Code of destiny

5 Fantasma na sala de estar



Ponto de vista: Oliver Queen

O dia tinha sido longo.

Longo… e confuso.

Felicity estava mexendo comigo. Mais do que eu gostaria de admitir. E Diggle, claro, não perdia uma chance de deixar isso claro com aqueles olhares silenciosos que dizem "eu te avisei" sem precisar mover a boca.

Mas o caos maior me esperava em casa.

Entrei no loft e encontrei minha mãe sentada no sofá como se fosse dona do lugar.

Moira Queen. Elegante. Imponente. Sempre no controle. Até quando fingia estar apenas "de passagem".

— Oliver — ela disse, como quem recita uma peça de teatro. — Estava esperando por você.

Revirei os olhos.

— Claro que estava.

— Precisamos conversar.

— Quando você aparece sem avisar, isso nunca é uma conversa. É uma convocação.

Ela ignorou o comentário.

— Soube que contratou uma nova funcionária para o setor de tecnologia. Jovem. Inteligente. Barulhenta.

— Já tá fazendo dossiês dos meus funcionários também?

— Não preciso. Você não é tão discreto quanto pensa.

Suspirei. Tirei o paletó e joguei sobre a cadeira.

— Vai direto ao ponto, mãe. O que você quer?

— Quero saber como você está. De verdade. E não me venha com esse olhar vazio, Oliver. Eu sou sua mãe. Eu conheço você.

— Engraçado. Porque às vezes parece que não me conhece nada.

Ela endureceu.

— Isso é sobre o passado outra vez?

— O passado não vai embora só porque você finge que ele não existe.

— Eu não finjo. Eu luto contra ele todos os dias. Assim como você deveria.

— Eu luto, sim. Mas diferente de você, eu não finjo que nada aconteceu. Eu não finjo que meu pai morreu sozinho por acaso. Eu não finjo que você não teve parte naquilo.

A tensão cortou o ar como uma lâmina. Ela empalideceu.

— Eu fiz o que achei que era certo para proteger você. A empresa. Esta família.

— Você mentiu pra mim. Me fez acreditar que ele era só mais um CEO que não aguentou a pressão. Mas ele sabia. Ele descobriu as sujeiras da Queen Consolidated. E você o deixou afundar com tudo.

— Eu não o deixei morrer.

— Não fisicamente. Mas matou tudo que ele representava. E depois colocou essa máscara de mulher forte, impassível, e me jogou no lugar dele. Como se eu tivesse obrigação de sustentar um império que você mesma envenenou.

Ela levantou. Os olhos marejados, mas firmes.

— Você não entende, Oliver. Ainda não entende. O mundo que seu pai e eu vivíamos era cruel. E eu fiz o que era necessário. Você me julga por ter sobrevivido… mas algum dia você ainda vai me agradecer.

— Nunca vou agradecer por ter perdido meu pai… e descoberto tarde demais que minha mãe não era a mulher que eu pensava.

Ela ficou em silêncio. Por alguns segundos. Depois pegou a bolsa, ajeitou o casaco nos ombros e andou até a porta.

Antes de sair, virou-se para mim.

— Cuidado com essa garota, Oliver. As pessoas que brilham demais… às vezes cegam. E você sempre teve dificuldade em enxergar no escuro.

A porta se fechou atrás dela.

E eu fiquei ali.

Sozinho.

Com os fantasmas.

E com o nome dela ecoando na minha cabeça.

Felicity.

Talvez minha mãe estivesse certa.

Ou talvez… estivesse apenas com medo de que, pela primeira vez, alguém conseguisse me alcançar onde nem ela nunca conseguiu chegar.

A noite avançava devagar.

A cidade lá fora piscava com os reflexos de sempre, mas dentro de mim… era só ruído.

Me afundei no sofá do loft. Camisa semiaberta, copo de uísque na mão, olhar fixo em lugar nenhum.

A discussão com minha mãe ainda ecoava nos meus pensamentos.

As palavras. As acusações. A verdade que eu sabia — e a que doía demais pra aceitar.

E então, claro, como sempre, ele apareceu.

John Diggle. Sem bater, sem perguntar, sem pedir licença.

Ele entrou e me encarou por dois segundos. Não disse nada de imediato. Só observou. Analisando o estrago.

— Ela esteve aqui, não foi?

Não precisei responder.

— O jeito que você tá… só pode ter sido Moira Queen em pessoa — continuou ele, se aproximando. — O que ela fez dessa vez?

— O que sempre faz. Fingiu que se importa. Depois tentou manipular. E saiu dando conselhos como se fosse a rainha do mundo.

— E você deixou que ela te atingisse. De novo.

Revirei os olhos, joguei o copo sobre a mesa e levantei.

— Diggle, não começa.

— Não? Porque você já começou. Começou a se fechar de novo. Se esconder atrás dessa armadura que construiu com a mesma frieza da sua mãe.

