Cloudy Sky

3 Know me better


Capítulo 2

Sophie Hastings estava deitada em sua cama, sem querer levantar-se. O quarto estava escuro e frio, mas dentro dos seus cobertores a cama era quentinha e aconchegante. Não queria ter de ir à escola. Para falar a verdade, estava mais que cheia das perguntas que sempre a faziam lá.

“Você está bem?”, diriam. “É claro que sim”, ela sorriria. E sempre havia sido assim... Mas ela nunca se importou, porque estava realmente bem. Só que agora era diferente. Nos últimos dois anos era diferente. Ela não estava nada bem.

Com John indo de mal a pior, sua família desmoronando, e, agora, brigando com sua melhor amiga por algo que Sophie havia admitido a si mesma que estava errada em relação, ela não estava bem.

Não queria ter de levantar para o primeiro dia de aula. Necessitava ficar em casa, chamar Alice e assistir alguma comédia romântica enquanto comiam macarons e chocolate caro. Mas é óbvio que ela não viria. Alice estava com raiva, e, por mais que odiasse admitir, ela estava completamente certa. Só nunca iria dizer isso em voz alta. Seria humilhante demais. Seu orgulho não permitiria.

Mas ficar ali deitada talvez não fosse a melhor coisa a se fazer. Não queria remoer pensamentos e ficar depressiva. Talvez levantar-se e seguir fosse melhor, talvez fosse o certo.

Então levantou-se. Pisar no chão frio provocou-lhe um arrepio, mas ela logo calçou as pantufas que estavam no chão ao lado da cama. Enrolou no cobertor e abriu as janelas, deixando a luz esgueirar-se pelo quarto. O calor do sol foi aconchegante e logo estava suficiente quente para deixar o cobertor na cama. Deu um nó no cabelo e tomou um banho demorado, como se pudesse tirar toda aquela sensação ruim do corpo. Vestiu uma roupa qualquer que provavelmente que seria o assunto da semana junto com a roupa que Alice e todos os outros alunos populares iriam para o primeiro dia de aula.

Colocou uma leve maquiagem, calçou sapatos confortáveis e belos e prendeu um cabelo em um rabo-de-cavalo. Passou pelo espelho e viu seu reflexo de relance: ótimo, ela estava linda, com aparência saudável e de quem teve férias maravilhosas.

Quando chegou a escola, cabeças viraram e ela sorriu magnífica. Mas logo seu sorriso esvaiu-se do rosto quando viu, mais a frente, Alice de mãos dadas com Logan, sentados debaixo da árvore do pátio, o lugar mais cobiçado do colégio. E havia mais um monte de gente ao redor deles, todas conversando e sorrindo como se a piada mais engraçada estivesse sendo contada.

Alice estava linda, tinha seu cabelo ruivo trançado e estava vestida com um belo vestido creme com bolinhas brancas e oxford nos pés. Parecia uma boneca.

Mas não dava pra se enganar com sua aparência. Apesar de amar a melhor amiga, sabia bem como Alice era: e era igualzinha a ela mesma.

Só que ela mesma nunca iria estar com Logan Foster daquele jeito. O garoto era simplesmente... Horrível.

Sim, Logan era lindo, e, com aquele jeito deslocado, porém gentil, ele realmente era atraente. Mas... Ele era um bolsista! O que Alice achava que estava fazendo com um bolsista? Ser amiga dele já era certamente um ultraje, mas namorar ou que quer que eles estivessem tendo era ultrapassar os limites!

Mas em um segundo Sophie sentiu-se envergonhada por pensar aquilo do garoto. Será que ela realmente era uma mesquinha idiota como Alice havia dito? O garoto havia impedido seu irmão de ser preso! O que mais ela queria para provar que o fato de ele ser bolsista não fazia a mínima diferença?

O dia passou-se muito lentamente. Naturalmente, Alice não prestou a mínima atenção em Sophie. E esse fato, junto com o namoro – já confirmado – de Alice com Logan eram os assuntos mais falados no colégio.

Voltou para casa se sentindo pior do que quando havia acordado. Mas chegar em casa não era nada melhor, na verdade. Quer dizer, não na maioria dos dias.

