Cocaine
27 Fui atacado por um zumbi - narrado por Julian Grant
Notas iniciais
— Só não me odeia, Miriam. Por favor, não me odeia. – Miriam acenou e enquanto ela acariciava o meu cabelo, eu contei toda a burrada que eu fizera. E novamente as lágrimas desceram pelas minhas faces. A minha mente torturava-me com imagens sem sentido do meu passado e também de Julian. E como sempre, estava presente a culpa. A grande culpa que agora parecia ainda mais pesada. Mais real.
[…]
Narrado por Julian Grant
Senti minhas mãos tremerem violentamente. Eu tenho que me acalmar. Se não, acho que vou acabar quebrando o nariz de alguém. Fui rapidamente na cafetaria e comprei uma garrafa de água. Sem respirar abri a garrafa e derramei todo o conteúdo na cabeça. A água gélida relaxou os meus músculos tensos, mas não diminuiu minha raiva.
Um grupo de garotas que estava sentado perto do balcão e consequentemente de mim, soltou um conjunto de risadinhas maliciosas enquanto viam a água ensopar a minha camiseta e moldá-la ao meu abdómen. Esmaguei a garrafa com as mãos e encarei o empregado que me devolveu o olhar com desprezo.
— Quero um whisky com gelo. Agora. – murmurei, caminhando pelo chão molhado. Mas antes de me sentar numa das mesas, virei-me na direção do empregado. – E acho que você deveria limpar esse chão.
O cara fechou os punhos com raiva. Pensei que ele fosse me bater. Eu queria que ele tentasse. Assim eu poderia matá-lo sem sentir remorso. E tão rápido como começou, terminou. O garoto acenou e saiu. Pelo canto do olho, vi alguém sentar-se na minha mesa. Chad. O meu colega de apartamento exibia uma expressão meio confusa meio surpresa.
— O que deu em você para ficar agindo feito um babaca? – perguntou.
Suspirei e passei uma mão nervosa pelo cabelo molhado. Fiquei calado. Chad não insistiu. Ele apenas ficou lá, controlando a minha fúria com a sua presença pacífica. O whisky chegou. Nem olhei para o empregado. A minha mente ficou perdida a partir do momento em que uma certa garota de cabelos roxeados entra na cafetaria acompanhada de duas pessoas. Reconheço a amiga loira dela. Uma tal de Miriam. O garoto é Jackson do time de Lacrosse. Mal o conheço, mas o odeio por estar tão perto dela.
Os seus olhos azuis encontram os meus. Estão vermelhos. Ela esteve a chorar. Porquê? Já levou um fora do Daniel? Essa foi rápida. Garota estúpida. Se tivesse ficado quieta… eu… Eu sei lá.
Tomo um gole do whisky. O líquido amargo e espesso passa-me pela garganta, rasgando e aquecendo os meus sentidos. Os meus olhos não a deixam. Ela mexe-se parecendo desconfortável na minha presença. Vejo a sua língua molhar os lábios secos. Como se me quisesse enlouquecer. E está conseguindo. Eu a odeio por me fazer sentir isso. Mas me odeio ainda mais por a desejar.
O empregado vai receber o pedido da mesa deles. Harley olha o cardápio, mordendo o lábio enquanto pensa. A pressão gostosa na minha calça aumenta. Mesmo com tudo isso que aconteceu, eu ainda me submeteria a ela. O que eu não daria para nesse momento provar seus lábios? Possuí-la em cima de uma dessas mesas. E depois ficar observando-a dormir nos meus braços quando terminássemos.
Espantei os meus pensamentos. Eu não posso pensar isso. Não quando… quando ela dormiu com Daniel. Fechei os olhos. Como ela foi capaz? Aliás, como essa garota descobriu tudo sobre a aposta? Que droga. Abri os olhos novamente e bebi um pouco mais. O empregado continuava recolhendo os pedidos. Harley sorriu para ele e acariciou-lhe a mão. Mas que porra?! O cara agarrou a mão de Harley e depositou um beijo entre os nós dos dedos dela.
Levantei-me rapidamente fazendo a cadeira cair para trás. Chad imitou-me e colou uma de suas mãos no meu braço. Eu vou esmagar esse filho do caralho que ousou tocar nela. Eu vou…
Um barulho de vidro quebrando, fez-me parar por um momento. Procurei a origem do barulho. Nada. A cafetaria continuava ilesa. A única coisa diferente era os olhares de todas as pessoas. Estavam sobre mim. Me avaliando com surpresa, sobressalto e até medo. Não compreendi o problema delas.
— Caralho, você está bem?! Julian! – questionou Chad, examinando-me com os seus olhos castanhos muito arregalados. Não respondi. Uma dor aguda começou a atingir minha mão direita. Um líquido quente parecia estar sendo derramado sobre ela. – Você aniquilou o copo.
