Code L.U.C.Y
2 Passado Parte 1
Notas iniciais
— Lucy... Lucy...- uma voz delicada a chamava- Lucy!
—Ahnn... -resmungou se enrolando ainda mais no edredom.
O clima estava agradável, nem muito quente nem muito frio. Já se podia escutar o movimento dos carros na rua e o cheiro de café fresco começava a invadir cada cômodo da pequena casa.
—Lucy! Você vai se atrasar de novo para a escola!
—Escola?Escola...- com um salto ela se levanta da cama.-Ai meu deus a escola!
Lucy sai correndo pelo quarto, entra no banheiro. Tenta escovar os dentes com a mão direita enquanto com a esquerda penteava o cabelo. Mas acabou piorando o estado dele.
Prende o cabelo com uma fita azul. Corre novamente juntando o material espalhado pelo quarto. Pega a primeira roupa que vê no armário, uma calça jeans e uma blusa azul turquesa com um pato engraçado estampado. Não fazia ideia de como essa blusa foi parar nas suas coisas, mas gostava dela.
Vai até a cozinha, onde encontra a sua mãe sentada tomando café da manhã e rindo dos gritos escandalosos que sua filha soltava todos os dias ao acordar.
—Mãe! Por que não me acordou antes?- Disse enquanto mordia uma maçã.
—Eu juro que tentei...- Falou com um sorrisinho divertido no rosto.
—Tudo bem. Agora realmente tenho que ir.
—Tenha um bom dia.- disse dando um beijo na bochecha de Lucy.
—Para você também.
Lucy e sua mãe moravam em cima de uma floricultura em uma cidadezinha do interior. Lá todos se conheciam, e todos a cumprimentavam quando ela passava com a sua bicicleta amarela, sempre apressada para chegar na escola.
Era conhecida por ser uma jovem educada e esforçada, sempre de bom humor. Apesar da sua popularidade entre os moradores da cidade, na escola não era tão bem recebida.
O colégio era um prédio de cinco andares branco com um grande portão de ferro. O pátio era espaçoso e cercado por arvores onde os alunos se sentavam para conversar. Era a única escola da região.
Quando chega, todos os alunos já estavam entrando. Lucy prende sua bicicleta na corrente e corre para entrar na aula.Passando pelo portão vê Skytte e seus amigos rindo.
—Bela camiseta, esquisita!- Skytte fala irônico e seus colegas riem.
—Obrigada! Também gosto dela...- Responde sorridente.
Era assim que Lucy lidava com os insultos que ouvia todo dia, fingia que eram elogios ou os ignorava. Ela não percebia o quanto isso frustrava Skytte. Não que ele realmente quisesse ofende-la, na verdade só queria que ela reparasse nele.
Por algum motivo que nem ele sabia, Skytte queria que Lucy olha-se para ele. Porém quanto mais ele tentava chamar a atenção, com mais indiferença era tratado.
Skytte insiste e deixa seu grupinho de amigos a seguindo até seu armário.
—Sua condição financeira tá tão ruim assim? — disse debochado- Ao ponto de você repetir a mesma roupa que usou semana passada...
Lucy fecha o armário e olha para ele com uma cara esquisita. “Será que dessa vez ela ficou brava?” Skytte pensou.
—Isso realmente me preocupa... — Skytte olhou para ela sem entender. — Você repara mais nas minhas roupas do que eu mesma, ao ponto de se lembrar o que eu usei na semana passada... Skytte?
Ouvir Lucy dizer o seu nome deixou ele surpreso. Nunca tinha reparado o quanto a voz dela era bonita.
—Ahnn?- Perguntou bobamente.
—Você não acha que anda muito obcecado pelo vestuário alheio?- disse séria. -Isso pode ser um distúrbio mental, acho melhor ir procurar um psicologo...
O sinal toca.
Lucy pega o seu material e vai para a sala. Skytte fica lá parado que nem um idiota por alguns minutos até perceber que está sozinho no corredor. Essa havia sido a conversa mais longa que já tiveram e a primeira vez que a ouvira dizer o seu nome (Sobrenome na verdade, mas isso não vem ao caso).
E nesses poucos minutos de conversa, Lucy conseguiu lhe perturbar mais do qualquer outra pessoa do colégio. Nunca havia sido revidado e, estranhamente, se sentia feliz com isso. Ao mesmo tempo em que se sentia furioso.
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“Que inferno. Como aquela esquisita consegue ser tão irritante?” Ele pensou sentado em sua carteira, a ultima da fileira da ponta. Lucy se sentava na primeira carteira da fileira do lado, e fazia sua lição atentamente.
— O que está acontecendo com você Skytte?- Um amigo que senta ao seu lado pergunta. — Está muito quieto... Não fez nenhuma brincadeirinha e se não me engano, esse é seu tempo recorde de permanência em uma sala de aula.
—Não estou muito inspirado hoje...
