida... Mais brilhante que o sol, talvez? Gritos, mais dor... Não, eu não estava mais suportando! Sem estruturas para aguentar qualquer que fosse o golpe, qualquer que fosse a guerra!
Isso, guerra. Nós estávamos em guerra contra os tais Psíons: uma raça alienígena com traços de réptil, donas de uma possível arma que seria capaz de destruir uma galáxia inteira. Pensando melhor naquilo, algo me dizia que eles pareciam ser governados por alguém. Se o povo da Cidadela, o qual deu origem aos Psíons, havia sido destruído e expulso do universo a mais de vinte anos, como diabos esses novos lagartos gigantes do mal teriam tanto poder bélico, além de conseguirem ser uma forte e estruturada civilização surgida do nada? Algo não cheirava bem naquela história toda. Pena que eu só havia concluído aquilo tarde demais, quando a ameaça já está praticamente perto de explodir o meu planeta. Meu lar.
Eu quis aproveitar que estava sozinha naquele lugar, sem saber direito que horas ou por quantos dias eu havia apagado, para deixar claro para mim mesma que eu havia perdido. Hal Jordan¹, um dos heróis mais emblemáticos da história, sacrificou-se por mim. Meu pai... Meu Deus, o meu pai estava sob os cuidados dos tamaraneanos em um outro planeta também bastante fodido, defendido somente pelo Superman e pela Estelar, vulgo minha mãe.
O que pensar daquela mulher? O que tirar da minha experiência com ela? Não queria pensar naquilo, pois parte do meu momento presente já estava chateado e decepcionado demais com todo o resto. Eu não seria a maior heroína da Terra, pois nem mais Terra iria existir. Se desse sorte, conseguiria fugir e me resguardar em um outro mundo qualquer à mercê de uma vida medíocre, isso se a tal guerra galáctica não estourasse e eu não morresse em outro lugar. Seria esse o meu destino? Era para aquilo que eu tinha vivido uma vida inteira treinando para me tornar um nada? As lágrimas não saíam por mais que eu quisesse. Cheguei até a apertar um pouco a ferida do ombro para ver se algo acontecia, mas nada. Acima de tudo, estava seca e sozinha.
Arrastei-me na cama até a beirada, esforçando-me de maneira impossível para conseguir ao menos me sentar e jogar os pés para fora do colchão fino. Soltei gritos ensurdecedores, os quais ecoaram durante alguns minutos.
Eles estão aí para te mostrar que você está sozinha, que ninguém entenderá ou sanará sua dor. Nem a voz dentro de mim me perdoava.
A menininha da mansão Wayne que sempre teve tudo o que queria.
A egoísta que nunca pensou no real significado de ser herói.
A idiota que nunca vai superar a falta da mãe e a distância do pai.
A que nunca vai ter todo o poder que queria.
A sozinha, sem amigos, sem família, abandonada...
Mãos fortes me seguraram, me impedindo de cair no chão.
— Mar’i, Mar’i! – A voz de Roy Harper me atingiu. – Você ainda não pode se levantar, calma! – Depois de estar em seus braços, fui novamente levada para a maca. Insisti com algumas batidas em seus ombros para que ele me deixasse sentada. Com um pouco de receio, acabei acatando seu pedido. – Ainda estamos cuidando de seus ferimentos, você não pode se levantar.
Até aquele momento, eu já não estava mais escutando nada. Meu coração estava tão acelerado que eu, por alguns momentos, pensei que fosse morrer de infarto. Mas não, aquilo era acalento por saber que eu não estava realmente sozinha, que havia alguém me segurando nos braços, quem quer que fosse, cuidando de mim, me fazendo sentir mais importante que um pedaço de nada. As lágrimas foram derramadas inicialmente como se eu nem soubesse que elas estavam ali. Em seguida, meus soluços e gemidos doloridos já ecoavam o espaço. O Arsenal, conhecido por ser um tanto coração de manteiga, ficou totalmente espantado com minha reação. Ninguém ali havia me visto chorar ou demonstrar fraqueza. Após alguns minutos provavelmente pensando no que faria, ele simplesmente me abraçou, tomando o máximo de cuidado para não me machucar. Eu me agarrei a ele, sem me importar com mais nada.
