Cocaine
35 O circo está ardendo baby
Notas iniciais
Essa era a ex-namorada morta?! A garota do violão?
— Essa não é sua ex-namorada morta ou é? É que se for, ela me parece muito viva, Grant. – sussurrei, de modo a que apenas ele me ouvisse.
— Eu sei. É uma pena.
[…]
Eu podia perceber que Stuart estava nadando na maionese e eu estava já, faziam uns bons vinte minutos, tomando coragem para explicar porque diabos tinha quatro pessoas se espremendo no pequeno sofá do seu consultório. Mas realmente, eu própria não compreendia como isso foi acontecer.
Só tenho uma única certeza, eu estava perdendo toda a paciência que ainda restava em mim. Quando o psiquiatra na minha frente abriu a boca, finalmente querendo saber o que estava acontecendo, eu levantei do sofá e cruzei os braços.
— Eu vou explicar apenas uma e só uma vez, Stuart, então ouça bem. – o homem na minha frente abriu a boca novamente, mas mudou de ideias e apenas me encarou esperando que eu falasse. – Como prometido eu vim na consulta, mas Julian não gosta de você então em momento algum ele quer que fiquemos sozinhos de novo.
Nesse momento Julian afastou Monique, que por algum motivo do capeta, insistia em agarrar o braço do meu namorado, e levantou-se indo se sentar na poltrona que Stuart tinha no canto da sala.
Claro que a sanguessuga foi junto.
Maravilha.
— E essa – megera, sanguessuga, filha do capeta, pensei – outra garota é Monique, ex-namorada não tão morta de Julian, que decidiu brotar do nada para ficar com ele de novo. – Stuart abriu a boca confuso, provocando-me um suspiro longo e involuntário. – Longa história.
Stuart acenou, não querendo me massacrar bem ali na frente de todo o mundo e seu olhar caiu no sofá onde ainda restava uma pessoa por apresentar. A minha paciência terminou bem ali. Isso é demasiado para a minha pessoa aguentar. Eu só queria chegar em casa rápido e deitar no chão do meu quarto em posição fetal.
E provavelmente chorar por dias.
Anos, se ninguém aparecer me oferecendo comida.
Stuart, percebendo que eu estava no meu limite, apontou com o queixo para Daniel. – E você?
— Daniel, e vim ver o circo pegar fogo. – murmurou, na sua vozinha irritante e debochada. Oh, que vontade de estrangular esse cara sem noção.
— Julie, dessa vez você se superou. Namorar uma doente mental não é bem o seu estilo, querido. – disse Monique, propositadamente falando alto para que o Japão ouvisse. – Foi por pena?
Julie?!
Cravei as unhas nas minhas pernas, sentindo as pontas dos meus dedos aquecerem no tecido.
— Ele namorou com você, gnomo do capeta, acho que não tem muita diferença. – debochou Daniel do meu lado. Encarei-o, sentido o fogo de Hades sair-me pelos olhos. Não tem muita diferença, caralho?! Afinal de que lado esse cara está?
Daniel encolheu os ombros percebendo a minha irritação e com um sorriso sarcástico nos lábios, sussurrou o que eu percebi ser “o circo está ardendo baby”.
Idiota.
— Por muito que eu adore todas essas adoráveis demonstrações de afeto, — começou Stuart, empurrando os óculos na cana do nariz – essa consulta é apenas restrita a Harley. Ela é a minha paciente e a vossa presença está deixando-a… hum… perturbada, então peço que saiam.
Julian mais uma vez empurrou Monique para longe de si e cruzou os braços e por sua vez, Daniel simplesmente passou uma mão no cabelo desalinhando os fios loiros.
Ninguém saiu, ninguém queria ir embora.
Percebendo que ninguém queria sair, Stuart me encarou procurando ajuda. Como assim, maluco? Se você não consegue, acha que eu vou conseguir?!
Suspirei baixinho, tentando abafar a vontade de matar todo o mundo dentro da sala. – Julian, por favor…
O garoto sentado na poltrona do canto olhou-me ferido. Não é como se eu quisesse deixá-lo sozinho com a maníaca ali, mas eu precisava de um momento de paz depois de tudo isso. Essa Monique tresandava a problemas e sinceramente, desde Nolan que eu só queria estar em paz e sossego.
Finalmente depois de alguns minutos de silêncio mortal, Julian Grant deixou seu canto da sala, passando por mim como um soldado derrotado e ferido na batalha. Logo atrás de si, Monique flutuava parecendo muito alegre e provocando em mim o nascimento de uma vontade homicída que antes não existia. Encarei Daniel esperando que também ele saísse, mas esse garoto idiota como sempre não se toca, por isso pisei o seu pé direito com força.
— Ah, sim! Eu vou também, afinal se não for eu, quem vai proteger o seu querido amado das garras afiadas da vadia? – disse, sarcástico antes de levantar do sofá e sair atrás de Julian e da sanguessuga.
Assim que fiquei sozinha com Stuart, deitei no sofá e cobri os olhos com o braço fingindo que a luz me incomodava. Na verdade, eu estava sentindo os meus olhos meio molhados e não queria mostrar a Stuart que mesmo depois de meses eu continuava sendo essa garota instável e que chora facilmente.