Tinha que ver seus pais tratando-se com indiferença como se nunca tivessem se amado um dia, tinha que encarar o estado de degradação em que John estava... E, para falar a verdade, sem Alice ao seu lado para conversarem, isso era muito mais difícil.

Mas naquele dia o ambiente da casa estava... Agradável. Desde o epsódio na loja, John andava se sentindo culpado e estava fazendo de tudo para melhorar as coisas. E hoje parecia que seus esforços estavam valendo a pena.

A casa não estava com o clima pesado, tenso, como sempre estava. Seus pais estavam sentados ambos na mesa, com um John relativamente saudável ao lado. Eles conversavam. E riam. Quase parecia mentira e por um momento ela pensou que deveria estar sonhando. Mas era bem real.

Quando percebeu, já estava sentada na mesa. Rindo também, sendo cumprimentada com um bom dia carinhoso. E seus pais... Eles pareciam até educados e gentis um com o outro. E John estava ótimo comparado com seu estado nos dias anteriores.

– Como foi seu dia na escola, Soph? – perguntou John. – Sinto falta de ir para lá...

John estava afastado da escola, ia apenas para o médico algumas vezes por semana para fazer terapia. Depois ficava em casa, recebendo algumas poucas visitas de amigos e parentes. A não ser quando surtava e fazia alguma besteira. Mas nesses últimos dias, ele estava exemplar.

– Foi normal, John – sorriu, mentindo, afinal o dia havia sido horrível. – Não está perdendo nada demais.

Sentou-se e almoçaram, ficando na mesa até depois de todos terminarem a refeição e continuando a conversa. Sophie esqueceu-se durante esse tempo de todos os seus problemas.

E os dias passaram. Alice não a dirigia um único olhar. E, ao mesmo tempo, não parecia dar a mínima para a turminha de bajuladores da escola. Ela parecia independente e decidida, parecia muito feliz. Mas Sophie já estava se importando menos, já que em casa seus pais pareciam quase se gostar e John estava ótimo, não havia tido nenhuma recaída.

Seus pais haviam feito às pazes, e quase pareciam um casal de novo. Iriam viajar para Veneza durante o final de semana, numa tentativa de voltar ao que eram antes. John parecia muito bem e já havia voltado a estudar.

Quando sua mãe saiu do quarto vestida com um tubinho preto, casaco de pele e óculos de sol, Sophie não teve ao menos tempo de se sentir brava pela afronta aos animais. Sua mãe estava linda, estonteante. Seu pai estava com um blazer branco e calça jeans, também lindo. Os dois pareciam protagonistas de algum filme romântico. Sophie sorriu, desejou-lhes uma boa viagem e foi para seu quarto.

Tudo parecia caminhar relativamente bem ultimamente, tirando o fato de que ela não estava bem. A garota que vivia fora de casa, saindo, se divertindo e vivendo sua vida, agora só permanecia em casa, apodrecendo. Ela se sentia sozinha, sem Alice havia percebido o quanto ninguém mais apreciava sua amizade, sua companhia. Ela não tinha ninguém.

Depois de assistir alguns filmes e almoçar, resolveu sair. Queria respirar um ar novo, queria um tempo para pensar e aquele final de semana sem os pais em casa para se preocuparem com ela era perfeito.

Soltou os cabelos, colocou um casaquinho por cima da roupa que já estava e viu John sentando na sala quando saia.

– Vou sair, John. Vai ficar bem sozinho? – perguntou.

– Claro que vou, sis. Não sou um bebezinho... Já estou quase melhor, ok? – sorriu confiante.

– Tudo bem, bro – sorriu de volta e caminhou até a garagem, entrando em seu carro e dirigindo até a sorveteria.

Era bem longe da sua casa, porque era mais perto da área mais pobre da cidade. Mas tudo bem, era na beira de um rio, simples e arrumada. Lembrava-lhe os tempos em que seu pai levava Sophie e John ali, quando eram menores. Havia muito tempo, parecia quase uma vida inteira.

Imagine que cena mais patética (ou poética): Sophie Hastings, sem amigos, sem maquiagem e sem roupas caras, sentada numa mesa de sorveteria, cheia de melancolia e tristeza.

Mas não importava, mesmo.

Comprou um sorvete qualquer e sentou-se a mesa, olhando as pessoas passarem enquanto só ela parecia presa, sem poder sair do lugar. Provou o sorvete. Estava gostoso. Tão doce quanto sua vida parecera ser antes. Mas agora era quase tudo só amargura.