Muletas. Não sabia se aquele era o cúmulo ou a falta dele, mas sem elas, eu não conseguia me manter firme nos dois pés, ainda mais quando soube que um deles estava, bem dizer, com todos os ossos destruídos.
Roy havia ficado comigo durante a maior parte do tempo. Ele que me atualizou de muita coisa, como por exemplo: eu tinha ficado mais de três dias apagada. O lugar em que estávamos era o subterrâneo da Sala dos Heróis da Torre Titã, como eu suspeitara. Além de ser um santuário de recordação dos heróis de grandes feitos que se foram, o lugar também servia como uma espécie de proteção. Suas paredes, estátuas e portas eram revestidas de promethium, o metal mais forte do mundo. Aquilo fora tudo ideia de Tio Victor...
Tio Victor!
No caminho até o que seria a sala de comando dos subterrâneos, perguntei várias vezes por meu tio. Arsenal/Arqueiro Vermelho/Roy Harper/qualquer outra coisa, no qual eu esperava tudo, menos mentiroso, não quis me responder. Ou ele trocava de assunto ou ficava imerso em silêncio. Algo me dizia que eu tinha visto Cyborg na Torre Titã, que ele estaria por todo o lugar. Ele seria o primeiro a vir cuidar de mim, não teria saído do meu lado. Eu queria que ele fosse a primeira pessoa que estivesse ao meu lado quando eu acordasse. Por onde diabos ele estaria?
Uma mesa de três pernas – exatamente assim – sustentada por alguns livros e trecos se encontrava no meio do que eu acreditava ser a maior sala do subterrâneo. Ironicamente, havia uma mesa, como em qualquer outra sala de comando de super heróis. Não havia cadeiras nem monitores computadorizados como antigamente, apenas dois lap tops cheios de fios e antenas, além de alguns apetrechos tecnológicos vermelhos e verdes que se encontravam em uma bancada de madeira velha. Aquilo com certeza era obra de Roy e seu parceiro, o Arqueiro Verde.
Assim que pus o pé – já que o outro se encontrava suspenso – dentro da sala, tia Donna saiu voando de onde estava e me abraçou. Achei que ficaria sem respirar e sem os ossos da coluna, o que a fez rir quando percebeu que estava quase me sufocando. Porém, seu sorriso estava repleto de lágrimas.
— Achávamos que você não conseguiria sobreviver... Você estava tão... – E não continuou, apenas voltou a me abraçar.
— Ficamos felizes em ver você de pé, Estrela da Noite. – O Flash sorriu um sorriso sem dentes enquanto teclava em um dos lap tops. Ele não parecia ter motivos para sorrir.
Caçador de Marte apenas ficou parado em um canto qualquer olhando para mim. Tirando ele, todos exibiam marcas de ferimentos, expressões cansadas e esperanças perdidas. Não sei o que mais me deixou nervosa: saber que os mais poderosos e antigos heróis estavam quase vencidos ou se aqueles eram os únicos que haviam sobrado.
— Quantos de nós... Restaram? – A pergunta me arranhou a garganta.
— O bastante para manter a Terra viva por mais... Uma semana. Talvez. – Caçador da Morte falou com sua voz vigorosa.
— E nossos contatos com outras tropas guerreiras intergalácticas? Barry? – Perguntou Donna, um pouco mais trêmula que o de costume.
Ele não disse nada, apenas mirou do monitor de seu computador para ela com o mais seco e triste dos olhares.
— Mas o que aconteceu com os titãs? E com meu tio? Onde está Cyborg? — Meu início de pânico estava evidente.
Um silêncio odioso se fez na sala. Todos me encaravam como se eu fosse a nova órfã da vez.
— Ainda não contou para ela, grande Arqueiro Vermelho? – Caçador de Marte soltou um riso debochado, o que me fez querer avançar em cima dele por uns segundos. Sorte que eu respirei fundo, além de que eu sabia que não deveria me meter, ainda mais em minhas condições. Eu percebi que Roy também quis avançar, mas a aparente dor o fez recuar e olhar no fundo dos meus olhos, parecendo procurar as palavras certas, o momento certo...
