Closer to the Edge
20 The Percy's Redheaded Nightmare
Notas iniciais
Duas semanas depois, chegamos à costa da Flórida.
Pensei que as Treze Colônias teriam algo a mais, como todos diziam, mas podia dizer que era uma segunda Inglaterra. Nenhuma novidade. Só sei que o Sul é um pouco mais pobre que o Norte, mas eles sabiam esconder muito bem isso. O cais era bem organizado e tinha aparência de novo. Havia apenas quatro navios da Marinha Real. O forte, que ficava logo acima de um penhasco, o que era bastante comum, parecia brilhar na luz do sol. Não dava para ver a cidade acima das muralhas do forte, mas conseguia ver telhados aqui e ali.
No penhasco onde o forte ficava, tinha um vão onde se dava um bom esconderijo, isso se não fosse os três esqueletos com roupas de piratas enforcados, uma placa ao lado deles dizia “Piratas, isso é um aviso”.
Devo admitir, tem que ter muita confiança para achar que isso vai dar certo.
– Espere – Charlotte ordenou e Beckendorf imediatamente dera um jeito de parar o navio. Ela puxou uma luneta do casaco e mirou para um navio parado há poucos metros do cais. – Se me dissessem eu não acreditaria. – sorriu, praticamente socou a luneta na lateral do corpo de Percy, que a pegou com uma careta de dor e olhou para o mesmo navio.
– Só pode estar de brincadeira – Percy comentou, sua expressão era uma mistura de incredulidade com felicidade. – Você não vai fazer o que eu penso que você vai fazer, certo?– ele olhou para uma Charlotte radiante, balançou a cabeça e revirou os olhos. Ela retirou o casaco de couro e jogou para ele, que o segurou no ar. – Claro que vai.
– Nhá – Charlotte fez um sinal de descaso com a mão – Vai ficar tudo bem. – ela deslizou para a amurada do navio e subiu, fazendo todos prestarem atenção nela. Ela fez uma expressão pensativa, olhando para todos com olhos semicerrados. – Reyna, você fica no comando enquanto eu não estou aqui e... Você – ela apontou para Grover -... você... — apontou para mim – e você – apontou para Percy – Vocês vão se resolver com a Rachel. O resto, bem, vocês já sabem: Reyna no comando.
Ela desceu da amurada e murmurou para Thalia, que estava do meu lado:
– Já sabe o que fazer. – com isso, Thalia fez uma reverencia e correu para baixo. Charlote se virou para Percy e estalou os dedos, apontando para ele logo em seguida. – Sabe o sinal certo? – ele levantou a sobrancelha em resposta, fazendo-a dar de ombros. – Só lembrando. – Charlotte pulou novamente na amurada, mas antes de pular para o mar, com o pé esticado no ar, ela se virou para mim novamente – Se lembra de quando eu coloquei em você àquela peruca ruiva? – assenti – Mil perdões por isso.
Com isso, ela pulou a amurada e desapareceu em um turbilhão de água.
Percy deslizou para o meu lado, olhando fixamente para o tal navio. Ele era azul com detalhes em dourado e, por conta do sol diretamente para ele, não consegui enxergar seu nome.
– Devo perguntar?
Ele pareceu sair do transe e olhou para mim.
– Ah. É o Descobridor.
Não era bem isso o que estava perguntando, mas mesmo assim me assustei.
– Descobri... Espera. – estiquei as mãos no ar e fechei os olhos, tentando imaginar a cena de Lotte fazendo o que seja lá o que for que ela vá fazer em um navio como aquele. – Está me dizendo que a Charlotte vai invadir um dos três queridinhos da Marinha Britânica?
– Aham. – ele respondeu, olhando novamente para o imponente navio novamente.
Depois de um tempo, eu comecei a achar que Charlotte morrera afogada, mas ouvimos gritos desesperados de comando e tiros. Os guardas realmente ficavam desesperados com um ataque surpresa. A bandeira britânica aparecera do nada no mastro principal, ondulado no ar em seu limite.
– THALIA! – Percy gritou, exagerando no primeiro “a”.
Pensei que ela não havia escutado, até dois dos canhões dispararam, com uma mira certeira, direto no Descobridor. Consegui ver uma silhueta subir no mastro principal até estar do lado da bandeira. Enquanto o navio afundava e as velas e seus mastros sumiam, a silhueta continuara no mesmo lugar. O navio afundou para frente, de forma que a silhueta só precisou esticar o pé e cair no cais, pegando o que parecia um chapéu encharcado e se desviando dos guardas de roupa vermelha que invadiram o cais. Quando ela saiu da vista deles, ela recolocou o chapéu na cabeça e olhara em nossa direção, parecia que estava verificando se dava para ver o navio dali o não. Pelo jeito, ela pareceu satisfeita, endireitara a coluna e saíra rebolando dali.