Olhei para a mão onde antes existia um copo cheio de whisky. O copo desaparecera e dera lugar a milhares de pedaços de vidro cravados na minha mão. Tinha sangue escorrendo por cada machucado.
O empregado aproximou-se cuidadosamente da nossa mesa e recolheu os vidros quebrados do chão. Dei minha atenção para a garota de cabelos roxeados. Ela me encarava com preocupação. Balancei a cabeça e saí da cafetaria rapidamente. Eu não preciso da sua preocupação!
Apaixonar-se é uma merda. E eu já deveria saber isso. Foi uma merda com Monique. Está sendo uma merda com Harley. É um jogo perigoso e parece que essas duas garotas jogam melhor que eu. Sendo assim, eu não vou jogar. Não me vou sujeitar novamente para depois terminar perdendo. Eu não quero voltar a rasgar fotografias. Não quero ficar de quatro novamente. Não quero me foder. Tenho de parar de pensar nela. Tenho que esquecer.
E o que qualquer ser humano racional faz quando quer esquecer algo? Ele bebe além da conta.
Parece-me um bom plano.
Saí de East River e entrei no meu carro, dirigindo até o meu bar preferido. Nessa hora ele ainda estava vazio. Óbvio. A hora do almoço ainda não chegara e todos os universitários estavam na segunda aula da manhã. Menos eu.
Fui rapidamente no banheiro para cuidar um pouco da minha mão e pouco tempo depois, sentei-me numa das banquetas do bar. O barman aproximou-se de mim com um sorriso debochado. Revirei os olhos. Eu o conhecia. Shane. O cara que desistiu de medicina e decidiu passar sua vida sendo barman e bebendo. O meu amigo que ficava embriagado comigo. A companhia perfeita nesse momento.
— Você parece que foi atropelado, cara. – provocou, aproximando-se de mim. – O que vai ser hoje, Grant?
— Algo forte. Se me puser inconsciente seria perfeito. – resmunguei, esfregando os olhos com a mão boa.
Shane acariciou a barba rala e começou a preparar o meu pedido. – Nossa. O que aconteceu? Você não ficava desse jeito desde que a Monique… É.
— Não fala o nome dela. – rosnei. Shane levantou os braços em rendimento. – Tem… essa garota. Ela é diferente. Mas ela me fodeu completamente. E eu não estou falando no bom sentido.
— Cara, você é tão deprimente. Onde está o maldito Grant que eu conhecia?
Ri. Shane colocou uma bebida colorida na minha frente. Peguei no copo e bebi todo o conteúdo de uma vez. A bebida passou pela minha garganta, queimando-a. E logo depois, um doce travo de canela aqueceu a minha língua. – Me dá outra dessas e cala a boca.
O garoto na minha frente riu com vontade e preparou uma nova bebida. Enquanto Shane estava ocupado, passeei os meus olhos pelo bar. Estava completamente vazio. Errado. Tinha uma garota no canto. Eu não conseguia ver seu rosto por causa do imenso cabelo loiro. A garota afastou o cabelo e pousou seus olhos claros em mim. Não consegui distinguir a cor deles. Ela parecia uma autêntica boneca. E parecia nova demais para estar nesse bar. Ela levou uma garrafa de cerveja aos lábios e bebeu um gole.
Desviei o olhar dela para Shane. Eu estava começando a encará-la e isso não é bom. O garoto colocou uma nova bebida na minha frente. Bebi-a de uma vez e pedi outra.
E outra. E outra. E mais outra.
Eu não sei quantas horas fiquei sentado naquela banqueta. Fora do bar, já escurecera então já devia ser tarde. Shane estava agora ocupado com outros clientes. E a minha maior batalha nesse momento, era conseguir-me equilibrar na banqueta. Eu sentia tudo fora do lugar. Meu corpo estava dormente pelo álcool que eu ingerira. Foram quantas bebidas mesmo? Sete? Oito?
Para além da tontura, eu estava com calor. Eu tinha que apanhar um pouco de ar. Saí da banqueta com muito esforço e quando dei um passo em frente, algo gélido caiu sobre mim. Senti o cheiro de champagne invadir o meu nariz. Procurei o sujeito que derramara champagne em mim. Ele me encarou com deboche.
— Olha por onde anda, Harley. – ele disse “Harley”?! Porque ele está falando nela?! Filho da puta.
— Você não tem o direito de falar nela, seu maldito! Você não a conhece! – gritei, empurrando-o com ódio. O garoto me observou com um misto de desdém e confusão no seu olhar.
— Cara, do que você está falando? Bebeu demais?
Respirei fundo duas vezes. Caralho, já deu. Fechei o meu punho e soquei a cara do filho do capeta. Ele cambaleou para trás e levou uma mão no lugar onde eu o atingira. Poucos segundos depois, senti a sua mão enterrar-se no meu queixo. Equilibrei-me no balcão e passei uma mão pelo lábio. O líquido quente escorreu pela minha mão. Fechei novamente o punho e empurrei o cara para o chão.