– Hastings? – escutou uma voz qualquer que a interrompeu do seu devaneio.

– Foster? – bufou quando virou-se, para encontrá-lo parado, sozinho.

À luz do sol da tarde, Logan Foster tinha um tom perfeito de bronzeado. Seu cabelo loiro brilhava num tom levemente acobreado, e seus olhos azuis brilhavam mais ainda. Estava com um casaco preto.

– Você... Você tá bem? – ele perguntou ao encará-la.

Será que é tão óbvio assim?

Aquela pergunta de novo, aquela pergunta que sempre tinha que mentir a resposta. Estava cansada de fingir.

– Não, Foster, eu não estou bem! –disse dando-se por vencida.

– Com licença – ele falou sentando-se na cadeira vazia a sua frente. – Alice... Ela sente sua falta, Sophie. Vocês duas são duas cabeças duras e eu não queria ter sido motivo para essa briga – ele começou a falar calmo, fluindo, direto ao ponto.

Então quer dizer que Alice havia contado para ele? Claro que sim.

– Tudo bem, Logan – Sophie disse sendo muito mais gentil do que queria ser. – Não é sua culpa. Eu... Eu não gosto de admitir isso, mas a culpa é minha. Eu não deveria ter te envolvido em problemas que não são teus. Mas obrigada, obrigada mesmo assim. Desculpa por te fazer perder seu emprego.

As palavras saíram rápido e ela não teve tempo de pensar. Quando percebeu, já havia dito o que não queria sequer admitir para si mesma. Mas era a verdade. E era melhor assim.

Logan pareceu surpreso.

– Não há de quê – ele murmurou e sorriu.

Sophie percebeu o quanto seu sorriso era bonito e não pôde evitar sorrir de volta.

Por incrível que pareça, conversaram mais durante alguns minutos... Ou horas? Não pôde ter muita certeza do tempo, já que ele fluiu como há muito não havia feito antes.

Quando sol já estava perto de se por, foi que se deram conta o tempo que haviam passado conversando. Ambos comentaram sobre a hora, mas pararam num silêncio quase ensaiado e observaram o sol se pondo a oeste. Depois se despediram tímidos e sem jeito, um deu o número ao outro para algum caso de emergência, com a certeza de que aquele momento não se repetiria, e foram embora, cada um de volta a sua vida.

Depois da conversa com Logan, Sophie havia ido ao cinema, sozinha, assistir alguma comédia romântica. Ainda precisava de descontração. Terminou chegando já bem tarde em casa por culpa do trânsito.

Mas teve uma pequena surpresa ao chegar em casa: John havia convidado, simplesmente, quase todo o colégio para uma “festinha” em casa.

Entrou no jardim só para ver copos, garrafas de whisky, vodka e outros tipos de bebida espalhadas pela grama verde. A piscina estava cheia de gente que ela nunca havia visto ou reparado antes. A casa estava uma bagunça só. Pessoas e mais pessoas se pegando em cima do sofá, enfileirando pó na mesa de centro e fumando um baseado no banheiro. Música alta, drogas e bebida.

Quase todo mundo que era alguém na escola encontrava-se no meio da bagunça. Inclusive os exemplares jogadores de futebol, ou as líderes de torcida sem bunda, até a saxofonista fracassada da banda– que estava aos beijos com Todd Cook, o atacante principal do time de basquete.

Ao mesmo tempo em que sentia-se terrivelmente culpada por ter deixado John sozinho em casa e ter dado brecha para ele fazer aquilo, queria queria também achá-lo e dar um tiro naquela cabeça estúpida e inconsequente.

Era óbvio que ela também se divertia, fazia suas besteiras vez ou outra, mas John era incontrolável. E havia caído de novo. Logo agora que as coisas estavam começando a andar tão nos trilhos...

Todos a cumprimentavam, mas ela ignorou-os, subindo as escadas sem se importar em pisar quem quer estivesse no seu caminho, procurando pelo rosto familiar do irmão.

Queria gritar para todo mundo que a festa acabara, queria dizer que fossem para casa, queria bater em todos e chorar copiosamente, mas controlou seus passos e foi achar seu irmão aos beijos com Claire Austaire em seu quarto.

