Clown
1 Capítulo 1
Notas iniciais
\'\'Pai.. O que pensaste de mim quando lhe disse meu destino..?
Pai.. O que disse aos teus amigos..?
Pai.. O que acha de mim agora?
Tens orgulho do que faço?
Pai.. Eu te vi morrer sorrindo.
E é por ti que sorrio agora.\'\'
As sobrancelhas bem feitas aos poucos eram alongadas por um enorme arco, posteriormente sendo preenchido pela cor azul. A ponta do nariz branquinho recebia um nariz grande e de veludo vermelho. Os lábios finos ganhavam a mesma tonalidade, limitada pela linha preta que formava um sorriso grande chegando até às bochechas.
O corpo quase raquítico trajava um macacão da cor de sua pele, que armazenaria várias bolinhas macias, escondendo toda e qualquer magreza do corpo alto. A calça jeans larga cobriria suas pernas, a camisa branca, o tronco, e o suspensório amarelo seguraria as calças largas em seu corpo.
Os sapatos verdes e compridos lembravam os de um duende, exceto pelo guizo pendurado em cada uma de suas pontas retorcidas. As mãos vestiam as luvas perfeitamente brancas as quais, sabia, sairiam de lá direto para a lavanderia. Os cabelos negros eram presos num rabo adornado de algumas fitas.
O violão suspenso na parede pertencia à capa com alças, a que o ajudava muito ao sair de casa daquele jeito.
Seu destino? Um mundo escuro, triste, sem vida.
Ao menos era o que todos pensavam.
Ele era o contrário. Seu destino na verdade era o que mais lhe fazia feliz.. Aqueles sorrisos, aquelas risadas, aqueles rostos tristes iluminados por um brilho intenso.
E tudo por sua causa.
Aquelas crianças eram suas companheiras diárias. Oh sim, visitava vários hospitais por semana. Um a cada dia.
Não tinha nenhum grupo de teatro, nem ao menos um amigo para ajudar. Tinha apenas o desejo imenso de repetir aquela cena, quantas vezes pudesse. Pois sabia, veria vários pacientes morrerem em meio aos seus shows particulares. Já havia visto dois.
Seu pai, e uma criança.
Só não sabia precisar exatamente qual dos dois havia sido mais doloroso.
Seu pai era um homem bom. Digno de respeito, honesto e o aceitava. Exceto por querer ser palhaço. Desde pequeno era apaixonado por palcos, por piadas, por sorrisos..
No leito de morte foi que contou a escolha definitiva de seu destino. Os lábios finos retorciam-se fracamente num sorriso esperançoso.
E o sorriso largo que seu pai lhe exibira em suas últimas horas de vida, lhe deu a certeza de que tinha escolhido o destino certo. E era por causa daquele sorriso que havia se apaixonado ainda mais por seu trabalho. Era por ele que queria repetir aquela demonstração de felicidade todos os dias.
A criança era um menino de apenas sete anos. Tinha tumores e câncer.
Lembrava-se de contar todos os dias uma história diferente de seus amigos imaginários. Hora duendes, hora fadas, hora apenas o primeiro animal que lhe viesse à mente. Os olhinhos amendoados e grandes pareciam dobrar de tamanho diante da encenação. Aquela era a atenção que mais adorava receber.
A última história que contara era a do Lênin. Um pato feio que morava na floresta e que num fatídico dia encontraria uma gota d\'água, que se achava estrela do mar, e uma rã nordestina, chamada Rãimunda, e os três lutariam contra Boris o poluidor.
Lembrava-se perfeitamente de cada gargalhada gostosa e verdadeira que lhe era dirigida. E o que mais gostava era de imitar cada um dos personagens. O que não sabia é que aqueles eram os últimos momentos de sua vida. O pai, do lado de fora, sabia. Podia sentir a hora do filho se aproximar.
Pareciam segundos contados.. A história fora finalizada e o barulho estridente e ensurdecedor do aparelho que media seus batimentos cardíacos o invadiu os ouvidos. Os médicos desesperaram-se, mesmo sabendo que iria acontecer. O gemido angustiado vindo do corredor o cortou o coração.
Mas nada, repetia nada, tiraria a alegria enorme que o invadiu ao ver o sorriso eternizado no rosto do falecido.
