Sofia Carter

Nada era diferente quando chovia na cidade. A melancolia era comum de se sentir. Londres de certa forma era um lugar de sofrimento em tempos de chuva. Eu fui privada de não ouvir o ruído de fora por conta dos vidros fechados do carro. Minhas mãos descansaram no volante assim que o sinal fechou. As pessoas caminhavam com os guarda-chuvas erguidos, eu já imaginava que propagavam mais os barulhos das poças d'água pisoteadas.

Eu tinha saído a poucos minutos da Cybershield, empresa especializada em segurança digital e proteção de dados onde eu trabalho em Westminster. Meu trabalho é ser investigadora de segurança cibernética. Foi uma carreira que eu escolhi baseado na convivência familiar. Meu pai é um ex-detetive aposentado. Ele sempre me incentivou a ser observadora, questionadora e a buscar a verdade. Desde pequena, eu cresci cercada por histórias de investigação e mistérios não resolvidos.

Mesmo após a aposentadoria, meu pai continuou obcecado por certos casos, o que despertou em mim a curiosidade e a necessidade de justiça. No entanto, ao invés de seguir exatamente os passos do meu pai na polícia, eu encontrei a minha própria maneira de investigar crimes, especializando-se em segurança cibernética.

Leonard Carter, meu pai, foi o detetive veterano da Scotland Yard, conhecido por sua obsessão em resolver casos que pareciam impossíveis. Ele não era o tipo de policial que aceitava respostas fáceis, e sua teimosia muitas vezes o colocava em rota de colisão com seus superiores. Eu cresci ouvindo suas histórias, algumas contadas com orgulho, outras carregadas de frustração.

Ele falava sobre o Caso da Dama Sem Nome, um corpo encontrado no Tâmisa, sem digitais, sem documentos, sem histórico. Apenas um vestido caro e um perfume francês. Meu pai passou anos tentando identificar a mulher, mas o caso foi arquivado sem solução. Às vezes, ele dizia que ainda via o rosto dela em seus sonhos.

Havia também o Caso das Chamas Silenciosas, onde uma série de incêndios misteriosos destruíam casas em bairros ricos de Londres, sempre deixando uma única coisa intacta: uma fotografia antiga sobre a lareira. Meu pai suspeitava que o incendiário estava enviando uma mensagem para alguém, mas nunca conseguiu descobrir para quem.

O caso que mais o marcou, no entanto, foi o Desaparecimento de Amélia Carter – sua própria esposa e minha mãe. Uma noite, ela simplesmente sumiu. Sem sinais de luta, sem bilhete de despedida. Meu pai usou todos os seus contatos, todas as suas habilidades, mas nunca encontrou uma resposta concreta. Isso o consumiu. Ele começou a desconfiar de todos, até mesmo dos próprios colegas de trabalho.

Eu cresci vendo o meu pai afundar na obsessão, sempre repetindo que “a verdade nunca desaparece, só se esconde”. Por isso que eu escolhi a segurança cibernética. Se o mundo físico falhava em encontrar respostas, talvez os rastros digitais revelassem o que estava oculto.

A minha mãe era uma mulher de enigmas, um mistério dentro de outro. Quando desapareceu, eu tinha apenas dez anos. Eu me lembro das manhãs de inverno, quando ela me acordava cedo com um sorriso radiante, e o café da manhã era sempre acompanhado de histórias sobre suas aventuras, muitas vezes de ficção, mas com uma intensidade que fazia tudo parecer real. Ela adorava mistérios – tanto os que ela criava quanto os que enfrentava em sua própria vida.

Ela tinha uma personalidade magnética, mas também uma inquietação que a tornava difícil de acompanhar. Ela estava sempre em movimento, como se houvesse algo a mais que precisava ser alcançado, algo além do que os meus olhos podiam compreender naquela época. Para mim, a minha mãe era uma mulher de presença inconfundível – com cabelos loiros ondulados e uma postura elegante, mas com algo em sua expressão que parecia guardar um segredo profundo, algo que nunca teve coragem de compartilhar.

Ela sempre foi uma mulher muito à frente de seu tempo. Sua curiosidade pela psicologia criminal, os casos de desaparecimentos não resolvidos, a atração por histórias sombrias e sua constante busca por entender a mente humana faziam parte da sua natureza. Quando ela falava sobre esses temas, seus olhos brilhavam com um fervor quase vívido, e eu sabia que, de alguma forma, ela estava se preparando para algo que iria além do cotidiano da família.

O desaparecimento dela foi o que mais deixou marcas em mim. Uma noite, ela simplesmente sumiu. Não havia uma despedida, nenhum aviso, nenhuma pista. O caso foi tratado como um desaparecimento comum no início, mas a falta de respostas logo mergulhou meu pai em uma obsessão sem fim. Eu fiquei perdida, sem entender como o mundo da minha mãe poderia desaparecer assim, sem deixar vestígios. Minha vida de criança foi quebrada, e o vazio deixado por ela foi profundo.

A ausência da minha mãe, combinada com a incapacidade do meu pai em encontrar respostas, me deixou com um gosto amargo de frustração e um desejo ardente de entender a verdade.

Quando eu completei dezoito anos, meu pai ainda estava imerso na obsessão de encontrar a minha mãe. Ele insistiu em que a verdade estava em algum lugar, esperando para ser descoberta, mas eu não compartilhava mais dessa esperança. Eu decidi seguir o meu próprio caminho.