A presença da delicada francesinha a deixou surpresa, mas vê-la aos beijos com seu irmão deixou-a pasma. Claire era o tipo de menina tímida e quieta. Nunca se envolvia em confusões e era muito centrada. Era rica e bonita, muito elegante e etiquetada. O que diabos ela fazia beijando John daquele jeito?

Pigarreou e os dois se separaram. Claire corou e ajeitou os cabelos ao vê-la. Deu um beijo rápido na bochecha de John e cumprimentou Sophie antes de sair do quarto.

Ficou sozinha, a encarar um John de olhos vermelho e cabelo desgrenhado.

– O que você pensa que está fazendo? – Sophie mediu bem as palavras, falando tudo no tom mais calmo que conseguia forçar naquele momento de fúria.

– Quer um? – John indicou a carteira de cigarros jogada no chão, com um sorriso cínico.

– John, o que você quer!? Estragar tudo? Logo agora que estava indo tudo tão bem?!

Sophie já estava gritando, chegando perto de seu irmão e encarando-o profundamente.

– Qual é o seu problema!? – gritou.

A expressão zombeteira de John desmanchou-se.

– Sophie, eu... Me desculpa... Eu, eu sei que sou um idiota, mas... Eu não conseguia mais... Fingir. Eu não conseguia mais fingir! Eu não estou bem, eu nunca estive bem – ele disse, alternando entre sussurros e gritos.

Então John nunca esteve se recuperando. Apenas fingindo. Sophie sabia como era. Ela fingira nos últimos tempos, estava sempre fingindo, só para não preocupar as pessoas ao seu redor.

Tudo estava indo muito bem para ser verdade.

– Vá... Vá despachar todo mundo daqui, agora – Sophie disse num tom cortante.

John dirigiu-lhe um olhar envergonhado e deixou o quarto. Sophie sentou-se na cama e abraçou as pernas, deixando as lágrimas caírem livres. Soluçou e soluçou, murmurando para si mesma que tudo iria que ficar bem, era só ser forte. Que bela mentira.

Era interessante como, apesar de serem gêmeos, Sophie sempre foi a “mais velha”. Ela que cuidava do irmão, que concertava suas besteiras e o dava broncas. John era um perdido rebelde, preso numa Terra do Nunca que parecia o impedir de crescer. Mas mesmo assim John era quem ela mais amava. Mais até do que amava sua mãe ou seu pai... Deve ser porque ela própria terminara sendo uma mãe para ele, enquanto seus pais estavam muito ocupados brigando uns com os outros, ignorando o fato de que tinham um filho doente, que fazia tudo aquilo que fazia apenas por... Atenção.

No fim, Sophie Hastings era realmente altruísta.

Escutou que o som foi desligado, o murmúrio acabou e quando olhou pela janela do quarto, a piscina não estava mais cheia de gente, mas estava completamente suja, assim com o jardim.

Seus pelos da nuca arrepiaram e o coração acelerou quando viu a mãe entrando pela porta. O que ela fazia ali? Ela deveria estar viajando... O que deveria ter acontecido? Como estava sozinha, provavelmente havia brigado com o marido!

Desceu correndo as escadas, só para encontrar um John jogado no sofá, com o rosto coberto.

– Mãe está aí – disse agitada e ele descobriu o rosto, mostrando um par de olhos arregalados.

– Como assim? Ela deveria estar viajando! – levantou-se e foram ambos para a porta de casa, encontrar uma Sra. Hastings numa tênue linha entre tristeza e raiva.

Sophie e John abriram ambos as bocas numa tentativa de explicação, mas não saiu nada, apenas guinchos e inícios mal elaborados de frases.

– Chega – Sra. Hastings murmurou.

– É minha culpa, mãe – John disse. – Eu... A Sophie estava fora, eu que fiz tudo isso... Estive fingindo. Ainda estou doente, eu sou doente.

Sophie queria defendê-lo, mas as palavras estavam presas na garganta.

– John, quero você fora de casa – ela murmurou. – Até amanhã de manhã. Quando eu sair daquele quarto, não quero ver seu rosto – disse sem nem ao menos encará-lo. — Vou descansar, Sophie, mande as empregadas ajeitarem isso. Tive um dia longo – disse fria.

