Notas iniciais
Preciso admitir: ser teletransportada é horrível, principalmente quando te mandam para uma nave espacial super equipada cheia de heróis incríveis te encarando como se você fosse uma experiência que deu errado. De fato, não estavam enganados.
Não sabia quem tinha sugerido o renascimento dos Jovens Titãs. Este ser merecia, no mínimo, uns bons socos certeiros na barriga. Onde já se viu colocar um bando de adolescentes que mal se conhecem para tomar conta de um planeta inteiro? Desde seus primórdios, uma das equipes mais conhecidas da história já apresentava falhas das grandes, tanto que a dissolução do grupo veio como em um estalar de dedos. Nós entraríamos no mesmo caminho, estava quase certa disso.
Haviam nos mandado de volta para a enorme sala. Estávamos todos, menos Manotaur, deitados sobre a mesa composta pelos integrantes da Liga da Justiça – uma grande maioria estava presente. Automaticamente, dei um sobressalto para poder ficar de pé, totalmente envergonhada da minha postura tão fraca.
— O que aconteceu com nosso colega Manotaur? Para onde o levaram? – Avia não conseguia esconder sua intensa preocupação.
— Ele está na enfermaria recebendo todos os cuidados possíveis, não se preocupe. – Superman tratou de nos avisar. Não sei por qual motivo suspirei de alívio. Talvez pelo fato de ter sido eu a autora da quase morte de um companheiro de equipe. – Cyborg acompanhou vocês em batalha enquanto estávamos resolvendo os problemas no espaço.
A cadeira voadora de tio Victor passou por cima de nossas cabeças, ficando de frente para nós logo em seguida.
— Vocês se saíram bem, Titãs. – Ele falou. A vontade que eu tive foi de gritar para ele o óbvio, que apesar dos largados-etcs terem sido contidos, nós funcionamos extremamente mal como uma equipe em batalha. Passei alguns minutos me perguntando como eu ainda não tinha aberto minha boca. – Conseguiram descobrir algo?
Mesmo deixando bastante evidente sua insegurança, Canário Negro III deu dois passos à frente. De seu cinto de utilidades, tirou um equipamento que mais parecia pó compacto para a face. Abrindo a tal bugiganga, depois de alguns cliques, um holograma grande o suficiente para ser visto por todos apareceu, mostrando a estrutura física das coisas horríveis que tínhamos enfrentado.
— Colhi amostras do solo próximo ao buraco de meteorito antes de virmos para lá, fora alguns pedaços da carne dos seres identificados. – Teclou em mais um botão enquanto tentava deixar a voz limpa para explicar tudo mais claramente. – A composição radioativa é um tanto nociva, mas ao contrário do que deduzi no início, há elementos extremamente similares aos do solo terrestre. Poderíamos plantar feijão naquele buraco e ver a muda tomando forma em menos de segundos. É uma espécie de adubo verde venenoso alienígena. – Uma equipe de dróides humanóides semelhantes aos que eu usava para treinar encontrava-se no chão, totalmente atentos às palavras de Olivia. Assim como meu tio e alguns super heróis presentes, eles anotavam tudo o que ouviam. – Enquanto aos bichos estranhos... Acho que todos já perceberam o quanto a anatomia externa deles é praticamente igual à de um crocodilo bípede. Eles respiram através da energia ambiente, como se não precisassem de nenhum órgão funcional como os pulmões para isso. Parecem ter uma pequena facilidade para regeneração. Nenhum deles falou ou esboçou inteligência considerável.
— Os que nós estamos enfrentando além do cinturão de asteróides não só falam como também produzem armas de ponta. É sinistro! – Incrível como tio Garfield não perdia a piada, muito menos o Q jovem.
— Suas informações foram excepcionalmente cruciais, Canário Negro III. Após o fim da reunião, venha conosco para nosso laboratório. Precisaremos de sua ajuda. – Vixen lhe sorria largo, parecendo satisfeita com o que ouviu. Até eu estava, para ser sincera.
— Convenhamos que não esperávamos muitos bons resultados logo de cara. – Tia Donna tratou de falar. – Contudo, vocês protegeram a cidade e trouxeram boas informações. Estamos satisfeitos com o projeto.
— Com uma ameaça prestes a explodir sem aviso prévio, duvido muito que tenhamos tempo para treinar todos juntos, então não coloquem maiores expectativas. – Damian, que até então estava calado e somente observando entrou na conversa. Evitei meu olhar de desprezo para ele.
— Infelizmente, teremos de conviver com isso até que as coisas fiquem mais claras e calmas. – O grande Senhor Milagre se pronunciou.
— As ameaças a outros planetas crescem a cada momento. O Lanterna não deixa as linhas de frente nem por um segundo. – Arqueiro Verde falou enquanto, por vezes, encarava sua filha com bastante orgulho. Patético.