Ao me formar no ensino médio, eu fui para a universidade estudar Ciência da Computação, com foco em segurança cibernética. O mundo digital, com sua vastidão e complexidade, parecia o único lugar onde eu poderia ter controle. Eu sabia que o campo da segurança cibernética estava em ascensão e que, em algum nível, ali eu encontraria uma maneira de desvendar os segredos do mundo moderno – os segredos que estavam em todos os lugares, codificados e protegidos por firewalls e criptografias.

A universidade foi um campo fértil para mim. Eu era uma aluna excepcional, não pela facilidade, mas pela determinação. Os colegas me viam como alguém imperturbável, alguém que estava sempre um passo à frente. Eu não tinha tempo para amigos ou para festas – minha mente estava sempre absorvida por códigos e algoritmos, sempre em busca da próxima solução. Durante os primeiros anos de curso, eu me destaquei em segurança de redes e sistemas, mas foi na parte de análise forense digital que eu me encontrei verdadeiramente.

Meu primeiro estágio foi na Cybershield. A Cybershield tinha uma reputação de excelência e inovação, e eu sabia que era ali que poderia começar a trilhar a minha carreira. Eu me formei com honras, e, com o diploma em mãos, não perdi tempo em me juntar à equipe de investigação da empresa.

Ao ingressar na Cybershield, eu comecei a trabalhar com alguns dos melhores profissionais da área. Eu passei meus primeiros meses aprendendo os procedimentos internos, entendendo a infraestrutura da empresa e, finalmente, assumindo um papel mais ativo na resolução de casos que envolviam crimes cibernéticos. A empresa estava constantemente envolvida em investigação de vazamentos de dados, ataques de hackers e crimes financeiros. Foi nesse ambiente dinâmico e desafiador que eu percebi que a minha verdadeira paixão era a análise forense digital – descobrir, rastrear e desmontar os rastros que os criminosos deixavam online.

Foi durante um desses casos de violação de dados de uma grande empresa que eu me destaquei de forma inusitada. Eu consegui rastrear a origem do ataque, um hacker internacional, apenas por uma linha de código deixada para trás. Isso me rendeu uma promoção rápida e mais responsabilidades, consolidando a minha posição como uma das especialistas mais promissoras da empresa.

Na Cybershield, eu encontrei mais do que um emprego. Eu encontrei uma missão. A proteção digital das informações de empresas e pessoas era mais do que apenas um trabalho para mim; era uma maneira de, de certa forma, controlar o caos que a minha vida sempre foi. Onde meu pai falhou em encontrar respostas no mundo físico, eu acreditava que poderia, no mundo virtual, descobrir verdades ocultas. E, com isso, eu encontrei um propósito – não apenas proteger informações, mas também, de forma indireta, buscar a verdade que tanto procurava.

Eu dirigi pelas ruas de Londres, agora desertas, com a chuva batendo contra o vidro. O trânsito estava fluindo sem maiores problemas, mas eu não queria ir direto para casa. Precisava de uma pausa. Estacionei em uma cafeteria conhecida, entrei e pedi um café preto. Após alguns minutos, paguei e segui para casa.

Eu cheguei à portaria do prédio, os saltos batendo no piso claro e brilhante, refletindo a luz suave das lâmpadas. Pelos saltos, o som do caminhar ecoou no ambiente vazio, misturando-se com a chuva que ainda caía lá fora. O porteiro, com um olhar atento, me observou antes de falar.

“Uma encomenda foi deixada pra você mais cedo. O entregador subiu até o seu andar, mas como ninguém atendeu, deixou aqui.”

Franzi a testa, desconfiada. Eu peguei o envelope, sentindo o peso estranho de algo que não sabia o que era. Apertei-o contra o corpo, antes de me virar e seguir para o elevador.

Eu morava sozinha, e aquilo não fazia sentido. Não me lembrava de ter feito nenhum pedido. No entanto, não dei muita importância e entrei no apartamento, deixando o envelope sobre o sofá. Fui direto para o banheiro, onde tomei um banho quente. A fumaça do chuveiro embaçou o vidro grosso do box. Relaxei por alguns minutos, a água morna aliviando o cansaço.

Quando saí, preparei um lanche rápido, mas a minha mente, inquieta, voltou ao envelope, ainda lá, aguardando em silêncio no sofá.

Finalmente olhei para o envelope, algo em mim se inquietou. Era simples, sem nenhum indicativo de quem o havia enviado, apenas o peso de um mistério pesado. A textura do papel era áspera, com um tom envelhecido, como se tivesse sido guardado por muito tempo. Não havia remetente, nem endereço, apenas meu nome em letras grandes e nítidas, como se estivessem estampadas com uma precisão quase excessiva.

Eu hesitei por um momento, os dedos tocando a superfície fria do envelope. Não fazia sentido receber aquilo. Eu não tinha esperado nada, não tinha pedido nada.

Com um suspiro abafado, eu abri o envelope. Dentro, encontrei uma pilha de documentos manuseados, amarelados pelo tempo, e um bilhete dobrado de forma desleixada. Eu puxei o bilhete primeiro, a mensagem impressa com uma clareza que se destacava no caos das páginas:

“Você está em perigo. Não confie em ninguém.”