A mãe estava no seu limite. Era meio que típico dela sempre esconder-se na frieza, na cortesia. Mas Sophie já conhecia seus olhos, que encontravam-se tristes, perdidos e quase loucos. Ela estava fazendo muito esforço para não derramar lágrimas, para não deixar transbordar a raiva e a decepção que sentia por John... Sra. Hastings não aguentava mais, assim como Sophie. Mas não podia deixá-la expulsar seu irmão de casa.

– Mãe! – finalmente as palavras saíram. – Não pode abandonar seu filho! Não pode! John precisa de você! Que tipo de mãe seria se o expulsasse de casa? – disse num apelo, enquanto John permanecia parado atônito.

– Eu já aguentei coisas demais, Sophie! Já aguentei demais – disse com uma voz desequilibrada e entrou em casa apressada.

– Você não aguentou nada! Enquanto brigava com seu marido, eu e John ficávamos piores! A senhora... É uma péssima mãe! – gritou para ela, arrependendo-se imediatamente depois que as palavras foram proferidas.

Ouviu um soluço de sua mãe, mas ela não voltou, correndo até desaparecer de vista dentro da casa.

Sophie abraçou um John abalado e os dois choraram no meio do jardim destruído.

– Logan? – murmurou ao telefone.

Sophie estava com o rosto inchado e encharcado de lágrimas. Ela se odiava por estar recorrendo a Logan de novo. Há pouco tempo atrás ela repudiava o garoto. E ele havia “salvo” seu irmão, e nem ao menos havia sido grata a isso. Só conseguiu reunir coragem para ligar porque não poderia suportar a ideia de seu irmão ficar na rua quando viu que a decisão de sua mãe era séria.

– Alô? – ele pareceu surpreso. Pela hora e pelo número que o ligava. – Sophie? Hastings? É você mesmo? – disse.

– Sou eu – ela disse com a voz menos abalada que conseguia produzir. – Você disse para ligar “em caso de emergência” – ela disse deixando mais lágrimas caírem. – Eu... Eu preciso que você faça de novo algo por mim. E por John.

Ela pôde ouvir Logan suspirando do outro lado da linha, irritado.

– O que aconteceu? – ele estava irritado, mas mesmo assim tentava ser gentil. – Você tá bem? – perguntou num tom sensível.

– Eu... Eu estou, sim – disse. – É John... Você pode deixá-lo dormir na sua casa? Só por hoje, eu... Vou arrumar um jeito amanhã, mas agora é a única opção que tenho... Não posso deixá-lo na rua – disparou, falando tudo de uma vez enquanto soluçava e chorava.

Ela realmente não tinha outra opção. Não conhecia ninguém que pudesse fazer algo parecido, exceto Alice. Mas a situação com Alice ainda encontrava-se estranha, e Logan faria aquilo, não por Sophie, mas por si próprio. Havia percebido que o garoto estava sempre cuidando dos outros... Ele era o oposto de Sophie e Alice. Sophie estava completamente envergonhada, sentindo-se ridícula, mas era por seu irmão...

Queria apenas que ele dormisse lá, só por essa noite. Ela conversaria com a mãe, faria-a entender. John ainda poderia se recuperar, não podia? Ele precisava de só mais uma chance, mas com a cabeça quente e os nervos alterados sua mãe não daria essa chance. Ela precisava de tempo. Só essa noite...

Ela conseguia ouvir a respiração de Logan.

– Quando você chegar aqui você vai me explicar o que aconteceu – ele murmurou e em seguida a mandou anotar seu endereço.

– O... Obrigada – disse muito baixo, mas dessa vez soube que ele ouviu.

John e Sophie entraram no carro e dirigiram até os subúrbios da cidade, onde Logan morava. John havia colocado umas poucas roupas dentro de uma mochila e lavado o rosto e trocado as roupas sujas, o que deixava sua aparência um pouco mais aceitável. Mas desde que sua mãe entrara em casa, ele não havia falado nada. Estava entre o estado de choque e sob o efeito das drogas que havia usado.

Sophie estacionou em frente ao pequeno e modesto prédio que Logan havia indicado. Falou com o porteiro e subiu os andares pelo elevador, parando com John em frente a porta do apartamento 201. Tocou a campainha.

