CodeBreak (Quebrador de Códigos)
8 A Verdade Proibida 2.
David Carter
Fiz exatamente como Olivia mandou. Depois do ataque, eu sabia que não podia mais confiar no meu sistema principal. Então, improvisei um espaço mais seguro. Peguei um monitor extra, conectei a um computador isolado da rede e configurei um ambiente protegido para continuar investigando os arquivos sem riscos.
Dessa vez, usei um sistema operacional em modo forense, carregado de um drive externo, sem conexões desnecessárias. O objetivo era acessar os arquivos restantes sem expor nada ao invasor.
Os arquivos estavam criptografados com um nível de segurança que sugeria algo muito sério. Dessa vez, tentei outro método: em vez de forçar a senha diretamente, rodei um ataque baseado em padrões estatísticos, tentando prever as combinações mais prováveis. Era um processo mais lento, mas poderia me dar uma vantagem.
Enquanto trabalhava nisso, recebi uma mensagem de Sofia. Ela estava vindo para cá à noite.
O celular vibrou na mesa ao lado do teclado. Olhei de relance e vi o nome de Olivia na tela. Suspirei antes de atender.
— O que foi agora? — perguntei, sem tirar os olhos do monitor.
— Boa tarde pra você também. — A voz dela tinha um tom irônico. — Estou analisando algumas coisas e achei um detalhe curioso.
— Que tipo de detalhe?
— Nos documentos que você conseguiu. Não é nada concreto ainda, mas algumas assinaturas digitais não batem com os registros que deveriam estar lá. Parece que parte dos arquivos pode ter sido alterada ou até falsificada.
Agora ela tinha minha atenção.
— Falsificada como?
— Algumas das datas de autenticação estão estranhas, como se tivessem sido manipuladas depois que os arquivos foram assinados. Isso pode indicar que alguém tentou reescrever a história nesses documentos.
— Isso é um problema.
— Sim, e é por isso que estou te ligando. Quero saber se você pode verificar esses metadados mais a fundo. Talvez tenha alguma coisa oculta que passou despercebida.
Passei a mão no rosto, sentindo o peso das últimas horas.
— Sofia está vindo pra cá hoje à noite. Vou falar disso com ela e ver o que conseguimos puxar.
— Ótimo. Vou continuar revisando por aqui também. Se achar algo suspeito, te aviso.
— Certo. Fica atenta.
Desliguei e olhei para a tela. Se os documentos tinham sido alterados, então alguém queria esconder a verdade. E quem quer que fosse, sabia exatamente o que estava fazendo.
Deixei o monitor rodando uma análise de metadados enquanto ia até a cozinha. O código estava em execução, verificando cada detalhe dos arquivos que Olivia mencionou. Era um processo demorado, então achei melhor aproveitar o tempo para preparar algo pra comer.
Minha cozinha era pequena, mas funcional. Os armários eram escuros, contrastando com a bancada branca de pedra. A luz fria iluminava o ambiente de forma uniforme, e o som da geladeira funcionando no canto dava uma sensação de movimento, mesmo no silêncio da casa.
Peguei pão, queijo e algumas fatias de peito de peru na geladeira. Nada elaborado, só um lanche rápido, caso Sofia quisesse quando chegasse. Enquanto cortava um tomate para adicionar ao sanduíche, saí da cozinha para checar o monitor.
A barra de progresso do script avançava devagar. Ainda 35% concluído.
Suspirei e voltei para a cozinha. Coloquei os sanduíches na sanduicheira, deixando o cheiro de queijo derretido tomar conta do ambiente. Mais uma checagem.
54%.
Pelo menos estava indo mais rápido do que eu esperava. Encostei na bancada, cruzando os braços. Não era só a análise que me preocupava. Se aqueles arquivos tinham sido alterados, então alguém queria esconder algo sério.
O clique da sanduicheira me tirou dos pensamentos. Peguei os lanches e coloquei em um prato, deixando sobre a mesa. Antes de voltar para o computador, abri a geladeira e peguei duas garrafas de água.
Sofia deveria estar chegando a qualquer momento. E eu sentia que essa noite ia ser longa.
Ouvi as batidas na porta enquanto ainda estava na cozinha. O jeito que bateram—preciso, sem hesitação—já me dizia que era Sofia. Deixei minha caneca de café na pia e fui atender. Quando abri, ela entrou sem nem esperar convite, como sempre fazia.
Jogou a bolsa no sofá e cruzou os braços, analisando meu apartamento com aquele olhar crítico de quem sempre parece pronta para encontrar alguma coisa errada.
— Você tá bem? — perguntei, fechando a porta atrás dela.
Ela soltou um suspiro pesado e foi até a bancada, onde ainda tinha algumas migalhas do meu pão do lanche que eu fiz mais cedo.
— Depende do que você considera "bem".
