Sofia Carter

Nós dois seguimos jantando. Eu, ainda desconfiada, mantive o olhar atento nele enquanto provava a refeição. O aroma do prato bem preparado contrastava com a tensão silenciosa que pairava entre nós.

Ethan comia com a naturalidade de quem estava acostumado a situações assim — encontros envoltos em mistério e intenções não ditas. Eu, por outro lado, alternava entre os talheres e os pensamentos, tentando encaixar as peças daquele quebra-cabeça que acabara de receber.

Por alguns minutos, apenas o som discreto dos talheres preenchia o espaço entre nós.

Eu parei de mexer no prato, repousando os talheres na borda enquanto meus olhos analisavam discretamente Ethan. Ele, por outro lado, parecia completamente imerso na refeição, degustando cada garfada com atenção plena, como se nada além do prato importasse.

No instante em que ele levou outro pedaço à boca, percebeu o meu olhar e parou, o garfo suspenso no ar. Seus olhos encontraram os meus com uma calma desconcertante antes de perguntar, sem pressa:

"Você não está gostando do prato?"

Eu pisquei, perplexa. Como ele conseguia agir assim, tão indiferente, como se nada estivesse acontecendo? Como se aquele jantar fosse apenas um encontro casual e não parte de algo muito maior?

Por um momento, eu hesite sentindo um misto de confusão e surpresa. Eu sabia que a pergunta dele era simples, mas estava longe de ser sobre o prato. Sem conseguir esconder a leve frustração, respondi, tentando manter a calma:

"Não é isso. Só... estava pensando em algumas coisas."

Eu desviei o olhar, tentando disfarçar o incomodo, mas não consegui deixar de perceber a maneira como ele continuava tão tranquilo, como se estivesse completamente no controle de tudo. Eu senti que tinha que perguntar algo, quebrar aquele clima tenso.

"E você? Está gostando mesmo do prato ou só está fingindo?"

A pergunta saiu mais incisiva do que eu pretendia, mas, ao olhar para ele, percebi que não poderia continuar me sentindo tão desconectada da situação.

Ethan, com um sorriso ligeiramente enigmático, repousou o garfo no prato e se recostou na cadeira.

"Você aceitou que as coisas fluíssem assim" ele disse calmamente, quase como se fosse uma constatação, não uma pergunta. "Às vezes, as situações tomam rumos que não esperamos, e nós seguimos, sem pensar muito. Eu estou apenas deixando as coisas acontecerem, como você."

Ele deu um leve sorriso, como se estivesse esperando uma reação minha, mas manteve-se impassível, como se tivesse feito a afirmação mais óbvia do mundo.

Eu franzi as sobrancelhas, tentando entender o que ele queria dizer. Eu não estava disposta a me deixar levar pela conversa sem obter uma resposta.

"Eu te fiz uma pergunta" — eu disse, minha voz firme, mas com um toque de impaciência.

Ethan me observou por um momento, como se estivesse ponderando suas palavras. Depois de um suspiro leve, ele respondeu, mantendo seu tom calmo:

"Eu não gosto de complicar as coisas. Mas a verdade é que estamos aqui porque algo nos trouxe até este ponto. A resposta... mas posso te garantir, estamos apenas começando."

Cruzei os braços sobre a mesa, dando um sorriso irônico.

"Ah, claro. Só começando. Porque quem não gostaria de ser envolvido em uma situação nebulosa, com um estranho, em um jantar estranho, em um restaurante estranho?" — eu disse, o sarcasmo evidente na minha voz.

Ethan, com um sorriso igualmente irônico, deu um leve gole no vinho antes de responder:

"Bem, quem poderia resistir, não é? O charme de um mistério e um jantar sofisticado. Eu diria que isso é o sonho de qualquer um."

Ethan colocou o copo de vinho com cuidado sobre a mesa, seu sorriso desaparecendo lentamente. Ele se inclinou para frente, os olhos agora fixos, mais sérios do que antes.

"Ok, chega de piadas." — Ele fez uma pausa, como se estivesse ponderando as palavras que escolheria. "Você já percebeu que isso não é só um jantar casual, certo? Tem coisas acontecendo aqui, coisas que você não entende ainda, e talvez nem eu. Mas você está envolvida nisso agora. Eu só quero que você saiba que, por mais desconfortável que seja, não há como voltar atrás."

Eu o encarei com uma expressão firme, não deixando espaço para mais brincadeiras.

"Quem te mandou atrás de mim?" A pergunta saiu sem rodeios.

Ethan deu um leve sorriso, sua expressão tornando-se mais afiada, como se estivesse se divertindo com a minha insistência.

"Você acha que sou apenas um peão nessa história, não é?" Ele deu uma risada curta e sarcástica.

Eu franzi a testa, mais uma vez tentando entender o jogo de palavras de Ethan, mas sem paciência para enigmas.

"Você está se divertindo com isso, não está?" perguntei, cruzando os braços sobre a mesa, meus olhos fixos nele.

Ethan se recostou na cadeira, sua expressão agora mais séria, mas com um brilho misterioso nos olhos.

"Você pode não gostar das respostas. Mas a verdade é que ninguém manda alguém atrás de você sem ter um motivo muito específico."

Ele, sem pressa, levantou o copo de vinho e deu mais um gole, mantendo os olhos fixos em mim enquanto saboreava a bebida, como se a resposta já tivesse sido dada, mas ele ainda estava me desafiando a encontrar as palavras certas.

Ainda desconcertada pela resposta enigmática de Ethan, respirei fundo antes de falar, tentando manter a calma.

"Quem está por trás disso?"

Ethan girou levemente a taça entre os dedos, observando o reflexo do vinho sob a luz suave do restaurante. Então, com um meio sorriso, inclinou-se um pouco para frente.

"Digamos que algumas pessoas têm muito interesse em você. Pessoas que preferem se manter nas sombras, pelo menos por enquanto."

Ele tomou mais um gole do vinho, como se suas palavras não carregassem nenhum peso especial, mas seus olhos denunciavam o contrário.

"E eu sou apenas o mensageiro... ou talvez só um curioso no meio dessa história."

Eu cruzei os braços, inclinando-se um pouco para frente, sem tirar os olhos dele.

"Pessoas que preferem se manter nas sombras? Você diz isso como se fosse algo normal. Mas eu não estou no jogo de aceitar mistérios sem respostas."

Ethan soltou um pequeno riso pelo nariz e apoiou a taça sobre a mesa.

"Se estivesse, não estaria aqui agora, jantando comigo."

Eu estreitei os olhos, sentindo que ele estava se divertindo com aquilo.

"Eu vim porque quero respostas. Se está tão interessado em mim, comece a falar."

Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, como se avaliasse algo em mim. Depois, deu de ombros, seu tom ficando mais sério.

"Tudo bem, então aqui vai uma: sua mãe pode estar viva."

...