Cocaine

39 Um adeus para o passado - narrado por Julian Grant


Notas iniciais
Meus queridos leitores, eu acho que fui no paraíso e voltei porque... Cocaine recebeu mais duas recomendação! Víbora Vermelha e Danii Almeiida, obrigada gente eu morri de felicidade! Considerem esse capítulo todo vosso ♥ Agora que estou de férias vou escrever muito e postar muito, se preparem! Enjoy e desculpem qualquer erro! ♥

O meu Julian, ele veio, pensou uma parte masoquista de mim.

Calei essa parte revendo equações matemáticas complexas.

Antes de baixar os olhos, ainda consegui ver o momento em que a surpresa e a admiração cruzaram o seu semblante. Vi também quando tudo isso desapareceu para dar lugar a tristeza.

Tristeza? Como é que ele consegue ser tão hipócrita?!

Eu definitivamente o odeio!

[…]

Narrado por Julian Grant

A cafetaria da East River estava cheia nessa tarde e tal como ela eu também estava cheio. Cheio de trabalhos desnecessários, cheio de sono, cheio de dor de cabeça, cheio de vontade de chegar em casa e pular na minha namorada. Beberiquei o meu café, negro e amargo como a minha alma. Talvez Harley também estivesse precisando de beber um café.

— Cara, eu estou morto. – murmurou Elias, meu parceiro de projeto e colega de turma. Antes nós não conversávamos sequer e agora estamos até tomando café juntos. Esse é o poder dos trabalhos de grupo, eu acho. – Estou precisando de férias urgentemente.

Nem me fale.

Peguei o meu celular e enviei um torpedo a Harley, que estranhamente não foi respondido. Normalmente a resposta era imediata e seguida de alguma ameaça adorável para eu não me aproximar de outras garotas.

Como se eu realmente estivesse interessado em outras que não esse gnomo roxeado.

— Erm… Julian Grant?

Levantei a cabeça quando ouvi o meu nome, ser pronunciado por uma vozinha fina e desconhecida. Ela me lembrava os murmúrios dos fantasmas do último filme que eu e Chad assistimos.

Os meus olhos foram de encontro a uma garota alta e bonita. Eu não a conhecia e nem de perto desconfiava como ela saberia o meu nome. Do meu lado, Elias balbuciava coisas incompreensíveis parecendo ser incapaz de comunicar como um ser normal.

Sendo sincero, eu não compreendi o porquê de tanta agitação… até que vi todos os olhos dos caloiros cravados na nossa mesa. Especialmente em mim e na garota. E os olhares não eram nada amigáveis.

Como eu não disse nada, a garota desconhecida continuou. – Você não me conhece, eu sei, mas… O meu nome é Nathalie e eu sou do primeiro ano de medicina. Entrei esse ano…

Ah, entendo. Por isso todo o mundo estava nos olhando. Eu nunca havia visto essa garota antes, mas ouvi rumores de uma tal de Nathalie por quem os garotos andavam obcecados.

— Ah, prazer. Você precisa de ajuda em alguma matéria? Eu posso te emprestar alguns apontamentos. – disse, bebendo um pouco mais de café. O líquido desceu-me pela garganta como se fosse uma carícia.

A tal de Nathalie negou com a cabeça, espalhando o seu cabelo loiro para tudo o que era canto. O cabelo de Harley é naturalmente loiro também. Eu imagino como ela ficaria loira.

— Não é isso. Julian Grant, eu… eu… eu gostaria de…

— Puta merda. – sussurrou Elias, suspirando como se a qualquer momento fosse chorar. Encarei-o sem entender e recebi um olhar ressentido.

O que foi que eu fiz?

Olhei novamente para a garota, notando que a sua face parecia agora um tomate gigante. Não, nem vem.

— Você quer sair comigo?

Ah, não. O que foi que eu fiz para merecer isso?

Até cinco minutos atrás, eu nem sabia quem essa garota era. Aposto que a coitada nem sabe da existência de Harley.

A minha Harley, pensei orgulhoso.

O que ela faria se soubesse que eu estava recebendo uma confissão de outra garota? Ela provavelmente piraria, falando alguma besteira como “foi você que a seduziu, não foi cafajeste”. Quase ri só de pensar no biquinho amuado que iria acompanhar as suas palavras. Talvez eu contasse para ela quando chegasse a casa, para ter o prazer de ver isso.