Peguei minha caneca de café de volta, girando entre os dedos. Isso nunca era um bom sinal.
— Isso significa que deu merda?
Sofia ficou em silêncio por alguns segundos. Caminhou até a janela, olhando a cidade lá fora. Quando virou de volta pra mim, vi no rosto dela aquela expressão que só aparecia quando ela estava segurando mais coisa do que conseguia carregar.
— Eu preciso da sua ajuda.
Arqueei a sobrancelha. Eu já conhecia aquele tom.
— Ok, mas antes... você quer café?
Ela riu, mas foi um riso seco, sem humor.
— Quero algo mais forte.
Fiquei observando a tela, os arquivos recém-gerados ainda piscando no monitor. O silêncio na sala era pesado, até que Sofia finalmente quebrou.
— Eu não disse nada para o Noah.
Virei o rosto para ela, tentando decifrar sua expressão.
— Nem uma palavra?
Ela balançou a cabeça.
— Não. Eu… na verdade, eu queria pedir ajuda dele. — Seus dedos deslizaram pela borda da mesa, como se estivesse organizando os pensamentos. — Pensei que ele poderia facilitar meu acesso a alguns sistemas, algumas informações da empresa. Mas depois do que você disse e… do ataque…
Ela pausou, desviando o olhar para o chão.
— Depois disso, fiquei indecisa.
Soltei um suspiro, recostando-me na cadeira.
— Então, você ainda confia nele?
Ela mordeu o lábio, pensativa.
— Eu não sei. Antes, eu achava que sim, que poderia contar com ele. Mas e se eu abrir isso para ele e acabar ferrando tudo?
A tensão em sua voz era evidente. Eu entendia o dilema. No começo, também teria considerado Noah uma opção, mas as coisas estavam complicadas demais agora para confiar cegamente na ajuda de alguém.
— Então, o que você vai fazer? — perguntei, mantendo a voz firme, mas sem pressioná-la.
Ela respirou fundo.
— Ainda não sei. Mas depois do que aconteceu, eu preciso ter certeza de que estou do lado certo antes de envolver qualquer outra pessoa.
Assenti lentamente.
— Isso significa que, por enquanto, só temos um ao outro nisso.
Ela encontrou meu olhar e, por um instante, percebi que estava completamente ciente do risco que corríamos.
— Sim — respondeu, sem hesitação. — Só nós dois.
Eu me ajeitei na cadeira e comecei a explicar para Sofia tudo o que Olívia tinha me dito. A conversa ainda estava fresca na minha mente, cada palavra que ela tinha usado soando como um alerta.
— Olívia me ligou porque encontrou algumas inconsistências nos documentos que consegui acessar. Ela disse que, apesar de não ser nada concreto ainda, algumas assinaturas digitais não batiam com os registros originais. Aparentemente, parte dos arquivos pode ter sido alterada ou até falsificada.
Sofia, agora ainda mais atenta, se inclinou um pouco para frente, interessada no que eu dizia.
— Falsificada? Como?
— Algumas das datas de autenticação estão erradas, como se tivessem sido manipuladas depois que os arquivos foram assinados. Isso pode significar que alguém tentou reescrever a história nesses documentos, mudando as informações para encobrir algo.
Ela permaneceu em silêncio por um momento, absorvendo tudo. Eu sabia que, para ela, isso representava um ponto de virada. Se as coisas estavam mesmo sendo manipuladas dessa maneira, a gente estava mexendo com algo muito maior do que imaginávamos.
— E o que você vai fazer? — perguntou Sofia, fixando os olhos em mim.
Suspirei e voltei a olhar para a tela do computador.
— Olívia me pediu para analisar os metadados mais a fundo. Ver se consigo encontrar algo que tenha sido despercebido até agora. Acho que pode haver informações ocultas que não foram registradas corretamente ou que simplesmente não conseguimos ver à primeira vista.
Ela assentiu, seu olhar se tornando mais determinado.
— Então, vamos trabalhar nisso agora. Vamos descobrir o que estão tentando esconder.
Eu comecei a fazer o que sabia de melhor. Digitei comandos rapidamente, vasculhando os registros de autenticação dos arquivos, tentando encontrar qualquer tipo de discrepância que pudesse me dar uma pista mais clara.
Fui abrindo cada um dos documentos com cuidado, analisando os metadados que Olívia tinha mencionado. As datas, os números de série das assinaturas digitais, tudo. Alguns dos arquivos apresentavam algo que eu não tinha notado antes. Uma assinatura digital que, embora aparentemente válida, parecia ter sido alterada em um ponto específico. Como se alguém tivesse tentado esconder algo no meio de um processo que deveria ser irreversível.
— Aqui — murmurei para mim mesmo, marcando a diferença. — Tem algo estranho com esse arquivo.
Sofia se aproximou, inclinando a cabeça para ver o que eu tinha encontrado.