— Você quer… conversar sobre tudo isso? – perguntou Stuart, quebrando o silêncio que eu insistia em não ser quebrado.
— Não.
Senti o psiquiatra mexer-se desconfortável na sua poltrona. – Harley, você está chorando?
— Não.
— Quer que eu lhe peça um chá ou algo para comer?
Funguei, virando-me de costas para Stuart. – Não.
E finalmente, o silêncio gostoso.
— Você quer ouvir um pouco de música?
Oh, por amor de Hades!
Virei-me de novo para o homem na poltrona, descobrindo os meus olhos lacrimejantes. – Stuart, só por hoje, vamos só ficar em silêncio. Falta apenas meia hora para a consulta terminar. E logo quando eu sair desse pequeno mundinho seguro que você tanto insiste em criar para mim, eu vou encontrar Julian e a sua ex-namorada problemática e vou ter que estudar para uma maldita competição.
Quando Stuart não falou nada, eu continuei. – Eu sei que pareço estar exagerando, mas eu estou cansada entende? Eu só quero respirar fundo e estar um pouco em paz.
O psiquiatra respondeu-me com uma risadinha engraçada. – Para quem não queria conversar, você falou muita coisa.
Bufei, virando-lhe costas novamente.
— E se você fosse visitar Nolan? – sugeriu, depois de mais dez minutos passados em silêncio.
Os meus olhos ainda não tinham secado por isso continuei na mesma posição. – Eu queria muito fazer isso, mas duvido muito que ele queira ver essa minha nova expressão de choro. Não é muito bonita.
— Eu acho que ele quer sim.
Não trocámos mais palavras. Aliás, eu acabei ficando tempo demais e nem mesmo levantei quando Stuart saiu falando que a nossa hora tinha terminado. Fiquei apenas mirando o teto branco, sentindo os olhos inchados e doloridos por causa do meu choro estúpido.
Alguma hora eu levantei e saí da sala. Não encontrei Julian, Monique ou mesmo Daniel em lugar algum. Normalmente o Grant me esperava, por isso estranhei encontrar as cadeiras brancas da sala de espera vazias e meio abandonadas.
Também não precisa dramatizar, Harley.
Parece que Julian ficou verdadeiramente magoado. Isso ou então decidiu voltar para Monique e estão planejando onde casar e onde vão construir a futura mansão com piscina.
Revirei os olhos para o meu próprio pensamento masoquista e saí desse lugar que eu sempre achava horrivelmente branco. Peguei o primeiro ônibus que parava na periferia da cidade – onde a prisão se situava – e sentei num dos bancos do fundo.
Sim, eu iria visitar Nolan. Sozinha.
E eu estava me sentindo meio ansiosa por incrível que pareça. Porque apesar de uma parte de mim odiar completamente Nolan, uma outra parte não pode ignorar nossa história. Começámos amigos e eu queria que terminássemos do mesmo jeito.
A viajem demorou pouco mais que meia hora e assim que chegámos saí do ônibus como se ele estivesse em chamas. Passei por alguns policiais que me cumprimentaram com um sorriso estranho do tipo: “o que essa reclusa está fazendo aqui fora”.
Essa é uma das “vantagens” de ter cabelo colorido. Parece que todo o mundo desconfia de suas intenções.
Idiotas preconceituosos.
Assim que informei ser uma visitante de Nolan Brown, fui escoltada por um policial que me indicou a sala de visitas e me prometeu um copo de água.
Spoiler: acho que ele foi lá na China destilar a água porque durante toda a visita não teve água nenhuma.
Sentei na única mesa vazia e enquanto esperava Nolan, observei todas as outras pessoas que visitavam seus conhecidos. Alguns visitantes pareciam famílias, outros pareciam eles mesmos prisioneiros e tinha até um policial jogando poker com dois homens vestidos com esses uniformes laranjas horrorosos.
O ambiente era mais descontraído do que eu alguma vez imaginaria. Felizmente Nolan acabou por aparecer, vestindo também ele um uniforme laranja e mantendo a cabeça baixa.
Assim que me viu, um sorriso contido formou-se em seus lábios e sem aviso, o garoto correu para longe dos policiais que o acompanhavam, pulando em cima de mim num abraço apertado.
O meu corpo tornou-se pedra, mas não o afastei. Apenas estranhei. Nolan nunca foi um garoto que gostasse de demonstrar afeto. Se o fizesse, seria de uma forma meio louca e obcecada. Não desse jeito.
Os policiais moveram-se em alerta, mas tratei de os acalmar. – Tudo bem, tudo bem.
Levei uma mão até seus cabelos meio longos e bagunçados. Nolan, mesmo sendo mais alto que eu, parecia nesse momento uma criança.
Quase ri por causa desse pensamento absurdo.
— Como você está, Nolan? – murmurei, acariciando seus cabelos que eu antes nunca notei serem tão macios. O garoto baixou-se um pouco, pousando a sua cabeça na curvatura do meu ombro.
