Clube da Luta - Colateral
1 Capítulo 1 - O primeiro pecado
Tem dois caras aí, certo? Um é mais alto, cabelos castanhos e tem um físico atlético. O outro é um magrelo de cabelo preto, viu? O fortão tá em cima dele, enchendo a cara de porrada, né? Tem aquele pessoal em volta assistindo e tal. Conseguiu ver? Ignore a poça de sangue que se formou embaixo da cabeça do magricela. Ignore também a quantidade de sangue que está voando da cara dele a medida que o grandão termina de deformar aquele rosto medíocre. Tente ignorar tudo. Todos esses detalhes sórdidos que a vida coloca contra a sua cara e obriga você a chorar ou rir por eles. Ignore as comemorações tolas de aniversário; ignore os feriados religiosos. Tudo isto só serve pra um único propósito: Morrer mais gordo. Não gordo num sentido torpe, ofendendo os obesos... Nada disso, Bob é um ótimo cara e um ótimo gordo! O que quero dizer é que as pessoas comem demais. Me diz um feriado que não tem a ver com comida? Olhe para esses líderes de famílias abastadas, donos de empresas.. Todos gordos no sentido sórdido da palavra. São robustos feito porcos grosseiros que tomam a comida podre dos outros porcos pra comer.
Eu sei lá... Acho que estou delirando aqui... É estranho... É como se tivesse um martelo batendo contra a minha cabeça a cada dois segundos. Toda vez que vem a nova martelada, um fragmento de memória se quebra na minha mente, abrindo um poço que escorre água fervendo do meu cérebro. Dói... Mas não é aquele tipo de dor que a gente não quer mais sentir, sabe? A cada martelada, pulsa um novo dilema na minha vida... Foi assim que Tyler disse que seria...
Ah, eu me esqueci... O magrelo apanhando aí no chão coberto de sangue e poeira sou eu. Não sei se consegue ver meu rosto, a iluminação daqui é uma merda e Tyler só deixa uma luz acesa. Mas esse sou eu. Kyle Wayne, auxiliar administrativo numa firma de advocacia. Vinte anos. Sagitário. 1,79. 53kg. Estudante de Direito. Amarelo. Pudim. 9. Filmes. Porsche. The Legend of Zelda. Bon Jovi. Batman. Subway. Paris. Música Brasileira. Julie. 270980. Creme de barbear. Iphone. Enxaguante bucal. Cerveja. Cheese burguer. Cachorro. Bateria acabando. 39. 41. Gravata borboleta. Hades. Netflix. Maçã.
"Como nos definimos?" Tyler falou em meio a toda a multidão de caras suados e sem camisa. Eu nunca vi um silêncio tão grande em toda minha vida.... Se todos os professores de ensino médio tivessem o silêncio que aqueles 35 caras fizeram depois que o Tyler perguntou aquilo, toda a educação Americana estaria salva. Ninguém respondeu.
"Esse sapato te define. Esse relógio te define. Você é marcado pelas coisas que veste, é como as pinturas corporais dos índios da América do Sul. É... Os deles ainda estão vivos. Vocês se perfumavam com Dolce Gabbana, se pintam com Gucci, se armam com a Apple... Vocês são um outdoor de publicidade ambulante. Você, é você mesmo com o óculos. Qual a marca dele?"
Meu coração ficou congelado. Por um segundo pensei que Tyler tivesse falado comigo, mas não. Era com um sujeito do meu lado. Pinta de playboy proletário.
"Rayban" ele respondeu depois de alguns segundos. Tyler sorriu e cochichou alguma coisa para o nada. Ele encarou o cara novamente e pegou o óculos do rosto dele.
"Quanto pagou por isso?" perguntou, arremessando o óculos com uma mão e pegando com a outra.
"Eu não me lembro" aquilo estava interessante. A expressão de Tyler era teatral, mas o cara parecia não gostar. De alguma forma ele estava sendo provocado por Tyler.
"Vem pegar seu óculos" a voz era de desafio. Tyler começou a rir e fez umas caretas aleatórias na frente do sujeito, que não estava gostando. Alguns caras e eu começamos a rir. O cara foi ficando meio corado, envergonhado. Ele partiu pra cima do Tyler e foi ao chão em três segundos. Eu mal vi o que aconteceu, só puder notar que houve um giro, escutei um estalo e o cara estava no chão.
Tyler continuou zoando este babaca por horas e já estávamos todos rindo da cara daquele fracassado. As lágrimas despencavam dos seus olhos, enquanto arremessávamos o óculos dele por todo o porão, enquanto ele tentava pegar, feito um macaco de circo.
"Você, magrelo de pés gigantes!" Tyler olhou para mim. Quando nossos olhos se encontraram, senti um arrepio enorme, como se a mão de Tyler tivesse atravessado meu peito e feito cócegas nas minhas entranhas.
"Eu?" perguntei pra ter certeza. Tyler suspirou irritadiço e jogou óculos do cara em mim.
"Você mesmo. Você vai lutar contra o cara de óculos" Eu não sabia o que fazer. Tudo aquilo não parecia real. Para onde eu olhava haviam rostos deformados pela escuridão rindo da minha cara também. Antes que eu pudesse fazer alguma coisa, mãos suadas e sujas me empurraram e eu estava no meio da arena.
"Ei... É.. Foi mal pelo ócul..." Fui acertado em cheio no rosto. Zumbido agudo. Dor no maxilar. Caí no chão. Bob disse que minha cabeça quicou três vezes.
"Medo contra Raiva!" exclamou Tyler. Não que eu tenha escutado, mas me disseram depois.
Acordei dois dias depois, no hospital. Pensei que estava ferrado, mas havia um bilhete escrito "Você fez uma boa luta. A conta está paga. Em Tyler nós confiamos".
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