— O que você vê aí?
Apontando para a tela, mostrei a ela os detalhes que eu tinha acabado de identificar.
— Esse arquivo foi modificado. A assinatura digital foi reautenticada, mas a data do último acesso foi alterada. Está claro que tentaram cobrir uma mudança, provavelmente para apagar alguma evidência.
Sofia franziu a testa, a tensão aumentando.
— Então, isso é uma prova de que alguém estava tentando manipular o conteúdo.
Eu concordei, mais atento ao que estava à minha frente.
— Sim, isso é um começo. Mas temos que ser cuidadosos, porque se alguém souber que estamos atrás disso, pode ser um risco para todos nós.
Eu voltei a me concentrar na tela, sentindo a pressão aumentar conforme ia aprofundando a análise.
Primeiro, voltei a examinar a assinatura digital que parecia manipulada. Essa assinatura estava registrada em um intervalo de tempo muito curto, mas o conteúdo foi modificado muito depois dessa assinatura inicial. Isso significava que alguém havia acessado o arquivo novamente após a autenticação, uma violação clara do processo. Fui mais além e fiz uma busca pelos acessos a partir do IP que estava registrado nos logs.
— Aqui está outra coisa — falei para Sofia, puxando mais um conjunto de registros de acesso. — O IP que acessou esse arquivo não está na lista de pessoas autorizadas. Mais estranho ainda, ele se conecta a um servidor que não deveria estar em uso.
— Então, alguém com permissão de acesso pode ter manipulado o sistema para cobrir os rastros? Como um disfarce, talvez?
Eu balancei a cabeça, processando a implicação.
— Pode ser. Ou talvez não. Esse servidor não deveria ter acesso nem aos documentos nem à rede. A única explicação plausível é que alguém tenha usado o sistema de outra forma para criar uma falha que mascarasse o acesso. Alguém com um conhecimento profundo do sistema.
Eu digitei uma sequência de comandos para tentar rastrear os logs desse servidor, indo um passo além. Queria ver se algo mais aparecia, talvez uma falha na segurança ou outro ponto que nos desse um rastro mais claro. Quando as linhas de código começaram a aparecer, algo me chamou atenção. O servidor estava associado a uma conta de usuário que, até então, não tinha sido vinculada a nenhuma modificação anterior. Era uma nova conta, com poucas permissões, mas que, por algum motivo, estava acessando dados sensíveis.
— Isso é novo — murmurei. — Uma conta recente. Nenhuma referência anterior, mas com privilégios temporários que foram usados para fazer alterações. Precisamos investigar isso mais a fundo.
Sofia não parecia surpresa. Ela parecia mais focada, como se já esperasse que a coisa fosse mais complexa do que inicialmente parecia.
— Então é uma conta fantasma? Alguém criou ela só para fazer essas modificações?
— Exatamente. E é aí que fica mais interessante — eu disse, me inclinando para frente. — A partir da análise dessa conta, é possível ver que os acessos começaram logo após algumas reuniões-chave dentro da empresa. Não parece ser coincidência.
Sofia fez uma pausa, claramente absorvendo a gravidade do que estávamos descobrindo.
— Alguém na própria empresa, então, estava manipulando os documentos. Mas quem?
Eu franzi a testa, voltando os olhos para os registros. Então, uma informação importante surgiu: a conta fantasma estava ligada a um dos departamentos mais secretos da empresa, um que lidava com contratos e transações confidenciais. Isso aumentava a possibilidade de que quem estava por trás disso tinha acesso direto a informações cruciais.
— Isso não é bom. — Minha voz estava mais baixa, sabendo que cada palavra agora carregava peso. — Esse departamento tem acesso a dados sigilosos. Se essas modificações foram feitas para esconder alguma coisa, temos que entender o que foi alterado e por quem.
Eu passei a vasculhar mais profundamente as alterações dentro daquele departamento, cruzando os logs de atividades com os horários de reuniões e eventos significativos. Não demorou muito para que eu encontrasse algo ainda mais comprometedor. Uma modificação em um dos contratos que envolvia uma transação milionária, onde os termos haviam sido alterados, com a data de assinatura batendo com a data de modificação. Aquilo não era mais coincidência.
Continuei analisando os dados, cada vez mais imerso nos arquivos e metadados, até que algo chamou minha atenção. No meio de um arquivo de transação, um nome apareceu de forma recorrente, ligado a uma série de alterações. O nome parecia deslocado, como se estivesse disfarçado entre as mudanças mais recentes, mas o suficiente para se destacar.
— Espera aí... — falei baixinho, quase em um sussurro, ao identificar o nome em uma das modificações recentes.
Sofia, que estava observando tudo com atenção, se inclinou para ver o que eu estava olhando.
— O que você encontrou?
Eu destaquei o nome que apareceu na linha de revisão dos arquivos.
— Marcus Evans.
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