Codinome Beija-flor
7 Prendia o choro e aguava o bom do amor.
Notas iniciais
O problema da vida é que uma hora as mascaras caem. Eu realmente não conseguia controlar meus desejos e minhas inseguranças. A amo, ela sabe, mas todos os meus erros do passado impedem que ela seja minha, outra vez. E toda essa ideia de te-la do meu lado sem poder tocar, sem poder ir além... está me atormentando.
E então, fui acalmar meus pensamentos com cigarros, com cachaça. Gastei todo o dinheiro que me restava para acalmar o monstro exterior que queria mudar meus pensamentos, que me fazia infeliz, porque ela estava ao meu lado, tão perto, mas tão distante.
E é possível resumir meu dia em doses, tragos e lágrimas. Cheguei aquele estado de bebum em que a alegria passa e a depressão assume, mas não me importei. A bebida me fez chorar todas as lágrimas que tentei guardar nos últimos 5 anos da minha vida. A culpa, a dor, o desespero.
Bebi como se não houvesse amanhã para mim, fumei como quem não precisa de pulmão. Entrei em coma.
[...]
Acordei na semana seguinte, e era só eu e todo aquele quarto vazio de hospital. E era assim que eu queria estar, assim que queria morrer. Sozinho, sem importância, como deveria ter sido a minha vida inteira, e, se assim fosse, a minha pequena beija-flor poderia estar por ai voando, feliz com sua única flor, que a protegeria dos Tucanos que insistiriam em machuca-lá. Fazer tudo que nunca fiz.
[...]
Prometi a mim mesmo que nunca mais beberia, mas no fim de semana seguinte a culpa voltou, e bebi como um alcoólatra desesperado. Comecei a fugir da minha beija-flor, queria conter meus pensamentos, minha dor, além de que, ela precisava de um tempo longe de mim, para entender porque veio até aqui. Certamente o tal perdão que ela falou, foi apenas uma improvisação rápida que ela usou para dar nome ao motivo de estar aqui, com o estupido homem que destruiu seu coração.
Fugi tanto dela, mas acabamos nos encontrando numa cafeteria qualquer, numa esquina movimentada. Tentei virar o rosto, parecer invisível, queria ser o mais irrelevante possível para que ela não notasse minha presença.
– Caju... — Ela escondeu uma lágrima, que não sei dizer se era de pena ou de saudade ou de uma raiva contida.
– ... — A minha voz não saiu.
– Por que você sumiu? Estive tão preocupa...
– Beija-flor, vá embora. — A interrompi, tentando não ser grosseiro.
– Mas eu não quero... Eu quero ficar, te proteger, lhe dar a minha amizade.
– Eu te amo. Se você ficar, não será bom, nem para ti, nem para mim. Te ver todos os dias só faz eu me lembrar do quão horrendo e errôneo eu sou. E deve doer para ti também, lembrar de tudo que te fiz, do quanto lhe magoei, e de tudo que te falei e me arrependo.
E então, ela me abraçou. Logo, não sabia como reagir.
– Por favor, vá embora. Me abandone, por favor. — Dessa vez, ela foi.
E essa foi a última vez que a vi e que senti que fiz algo certo.
[...]
E a visão que tenho agora, é agradável. Sentado na beira de um abismo, literalmente. Olhando as árvores adiante, a brisa forte batendo no meu rosto triste e acabado. Eu sentia que deveria chorar, meu corpo implorava isso, porém eu me negava. Merecia sofrer por dentro, até me corroer completamente.
E a depressão que sempre escondi, se mostrou a tona, podia ter preferido me jogar na beira daquele abismo, porém preferi a bebida e os cigarros. Bebi até morrer, fumei até não mais existir pulmão.
Foi assim que mais uma pessoa sem importância, que só veio a vida para acabar com o coração de outra pessoa, se acabou. Só agradeço a uma divindade qualquer por ter me permitido escolher como acabar com tudo isso... Não foi algo diferente para mim, só me permiti me libertar de tudo isso... Pude me libertar de mim.
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