— Me desculpe, mas eu tenho em casa uma louca ciumenta e eu não a trocaria por nada. Em todo o caso, se ainda quiser apontamentos, são todos seus. – a loirinha abriu a boca parecendo chocada. – E não se preocupe, tenho a certeza que tem alguém melhor que eu por aí. Elias aqui está solteiro.

Apontei para o meu mais recente amigo, o que só o fez me chutar por baixo da mesa.

Olha o ingrato!

A garota de primeiro ano encarou Elias com um sorriso tímido e sem querer parecer antipática acenou para nós dois antes de virar costas e se afastar da nossa mesa.

— Eu não acredito que você rejeitou a deusa Nathalie Kells. – murmurou o meu parceiro, parecendo ainda incapaz de acreditar no sucedido. – E pior mesmo, foi que você tentou me empurrar para a deusa Nathalie Kells. Você não é desse mundo, Grant.

Ri e baixei novamente o olhar para o teclado do computador. Esse projeto sobre Ética Profissional estava me matando lentamente. Peguei o celular e nada de Harley me responder. Enviei uma nova mensagem avisando que ia para casa agora. Estou estranhando todo esse tempo sem resposta, não é normal.

Eu poderia continuar esse trabalho amanhã. – Preciso ir, continuamos amanhã?

— Tudo bem, mas não esqueça de pagar o café, seu folgado! Última vez você saiu correndo e eu que tive que pagar tudo.

Ri, me lembrando que última vez saí correndo porque Harley decidiu desaparecer e não atendia seu celular por nada. Igual agora.

Tentei me tranquilizar. Ela deveria estar estudando para a competição, eu só tinha que compreender e torcer por ela. Era provável até que ela tivesse adormecido, por estar tão cansada ultimamente.

Paguei a conta e saí para o campus da universidade. Assim que pisei o gramado, fui atropelado por alguns alunos apressados que corriam para as últimas aulas do dia. Felizmente, no meu caso, eu estava livre e não precisava atropelar ninguém.

Quase chorei de emoção quando entrei no carro e coloquei a chave na ignição. Por agora eu só queria chegar em casa, atormentar a minha namorada um pouquinho e me empanturrar de salgadinhos de queijo e coca-cola.

Pelo menos essa era a ideia.

Mas nessa tarde, Chad Adams tinha outros planos para mim. Assim que rodei a chave na porta do apartamento, Chad escancarou-a puxando-me com força para dentro. Estava tão atordoado e cansado pelo trabalho que nem notei quando o meu amigo me encostou na parede segurando-me pelo colarinho. Mas que merda?!

— Eu sei que você agora é um cara desimpedido, mano, mas eu continuo muito hétero. – debochei, o que só pareceu enfurecer Chad ainda mais. Agora sim eu estava perdido de todo. Perdido e com vontade de rir.

Chad era consideravelmente mais baixo que eu e vê-lo me encostando na parede desse jeito era hilariante. E admito, um pouquinho humilhante.

— Que bom que ainda consegue rir e fazer piada, Grant. Aproveite bem esses seus dentes porque em breve você vai ficar sem eles.

Acredito que uma das minhas sobrancelhas foi parar no meio da minha testa, tal era o choque. – O que diabos deu em você?

— O que diabos deu em mim?! O que diabos deu em você?! – encarei Chad, sentindo-me o ser mais confuso do universo. – Você não tinha esse direito. Eu sabia que você era um maldito cafajeste, mas fazer isso… depois de tudo o que aconteceu? É cruel, até para você.

Okay, agora eu estava irritado.

Empurrei Chad com força, fazendo com que, sem querer, as suas mãos arrancassem alguns botões da minha camisa. – O meu controle não é o melhor e mesmo se tratando de você, Chad, eu sugiro que nunca mais faça isso de novo. O que diabos aconteceu para você estar agindo feito um babaca?!

— Eu que sou o babaca? – rosnou, fechando os punhos com força. – Sabe o que mais me irrita? É você ficar agindo como se fosse inocente.

Como bom amigo que sou, soquei o rosto de Chad fazendo-o tropeçar nos próprios pés e voar até a parede do fundo.

— Quer que eu aja como, se nem imagino o que raios fiz de tão errado?!

O meio-irmão da minha roxeada ergueu-se com esforço. – Você… está falando sério?

