Clube da Luta - Colateral

7 Capítulo 7 - O sétimo pecado


Notas iniciais
Depois de anos, o fim da história.

Faz cinco meses que Tyler não dá sinal de vida. Claro, a culpa não é só dele — acho que dificultei algumas coisas. Na noite em que acabei ferindo Jared ou Vanessa eu fui preso. Por sorte as leis neste Estado de merda estavam frouxas e consegui ser julgado num tribunal especial: constataram que eu tinha transtornos mentais. Lógico que eu não tenho merda nenhuma, mas eu tive que vestir o personagem pra não ir para uma prisão horrível no interior e ser massacrado por aqueles animais. Se eu tivesse algum problema mental, Tyler nunca me aceitaria.

Fui transferido para uma prisão de segurança mínima e só preciso dormir lá. Durante o dia sou obrigado a servir sopão para alguns idosos no distrito da cidade. Posso receber duas visitas por semana, ainda que isso nunca tenha acontecido. Tentei de todas as formas utilizar minhas ligações para falar com Tyler, mas está cada vez mais difícil — tem uma psicóloga aqui. É, esta é a pior parte. Dr. Skyler — a vadia ainda tem um nome parecido com o do Tyler. Ela está dizendo que Tyler nunca existiu. Ela nem sequer sabe quem ele é. Vadias como ela não conseguem nem sentir o cheiro dele. Apenas vadias sujas como eu. Eu sou a boa vadia do Tyler.

"Como está se sentindo?" ela perguntou. Toda semana a mesma pergunta. Ela parecia odiar estar ali, senão fosse por um único motivo: ela era da academia. Estava estudando o meu transtorno. Eu sou a cobaia desprezível dela. Mas você pensa que eu estou facilitando as coisas? Nem a pau! Eu quero ser a pior cobaia que uma doutora pode ter.

"A mesma coisa de sempre" respondi. Eu sei que ela fica puta quando eu digo isso, porque não leva a lugar nenhum. Ela cruzou as pernas como sempre fazia quando era contrariada.

"Tyler falou com você?" a boca dela se transformou numa privada. Ela pronunciava o nome Tyler sem nem sentir o que ela era. Na boca daquela vagabunda era apenas um nome sem porquê. Ela achava que se tornava íntima de mim dizendo isso.

"Tyler não é uma alucinação da minha cabeça. E ele não possui telepatia" eu respondi e deixei escapar um riso. Ela riu de volta. Perguntou se eu estava com saudade dele. Aquela vagabunda estava indo longe demais. Eu me revirei na cadeira e olhei pra ela com os olhos tortos. Disse que ela não me conhecia e não deveria me julgar assim.

"Estamos há quase seis meses aqui, Kyle. Você se lembra do que aconteceu, não? Das pessoas que você tirou a vida durante um surto psicótico?" eu não sabia que aquela mulher desprezível poderia falar desta maneira comigo. Vai ver a puta também estava de saco cheio das minhas loucuras, mas eu não ia perdoar aquele tom. Eu resmunguei qualquer coisa e ela disse que não tinha entendido. Eu resmunguei de novo e ela fez uma cara estúpida tentando entender. Aquela vadia me levava tão a sério que tentava escutar até minhas palavras sem sentindo.

A sessão continuou assim. Eu fingindo de retardado e ela indo até o limite. Entrar no seu estado de idiota é a blindagem perfeita. Aquele dia tinha tudo para ser uma merda, como todos os outros, mas algo aconteceu. Eu não lembro exatamente o motivo de tanto êxtase, mas a vida de merda que eu levava tinha se movido do lugar. Enquanto eu estava servindo sopão para aqueles idosos idiotas durante a visita de algum deputado de outro Estado, eu pude ver, meus olhos percorreram exatamente o caminho correto. Eu tenho olhos de devoto. Eu sinto o cheiro daquele homem e meu corpo todo passa a vibrar na direção de sua alma. Eu vi Tyler entrar com uns caras. Quem eram aqueles filhos da puta? Eles estavam vestindo roupas de profissionais da limpeza. Uns macacões azuis ridículos. Eles passaram por mim e por um milésimo de segundo meu olho se cruzou com o do Tyler. A minha mão carregava um tremor essencial para ele. A marca do beijo começou a esquentar e eu servi sopa como um bom fiel. Eu me sentia um santo sendo coroado por Deus, recebendo o direito absoluto de operar milagres e curar todas as pessoas que pedissem em meu nome. Eu iria olhar nos olhos dos meus fieis e dizer que a fé em Tyler os curou. Eu não precisava de mais nada. Apenas olhar para ele já era o suficiente para saber que eu não era louco. Eu era um servo fiel, era isso que Tyler queria. Meu silêncio seria nosso segredo mais íntimo. Ele sabia minha senha e conhecia o gosto da minha seiva. Ele faria algo, claro que faria. Eu era o único que poderia impedir. Continuei servindo.

Em Tyler eu confio.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!