– Vá para seu quarto, Noah – ouviu Logan murmurar do outro lado da porta. – Vá dormir, princesa.

Provavelmente ele falava com a irmã mais nova. Sophie lembrou que ele tinha dito que ia àquela sorveteria porque sua irmãzinha, Noah, adorava-a.

A porta abriu-se e Sophie viu um Logan com cara de sono, cabelo levemente bagunçado. Evitou olhar para seu peito nu e encarou seus olhos azuis.

– Entrem – ele disse e John e Sophie o seguiram. – Minha mãe tá dormindo no último quarto.

Um aviso sutil para não fazerem barulho.

Sophie olhou pelo corredor e viu uma menininha com cabelos loiros que espiava por uma das portas.

– Pode arrumar um quarto para John dormir? A gente conversa depois... Ele tá meio... – Sophie sussurrou muito baixo para Logan enquanto John dava um sorriso de canto para Noah.

John entendeu e levou-os pelo corredor até seu quarto, no caminho passaram pela porta do quarto em que Noah se escondia e viu que era ali que sua mãe dormia.

O quarto de Logan era muito simples. Branco, com uma cama forrada com cobertores pretos. Havia algumas prateleiras cheias de livros e um guarda-roupa pequeno. Logan puxou um colchão de debaixo da cama e jogou um de seus travesseiros e um de seus lençóis que estavam em cima da cama.

– Pode dormir aí, John – ele disse e John olhou para ele com um olhar agradecido, então colocou a bolsa ao lado do colchão e deitou-se.

Sophie se abaixou, afagou-lhe os cabelos e o enrolou com o lençol.

– Durma bem. Amanhã você volta para casa – ela disse e John assentiu e fechou os olhos, murmurando um “obrigado”.

Então ela seguiu Logan em silêncio até a sala.

– O que aconteceu? – ele disse em voz baixa, depois de sentar-se no sofá.

– Meus pais viajaram, então estávamos sozinhos em casa, eu e John – ela disse e ele assentiu com a cabeça. — Depois que eu sai da sorveteria, fui para o cinema. Eu precisava respirar mais um pouco e aquele dia estava sendo tão bom... – ela sussurrou. – Quando voltei para casa, John havia dado uma festa. Quase todo mundo da escola estava lá... A casa estava cheia de drogas e bebidas.

– E seus pais voltaram da viajem bem na hora? – ele perguntou.

– Exatamente – Sophie murmurou sentindo os olhos se enchendo de lágrimas. – Eles brigaram, e minha mãe voltou para casa sozinha. John já fez tanta besteira, ela... Ela o expulsou de casa – soluçou. – Me desculpa? Eu não deveria ter trazido-o para cá, eu sei. Não deveria te envolver nisso, Logan. Mas... Eu não poderia deixá-lo na rua! Você era a minha única solução. Eu passei tanto tempo te desprezando, mas você é a única pessoa que está aqui agora, fazendo algo que eu mesma não faria por uma pessoa como eu – ela deu sorriso triste. — Você não é quem eu imaginei – disse olhando-o nos olhos.

– Você precisa me conhecer melhor – ele murmurou e a puxou para si, num ato precipitado e tímido, lentamente abraçando-a, como se esperasse por sua permissão.

Sophie encostou a cabeça no tórax dele e chorou abraçada a Logan Foster. Quem diria?

Sophie sentiu o coração acelerar enquanto abraçava-o. Logan era um porto seguro, um farol no meio do mar. Ele era calmaria e sensibilidade naqueles tempos tão conturbados. Não queria ir embora, sair do abraço. Ele era tão bom para ela... Não poderia acreditar que havia mudado tanto seu conceito a respeito do garoto em apenas um dia.

Levantou o rosto e olhou para ele, que era alguns centímetros mais alto que ela. Logan precipitou-se para ela, beijando-a sem nem dar tempo para surpresa. Naquele momento Alice não veio a sua cabeça, nem Noah que espiava do quarto, também não pensou em John que deveria estar dormindo no colchão de Logan. Concentrou-se apenas em beijá-lo, com as mãos acariciando suas costas nuas enquanto ele a apertava contra si.

Se pudesse escolher, teria ficado daquele jeito para sempre.

Notas finais
Quer saber o resto da história? Então comente para que eu a escreva. Espero que tenham gostado!