Mostrei-lhe o punho que antes acertou a sua face. Se isso não mostrava a minha seriedade, então não sei o que poderia.

— Foi… erm… Harley. Ela meio que fugiu de casa porque viu você com a outra, ela falou que você a traiu como se fosse nada.

Abri a boca, dividido entre o choque e a raiva. Se esse fosse um filme, o título seria “A minha namorada é uma louca”. Quem no seu perfeito juízo fugiria de casa por uma coisa dessas?! A pobre Natália, ou Nathalie, já nem lembro o nome da garota, tinha sido rejeitada no segundo em que se confessou! Como isso pode ser considerado traição?!

— O que você esperava que eu fizesse?! A garota chegou chegando, falando que queria sair comigo! Eu não podia socar ela como fiz com você!

Os olhos do meu colega de casa brilharam com desprezo. – Ah coitada, se não podia dar um soco, o melhor era partir para cima e beijá-la, não é mesmo?!

O quê?

— Agora mais do que nunca você não está fazendo sentindo nenhum, Chad. Eu nunca beijei essa Natália! E tenho uma cafetaria cheia de testemunhas. Eu até falei que tinha namorada, porra!

Agora foi a vez de Chad ficar confuso. – Natália? Que merda de Natália é essa, Grant?! Ah, então para além de Monique você ainda tem outra opção para variar…

Mas que puta bosta vai na cabeça desse moleque.

— Eu juro que vou te bater. – resmunguei, esfregando os olhos com as pontas dos dedos. – Eu não beijei Natália nenhuma, nem Monique, nem outra merda qualquer. Acha mesmo que eu traí a Harley? Eu sou obcecado pela sua irmã desde o dia em que pus os meus olhos nela.

Chad engoliu em seco. – Que nojo. Não fala que é obcecado pela minha irmã. Isso soa muito errado. Acho que vou vomitar, Julian.

Abafei uma risada e assim que me aproximei de Chad ofereci-lhe um cascudo na ponta da testa. – Pode agora, por favor, me explicar o que está acontecendo?

O Adams suspirou e afastou a minha mão. – Eu só sei que a maluca da minha irmã desapareceu da face da Terra, não atende o celular e a última coisa que falou para mim foi que viu você beijando Monique na frente de todo o mundo.

— O que diabos passa pela cabeça da Harley? Eu não vejo Monique desde que ela veio aqui pedir desculpa. E sinceramente, eu preferia arrancar a língua a ter que beijar Monique mais alguma vez na minha vida.

— Eu não sei o que está acontecendo, Grant, mas estou preocupado. Eu não via a minha irmã assim desde que lhe falaram que Nolan morreu. Ela estava pirando.

Que merda.

Encarei as minhas mãos, sem saber o que fazer. Ela não atendia o celular e se tratando de Harley, ela poderia estar enfiada em qualquer lugar desse mundo. Provavelmente a essa hora estava metida em algum problema.

Eu precisava encontrá-la, mas antes…

— Mas se você não beijou Monique, e se considerarmos que a Harley ainda não é completamente insana, quem foi que ela viu pegando a sua ex-namorada?

Mordi o lábio. Como eu podia ser tão inocente no ponto de acreditar que Monique realmente queria pedir perdão? Eu a conhecia. Tive anos e anos de experiência no que toca a reconhecer as suas intenções malvadas e mesmo assim, ela conseguiu se intrometer de novo.

Esmurrei a parede com força, fazendo Chad recuar um passo.

— Eu quase aposto que sei o que aconteceu. Monique fez alguma merda de certeza. – empurrei as minhas coisas para um canto e abri a porta do apartamento. – Eu vou resolver essa confusão. Se você tiver notícias da Harley, me fala imediatamente.

[…]

Teve uma vez que eu estava muito bêbado e vi meu reflexo no espelho do banheiro. Na minha mente embriagada, eu precisava ensinar uma lição para o cara do espelho. Então, eu me soquei com toda a força que tinha e acabei inconsciente no chão.

Eu não tinha bebido hoje, mas o sentimento era o mesmo. Eu queria me socar com tudo. Harley mostrou-me tantos indícios de que algo não estava bem desde que ela conversara, a sós, com Monique. Como eu fui aceitar isso? Eu sou idiota?

Sim, eu sou.