— Arqueiro Vermelho se ofereceu para ficar treinando vocês nos, acredito, pouquíssimos tempos livres que terão. – De repente, o braço mecânico de Roy Harper ficou estendido para o ar e um sorriso confiante se estampou no rosto do ruivo.
— Eu já quero começar a ajudar dando uma dica bem importante. – Seu jeito descontraído relaxava qualquer ser tenso. Afinal, todos ali estavam mais do que esgotados, tinha certeza disso. – Toda equipe precisa de alguém para fixar melhor as funções, para tomar a frente. Nós temos o alienígena mais forte do universo como manda chuva. – Ele apontou com o queixo para o Superman, o qual, mesmo sem querer, soltou uma pequena risadinha. – Vocês precisam de um líder.
De repente, os Jovens Fracassados se entre olharam como se estivessem procurando pela resposta ali através das encaradas julgadoras. Tudo o que eu via não passava de uma Avia extremamente abalada por achar que havia matado alguém, uma Olivia inteligente, mas não tão bem treinada em campo e um Damian. Este último dispensa qualquer apresentação.
— Tá legal... – Arqueiro Vermelho continuou. – Já que ninguém ai tem voto concreto e o amigo gigante de vocês está se recuperando de uma quase perca de braço...
— Acho que o Batman deveria escolher quem vai liderar. Afinal, Richard foi o fundador da equipe além de líder da mesma durante anos... – Superman sugeriu, deixando todos os olhos focados no cavaleiro das trevas.
Eu odiava aquela sua máscara. Odiava não conseguir decodificar expressão ou sentimento algum naquele rosto. Queria conseguir entender porque minha relação com meu pai ficou tão abalada após o meu crescimento. Sempre formos eu e ele até meus hormônios aflorarem e todo o papo de ser o Batman lhe pesar ainda mais do que no passado. Ele era pai/mãe, protetor e bastante dedicado a me dar a “educação” que achava necessária. Por que diabos me tratar como uma qualquer? O que eu havia feito de errado?
O movimento de sua boca foi tão pequeno que jurei não ter o escutado pronunciar uma única palavra.
Mas ele pronunciou.
Uma frase inteira.
— Damian deve ser o líder.
Eu tentei me segurar, juro que tentei.
— O que?! – Meu grito ecoou por todos os lados, fazendo com que a atenção agora estivesse em mim. – Por que ele?!
— Ainda tem vômito na sua boca, Mar’i.
— Ora, seu... – Murmurei prestes a avançar em cima de Dick Grayson quando tio Victor pôs sua cadeira voadora ao meu lado, impedindo-me de seguir em frente.
— Acho melhor terminarmos essa reunião. – Ele disse, olhando para mim e para meu pai ao mesmo tempo. – Vocês estão liberados até segunda ordem, Titãs. A decisão foi tomada. Por enquanto, é só.
Demorou menos de segundos para que eu saísse dali sem olhar para trás.
Digamos que eu tenha destruído minha cama com vários socos e raios oculares. Precisava extravasar a raiva em algo.
Tentava focar minha mente em todos os pontos que circulavam minha vida desde que o “booom” da ameaça estourou. Fui tirada da minha vida monótona achando que finalmente iria ganhar reconhecimento, acabei em uma equipe com um monte de palhaços, quase matei um deles, além de ter me mostrado extremamente fraca diante daqueles que eu mais queria que me reconhecessem. Por que diabos eu havia travado?! Eu era mil vezes mais poderosa do que aquilo, eu nunca cheguei a recuar de nada nem de ninguém. Por que meus sentimentos tomavam conta de mim daquela forma tão absurda? Não fazia a menor idéia do por que daquilo, mas eu queria chorar como se não houvesse amanhã. Contudo, não daria esse gostinho para meu pai, muito menos para os patetas dos quais eu fazia parte.
Só tinha uma coisa a fazer naquele momento. Livrei-me do uniforme e tomei um bom banho, colocando uma roupa bastante casual logo em seguida. Sem muita pressa, fui caminhando pelos corredores até – depois de muito tempo— achar a ala hospitalar em que o grande minotauro estava internado.
O quarto em que Manotaur estava era bastante grande, até mesmo um pouco maior do que minha instalação naquela nave fria em todos os sentidos. Uma maca flutuante e extremamente gigante deixava o meu companheiro confortável em seu sono profundo. O braço direito estava todo coberto por gazes. Ao seu lado estava Avia, a qual nem tinha se livrado de seu uniforme ainda. Ela devia estar lá desde o momento em que formos dispensadas.
— Deveria ir descansar. Tivemos um dia cheio. – Demorou muito para que eu tomasse coragem para dizer aquilo. Ser compreensiva e amiga não era muito o meu forte.
Ela nem sequer olhou para mim.
Cheguei um pouco mais perto.
— Olha, não adianta ficar se culpando...