—O que foi? Suas tentativas de fazer Lucy se irritar não deram certo de novo?- disse rindo.
—Desde quando você chama a esquisita pelo nome?- perguntou franzindo a testa.
—Desde que ela foi muito legal em me ajudar na lição de matemática. Além disso nunca tive nada contra ela.
—Então porque não vira amiguinho dela, Seth?- Falou nervoso.
—Porque não estou a fim de sofrer retaliação do restante da escola.-Seth disse dando de ombros.
—Algum problema ai no fundo?- O professor de física pergunta.
—Não senhor. — Os dois falam ao mesmo tempo.
Apesar de se estressar facilmente, Skytte era uma boa pessoa. Estrela do time de futebol, todos no colégio o conheciam e respeitavam. Alguns o temiam por quase sempre se tornar agressivo, mas nunca chegou a machucar alguém sem um bom motivo.
Seth não conseguia entender porque ele pegava tanto no pé de Lucy. Ela nunca havia feito nada a ninguém, na verdade, até ajudava sempre que possível. E agora, por causa de Skytte, era obrigada a aguentar as provocações de todos os “seguidores” dele. Que em sua maioria, eram garotas apaixonadas e meninos babacas.
Mas, em sua opinião, o pior era o fato de não deixarem ninguém se aproximar dela sem que sofram as “devidas consequências”. Os professores não fizeram nada, e quando Seth pensou que ela não aguentaria uma semana, ela continuou sorrindo. Dava “bom dia” a todos, mesmo que não a respondem-se e era educada até com quem a ofendera minutos atrás.
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A aula acaba e todos vão tomar lanche. Skytte fica com os seus amigos no patio. Lucy vai para o terraço. Ela gostaria de comer com outras pessoas, mas se fizesse isso iria acabar criando muitos problemas.
Então ela preferia ficar sozinha. Adorava o terraço, era vazio e a paisagem era bonita, dava até para ver sua casa dali. O céu estava azul e uma brisa agradável soprava em seu rosto.
As vezes ela gostava de imaginar como seria se as coisas fossem diferentes. Como seria ter amigos... Não era culpa do Skytte, ela pensava, não totalmente. Ele poderia ser um idiota, mas ele nunca disse para que os outros fossem maus com ela.
Comeu o lanche que sua mãe havia feito, bebeu seu suco e ficou um tempo enrolando. Logo em seguida voltou para a sala antes de todo mundo.
Skytte se divertia com seus amigos. Mas às vezes achava que nunca saia nada de bom de suas conversas.
—Esse ano a gente se forma...- Disse Seth, que como sempre estava no mundo da Lua.
—É...- Skytte disse simplesmente.
—Ei! E com quem vocês vão ao baile?-perguntou Hugo, o hiperativo do grupo. — O Skytte com certeza vai com a Ivy... — falou com inveja. — Seu sortudo!
Ivy era, por votação unanime, a garota mais bonita da escola. Ela era uma das “fãs” de Skytte e praticamente se jogava em cima dele todos os dias. Skytte não ligaria de ir com ela, se ela não fosse tão neurótica e possessiva.
—Talvez eu vá, sei lá- Skytte disse. — Às vezes ela é muito... Desprovida de assunto.
—Você quis dizer desprovida de cérebro, não é?- Seth brincou.
—O que importa?- disse Toby, o idiota.- Ela é provida de peitos!
Alguns riram, outros concordaram, Hugo ficou bravo e Skytte e Seth fingiram que não ouviram aquela merda.
—E você Seth?- Skytte perguntou.
—Ah... Tanto faz, qualquer uma que não me sequestre está bom. — falou indiferente.
Antes que Skytte continuasse o assunto o sinal toca e todos voltam para sala. Ele percebe que Lucy já estava lá. “Pergunto-me para onde ela vai ao intervalo. Nunca a vi no pátio...”.
Todos sentam-se nos seus lugares. A professora chega, inicia a aula e enquanto ela escreve na lousa todos conversam. De repente as vozes se calam. O monitor do corredor está na porta e cochicha algo no ouvido da professora.
— Elliot Skytte e Lucy Reine, por favor, se apresentem á diretoria. — A professora anuncia e automaticamente toda a sala se vira para eles.
Se tivessem chamado só o Skytte tudo bem... Mas chamar a Lucy e ao mesmo tempo que ele era algo inovador. Os burburinhos começaram e logo todos já estavam criando teorias para o que estava acontecendo.
Skytte, apesar de confuso, se levantou tranquilamente e foi até a porta com o monitor. Já Lucy estava branca como o papel e extremamente nervosa, era a primeira vez que ia para a diretoria. Para falar a verdade, a única vez que havia visto o rosto do diretor foi no primeiro dia de aula e quando ele a parabenizou pelas suas excelentes notas.