A última opção que eu tinha nesse momento era pegar o meu celular e encontrar o número da garota mais odiosa da minha lista de contatos. Eu sinceramente não sabia como ainda não tinha apagado o número de Monique. A única explicação que encontro nisso é que eu tinha uma satisfação secreta em ter trocado o seu nome por algo mais… erm… adequado á pessoa em questão.

Procurei o nome “Vadia desgraçada” e coloquei no viva voz, atirando o celular de qualquer jeito para o lugar do carona. Mesmo estando separados por esse celular, só de pensar em ouvir a voz dela me provocava náuseas.

Monique atendeu 5 segundos depois. Quando ouvi o seu “alô” enjoado, belisquei-me para conseguir concentrar-me na minha missão. O que demorou. Como não respondi, Monique soltou uma risadinha debochada.

Como não matar?

— Julie, eu sei que você está aí, querido. – Monique fez uma pausa, tentando disfarçar outra risada. – Porque me ligou?

Respira fundo, Julian. Eu sei que custa, mas é pelo bem da sua garota.

— Eu quero você, Monie. – juro que quase vomitei. Já não estava habituado a utilizar esse apelidinho nojento e só agora conseguia perceber o quanto escroto era. – Onde você está?

Monique não respondeu imediatamente. Pela sua respiração rápida, eu podia perceber que ela estava explodindo de felicidade. Sinceramente, nem sei como ela acreditou tão rápido. Eu esperava ter que lutar para “colocar minhas mãos nela”. – Eu estou no subway comendo um lanche, Julie. Você quer se encontrar comigo num lugar mais… privado?

Sim, lugar mais privado. Essa era a expressão de Monique equivalente a sexo. Deplorável. Mesmo assim, concordei.

Eu sabia que não poderia encontrá-la num lugar público ou ela acabaria fazendo algum teatrinho quando eu a confrontasse. Já aconteceu antes e sinceramente eu não estava com paciência para ser preso por alguma agressão não existente. Na última vez, Monique foi suficientemente louca para se arranhar a si própria e cortar a mão com profundidade. Tudo isso para me incriminar.

Dessa vez eu seria cuidadoso.

Parei o carro na frente do subway e não tardou até a vadia aparecer saltitando como uma criança feliz. Algumas pessoas olharam-na, deleitadas pela sua felicidade, e sorriram. Mal elas sabiam que essa garota era a personificação do demônio.

Antes que Monique ocupasse o banco do carona, enviei uma mensagem rápida a Shane pedindo se ele poderia reservar todo o bar para mim. Assim que a víbora abriu a porta, recebi a resposta positiva do meu amigo.

Perfeito.

Antes de rodar a chave na ignição, cravei os meus olhos na garota delicada. O rosto continuava o mesmo, o corpo pequeno e proporcional continuava o mesmo e a personalidade provavelmente era a mesma. Vê-la me irritou. Durante todos esses anos, eu me esforcei para melhorar, para esquecer, para superar. Superá-la. E ali estava ela, parecendo uma boneca que fica presa no tempo. Um tempo que, felizmente, não existia mais.

Alguma coisa na minha postura fez com que Monique pensasse que eu queria beijá-la. Quase a empurrei para fora do carro. Mas, para que ela não desconfiasse, afastei-a gentilmente e abracei-a com o maior carinho que consegui.

— Você está me esmagando, Julie, desse jeito eu vou ficar sem ar. – isso, vadia fica sem ar e morre. – Tudo isso é saudade? Acho estranho, na última vez você só tinha olhos para a outra “coisinha roxa”.

Sério, como não matar?

— Felizmente eu percebi a tempo o erro que estava cometendo. – murmurei entre dentes. Coloquei o pé no fundo do acelerador e saí na frente de alguns carros que passavam e que tiveram que frear por minha causa. – Antes de matarmos a saudade, — ou matar você, pensei – que tal passarmos no bar do Shane um pouquinho? Ele está morrendo de saudades suas.

Shane vai ter um surto quando a ver.

— Shane, sério? Eu passei no bar no último fim de semana e quase que recebi uma voadora dele. – eu só tenho pena que não recebeu mesmo.

— Oh, você sabe como Shane é. Ele não é muito bom com garotas.

Especialmente com megeras do inferno.

[…]

Eu estava orgulhoso de mim próprio. Dois quase acidentes e duas tentativas de meter a mão na minha calça depois e eu tinha conseguido chegar inteiro no bar. Monique parecia não desconfiar de nada.