— Eu que deveria estar perguntando. – minha mão parou imediatamente de percorrer os fios marrom. – Seus olhos estão vermelhos. Ou você fumou drogas ou chorou. E ambos sabemos que você não fuma nada.
Suspirei.
O pior de conhecer Nolan desde esses anos todos, é que ele me conhecia extremamente bem. Quando não respondi, o garoto afastou-se com um sorriso.
— Eu não esperava uma visita sua tão cedo, por isso algo ruim deve estar acontecendo mesmo.
Obriguei-o a sentar-se na cadeira na minha frente. – Não, eu só pensei que você estivesse se sentindo meio sozinho.
Nolan revirou os olhos. – Olhe para esse lugar, eu nem com muito esforço consigo estar sozinho, Har. Por outro lado, acho que quem está se sentindo sozinha é você.
— Não.
— Onde está o Grant? – revirei os olhos, que interrogatório é esse socorro – Duvido muito que ele fosse deixar você vir aqui abandonada desse jeito.
— Ele está… construindo sua mansão com piscina. É um garoto muito ocupado, sabe… Principalmente agora. – eu conseguia perceber que Nolan estava confuso, eu mesma estava confusa com tudo então já somos dois – Teve um tempo que você era muito amigo de Julian, não é mesmo?
O garoto demorou um pouco a responder como se estivesse incerto se deveria confirmar ou não. – Acho que sim?
— Então você conheceu Monique? – os olhos de Nolan arregalaram-se em surpresa. – Acho que sua expressão acabou de me responder. O que exatamente aconteceu entre eles?
— Harley, como você sabe da existência dessa garota? Julian te contou? Não, Julian nunca iria falar para você… Então como? – murmurou, alisando o seu uniforme nervosamente.
Suspirei. Porquê tanto segredo, meu Hades?!
Ok, eis o que eu sabia.
Julian namorou Monique. A garota é meio psicopata da cabeça e decidiu namorar o melhor amigo dele na época: Daniel. Por isso esses dois se odeiam. Essa garota voltou do inferno – supostamente deveria estar morta – e agora ela quer recuperar o lance com Julian.
Ah, claro, e ela é também uma manipuladora bipolar.
— Ela deu uma de Jesus Cristo ressuscitado e voltou porque ainda ama Julian loucamente. Acredita, cara, muito loucamente. – resmunguei. O esmalte da minha unha não sobreviveu os segundos que Nolan demorou para responder.
Quando o fez a sua face tornou-se meio assustadora. – Harley, essas são péssimas notícias. Monique não é certamente uma pessoa que você alguma vez queira ter por perto. Ela gosta de jogos, brincar com a mente das pessoas.
O meu amigo de infância encolheu os ombros, parecendo desconfortável quando as memórias do passado voltaram para o assombrar. – Eu conheci Julian quando uma noite ele apareceu no bar onde eu estava trabalhando, perguntando se não estávamos precisando de empregados.
Nesse tempo eu ainda estava… hum… caçando você. Mas como não tinha pistas do seu paradeiro, decidi pelo menos conseguir algum dinheiro para sobreviver. Encontrei esse bar meio estranho que estava disposto a contratar um cara suspeito como eu e decidi dar uma chance. Passado um tempo Julian juntou-se a mim e ficámos bem amigos. Cuidávamos sozinhos do bar várias noites e acabámos criando essa rotina confortável juntos.
Até que um dia ele me apresentou Monique. Na altura eu pensei: o que diabos uma garota tão delicada está fazendo com esse cara? Julian era quase preocupante, não pense que sua aparência sempre foi desse jeito meio playboy idiota! Ele era muito magro, com grandes círculos negros debaixo de seus olhos e cabelo muito longo e descontrolado. Tinha dias em que o cara parecia saído de um desses filmes de terror japoneses.
Por isso estranhei a relação deles! Há medida que o tempo passava, percebi que Monique não era a garota que queria mostrar ser. Pelo contrário, ela era extremamente egocêntrica e narcísica. Acho que ela pensava quase que todo o mundo se ajoelhava a seus pés. Bom, pelo menos Julian ajoelhava.
Acho que o cara estava mesmo apaixonado e cego por ela. Muitas vezes vi que ela o traía. Ele próprio via a sua garota beijando outros caras, mas sempre se desculpava dizendo que a relação deles era desse jeito mesmo. Eu também nunca quis me intrometer, não tinha nada a ver comigo.
Mas acredite, ela não é uma boa garota para ninguém, acho que nem para ela própria.
Eu nem sei direito o que aconteceu depois porque acabei tendo que fugir pois teve um cliente que me reconheceu como um fugitivo procurado pela polícia. Sabe, quando vi esse Julian mais saudável buscando por você, eu fiquei meio aliviado. Pelo menos ele abriu os olhos para a realidade e não deixou que Monique continuasse a abusar dele.
Estou vendo é que essa garota ainda não desistiu dele. Duvido que algum dia desista, afinal, onde vai ela encontrar um outro cara que tenha tanto dinheiro como Julian? O cara é quase o dono do país…
Abri a boca. – Ele… é o quê?!
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