CodeBreak (Quebrador de Códigos)
6 Sombras do Passado 3.
Sofia Carter
Minha mãe era uma detetive. Mas não uma detetive comum. Amélia Carter nunca se contentou com respostas fáceis, nunca aceitou aquilo que parecia óbvio. Ela tinha um instinto afiado, uma mente analítica que enxergava conexões onde ninguém mais via. Era o tipo de mulher que poderia desmontar uma mentira com um único olhar, que conseguia farejar segredos antes mesmo de serem sussurrados.
Desde criança, eu me lembro dela sempre envolvida em algum caso. Pilhas de arquivos, anotações rabiscadas à mão, noites passadas em claro na frente do computador ou folheando relatórios. Ela nunca nos contava tudo—"é para sua segurança", dizia—mas eu e David aprendemos a perceber os sinais. O olhar cansado, a expressão tensa, a forma como ela trancava a porta do escritório quando achava que algo estava prestes a dar errado.
Diferente do meu pai, que confiava na lógica metódica e na burocracia, minha mãe se movia pelo instinto. Não esperava permissões, não seguia protocolos. Ela investigava porque precisava saber a verdade, porque alguma coisa dentro dela não permitia que ela parasse.
O problema é que, às vezes, a verdade cobra um preço alto demais.
Na noite em que desapareceu, ela saiu de casa como fazia em qualquer outro dia. Pegou o casaco, deu um beijo rápido em mim e em David e saiu pela porta, prometendo que voltaria para o jantar. Mas nunca voltou.
Por muito tempo, meu pai tentou seguir os rastros dela, usou cada método, cada contato que possuía. Mas a resposta sempre foi a mesma: um beco sem saída. Um desaparecimento sem explicação.
David acreditava que eu guardava rancor do nosso pai. Talvez eu realmente guardasse. Não era raiva, exatamente, mas uma sensação sufocante de frustração. Ele tinha conhecimento, acesso a recursos, contatos. E, mesmo assim, não conseguiu descobrir o que aconteceu. Enquanto eu procurava pistas nos lugares digitais, rastreando cada fragmento que pudesse ter sido esquecido na rede, ele seguia suas metodologias, sempre esbarrando no mesmo vazio.
Mas agora tudo mudou.
Os documentos que encontrei não deixavam dúvidas: minha mãe não era apenas uma detetive qualquer. Ela estava envolvida em algo maior, algo que ia além de simples investigações particulares.
E então havia Ethan Blake.
Ele apareceu como uma sombra, um homem que parecia saber mais do que dizia. No começo, pensei que ele fosse apenas uma peça do quebra-cabeça, alguém que estava ali para me ajudar, talvez até para me guiar. Mas, à medida que os dias se passavam, percebi que ele não era quem parecia.
Ethan tinha uma resposta para tudo. As respostas dele eram certeiras, mas ao mesmo tempo envoltas em uma névoa de mistério. Cada palavra, cada gesto parecia cuidadosamente calculado. Eu não podia confiar completamente nele, mas também não podia ignorá-lo.
Eu sabia que ele tinha algum tipo de interesse nisso. Mas qual era o verdadeiro motivo de ele ter me encontrado? O que ele realmente queria? Eu ainda não tinha respostas. O dossiê que ele me entregou foi, sem dúvida, uma chave para algo muito maior, mas quem, de fato, o havia enviado? E por quê? Essas perguntas martelavam minha cabeça, e quanto mais pensava, mais ficava claro que Ethan estava no centro de tudo, mesmo que ele nunca revelasse completamente suas intenções.
O que mais me impressionava era como ele se comportava. Ele não era só astuto; ele tinha uma calma imperturbável, algo que fazia com que eu me questionasse se ele sabia mais do que deveria. Cada movimento dele era controlado, como se estivesse sempre jogando um jogo no qual eu não sabia as regras. Quando ele falava, era como se soubesse exatamente o que eu pensava, o que eu queria ouvir, e, ao mesmo tempo, o que eu deveria ignorar. Não havia espaço para erros, não havia espaço para vulnerabilidades.
E, então, eu percebi: Ethan não estava aqui por acaso. Ele tinha algo mais em mente. O jeito como ele agia, o modo como ele manipulava a situação para que eu caísse nas armadilhas que ele mesmo estabelecia, tudo isso me dizia que ele estava jogando seu próprio jogo. Mas, ao mesmo tempo, algo dentro de mim me dizia que talvez, só talvez, ele fosse a chave para desvendar o que aconteceu com minha mãe.