Assim que entrei vi o bar vazio. Felizmente Shane tinha cumprido o meu pedido. Falando do meu amigo, ele estava distraído limpando alguns copos de gin tónico. Mas assim que percebeu a nossa presença, um dos copos foi jogado e quebrado contra o balcão.

E lá se vai o meu disfarce.

— Julian, você endoideceu? Onde está a sua garota? – rosnou entre dentes. Monique cruzou os braços, parecendo aborrecida com o comentário.

— Eu sou a sua garota.

Shane olhou-me perdido, desconfiado e aparentemente muito desiludido. Revirei os olhos e peguei a mão de Monique, fazendo-a sentar-se numa das banquetas do balcão. Eufórica pela minha demonstração de afeto, a garota me seguiu sem desconfiar das minhas intenções.

Nem preciso dizer que Shane passou de perdido, desconfiado e desiludido para perplexo. – Grant, eu sinceramente só tenho pena da Harley. Não a conheço, mas tenho a certeza que ela não merece isso. Você não merece isso!

— E não merecemos mesmo, não se preocupe Shane. – Monique encarou-me com uma sobrancelha arqueada. – Agora Monie, o que você fez com a minha namorada, hein?

— Julian, eu não estou entendendo o que está aconte-

— Vamos colocar dessa forma, Monique. Eu te conheço, e sei que você é a garota mais egoísta e cínica do universo. Acha mesmo que eu acredito que você ficou parada e não fez nada? Acha mesmo que não sei que quando conversou com Harley foi para tudo menos para pedir desculpa e aconselhá-la? Me poupe, Monique Vangard.

A garota na minha frente cruzou os braços e fez biquinho. Mesmo depois de tantos anos, ainda agia como uma criança. – Eu sou uma mulher inocente, queridinho. Não tenho culpa que a sua namorada seja uma doente mental.

Agora eu compreendia o significado de “pode falar e fazer tudo o que quiser comigo, mas tenta algo com quem amo”. A minha mão ganhou vida própria e rodeou o pescoço da garota que me olhou de olhos muito abertos. Eu admito que gosto mais dessa Monique assustada e calada.

Shane colocou a sua mão sobre a minha. – Cara, eu compreendo. Mas você não quer fazer nada de que se vai arrepender.

Ignorei-o, aproximando o meu rosto de Monique.

— O que você fez dessa vez, hein? Você me conhece, e sabe que eu sou louco, então escolhe bem as palavras.

A garota balbuciou algumas coisas incompreensíveis e assim que apliquei alguma pressão no seu pescoço, as lágrimas acumularam-se nos cantos dos seus olhos.

Eu sabia que não a estava magoando, mas foi o suficiente para a assustar. Por mais que eu seja louco, eu nunca iria fazer algo que pudesse machucar uma garota. Mesmo tratando-se de Monique. – Eu juro que dessa vez eu ia embora sem fazer nada. Eu juro. Mas sinceramente, essa Harley é muito burra mesmo.

Revirei os olhos.

Que vontade de jogar os meus valores morais no inferno e machucar essa pessoa de verdade. – Um desses dias eu estava almoçando no subway quando essa oportunidade divina caiu sobre mim. Eu tinha que pelo menos tentar, Julie. Nós nascemos para ficarmos juntos, meu amor.

Quando levantei uma sobrancelha irônica, Monique continuou. – Tudo bem, tudo bem! Eu vou falar. Tem um empregado na lanchonete que é a sua cópia exata se você não olhar para o seu rosto. Eu só o peguei quando a tontinha da Harley estava passando e ela acreditou direitinho.

Afastei a minha mão do seu pescoço e respirei fundo tentando me acalmar. Qual era a possibilidade de existir esse tal cara? Ela estava mentindo? Encarei Monique, duvidando de todas as células desse ser pequenino. A garota preparava-se para se levantar e escapar quando eu a obriguei a voltar e sentar na banqueta.

— Liga para esse cara, eu quero ver ele com meus próprios olhos.

— Eu não tenho o número.

Suspirei. – Você acha mesmo que eu vou acreditar que não tem? Você não iria deixar escapar essa sua “oportunidade divina”. Vai que ia precisar de usar o pobre coitado de novo.