— Como não? – Eram perceptíveis as lágrimas em seus olhos. – Eu concordei com essa idéia exorbitante sem pensar duas vezes. Poderia ter evitado...
— Não foi você que lançou os raios, Avia. Se precisa colocar a culpa em alguém, fique com raiva de quem realmente merece. – Desabafei, pondo as mãos nos bolsos de trás da minha calça jeans. Agora nós duas encarávamos o nosso companheiro adormecido.
Ela não tinha mais o que dizer. Ela sabia, nós duas sabíamos. A culpa realmente havia sido minha, porque eu era egoísta demais para pensar somente no meu brilho ao invés do bem estar dos outros. Estava ai um motivo pelo qual não votariam em mim como líder.
A porta do quarto abriu sozinha alguns minutos depois, trazendo do seu lado de fora Damian e Olivia. Eu não tinha forças para encará-lo, muito menos para ouvir alguma palavra de sua boca. Continuei imóvel em meu canto, remoendo o que parecia ser a tal culpa que tanto desejei.
— Isso não está dando nem um pouco certo. – Olivia desabafou em voz baixa. Todos nós acenamos com a cabeça, o que chegou a ser engraçado.
— Precisamos fazer com que dê certo. Todos contam conosco. – Avia pronunciou entre prantos sem deixar nenhum detalhe de Manotaur escapar de sua visão.
— Creio que concordamos com o fato de que precisamos nos conhecer, desde nossos poderes até nossas fraquezas. Uma equipe serve para dar apoio, além de qualificar melhor nossas ações em combate. – Papo aquele que quase me fez cochilar mentalmente por alguns minutos. Ninguém quis se pronunciar a dizer nada. Expor-se a desconhecidos babacas não estava entre meus planos. O suspiro de decepção de Olivia foi claro.
— Manotaur... Tem fraqueza a grandes ferimentos... – O sotaque forte junto com a voz grossa assustou tanto a mim quanto ao resto dentro da sala. Um sorriso surgiu no rosto do touro gigante. – Bem, estou bem...
— Graças ao tempo, graças à paciência!! – Gritou Avia com o maior dos sorrisos. Levantou-se em um salto, quase dando pequenos saltos pelo quarto. – Desculpe-me pelos danos, Manotaur! Eu não pensei...
O gesto sublime da aberração de braço machucado acalmou não só a Avia como a mim também. Meus olhos se encontraram com os dele, e naquele momento, eu soube que ele havia aceitado minha desculpa silenciosa e orgulhosa.
— Bem, continuando a dinâmica do nosso amigo já recuperado... – Enfatizara Avia enquanto acariciava um dos chifres de Manotaur. — ...Eu perco a habilidade de formar ventos se atingirem meu agente transformador de moléculas. – Ela apontou para a esfera vermelha que ficava um pouco acima do busto de sua armadura. – Ele que me ajuda a estabilizar os elementos presentes no ar para então manobrar meus poderes com mais facilidade.
— Confesso que não sou a melhor lutadora do mundo. Creio que esse seja meu ponto fraco. – Admitiu Olivia. Tive de me segurar para não soltar um suspiro de ironia. – Estou treinando outros estilos de luta, fora que ainda tento manusear arco e flecha como meu pai, mesmo sendo um tanto impossível chegar a tal perfeição...
Foi então que um silêncio enorme pairou na sala, deixando com que eu e Damian nos tornássemos protagonistas do que viriam a seguir. Quem daria o braço a torcer para revelar a sua fraqueza? Só de admitir que eu tinha uma já era vergonhoso demais para minha pessoa, quem dirá para aquele cuja existência me dói na cabeça?
Nossas fraquezas eram armas apontadas um contra o outro, e eu não estava nem um pouco a fim de puxar o gatilho.
De súbito, um alarme absurdamente alto foi disparado em toda a nave, fazendo com que nós interpretássemos o pior. Despedindo-nos de Manotaur, desejando que ele ficasse bom rapidamente, formos todos para aquela maldita sala da mesa dos julgadores em roupas coloridas. Ao chegar lá, a preocupação estava estampada em seus rostos.
— Descobrimos algo de suma importância. – Wally falava enquanto corria de um lado para o outro, ligando monitores e voltando a sentar na mesa.
O gigântico monitor começou a brilhar forte, mostrando o mapa dos planetas próximos a nossa galáxia, junto com um monte de gráficos.
— Através das informações de Canário Negro III junto com o que já sabíamos sobre os nossos amigos aliens, encontramos rastros de DNA, além dos mesmos elementos radioativos que estão incrustados no solo de Gotham em uma superfície planetária relativamente próxima daqui.
Notei que a expressão de tio Victor era de total tristeza, o que me fez ficar muito intrigada em relação ao que veríamos. Ao apertar do botão, um enorme holograma do planeta, junto a informações básicas do mesmo apareceu para todos.
Tamaran.
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