Coda
3 Sem tempo para pensar
Notas iniciais

Jimmy não conseguia pensar em nada, não conseguia tirar aquela cena de sua cabeça, o ódio corria por suas veias, e o nojo subia por sua garganta. Ele estava muito próximo de perder o controle. Ana e Bob ficaram imóveis durante alguns segundos, se recuperando do susto, mas não pronunciaram nenhuma palavra. Após a recuperação, apenas começaram a se vestir.
Jimmy ficou fora de si, ele não imaginava que Ana estaria o traindo, ainda mais com seu irmão, ele não conseguiu suportar a raiva, então golpeou Bob no maxilar. A força do soco empurrou a cabeça de Bob para trás, um filete de sangue saiu de sua boca, e ele caiu desmaiado.
— Meu Deus!! O que você fez com ele!? — Ana gritou com desespero e medo, os dois sentimentos misturados fazendo com que ela entrasse em um estado físico paralítico.
Jimmy permaneceu calado, imóvel, ofegante, com os punhos serrados, ele não soube o que fazer com Ana, que estava com medo, ela sentou no chão e falou tão baixo que foi quase inaudível:
— Não me mate... por favor não me mate...
Jimmy se virou e andou até a saída da lanchonete, Ana não entendeu a atitude, mas não o seguiu, de qualquer forma ela estava paralisada, não conseguia se mexer, estava com medo de falar qualquer coisa para ele.
Algumas quadras dali Mallory estava esperando Jimmy, sozinha dentro de um carro, Nora foi com seu filho avisar aos outros sobre os novos integrantes na fuga de Atlanta, e ela estava feliz por isso, aquele homem poderia ajudar muito na segurança do grupo, ele tinha uma arma e parecia saber como usá-la, não seria um fardo.
Jimmy estava saindo da lanchonete e abandonando seu irmão e sua namorada, ele viu alguns zumbis vindo em direção ao lugar, mas não se preocupou, era como se a mente dele flutuasse longe daquele lugar, seu corpo estava lá, mas seu consciente não. Ele escutou um grito, sua mente desceu subitamente para seu corpo.
O grito era de Ana, ela estava rodeada por zumbis, Jimmy não soube muito bem o que aconteceu desde o soco, nem como aqueles mordedores a cercaram tão rápido, ele correu na direção dos cadáveres enquanto pegava a arma que estava em sua calça. Ana conseguiu matar dois deles, mas a faca que ela usa ficou enterrada na cabeça de um zumbi, e ela não conseguia tirar.
Ana soltou um grito agonizante de desespero e dor, ela foi mordida nas costas, imediatamente ela soltou a faca que estava tentando recuperar e correu, na esperança de se livrar da horda que a perseguia, porém ela tropeçou em uma pedra e caiu.
Os errantes a alcançaram, a segunda mordida foi no tornozelo, seguida por uma no braço esquerdo, ela já estava perdida. Jimmy não teve tempo de chorar nem fazer nenhum tipo de luto pela garota que amou um dia, ele recuperou a faca de Ana, já que os zumbis estavam ocupados, e correu para onde Mallory e os outros esperavam por ele.
— Graças a Deus! — Mallory saiu do carro e abraçou Jimmy. Ele estava suando frio, ela percebeu isso no momento que o tocou — O que aconteceu?! Onde estão Ana e Bob? Por que não vieram com você? Eles estão bem?
— Não. — Jimmy pronunciou a palavra sem nenhuma emoção, ele tentou esconder todo o seu medo, mas suas mãos ainda estavam tremendo.
— Eu sinto muito. — A garota falou mudando do tom de preocupação para um de tristeza.
— Não precisa sentir, porra! Eles mereceram.
— O quê?? Do que você está falando?! — Ela se espantou como se tivesse acabado de descobrir que tinha uma avaliação surpresa na escola.
— Eles estavam transando, não vou falar sobre isso. — Ele segurou todo o ódio e medo que sentia, e manteve uma expressão séria e fria, no entanto ele ainda estava trêmulo.