Eu não sabia se confiava nele, mas sabia que não podia ignorá-lo. Ele estava me conduzindo por um caminho tortuoso, com promessas vagas e informações que me deixavam mais confusa a cada passo. Mas uma coisa era certa: ele sabia mais sobre a minha mãe do que qualquer um, e talvez, fosse essa a resposta que eu tanto procurava.
Eu precisava dos recursos da Cybershield, uma infraestrutura que só uma empresa desse porte poderia oferecer. Mesmo com o que eu já sabia, ainda faltava muito, e a verdade estava além do que meus próprios meios podiam alcançar. Os servidores da empresa, os softwares de rastreamento avançado, os algoritmos de previsão cibernética. Eu queria usar tudo.
No entanto, eu precisaria da permissão de Noah Sinclair. O nome por si só era uma promessa de poder e recursos. CEO da Cybershield, Noah era, para muitos, uma lenda nesse setor. Mas, para mim, ele era mais do que apenas um chefe. Ele era a única pessoa em quem eu poderia confiar o suficiente para pedir ajuda — e isso não era algo que eu fazia facilmente. Não tinha contado para ele o que estava realmente investigando. Afinal, quem iria acreditar que o desaparecimento de minha mãe, uma detetive, estava mais ligado a uma trama de segurança digital do que qualquer caso convencional? Mas agora, eu não tinha outra escolha.
Primeiro, eu planejava acessar os dados de vigilância de tráfego de rede que a Cybershield mantinha. Uma análise mais profunda de pacotes de dados poderia me dar informações sobre a comunicação dos agentes envolvidos no desaparecimento de minha mãe. Talvez alguém estivesse tentando me impedir de descobrir a verdade, e os rastros digitais sempre deixavam uma marca. Esses rastros poderiam ser encontrados nas comunicações secretas ou nas transações feitas por aqueles que estavam no centro dessa rede oculta.
Eu também queria usar o sistema de detecção de anomalias, que analisava padrões de comportamento cibernético. Isso poderia me ajudar a identificar atividades suspeitas, conexões misteriosas entre servidores e usuários, e, quem sabe, até identificar uma rede de hackers ou até mesmo uma agência governamental envolvida em uma conspiração de encobrimento. O método que eu usaria era simples: monitorar e interceptar os dados, e então analisar os registros para identificar qualquer pista que se relacionasse com minha mãe.
Além disso, os sistemas de criptografia e de quebra de códigos seriam fundamentais. Eu sabia que, se tivesse acesso à infraestrutura de segurança cibernética de alto nível da empresa, poderia tentar reverter as criptografias que bloqueavam os documentos relacionados ao caso da minha mãe. Talvez os arquivos que estavam protegidos por senhas fortes ou criptografados com algoritmos sofisticados pudessem ser acessados, se eu tivesse os recursos certos. E eu sabia que Noah possuía os melhores.
Mas antes de dar esse passo, eu precisava pedir permissão. Não podia simplesmente acessar os sistemas da empresa sem justificar minha pesquisa. Não queria levantar suspeitas ou parecer que estava fazendo algo ilegal. Eu precisaria ser cuidadosa, pedir a ajuda de Noah com tato, explicar apenas o suficiente para não levantar muitas perguntas, mas ainda assim garantir que ele entenderia que eu estava trabalhando em algo sério.
Eu estava completamente imersa na tela do monitor, ajustando os sistemas internos da Cybershield. Não era o que eu queria fazer, mas a urgência de resolver o que estava acontecendo com a empresa me forçava a continuar. As linhas de código se moviam rapidamente diante dos meus olhos, mas eu mal conseguia focar. A frustração com o caso da minha mãe ainda me consumia, mas não podia deixar que isso afetasse o que tinha que fazer aqui.
O ambiente ao redor era aquele de sempre: paredes de vidro, iluminação fria, e o zumbido constante dos servidores no fundo. Eu podia sentir a tensão em meu corpo, como se tudo estivesse pedindo para eu simplesmente parar e olhar para os pedaços de informação que se conectavam de forma tão confusa.
Foi quando ouvi a porta se abrir, interrompendo meus pensamentos. Levantei os olhos rapidamente e lá estava ele. Noah Sinclair. Ele entrou na sala com a postura de quem controla tudo, como se o mundo tivesse sido projetado para obedecer à sua presença. A sensação de controle que ele irradiava era palpável.
