Clube dos amigos

IMAGINARIOS

Um conto de Glau Kemp

"Dedique tempo ao seu melhor amigo, principalmente se ele for uma versão de você mesmo".

Thiago está atrasado para sua reunião semanal, com o grupo de terapia que consiste em compartilhar experiências, assim, a pessoa pode enxergar através dos problemas dos outros as soluções para seus conflitos pessoais ou segundo o irmão mais novo de Thiago "encontro de retardados". Mas com dezessete anos já não responde as provocações do irmão caçula. As discussões nunca levaram a nenhum diferente de seu quarto, onde se tranca, esmurra coisas e grita até a garganta doer, abafando o som com travesseiro. Até onde sua memória consegue retroceder, Thiago nunca esteve sozinho em nenhum momento de sua penosa e ridícula existência, usando sua definição de vida. Ele esteve acompanhado de uma voz. É por causa dessa voz que ingere uns três comprimidos por dia, é culpa da voz ele receber o olhar de pena da mãe e de raiva do pai, é essa voz que o obrigava a frequentar o grupo de terapia.

Mas como é ter uma voz falando na sua cabeça todo o tempo? Um inferno! Me refiro a ele, porque a voz é masculina, nunca se cala, se fosse uma pessoa seria a pessoa com mais coisas a dizer no mundo. A voz têm opinião sobre todas as coisas e tem necessidade de expressar essa opinião sempre. Quando chegou um dos companheiros falava sobre sua semana e a presença que o acompanhava. Sem interromper ouviu a tudo que Pedro dizia de cabeça abaixada.

— ...foi horrível ele sumiu por três dias. Imagine ficar todo esse tempo sozinho? — Perguntou o menino de quinze anos e pequeno para idade.

— É assim que as pessoas vivem Pedro, e não estão sozinhas existem outras pessoas de carne e ossos a sua volta. — Confortou a terapeuta.

"Que otário não é Thiago? Você iria gostar disso né? Ficar sozinho, mas pode tirar essa ideia dessa sua cabecinha de merda! Nunca vou te deixar cara." Disse a voz dentro da sua cabeça.

— Não sei como as pessoas vivem sozinhas. — Se lamentou o rapaz.

— Alguém gostaria de dizer ao Pedro o que acha da experiência dele. — A terapeuta olhou para Thiago e notou o pequeno sorriso que ele exibia. — Thiago poderia compartilhar sua opinião sobre isso conosco?

— Bem não é minha opinião. — Respondeu Thiago inseguro. — Você é um otário cara.

— Por favor Thiago esse linguajar não é apropriado, o mundo lá fora já é muito hostil ninguém precisa de atitudes assim aqui dentro. — Repreendeu a terapeuta.

— Me desculpe Pedro, mas não é minha opinião. — A terapeuta olhou para ele, não permitia aquele tipo de conduta, de expressar o sentimento ou a opinião da voz em sua cabeça quando não era solicitada. — A minha opinião é que eu ia gostar muito de três dias sozinho.

"Sem chance seu merdinha, onde for eu vou." A voz o lembrava pela milésima vez.

— Como vê Pedro outras pessoas que carregam presenças constantes gostariam de ficar sem essa companhia, mesmo por um curto espaço de tempo. Avalio isso como uma melhora no seu quadro. — A voz da terapeuta era mecânica, cada palavra dita com exatidão.

"Essa mulher me dá vontade de vomitar, imagina se eu pudesse vomitar dentro da sua cabeça? Seria demais"

Vanessa começou a relatar a sua semana, ela é a pessoa que Thiago mais gosta. O problema dela é engraçado é a única que diz ter um amigo imaginário. Vanessa acredita que é louca e sente orgulho disso, diz que seu amigo não existe, mas gosta dele e não quer que vá embora. Eles são como um casal e brigam na frente de todo mundo o tempo todo. Esse amigo é Bob um urso de pelúcia maltrapilho. Sim ele participa da terapia, no inicio ela exigia uma cadeira exclusiva para Bob como a terapeuta não cedeu ela deixa uma pequena parte da cadeira para o urso.

O natal passou a pouco tempo e Thiago sentiu-se um pouco ridículo quando comprou dois presentes, um livro para Vanessa e um suéter de linha para Bob. Ele pensava nisso quando outro membro começava o relato. O outro Thiago contou que seu par braços extras e invisíveis o estavam incomodando, porque queriam ficar constantemente com as mãos dentro das calças. Carla apenas chorou quando chegou a sua vez realmente se encontrava em profunda tristeza, a pobre garota baixinha começou a entender que não possuía o dom de conversar com os mortos. Como ela descobriu isso? Manteve seu cachorro morto dentro do armário por um mês e segundo ela a uma semana não falava mais ou pior ela não estava mais ouvindo.

"Thiago essa garota é perigosa e se agora ela quiser matar alguém para fazer experiências? E a principal pergunta é: Como o cachorro morreu?"

Naquela terça-feira ficou com Vanessa no ponto de ônibus, a moça começou a discutir com Bob sobre que ônibus seria o melhor. Um dia antes do encontro com o grupo Thiago recebeu uma ligação, Roberto um dos integrantes da terapia havia atacado a e arrancado a dentadas, os lábios, o nariz e parte da bochecha da terapeuta com voz mecânica. Parece que ela havia sugerido a Roberto abandonar sua sombra em algum lugar. Ele entendeu que ela queria matá-lo e atacou. A reunião estava cancelada e o grupo estava desfeito.

" É seu merdinha ta livre dos retardados".

Pela primeira vez Thiago pensou naquele grupo de pessoas como amigos, todos eles o outro Thiago com braços invisíveis que insistiam a ficar dentro das próprias calças, Carla e sua obsessão por gente morta, Pedro e seu companheiro que era igual a ele mas não era ele, sempre repetia isso. Até aquela ligação mesmo Roberto e sua sombra assustadora eram legais e Vanessa junto com Bob superavam todos, adora eles. Como poderia viver sem aquele encontro, todas às terças-feiras? Não viveria! Ligou para todos exceto Roberto que fora internado. A partir daquele dia se encontrariam na sua casa, ele preparou tudo, arrumou outros ursos para fazer companhia a Bob. Um par de algemas invisíveis para prender os braços fornicadores de Thiago, comprou um coelho empalhado para Carla ter com quem conversar, para agradar o amigo o Pedro reservou um lugar na frente do espelho. Na porta do quarto colocou um aviso.

Reunião do Clube dos Amigos Imaginários.

Toda terça às 19:30

Obs. Só é permitido a entrada se estiver acompanhado de seu amigo.

Fim

Direitos desta obra reservados à autora

Glau Kemp

Publicação independente

Caro leitor, reservei esse pequeno espaço para falar com você. Irei tratá-lo por você, pois se chegou até aqui sinto que somos um pouco íntimos. Você leitor é a fada madrinha do conto de fadas, sem sua presença nada é possível. É muito importante sua opinião. Para um escritor iniciante pequenas coisas do mundo virtual fazem muita diferença. (Seguir, curtir, compartilhar e comentar). Sem pressão é claro(risos), mas se gostou ou mesmo se não gostou e sente que tem algo construtivo para dizer por favor diga. Leio e releio mil vezes cada comentário, com eles, ganho sorrisos imensos e corrijo meus erros.

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