David Carter

Eu parei. O que quer que fosse aquilo, não era um simples desaparecimento. Eu olhei fixamente para os relatórios na tela. O nome "Operação Perseu" aparecia várias vezes, mas o conteúdo estava cada vez mais denso e nebuloso. Eu rolei o arquivo com a mente focada, como se fosse o único a poder decifrar o que estava ali. Os documentos falavam sobre um caso classificado como desaparecimento, mas, à medida que eu passava os olhos pelos detalhes, ficava claro que não se tratava de algo comum.

A Operação Perseu tinha sido montada pelo governo para investigar uma série de eventos que pareciam conectar o desaparecimento de nossa mãe a algo muito maior. Não eram apenas os documentos oficiais que estavam entrelaçados com essa operação; havia também relatórios confidenciais que indicavam uma rede clandestina de manipulação de informações e dados, algumas delas envolvendo servidores offshore e transações digitais ilegais. Em um desses relatórios, uma frase em particular se destacava:

"O desaparecimento de Amélia Carter não é uma coincidência. A operação está sendo monitorada por forças além do controle governamental."

Eu senti um nó na garganta. Isso significava que, de alguma forma, a nossa mãe estava envolvida em algo que ultrapassava qualquer limite que eu tivesse imaginado. Eu cliquei em um arquivo anexo, onde encontrei informações sobre uma série de transações misteriosas feitas pelo nome dela. Ao que parecia, ela havia se infiltrado em uma rede de inteligência digital, usando identidades falsas e manipulando dados em um nível quase impossível de rastrear.

Era como se o desaparecimento da nossa mãe fosse a ponta do iceberg, e o que estava abaixo da superfície era uma teia complexa envolvendo governos, organizações clandestinas e talvez até pessoas próximas a ele.

Tentei acessar alguns arquivos anexos à Operação Perseu, mas encontrei uma barreira inesperada: a maioria deles estava protegida por criptografia de alto nível. Eu sabia que não seria um simples bloqueio padrão. Se eram documentos ligados ao governo e a redes clandestinas, alguém queria garantir que apenas as pessoas certas tivessem acesso.

Primeiro, eu tentei abrir um dos arquivos diretamente pelo terminal, usando um comando básico para verificar seu formato:

file documento_perseu.enc

O retorno indicava que o arquivo estava criptografado com AES-256, um dos algoritmos mais seguros do mundo. Eu sabia que quebrar isso sem a chave correta não seria fácil.

Eu tentei usar uma ferramenta para descriptografar o arquivo, inserindo um palpite para a senha, mas sem sucesso:

openssl enc -d -aes-256-cbc -in documento_perseu.enc -out documento_perseu.txt -k "palavrapasse"

A resposta foi um erro de autenticação.

Se não conseguia abrir diretamente, talvez pudesse encontrar pistas nos metadados do arquivo. Eu rodei um comando para extrair essas informações:

exiftool documento_perseu.enc

A saída revelou um detalhe curioso: o arquivo tinha sido modificado pela última vez dois anos atrás por um usuário chamado "Orion". O nome não significava nada para mim, mas era uma pista.

Sabendo que o arquivo estava protegido por AES-256, eu decidi rodar um ataque de força bruta usando o Hashcat, uma ferramenta avançada para quebrar senhas e chaves criptográficas. Primeiro, converti o arquivo criptografado para um hash, basicamente uma impressão digital do arquivo ou senha, que pudesse ser testado:

hashcat -m 1400 documento_perseu.enc hashlist.txt

Depois, iniciei um ataque usando um dicionário de palavras-chave relacionadas à minha mãe:

hashcat -m 1400 -a 0 hashlist.txt wordlist.txt --force

Os números corriam na tela, testando milhares de combinações de senhas por segundo. Mas, mesmo depois de horas, nenhuma correspondia.

Eu parei por um momento, massageando as têmporas. Se eu não conseguisse acessar esses arquivos, nunca descobriria o que realmente aconteceu com a nossa mãe. Eu precisava de outra abordagem. Talvez, alguém lá fora tivesse a chave que faltava.

Respirei fundo e decidi mudar de estratégia. Se eu não conseguia quebrar a criptografia diretamente, talvez houvesse outra forma de contornar essa barreira.

Abri o Autopsy, uma ferramenta de análise forense, e comecei a examinar os metadados do arquivo. Muitas vezes, até os arquivos mais protegidos deixam rastros — informações sobre quem os criou, quando foram modificados e até fragmentos de dados perdidos.

Os primeiros resultados foram decepcionantes. O arquivo parecia limpo, sem nada útil nos metadados. Mas então, um detalhe chamou minha atenção: um registro de acesso recente. Alguém tinha mexido nesses documentos pouco tempo antes de chegarem até mim.

Isso significava duas coisas. Primeiro, esses arquivos não estavam esquecidos; alguém ainda os monitorava. Segundo, talvez houvesse uma cópia menos protegida em outro lugar.

Decidi seguir essa pista. Voltei ao Wireshark e reanalisei os pacotes capturados durante minha tentativa de descriptografia. Se o arquivo tentou se conectar a um servidor externo para validar a senha, poderia haver um rastro digital a seguir.