Mallory saiu do carro e caminhou em direção aos outros, eles estavam em um prédio de escritórios, abandonado. O lugar estava em bom estado por dentro, parecia que estava fechado quando os ataques começaram, tudo estava em ordem lá dentro, apenas algumas mesas desorganizadas e papeladas espalhadas pelo chão, não encontraram nenhum zumbi no andar térreo e no primeiro andar, os outros não foram revistados, apenas tiveram as portas trancadas.
Mallory entrou no prédio e viu Nora conversando com duas mulheres na faixa dos quarenta anos e um homem idoso que segura um rifle .22 com uma luneta. Ela passou por mais três pessoas e escutou frases como “ por que ele está assim? ”, porém ela ignorou tudo que escutou e chegou no canto da recepção do edifício.
Uma garota estava lá, ela estava mexendo em uma mochila escolar preta com caveiras estampadas nela toda, usava uma camisa azul com uma escrita cinzenta e brilhante que dizia “Never Give Up”, calças jeans e uma bota que chegava até a metade de sua canela.
Ela parecia estar concentrada, ela era uma adolescente com cabelos castanho claro e cacheados, com olhos azuis e um rosto muito bonito. O nome da garota era Carolina.
Carolina perdeu seus pais no começo do apocalipse, mas não estava sozinha, seus vizinhos, uma senhora de trinta e cinco anos, esposa de um homem de trinta e sete com um filho de quatorze anos — mesma idade dela — acolheram a garota e seguiram viagem rumo a Atlanta, onde o governo disse que haveria uma espécie de “zona segura”.
Todas as pessoas que estavam nesse enorme grupo caíram na mesma armadilha, nenhum deles era da cidade grande, todos vieram de cidades menores dos arredores da capital da Geórgia, isso fez com que eles discutissem sobre qual seria a melhor cidade para ficar após a saída.
— Oi. — Mallory se aproximou da garota com um sorriso no rosto, ele não era exatamente verdadeiro, mas foi o máximo que ela conseguia no momento.
— Ei! — Carolina estava animada, o plano da fuga de Atlanta agradou ela, e ela também estava feliz por ter encontrado mais pessoas normais e sãs que não queriam arrancar sua carne.
— Sabe aquele cara que te falei? O Jimmy — Mallory pronunciou abaixando o tom de sua voz, como se uma notícia ruim estivesse chegando.
— Sim, eu lembro dele, o que traria mais duas pessoas para o grupo, certo? — Carolina percebeu o tom da outra garota.
— Essas duas pessoas estão mortas, eles foram cercados, mas Jimmy está vivo.
— Eu sinto muito. — A menina de cabelos cacheados olhou para os olhos de Mallory por alguns segundos, elas trocam o mesmo sentimento de pena.
— É, eu também. — Mallory não sabia mais o que dizer, então se virou e caminhou até Nora e as pessoas que conversavam com ela.
Ainda parado de pé na frente do prédio, sobre a calçada de concreto, Jimmy esfregava suas mãos tentando aquece-las, sua respiração podia ser vista por causa do frio do inverno que se estabelecia na cidade. Ele refletia sobre o que tinha acabado de acontecer naquele dia.
Foi muita coisa para um dia só, ele pensava se podia ter feito algo diferente, se deveria ter salvo Bob e Ana, se tinha alguma chance de salva-los, mas esses pensamentos foram interrompidos quando ele vê alguns errantes cruzando a esquina. Pareciam dez, depois vinte, e eles não paravam de aparecer, era como se tivessem um rastreador, será que não viu os mortos reanimados o seguindo?
Jimmy correu para dentro do prédio, tentando não entrar em pânico, ele caiu na mesma situação do dia que conheceu Mallory, por um segundo ele se pergunta se a garota loira atraia os zumbis. As pessoas pararam tudo o que estavam fazendo quando o homem entrou no prédio correndo e gritando: Um bando de zumbis está vindo para cá!
No mesmo instante olhos se arregalaram e rostos ficaram boquiabertos. Os mordedores estavam em dezenas, caminhando em passos desajeitados, se aproximando cada vez mais do prédio, eles já estavam na metade da rua e conseguiam ver as expressões assustadas através das janelas do edifício, o que era como um estimulante para eles.
Armas eram carregadas, gritos de desesperos eram calados, e o medo tomava conta de cada pessoa no lugar, antes que percebessem os zumbis já estavam a menos de 200 metros de distância da entrada.
Fale com o autor