— Mar’i, a Avia foi gravemente ferida em combate e está em coma, sem chances de sobreviver. O resto da equipe está desolada, mas não pararam de lutar...
Eu não sabia mais distinguir o que era minha culpa e o que deixava de ser. Mesmo que Damian tivesse sido escolhido para ser líder da equipe, todos sabiam que meus poderes e minhas soluções em batalha, por mais perigosas que fossem, salvavam a todos. Eu fui a cabeça em nossa primeira missão, eu poderia ter ajuda-los... Avia poderia estar bem, poderia estar viva... Engoli a seco. Seus pais, eles sabiam? Uma menina tão jovem e poderosa nesse estado? Ou pior: estariam seus pais ainda vivos para chorarem pelo luto de sua garotinha? Minhas mãos começaram a tremer, as lágrimas voltaram a subir até meus olhos, contudo fiz de tudo para controla-las da melhor maneira que pude.
E de algum jeito bem pior, senti que aquela não era a única má notícia.
— E o Cyborg... Ele está morto. Foi ele quem te salvou de ser sucumbida pelos Psíons aqui na Torre. Robin lhe salvou, mas não conseguiu fazer nada por Victor. Eu sinto muitíssimo. – Seu corpo se estendeu até o meu como se ele soubesse que eu precisaria de outro abraço. Porém, não era nada disso. De uma maneira desgovernada, afastei-me dele, dando meia volta.
— Mar’i, eu sei que deve estar sendo muito difícil pra você, mas entenda que não podemos nos apegar a esses sentimentos! – Tia Donna implorava. – Eu convivi com Victor durante a maior parte da minha vida. Acha que eu também não senti a perda dele ou a de Avia? Esqueceu que todos os heróis que foram mortos até agora eram meus amigos? Os tempos são sombrios, Mar’i, mas você é a única que tem informações sobre o que está acontecendo em Tamaran, e precisamos delas para tentar impedir o fim da Terra. Por favor, seja forte! Eu sei que você puxou a sua mãe...
— Não fale disso. – Cortei-a rispidamente. – Eu não sou como ela. – Voltei a andar, mas dessa vez, para frente, até a mesa quebrada.
Eu já tinha chorado demais, já tinha me mostrado fraca demais. Se eu estava ali com todas as informações necessárias, ainda de pé e com novas habilidades, era porque eu tinha um propósito. Minha mãe deixou a Terra, mas eu jamais faria aquilo. Eu estava tendo a chance de me tornar a heroína que o planeta sempre quis e necessitou, pelo qual meu tio sempre me treinou para que eu fosse. Se ele se sacrificou por mim, dando-me a chance de viver um pouco mais... Eu iria honra-lo com certeza.
Comecei a falar desde minha chegada em Tamaran até tudo o que aconteceu comigo e com o meu pai. O resquício da Liga da Justiça quase caiu em prantos, aliviados quando souberam que o Superman, Estelar e Batman ainda estavam vivos. Contei sobre os Psíons, sobre o Córtex Veja, a arma e tudo mais.
— O Povo da Cidadela não teria capacidade para tanto. Com certeza alguém está por trás disso. – Barry Allen pontuou.
— Foi como alertei vocês. A galáxia inteira entrará em uma perigosa guerra. Precisamos destruir os causadores da mesma e seus colaboradores caso quisermos manter todo o universo vivo. – Caçador de Marte falou.
— Então vocês estão supondo que esses tais Psíons são uma espécie de exército comandado por alguém maior que está na guerra e quer simplesmente provar para todos que ele tem o máximo poder de fogo? – Roy encaixou as engrenagens, fazendo com que o resto presente na sala concordasse com a cabeça.
— E quem será esse grandessíssimo filho da puta? – Fechei uma das mãos sobre o apoio da muleta, determinada a ficar bem o mais rápido possível para partir todos os largartos gigantes ao meio.