Segundos depois, eu e o desconhecido trocávamos socos desajeitados no chão. Ouvi gritos mas ignorei. Alguém agarrou os meus braços. Normalmente, eu teria conseguido soltar mas agora eu estava embriagado demais.
Shane imobilizou-me por completo e tentou levar-me para fora do bar. Eu continuava vibrando de raiva. Eu queria ver sangue e lágrimas. Tudo agora estava surgindo. Monique. Daniel. Harley. Daniel. Harley novamente.
Soltei-me do aperto de Shane e peguei na primeira coisa que vi pela frente. A garrafa do champagne que me molhara. Vi meu reflexo no espelho por detrás do balcão do bar. Eu estava feroz. Irreconhecível. Odioso. Urrei algo incompreensível e lancei a garrafa contra a minha figura.
O espelho quebrou em mil e uma peças brilhantes. Shane afastou-se de mim, parecendo contrariado. Não compreendi o seu olhar de pena, até que alguém novamente segurou meus braços atrás das costas. Tentei afastar a pessoa, mas não consegui.
Um metal frio rodeou meus pulsos, imobilizando-me. Olhei para trás e engoli em seco. Policiais.
Eu. Me. Fodi.
Não era a minha primeira vez na prisão. Eu já lá estivera com Jared depois de uma das nossas loucas aventuras em que incendiámos uma velha fábrica abandonada. Mas agora, eu estava sozinho e sem salvação possível. Os policiais guiaram-me para fora do bar e empurraram-me para dentro de um carro.
Durante a viagem para a delegacia, fiquei contando todos os ossos do corpo humano.
É. Coisa de bêbado.
Assim que chegámos na delegacia, os policiais fecharam-me dentro de uma cela. Ou masmorra. Ou cárcere. Seja lá o que eles chamam essa merda. Nesse mesmo cubículo já estavam duas pessoas. Um homem e uma mulher. O silêncio perdurou até que a mulher decidiu abrir a boca.
— E então, o que você fez para estar aqui? – perguntou para o homem. Ele encolheu os ombros. Examinei-o minuciosamente. Ele me fazia lembrar alguma coisa. A roupa despedaçada e suja. Os dentes meio negros. Os olhos vazios e loucos. Ele parecia o quê mesmo?
— Eu roubei e você? – a sua voz era seca e parecia um urro de algum animal feroz.
Ele parece mesmo…
— Eu matei. – respondeu a mulher. – E você, moleque?
— Um zumbi! Puta que pariu. – gritei, agarrando-me ás grades da cela. – Oh policial, tem um zumbi aqui, caralho!
O homem levantou-se e agarrou-me pela camiseta. – Repete a brincadeira, moleque.
— Ah, eu não quero morrer! – gritei. O homem ergueu o punho. Segurei-o com toda a minha força. Eu é que não vou ser morto por um zumbi! Bem na hora, dois policiais chegaram e separaram o zumbi de mim.
Um deles me levou para fora.
— Hoje é seu dia de sorte. Você pode sair. Sua fiança foi paga. – disse o policial, me empurrando na direção da saída. Alguém pagou minha fiança? Quem? Shane? O cara do champagne? Puta que pariu. Eu amo o cara do champagne!
O policial deixou-me na sala de espera da delegacia. Sentei numa cadeira, sentindo-me meio atordoado. Procurei por alguém conhecido. Nem sinal de Shane ou do cara do champagne. Enterrei a cabeça nas minhas mãos, esfreguei os olhos e bagunceei o cabelo. Eu tenho que acordar desse sonho maluco.
Passos delicados fizeram-me levantar a cabeça. Uma garota. Roupas negras e que marcavam as suas curvas perfeitas. O longo cabelo loiro e ondulado descia por seus ombros e batia no seu quadril. Os lábios cheios e vermelhos. A pele branca e limpa. Os cílios volumosos. E os olhos de uma estranha coloração de roxo. Como o cabelo de Harley.
Entortei a cabeça. A garota parecia uma boneca. E eu a conhecia de algum lugar… É! Eu a vira no bar pouco antes de beber e ficar incontrolável. Porque ela estava aqui? A desconhecida se aproximou de mim e parou na minha frente, abrindo um sorriso de dentes alinhados.
— Vejo que está mais sóbrio. – murmurou. A sua voz era desafiadora e provocativa. Balancei a cabeça e respirei fundo.
— Quem é você?
A garota brincou com uma mecha do seu longo cabelo. – Fui eu que paguei sua fiança. Eu…
— Quem é você? – interrompi já perdendo a paciência. Odiei o sorriso debochado e provocativo dela. É como se essa garota estivesse brincando comigo.
— Meu nome é Flame… e eu gostaria muito de conversar com você, Julian Grant. – a garota baixou-se, ficando ao mesmo nível que eu e sem mais nem menos, colou seus lábios nos meus.
Mas que merda?!
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