— O meu celular não tem bateria, Julie. – resmungou, batendo o pé como uma criança birrenta. Eu me pergunto onde diabos estava com a cabeça quando gostava dessa coisa.

— Use o meu.

— Eu não sei o número.

Respirei fundo mais uma vez. – Eu estou perdendo a paciência, Monique Vangard. O próximo copo não vai quebrar no balcão, mas sim, na sua cabeça.

— Tudo bem, tudo bem! Eu vou ligar para ele, mas saiba que isso é muito injusto, Julie! Você nem me deu uma chance de me redimir.

Cruzei os braços, vendo-a procurar o celular na bolsa. Quando o encontrou, roubei-lhe o celular antes que a espertinha tentasse alguma brincadeira tipo ligar para a polícia. – No passado, eu te dei quinhentas chances e você não aproveitou uma única, agora não me venha com essa de querer se redimir. Se o quisesse fazer, nunca mais apareceria na minha frente. Qual é o número?

Monique suspirou e fez novamente biquinho. – Está no nome de “Carinha da lanchonete”.

Originalidade acima de tudo.

Enviei uma mensagem para o meu sócia, pedindo para nos encontrarmos no bar. Não sabia se ele iria responder rápido ou sequer se iria responder mesmo. Se tratando de Monique, eu não responderia.

Não importa o tempo que tomasse, nem que eu ficasse olhando para a cara de vadia de Monique a noite toda. Eu precisava resolver isso, e que forma melhor senão ter as duas provas da minha inocência nas palmas das minhas mãos?

Monique teria finalmente alguma utilidade na minha vida.

[…]

Demorou para caralho.

E a resposta ainda foi curta e entediada. Quando abri a mensagem e li, soltei uma gargalhada bem-disposta e mostrei para Shane que prontamente me imitou. – Parece que esse cara realmente se interessa muito por você.

— Não é o interesse dele que eu quero, Julie.

Ignorei esse último comentário e enviei uma nova mensagem pedindo, ou melhor, suplicando para que o garoto da lanchonete nos encontrasse. Quando ele cedeu quase desabei no chão, de alívio.

Encarei o relógio na parede. Quatro da madrugada. Quatro porra!

— O cara concordou em se encontrar com você pela manhã. Agora só temos que esperar um pouquinho.

— Nem pense que eu vou ficar esperando esse zé-ninguém, Julie, eu preciso do meu sono de beleza e…

Ignorei a tagarelice infernal da minha ex-namorada e olhei para Shane que também parecia cansado de ouvi-la. – Eu fico te devendo uma, Shane.

O meu amigo acenou, prendendo um bocejo com a mão. – Fica mesmo, Grant. Estou quase morrendo aqui e essa abominação não cala a boca um minuto.

— Ah, claro! Agora a culpa é minha. Eu fui sequestrada, ameaçada, roubaram meu celular e a minha dignidade…

Revirei os olhos pela quinquagésima vez nessa noite e aproximei-me do garoto atrás do balcão. – Se eu matar, você me ajuda a esconder o corpo?

— Eu escavo em cimento se quiser. Quer uma bebida? Essa vai ser uma longa noite.

[…]

Eu geralmente não sou uma pessoa com sorte, então como tudo não pode ser perfeito, Shane e eu acabámos adormecendo o que deu para Monique a oportunidade perfeita para fugir. Acordei com dores nas costas e o sol da manhã queimando as minhas íris. No meu peito, um bilhete escrito com uma caligrafia arredonda e cuidada.

“Julie, eu realmente não quero fazer parte dessa sua reunião amorosa com a louca mental, por isso eu fui embora. Embora mesmo. Não se preocupe, eu não vou chamar policiais ou fazer mais o que quer que seja. Eu estou cansada disso. Acho que está na hora de termos um pouco de paz. Para sempre sua, Monie.”

Esfreguei os olhos.

Eu estava sonhando?

Claro que eu gostaria de obrigar Monique a, em primeira pessoa, confessar tudo para Harley. Mas, de alguma forma, eu estava aliviado. Monique tinha mais uma vez desaparecido. Com sorte, desaparecido de vez.

Acordei Shane com um chute carinhoso e bem nessa hora, a porta do bar foi aberta. Semicerrei os olhos para a luz brilhante e encarei o garoto. O garoto me encarou de volta.