— Acho que tenho uma suspeita. – O Flash falou enquanto olhava para a tela do computador, virando a mesma para nós.
O monitor exibia em má qualidade um pedido de socorro em forma de folhetim de algum planeta distante. Nele, a foto dos Psíons, da destruição e da figura de pele branca e assustadora saltavam em destaque.
Então Lobo estava por trás disso.
— Consegue descobrir onde ele está? – Tia Donna se mostrou mil vezes mais determinada e disposta, além de raivosa em ascensão.
— Vai levar no máximo... Algumas horas. – Barry respondeu, estalando os dedos e voltando a digitar de maneira rápida. Dã. — Posso trazer a localização dele após... Bem, vocês sabem.
Levantei as sobrancelhas enquanto olhava para todos, sem entender o que aquilo significava.
— Nós fazemos uma ronda pela cidade procurando por nossos amigos... Vivos e mortos. Enterramos os corpos numa câmera um andar abaixo deste... Em forma de respeito.
— O corpo de tio Victor já está aqui? – Não consegui evitar o tremor do meu corpo, muito menos da minha voz.
Apenas confirmaram com a cabeça.
Eu devia ir vê-lo naquele exato momento?
Tia Donna e Roy pediram para que eu não forçasse tanto assim meu corpo já que eu ainda estava bem ferrada, além de que algo na parte de cima daquele lugar estava a me despertar curiosidade desde que eu me tocara de que estava embaixo não somente da Torre Titã, como também da Sala dos Heróis. Na verdade, aquilo tudo era uma desculpa muito mais que esfarrapada para tentar me recuperar. Eu já estava tão quebrada que não sabia se conseguiria me recuperar com todas as informações me atingindo de uma vez só, ainda mais quando uma delas se constituía basicamente no corpo morto do meu segundo pai. Engoli a seco, tentando evitar lágrimas no meio. Assenti com a cabeça e me virei, saindo do local. Ainda perguntaram se eu queria ajuda para voltar ao meu quarto.
Eu podia fazer aquilo sozinha. Eu podia me reerguer.
A profundidade do subterrâneo era assustadora. As escadas que levavam até o andar térreo eram tantas que tive que parar entre um lance e outro para descansar e engolir os gritos de dor. Depois daquilo, eu com certeza pediria por morfina e por pelo menos dois segundos de sono. Para abrir a porta que me levaria até a Sala dos Heróis, era preciso um monte de códigos e impressões digitais. Essa era composta por um tipo de material bem mais forte que o da porta da frente, aquela que durante tanto tempo da minha vida fiquei admirando.
Como porra eu abriria aquilo sozinha?
De repente, uma respiração pesada tomou o ar atrás de mim. Por incrível que fosse, não consegui me assustar tão fácil. Papai tinha essa mania de agir nas sombras como bom Batman que era, e obviamente que seu pupilo teria herdado isso. Fiquei mais surpresa ao ver que Damian não estava tão machucado assim, apesar da expressão de tristeza. Um pouco de barba começara a se formar entre seu queixo e bochechas, o que o fez parecer muito mais velho que o normal. Sem dizer uma única palavra, ele fez toda a parte burocrática e abriu a porta.
O corredor era imenso. A sala ainda permanecia intacta, por mais que houvesse algumas rachaduras no teto, além da entrada da sala, a qual estava um pouco danificada cheia de destroços. Todo o lugar, fora as estátuas, pareciam ser feitas de promethium. O metal brilhava mesmo com pouca luz. Era como entrar em uma espécie de santuário luminoso. As tais estátuas... Erguiam-se do chão ao teto. Deviam ter o tamanho de um prédio de dois andares por ai. As medidas pareciam ser perfeitas, como se a pedra tivesse sido esculpida por anjos.
Eu tinha estudado sobre a Liga da Justiça desde pequenina, além de todos os heróis existentes já adjacentes. Fiquei frustradíssima quando percebi que havia heróis que eu não fazia a menor ideia de quem era. Contudo, quando meu olhar se estendeu por figuras canônicas como a estátua do Bruce Wayne, meu corpo arrepiou-se por inteiro. Foi ainda mais estranho quando percebi que havia uma estátua da minha mãe ali, sendo que a mesma ainda estava – até onde eu sabia – viva.