E lá estava: um IP suspeito, mascarado por uma VPN, mas ainda assim, uma porta de entrada. Eu ainda não sabia para onde isso me levaria, mas uma coisa era certa — quem quer que estivesse do outro lado, não queria que eu descobrisse a verdade.

Era uma disputa. Eu contra isso.

Cada tentativa frustrada de descriptografia, cada bloqueio inesperado, cada conexão mascarada era um lembrete de que alguém — ou algo — estava no controle dessa informação. E eu não.

Mas eu não ia recuar.

Abri o John the Ripper, outro poderoso quebrador de senhas, e comecei a rodar um ataque híbrido. Misturei um dicionário de palavras-chave com variações geradas por algoritmos, tentando prever possíveis padrões na criptografia. Se aquele arquivo tivesse sido protegido por alguém que seguisse um método previsível, eu encontraria a brecha.

As horas passaram. A tela do computador piscava com tentativas falhas, mas eu continuava. Sempre havia uma nova abordagem, um novo caminho.

A questão não era se eu conseguiria quebrar aquilo. A questão era quem cederia primeiro: eu ou o sistema que me desafiava.

A cada tentativa fracassada, a tensão aumentava. O John the Ripper cuspia erro após erro, uma linha vermelha no terminal que parecia zombar de mim. Eu sentia o suor nas palmas das mãos enquanto ajustava os parâmetros do ataque. Algo ali não fazia sentido.

Parei. Respirei fundo. Pensei.

Eu estava abordando isso da maneira errada. Se o sistema estava se protegendo tão bem, era porque alguém não queria que qualquer um acessasse esses arquivos. O que significava que... talvez eu estivesse enfrentando algo mais do que apenas criptografia padrão.

Segurança ativa.

Meu peito se apertou.

Se aquele arquivo estivesse sendo monitorado, se houvesse algum tipo de detecção em tempo real para tentativas de invasão...

Meu olhar correu para outro terminal aberto ao lado, onde o Wireshark ainda analisava pacotes de rede. E então eu vi.

Tráfego incomum.

A cada tentativa minha, um pacote era disparado para um servidor remoto. Pequeno, discreto, mas constante.

Alguém sabia que eu estava tentando abrir esse arquivo.

Meu coração disparou.

Meus dedos congelaram sobre o teclado. O tráfego incomum piscava na tela como um alerta silencioso, mas agora, cada pacote enviado parecia uma contagem regressiva.

Antes que eu pudesse reagir, a tela do meu terminal piscou.

Conexão perdida.

As janelas do Hashcat e do Wireshark fecharam abruptamente, como se alguém tivesse puxado o plugue da minha máquina. O cursor piscou uma última vez antes de congelar.

Então, a tela ficou preta.

Um segundo de silêncio absoluto.

E, de repente, o monitor piscou de volta à vida—mas não sob meu controle.

Linhas de código começaram a se formar diante dos meus olhos, como se uma mão invisível estivesse digitando diretamente na minha máquina.

"Curioso, não é, David?"

Meus pulmões travaram.

As palavras apareceram no terminal, uma após a outra, como se alguém estivesse me assistindo esse tempo todo.

Tentei alcançar o mouse. Nada. O cursor estava morto. O teclado, inativo.

Outro conjunto de palavras surgiu.

"Você realmente quer saber o que aconteceu com sua mãe?"

Um arrepio gelado percorreu minha espinha.

Então, sem aviso, um novo comando foi executado no sistema. A ventoinha do computador rugiu em protesto enquanto arquivos começavam a ser apagados diante dos meus olhos.

Eles estavam destruindo as provas.

Meu coração batia contra minhas costelas. Eu tinha segundos para reagir.

Minhas mãos voaram para o teclado, mas nada respondia. O sistema estava completamente bloqueado.

A tela continuava despejando linhas de código que eu não havia escrito. Era um ataque brutal, rápido e preciso. Eu estava sendo invadido por alguém que sabia exatamente o que estava fazendo.

"Muito devagar, David."

A mensagem surgiu no terminal como um sussurro zombeteiro.

Meus olhos vasculharam a tela enquanto processos desconhecidos se multiplicavam no sistema. Os diretórios estavam sendo vasculhados, cada pasta que eu havia acessado nos últimos minutos estava sendo examinada em tempo real.

O invasor não queria apenas destruir—ele queria ver o que eu sabia antes de apagar tudo.

Merda.

Tentei um comando manual para desconectar minha rede. Nada. Minha máquina estava refém.

O som repentino da ventoinha disparando no máximo me alertou—meu processador estava sendo sobrecarregado. Um ataque DDoS interno. Eles estavam esgotando os recursos do meu sistema, forçando um travamento total.

Na tela, um novo comando piscou.

rm -rf /home/david/Documents/*

Eles iam apagar tudo.

Meus arquivos. Meus rastros. O dossiê da minha mãe.

Em um impulso, me lancei para o lado, puxando o cabo de energia. O computador morreu instantaneamente, a tela mergulhando na escuridão.