O monitor bate na porta. Por um momento Skytte e Lucy se encaram. O diretor os manda entrarem. Era uma sala velha, com moveis de madeira antiga. Uma instante cheia de troféus que o diretor fazia questão de se gabar como se fossem dele. Careca, gordinho e com grossas sobrancelhas grisalhas, o diretor era uma figura um tanto quanto caricata.
Ele fez um sinal para que ambos se sentassem, o monitor deixou a sala e um silencio constrangedor se formou.
—Vocês sabem por que estão aqui?- perguntou sério.
—Pelo amor de Deus não me expulse!- Lucy finalmente explodiu.Não aguentava situações como essa.
—Calma...- o diretor falou sorrindo.E isso logo tranquilizou Lucy.- Você não está com problemas...Pelo menos não a senhorita...- Disse encarando Skytte que continuava calado.
—Então porque estou aqui?
—Irei explicar a situação...-continuou- O senhor Skytte está por um fio de ser convidado a se retirar...
Lucy olhou para Skytte que continuava tranquilo. Já ouvira aquele discurso centenas de vezes, mas o diretor nunca cumprira a ameaça. Ele nunca expulsaria a pessoa responsável por todos aqueles troféus.
—E dessa vez nem eu poderei aliviar a sua barra....- Falou curvando-se para frente.- Suas notas, senhor Skytte, estão tão baixas que nem um milagre o salvaria.
—Então porque ainda estou aqui?- Perguntou indiferente, apesar de por dentro estar preocupado.
— Bem...-o diretor falou ignorando a petulância.- O conselho acredita que seja um aluno de muito potencial. E por isso decidimos lhe dar uma ultima chance.
—Ótimo! -Skytte disse levantando-se — Muito obrigado pela oportunidade, prometo me esforçar e blablablá...
—Sente-se — falou perdendo a paciência.- Senhor Skytte, se não dobrar as suas notas em todas as matérias... Serei obrigado a reprova-lo . E acabar com todas as suas chances de conseguir uma bolsa para faculdade.
Nesse momento Skytte senta-se novamente. Se seus pais descobrissem que nunca conseguiria entrar em uma faculdade, seria seu fim. Não veria a luz do dia pelo resto de sua trágica vida.
—Obrigada... — o diretor falou suspirando. — Agora se estiver disposto a ouvir, tenho uma proposta para fazer.
—Pode falar... — Skytte disse. Lucy olhava de um lado para o outro, fazia tempo que não se sentia tão perdida. Parecia que estava no meio de uma reunião da mafia.
—Como estava dizendo, resolvemos lhe dar uma ultima chance. Se conseguir dobrar as suas notas até a formatura, lhe passaremos de ano e finalmente poderá ir para a universidade.
—Isso é impossível! – falou desesperado.
—E é por isso que a senhorita Reine está aqui.
—Eu?- Lucy disse apontando para si mesma.
—Sim.- os dois a encararam.- Irá dar aulas particulares para o senhor Skytte.
—Como?! — Lucy e Skytte falam ao mesmo tempo.
—Porque eu?- perguntou confusa.
—Porque é a melhor aluna do colégio.- disse sorrindo.-E se aceitar... Mandaremos cartas de recomendações para as melhores universidades.
— Não.
—Porque?- o diretor perguntou surpreso, sabia que Lucy adorava ajudar os outros. Já Skytte esperava por isso, sabia que ela nunca o ajudaria.
—Não posso aceitar.- continuou- Eu quero entrar em uma faculdade pelo meus próprios méritos.
—Entendo...- apesar de decepcionado o diretor ficou orgulhoso da resposta.
—Mas ainda posso ajudar, se quiser...- Falou embaraçada.
—Sério?!-disse animado.- Muito obrigado senhorita Reine.
—De nada...
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Antes que pudessem perceber já estavam fora da diretoria.E caminhavam juntos até a sala.
—Por quê?- Skytte pergunta.
—Ahn?
—Por que vai me ajudar?- disse confuso. — O que você ganharia com isso?
—Satisfação pessoal.
—Como?
—Satisfação pessoal.- falou sorrindo.- Não conseguiria dormir direito sabendo que poderia ter feito alguma coisa.
—Então está fazendo isso por você ?
—Sim.
Eles chegam na sala. Antes de entrarem, Skytte puxa Lucy pelo braço.
—Ei!- falou brava.
—Amanhã...- Skytte fala baixo.
—Como? Não ouvi...
—Amanhã, depois da aula, na minha casa. — disse extremamente envergonhado. -Tudo bem?
Depois de alguns segundos Lucy conseguiu entender o que ele quis dizer.
—Claro!- disse satisfeita.
—Me espere atrás da escola.
Ele nem esperou ela responder e já entrou na sala. Lucy fez o mesmo. O restante do dia foi normal, como sempre. Skytte não parava de pensar em como seria essa convivência com Lucy. Sem nem mesmo perceber, já havia criado muitas expectativas.
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