— Sua mãe é a única heroína viva que ainda tem uma estátua na Sala dos Heróis. – Damian finalmente falou como se soubesse exatamente no que eu estava pensando. – Ela ganhou a estátua como homenagem por sua bravura e atuação nas Noites mais Densas. Estelar foi importantíssima para a salvação da humanidade.
— Deveria virar filho dela então. – Falei rispidamente sem olhá-lo, ainda encarando a estátua. Ela parecia forte, magnífica... Tantas questões...
— Desculpe. – Foi então que virei bruscamente para ele. Damian Wayne? O Robin mais implicante e orgulhoso da face da Terra pedindo desculpas?! – Te devo umas palavras desde que você foi embora.
— O que você quer? – Perguntei, tentando decifrar o que tanto tinha por trás daquela máscara branca, do seu olhar gelado.
— Quando você foi embora, os Jovens Titãs ficaram em desfalque, mas acreditávamos que conseguiríamos enfrentar os lagartos filhos da puta e seríamos o triunfo da Terra. O problema é que... Esses caras são absurdamente fortes! Não há como vencê-los! Não sei como ainda perdemos tempo com isso tudo, arriscando nossa vida em algo que não vale mais a pena... A Avia está à beira da morte, se não já morreu. Minotaur está mal, Canário Negro perdeu o pai. Eu... Eu nunca tive capacidade de liderar essa droga de grupo, e infelizmente só percebi isso tarde demais. Queria... Queria pedir desculpas por tirá-la de um posto que você queria muito, ainda mais por ter falhado aqui. – Ele abaixou a cabeça, como se todo o seu gesto de coragem já tivesse se esvaído ali. – Você me conhece a tempo demais para saber que não sou de ficar me redimindo, me desculpando ou coisas do tipo, mas ao que me parece... Vamos todos morrer mesmo. Quero, ao menos, morrer com a consciência limpa.
— Por isso me seguiu até aqui? – Indaguei após um tempo, sem saber direito o que deveria ter dito após escutar aquilo. Eu ainda estava mexida, escutando todas as palavras em eco na minha mente. Por um momento, eu quase sorri. Quase.
— Em partes, sim. Cyborg... – Sua voz embargou. Ele quase chorou por questão de segundos. Aquilo me impressionou tanto ao ponto de ousar me aproximar de Damian e querer... Confortá-lo? Somente tocá-lo? – Ele fazia rondas nos restos da Torre para tentar salvar o que sobrou do equipamento, além de estar sempre esperando por você. Fiquei o ajudando por um bom tempo e percebi que ele não se preocupava tanto assim com o equipamento. Era mais uma questão de apego. Ele não queria abandonar aquele lugar por algum motivo. Quando você voltou, foi severamente atacada pelos Psíons. Victor tentou te salvar com todas as forças, mas quando percebeu que a luta seria em vão, pediu para que eu a salvasse da melhor maneira que eu pudesse. Tentei fazer com que não te ferissem tanto, mas... – Apontou para meu corpo. Foi então que ele não aguentou mais, apenas pôs-se a chorar. Só percebi que eu também fazia o mesmo quando senti meu rosto encharcado. – Desculpe, Mar’i. Juro que tentei salvá-lo, eu juro...
Não sei como meu corpo fez aquilo, mas ele se aproximou ainda mais de Damian. Larguei as muletas, apoiando meu corpo no dele. Minhas mãos seguraram fortemente seus ombros, o que o fez vacilar por alguns instantes, sem entender o que estava acontecendo. O abraço de Roy havia me libertado, porém minha ligação com Damian era além, por mais que nos odiássemos. Ele era uma figura familiar... Alguém da família...
— Obrigada, Damian. De verdade. – Sussurrei em sua orelha. Foram as palavras necessárias para fazê-lo me abraçar fortemente. Mesmo que meus ferimentos doessem, eu já não estava mais nem ai para eles.
Os cacos de mim estavam se recolocando pouco a pouco. Ainda havia esperança.
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