Pisquei os olhos. Esse não era um cliente habitual do bar. Poderia ser…?

— Eu estou procurando uma garota, uma tal de Monique…

Pisquei os olhos novamente. Mas que merda?! Esse cara não era nada parecido comigo! O meu nariz não era desse jeito! Mas okay, compreendo que existem semelhanças.

— Então você veio procurar no lugar certo, amigo. Aceita uma bebida?

— São nove da manhã.

Shane sorriu, pegando um copo normal. – Oferta da casa.

[…]

Foi preciso um soco e duas bebidas para convencer o meu sócia a se sacrificar como evidência. Claro, ele iria faltar um dia de trabalho e provavelmente perder o emprego. Mas tudo pela minha Harley.

Remexi as mãos inquieto. Já fazia quase uma hora que eu estava sentado nessa plateia de nerds e pais inquietos. Física para cá e física para lá e a minha cabeça já só escorria física. A competição iria começar a qualquer momento e nada de um cabelo roxo aparecer pela porta principal.

Ela não iria faltar, iria? Não depois de tanto esforço e tempo perdido estudando. Ela tinha que vir. Avistei Chad e Jade sentados alguns lugares atrás de mim. Ambos pareciam igualmente entediados. Quando me reconheceram, cumprimentaram-me com um aceno de cabeça, e Chad apontou para o seu celular como se me pedisse para eu olhar o meu.

“Você conseguiu resolver?”

“Estou tentando, Chad, mas nada da sua irmã aparecer.”

Guardei o celular. A plateia começou a fervilhar de entusiasmo, quando dois homens se cumprimentaram no centro do ginásio. Do lado do diretor Jenkins, um homem de cabelo verde esquisito, pediu silêncio.

— Vai começar. – disse Shane, segurando o meu sócia que ainda parecia meio grogue pela bebida de antes. Ignorei as apresentações do homem de cabelo verde e o discurso desnecessário de Jenkins e concentrei toda a minha atenção na porta que eu desconfiava ser a dos bastidores.

A essa hora, eu não sabia o que fazer com as minhas mãos. Eu só queria levantar, entrar por aquela porta e encontrar a minha namorada. Tudo havia sido um engano idiota, ela não tinha que me evitar… nunca mais.

Engoli em seco quando a realidade deu um oi.

E se ela não acreditasse em mim?

Os concorrentes foram chamados um a um. E nada de Harley. E se ela nunca mais quisesse olhar na minha cara?

— Harley Adams, 20 anos, estudante de Física na universidade de East River e vencedora do ano de 2004. – senti os lábios tremerem. Eu estava nervoso, muito nervoso. E para piorar, a Harley não estava saindo por aquela porta de merda.

Estava quase arrancando os cabelos de ansiedade quando uma garota saiu pela porta. Algo em mim sentiu-se derrotado. Ela não veio, ela não queria saber mais…

Colei os olhos na garota de longos cabelos loiros e vestido azul escuro.

Eu estraguei tudo, não é mesmo?

A culpa não foi de Monique. Eu era o maldito culpado, repeti para mim próprio.

Não foi propositado, mas os meus olhos seguiram a garota de vestido azul e cravaram-se nos all star negros que a garota parecia usar com orgulho. Como se sentisse que eu a olhava, a loirinha levantou a cabeça e varreu a plateia com os olhos, pousando-os em mim quando me encontrou.

Tão azuis, tão bonitos, tão Harley.

Eu estava surpreso, admito. Harley normalmente era uma garota descontraída, não pensava na aparência, brincava com as cores do cabelo como se fosse uma criança pintando uma folha branca. Mas agora, ela parecia uma outra pessoa. Uma cópia vinda de uma dimensão oposta.

Não pude deixar de admirá-la, de beber dos seus olhos. Quase abri um sorriso confortador, mas a dor e tristeza que transbordavam, impediu-me de mexer um único músculo.

Essa era uma Harley diferente. Uma garota maravilhosa que eu ajudei a quebrar. A minha mais recente loirinha baixou o olhar e caminhou confiante até o seu lugar.

E eu só pude assistir, incapaz de fazer algo para melhorar as coisas.

— Eu não estou me sentindo muito bem. – disse o “carinha da lanchonete”, colocando uma mão na boca.

Merda.

Notas finais
Ai o drama, o horror! O que vai acontecer?! Encontro vocês nos comentários? Até!