"Sofia, você disse que precisava conversar comigo." Sua voz estava calma, mas tinha um tom de curiosidade, como se soubesse que algo não estava certo.
Eu olhei para ele sem esconder o cansaço nos olhos. Noah tinha cerca de 1,90 metros de altura, e cada passo que ele dava parecia ecoar mais forte no ambiente. Seus cabelos eram castanhos escuros, bagunçados de um jeito quase proposital, e seus olhos… aqueles olhos azuis claros penetrantes. Eu não podia deixar de notar a forma como ele me observava, como se estivesse me analisando o tempo todo. Um terno escuro se ajustava perfeitamente ao seu corpo, e uma camisa branca, simples mas sofisticada. Não havia gravata, o que dava a ele uma aparência mais casual, mas ainda assim, poderosa.
Eu olhei para ele, tentando decidir por onde começar. Não podia simplesmente lançar o que estava planejando de uma vez. Precisava de cautela.
"Sim, eu… preciso de uma ajuda sua." respondi, minha voz um pouco mais baixa do que o habitual, como se estivesse ponderando as palavras. "Há algo que estou investigando, algo pessoal, e… vou precisar de recursos da empresa para chegar mais longe. Ferramentas que não tenho acesso aqui."
Ele me observou em silêncio por alguns segundos, avaliando, antes de falar novamente.
"Você sabe que não me importo de ajudar, mas vai ter que me explicar mais. Não podemos ficar no campo das suposições."
Quando Noah queria saber de algo, ele não se apressava, não fazia perguntas diretas demais, mas havia uma intensidade silenciosa em sua observação que não deixava margens para evasivas. Ele tinha esse jeito de esperar, de simplesmente estar ali, calado, com os olhos atentos, analisando. Era como se ele soubesse que eu não me sentia confortável em abrir tudo de uma vez, mas ainda assim queria me fazer ceder sem pressa.
Ele era bom nisso. Em um ambiente corporativo, isso era algo que poucos conseguiam dominar — a arte de controlar o ritmo da conversa, de nos fazer pensar que estávamos no comando enquanto, na verdade, ele já sabia tudo o que precisava. Às vezes, eu até me perguntava se ele sabia mais sobre mim do que eu mesma.
Fiz uma pausa, observando sua reação, antes de responder. "Você precisa entender que isso... isso é muito maior do que qualquer coisa que já fizemos aqui."
Noah me olhou por um momento, seus olhos estreitos como se estivesse analisando cada palavra que eu dizia. Ele nunca foi de dar respostas rápidas ou apressadas. Sua calma era quase... desconcertante.
"Você sabe que se me pedir ajuda, não vou questionar. Eu entendo quando algo precisa ser feito e quando os riscos são maiores do que imaginamos. O que me preocupa é o que você não está me dizendo. E o quanto você está disposta a se envolver nessa história. Você sabe que, ao pedir minha ajuda, não vou ficar apenas observando." Ele deu um passo em minha direção, sua voz, embora tranquila, tinha um peso que não pude ignorar.
Eu me senti completamente presa, cada palavra que eu tentava dizer parecia se perder antes de chegar aos meus lábios. Eu queria explicar, queria encontrar uma forma de justificar o que estava acontecendo, mas algo dentro de mim me impedia. Noah parecia tão calmo, como se estivesse esperando por algo... por uma falha da minha parte. Quando eu estava prestes a falar, meu celular tocou, interrompendo o silêncio pesado.
Levantei da cadeira rapidamente, quase como se fosse uma fuga, e percebi, ao virar, que Noah levou a mão ao queixo, pensativo, mas não disse nada. Fui até o celular, sentindo uma pressão crescente no peito. Quando vi o nome de David na tela, uma sensação de urgência tomou conta de mim. Eu sabia que ele estava preocupado, mas o tom de sua voz logo confirmou que algo estava errado.
Atendi sem hesitar, ainda de costas para Noah. "Oi, David," falei, tentando manter a calma, mas a ansiedade era clara em minha voz.
A voz de David não tinha o tom de preocupação habitual, mas de alguém que estava no limite, tentando manter o controle.
"Eu… Eu estava analisando os arquivos que você me entregou, tentando entender tudo o que está envolvido nisso. E, merda, aconteceu. Fui atacado por um hacker. Alguém entrou no sistema." Ele fez uma pausa, como se estivesse tentando se recompor.
"Você precisa… não contar sobre o dossiê para ninguém.
Fale com o autor