– Essa é minha irmã. – Percy sorriu, logo depois se virou e andou até Beckendorf.
Eu não conseguia acreditar. Uma única pessoa conseguira fazer isso, mas nem sequer repararam nela. Quero dizer, era um dos três amores da Marinha Real, construído para deter piratas e descobrir novas terras, com guardas extremamente treinados para combater qualquer coisa, era praticamente inimaginável alguém o naufragar assim tão facilmente. Ainda mais com ele em um cais de colônia.
Sinceramente, Charlotte merece a fama que tem.
Eu ainda olhava abismada, com boca levemente aberta, para os guardas secos tentando salvar a tripulação que conseguia. Embora eu ache que não havia muita coisa para salvar, mas era o Descobridor, isso por si só já levava um desespero.
– Ei, Annabeth! – ouvi uma voz levemente conhecida me chamar e, quando olhei para o lado, era Grover. Ele estava ao lado de Percy, que vestira um sobretudo de couro, mantendo as mãos casualmente nos bolsos e olhando pensativo para a costa. A imagem de chefe não ficava muito natural nele, mas até que ficava bonitinho. Ele voltou o olhar para mim, o verde ainda mais ressaltado com o reflexo do mar, piscou e deu um sorriso de lado. Revirei os olhos com o ato e andei até ambos.
– Então – digo – Rachel, certo?
Ambos assentiram.
– Ela não é como a Hazel, não, certo?
Ambos negaram com a cabeça.
– Ela é... meio doidinha, mas é legal. – Grover afirmou, logo depois levantou os dois braços para cima em punho e dizendo um pouco alto demais: — TIME RUIVO ARRASA.
Percy reprimiu uma risada e pulou do navio logo em seguida. Antes que pudesse segui-lo, Grover me puxou levemente pelo braço:
– Fica de olho nela.
– Ué, o “time ruivo” não arrasa? – perguntei irônica.
– Há-há. Ela é apaixonada pelo Jackson desde sempre, e eu gosto de vocês dois, não custa avisar dona moça.
– Ora, — dei de ombros – uma garota é apaixonada pelo Percy, diga-me uma novidade.
Ele sorriu e pulou como um bode-montanhês logo em seguida.
***
Custa uma feiticeira morar perto da civilização?
A tal Rachel, a ruiva ao qual eu tomei uma antipatia quase instantânea, morava exatamente no meio de um dos maiores pântanos da região. Então tivemos que despistar os guardas até sair da cidade, andar mais um pouco pela parte rural sobre um sol escaldante até chegar ao pântano, aonde ainda atolamos nossos pés em lama por um bom caminho.
Estava ofegante, mas continuava dando ordens de apoio aos garotos:
– Vamos! Quanto mais rápido chegarmos, melhor.
Grover bania, sim, bania, fazendo parecer que estava quase chorando. Mas, quando olhei para trás, ele não estava muito diferente de mim, soando e ofegando, porém continuava andando e lutando contra a lama. Ao seu lado, Percy estava praticamente no mesmo estado, com o casaco nas mãos e com uma expressão de quem ia desmaiar.
– Annabeth, aonde você arrumou tanto fôlego? – Grover perguntou e eu mal o entendi com a respiração falha.
Dei de ombros.
– Sei lá.
– Foi com o Percy, não foi? – pelo seu tom de voz, parecia que ele estava sorrindo.
– Calado, homem-bode. – respondi.
Grover fizera outro banido, dessa vez de indignação.
– Contou a ela?
– E precisa? – Ouvi a voz de ambos se aproximando e o barulho das botas na lama mais perto – Seu riso parece um banido de bode, e quando você tá cansado ou chorando faz o mesmo barulho. Isso tirando que você pula como um bode-montanhês.
– A parte do pulo eu não posso fazer nada, é um dom. – ouvi Percy bufar – Mas eu não acredito que você contou a ela!
– Grover.
– Pensem que éramos irmãos, cara...
– Grover.
– Parei com você também, esse era nosso segredo, selado a sangue.
– Gro-ver.
Reprimi uma risada quando Grover começou a rir e ouviu-se um “beé” no meio. Acho que ou ele é metade bode ou isso é apenas riso nervoso. Nunca iremos saber.
– Mas é sério, também não confio em você mais. – Grover continuou, e eu acho que ele estava tentando ficar sério, mas pequenas risadas se ouviam saindo dele vez ou outra. – Nem te devo nada também, traidorzinho de araque.