Por sua causa.
-
Meus dedos viajaram pela maçaneta prateada da porta e foi apenas ao me ver inserido naquele quarto que me dei conta do quão árduo era o meu trabalho.
Pude perceber alguns olhinhos infantis brilharem ao avistar a roupa colorida, outros olhos opacos estreitarem-se ao ver a maquiagem diferente, outros olhos adultos me estudarem dos pés à cabeça.
E até hoje o que eu não entedia naquele trabalho era o por que de alguns pais não aceitarem minha ajuda. Não estou fazendo piada da cara de ninguém.. Também porque ser palhaço é fazer de si uma piada. E também não quero fingir que está tudo bem. Sei que não está. Mas eu vi duas pessoas morrerem.. E morreram felizes. Por que não posso dar esse destino aos outros também?
Ou.. Por que não posso dar-lhes algumas lembranças boas do tempo que passaram aqui para rirem quando voltarem para casa?
Era normal, meus dedos sempre tremiam ao entrar. A pergunta \'\'posso?\'\' saía livre, quase sem pensar. E cada \'\'sim!\'\' me enchia de uma esperança tão ou mais infantil do que meus \'\'pacientes\'\'.
Ah sim, eu era um doutor. \'\'Doutor Sorriso, muito prazer.
Vou lhes contar uma história.. Daquelas que te prendem a atenção.
Os olhos vidrados, ouvidos atentos.
Sorrisos estampados e curiosidade grande.\'\'
Peguei o violão e transpassei a alça sobre meu ombro, a melodia dando vida às minhas palavras. As ordens sendo prontamente atendidas pelos pequeninos dispostos a me dar atenção.
Dois que podiam ficar em pé deram as mãos frágeis, os outros apenas estenderam o braço o máximo que podiam para segurar a mão do amigo. A ordem era dançar ao som da melodia, da maneira como podiam.
Os bracinhos balançavam-se infantilmente, o corpinho magrelo se remexia feito minhoca. Deus, como aquilo era bom!
\'\'..Prestem atenção, crianças.\'\'
E apesar de ser um dos adultos dali, eu era também um dos que se divertia. Assim como eles, meu corpo se remexia feito minhoca. As bolinhas macias me fazendo cócegas e o guizo nos meus sapatos acompanhando a melodia gostosa do violão.
Algum de vocês já experimentou isso..?
-
Seis horas depois do meu último showzinho eu recebi a notícia. Sim, um paciente havia morrido pouco depois da minha partida. Sua mãe havia me estudado dos pés à cabeça, seus olhos acompanhavam-me como se eu fosse um palhaço muito mau, o Coringa talvez, eu não sei.
Mas o que me fez aumentar a vontade de voltar naquele lugar, foram as palavras de seu filho..
\'\'..Mãe, a culpa não foi dele.
Os palhaços são assim. Transformam a tragédia em alegria, na dele e dos outros.. O sentimento é fantasia, o sorriso é a compensação.
Nenhum deles é adulto, são todos crianças como eu.
E mamãe.. Não chore. Eu estou em paz. Eu vou em paz..
Vou sorrindo, mamãe..
Mamãe.. Pode me ouvir? Eu estou feliz..
Esfou feliz por ter dançado e me divertido nas últimas horas da minha vida mamãe.. Não chore.
Seu rosto é bonito demais para ficar assim..
Eu vou em paz mamãe, veja!
Eu estou sorrindo..\'\'
..Deus..! E ainda me dizem que os melhores poetas são os que viveram eras, suficiente para sofrer de tudo. E esse pequeno poeta morreu feliz. Morreu sorrindo.. Mais um sorriso eternizado por seu rosto morto.
Por minha causa.
O sorriso arrependido e o abraço apertado que aquela mãe me dera dias depois fora a certeza que..
..Eu escolhi o trabalho certo.
Notas finais
E sim, a história do Lênin existe, é uma peça infantil e pá, meu tio que a fez, portanto, os direitos são dele.
E.. Bem, o final não ficou lá aquela coisa mas, não me importo. Ele não é o mais importante. E espero, de verdade, que a moral da história tenha sido achada.
Por último mas não menos importante.. Pode dizer o que achou?
Fale com o autor