— Eu não sou como ela.

— Não? Porque às vezes parece. Sabe qual a maior diferença entre vocês? É que você ainda tem escolha. Ela já virou o que o mundo corporativo exigiu. Mas você ainda pode sair disso. Ainda pode viver de verdade.

— Viver? — dei uma risada amarga. — Com um passado enterrado no fundo do oceano, uma empresa infestada de corrupção e uma mãe que destruiu tudo que meu pai acreditava? Me diz, Dig, como exatamente eu deveria viver?

Ele se aproximou.

Não com raiva. Mas com firmeza. A calma antes do soco verbal.

— Começa parando de fugir de tudo que te desafia. Inclusive da Felicity.

Meu corpo enrijeceu. Bastou ouvir o nome dela. Ele percebeu.

— Ela te faz bem, Oliver. Você tenta esconder, mas até seu silêncio muda quando ela entra na sala. Você respira diferente. Sorri sem querer. Se perde, e mesmo assim fica.

— Ela é só uma funcionária.

— Não. Ela é um ponto de luz no meio da sua escuridão. E o problema é que você tá com medo de se acostumar a enxergar. Porque se enxergar, vai ter que se perdoar. Vai ter que deixar o passado ir.

Silêncio.

— Não é simples assim — murmurei.

— Nunca é. Mas você precisa decidir: vai continuar carregando esse peso sozinho, ou vai deixar alguém entrar?

— Não quero machucar ela. Nem me machucar mais.

— Então comece falando com ela. Com honestidade. Porque se continuar empurrando pra longe tudo que te faz sentir… vai acabar exatamente como sua mãe.

Doeu.

Porque era verdade.

Porque ele sabia onde apertar.

E porque, no fundo, eu sabia que estava fazendo exatamente isso: sabotando a única coisa que me fazia sentir algo real depois de tanto tempo vivendo no automático.

Diggle se afastou. Pegou o casaco.

— Amanhã você vai vê-la de novo. E vai ter duas opções: continuar escondido… ou finalmente deixar alguém ver quem você realmente é.

Fez isso comigo. Tá na hora de fazer com ela também.

E saiu.

Me deixando com o eco da verdade que eu não queria ouvir.

Acordei antes do sol.

Sem conseguir dormir, sem conseguir desligar.

O uísque da noite anterior ainda estava no copo, intocado.

O peso da discussão com minha mãe ainda grudado no meu corpo.

E as palavras de Diggle?

Cravadas. Como estilhaços.

O caminho até a Queen Consolidated foi automático.

Cheguei antes de todos, como sempre.

Como se estar na frente de tudo fosse o suficiente pra controlar o caos que acontecia dentro de mim.

E então ela entrou.

Como sempre.

Barulhenta, sorridente, com o notebook agarrado ao peito e uma xícara enorme de café com alguma piada estampada. Cabelo preso de novo de qualquer jeito. Um brilho nos olhos que nunca apagava.

— Bom dia! — disse, já entrando sem bater. De novo.

Não respondi.

Ela parou, franziu o cenho. Mas insistiu.

— Achei que hoje podia te mostrar o protótipo do novo sistema de segurança. Fiz uns ajustes e acho que podemos ir além do padrão industrial. Tipo, muito além. Posso te mostrar?

— Felicity, agora não.

Ela piscou, surpresa com o tom.

— Ah. Ok. Mas... só pra saber, você tá bem? Você tá mais... sério que o normal. E isso é tipo nível "chuva no enterro".

— Eu disse que agora não — repeti, firme, sem olhar nos olhos dela.

Ela se calou por um segundo. Coisa rara.

Depois tentou de novo, num tom mais leve.

— Tudo bem, mas... se quiser conversar... Ou, sei lá, apenas ouvir meu monólogo enquanto eu tento quebrar firewalls russos, estou disponível. Eu sou ótima em lidar com emoções dos outros. Péssima com as minhas, mas com as dos outros eu arraso. É tipo minha super—

— Felicity.

Ela parou no meio da frase.

Eu a encarei.

— Você está confundindo as coisas. Aqui você é uma funcionária. Só isso. Não precisa se preocupar comigo. Faça o seu trabalho. E pare de invadir minha sala pra tentar consertar algo que não é da sua conta.

O silêncio que veio depois foi brutal.

Ela me olhou. Aqueles olhos grandes, agora confusos. Machucados. Mas ainda firmes.

— Entendi. Desculpa.

Virou-se devagar e saiu da sala.

Sem piadas.

Sem monólogos.

Sem sorriso.

E assim que a porta se fechou, algo dentro de mim gritou.

Mas eu calei.

Porque era mais fácil assim.

Porque ser frio era o que me restava quando tudo ameaçava derreter o gelo.

Mas, pela primeira vez, o silêncio não me trouxe alívio.

Me trouxe arrependimento.

E saudade... de algo que eu mesmo empurrei pra longe.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.