– Se lembra daquela vez que você entrou no quarto de Ártemis e ela te socou até deixar você todo roxo e, em vez de falar a verdade e tornar sua vida um inferno, eu disse para todos que você pegou uma Caçadora e esses roxos eram chupões?
Grover não respondera.
– Entre outras coisas mais constrangedoras que aos quais eu não vou falar. Tipo o seu casamento com a Gertrude, a samambaia.
– Ei! – Grover parecia mais indignado – Eu estava bêbado, além disso, você, Charlotte e Thalia, como bons amigos, deveriam me tirar de lá...
– Mas vocês faziam um casal tão fofo...
–... Mas nãaaao, vocês até arranjaram um padre para nos casar.
– Se você não a transformasse em Gertrude Underwood, a samambaia, ela ficaria chateada. – Percy riu depois disso, fazendo Grover banir de indignação, mas logo depois ele gargalhou também.
Doentes.
– Estamos chegando? – perguntei, parando e girando o corpo para dois retardados rindo. Eu revirei os olhos e pigarrei, cruzando os braços para eles. Ambos tentaram parar de rir e endireitaram a coluna, com o rosto corado de segurar o riso. – Estamos chegando?
Grover e Percy se entreolharam e riram o que tinham que rir, quase rolando na lama, eles se apoiaram nas árvores e voltaram a gargalhar mais. Eu bati na minha própria testa e balancei a cabeça com a cena.
Bufei e me virei, percebendo que havia um lampejo de luz no meio de árvores estranhas, logo depois de uma ladeira. Olhei para trás, para os dois palhaços que continuavam lembrando a história de Gertrude, a samambaia. Estreitei os olhos para ambos e balancei novamente a cabeça, revirando os olhos e continuando o caminho sem eles.
Andei seguindo o pequeno ponto de luz, descendo de lado para evitar um tombo constrangedor na lama e continuei o caminho, desviando de árvores e afundando até meu joelho em água. Ouvi esguichos de paços e algo se movimentando na água e olhei de soslaio para trás, vendo que Percy e Grover tomaram vergonha na cara e me seguiram.
Uma casa grande, de boa-aparência, com jardineiras lotadas de flores das mais variadas espécies em baixo das janelas. Era branca, mas a função das paredes parecia servir de tela: pinturas em óleo, tinta, até mesmo em nanquim havia.
Para falar a verdade, a casa contrastava bastante com o lugar que se encontrava.
A luz que eu seguira fora a de um lampião pendurado de frente para porta de entrada, como se fosse um farol. Logo abaixo dele, sentada na escadinha da varanda, tinha uma garota com o que parecia um caderno de couro, ao qual ela praticamente agredia com um pedaço de pedra bruto de grafite.
Percy e Grover se posicionaram cada um do meu lado e andamos até a garota. Nem estávamos tão perto dela quando ela soltou a pedra e levantou a cabeça em um supetão.
Ela era bonitinha, bem bonitinha.
Pele levemente alva, com sardas nas bochechas e nos ombros. O sorriso parecia ser quase instantâneo e refletiam perfeitamente em seus olhos esmeralda. Usava uma tiara florida, deixando os cachos de um ruivo-chumbo cair até o fim das costas. O vestido avermelhado era rasgado na bainha, deixando os pés descalços a mostra, parecia que garras haviam feito isso, fazendo-me sorrir inexplicavelmente com tal pensamento; havia restos de tinta aqui e ali, como se ela secasse o pincel com a saia, o que era provável.
Ela é ruiva, pensei, a tal Rachel.
Ao menos, parecia mais legal que Hazel. Fofa, até, como um filhote de gato ruivo.
Rachel largou o caderno no chão e saiu correndo em nossa direção, quase derrubando Percy em um abraço.
Esquece o “legal”.
– Céus, quanto tempo eu não te vejo! – ela disse, segurando seu rosto com as mãos e olhando bem para Percy – Seria estranho se eu dissesse o quanto você cresceu?
– Um pouco... Talvez. – ele sorriu de lado e Rachel não conseguira evitar um suspiro.
Ô minha querida, sutileza não existe no seu mundo, não?
– Ah. – Rachel fez um gesto de descaso com a mão, ainda insistindo em abraça-lo. Depois apanha, e não sabe por quê. – Falo mesmo assim, te conheço até antes de você nascer.
Eu olhei para Grover de lado, e desenhei as palavras “ela é imortal?” com a boca, sem emitir som. Ele assentiu.
– Grover! – ela se aproximou de Grover dando-lhe um abraço tão forte que parecia que os olhos do coitado iam sair pelas órbitas. Logo depois, ela o soltou e bateu em sua mão com a mão espalmada. Grover pareceu sentir dor até mesmo disso. – Time Ruivo, arrasa!
Grover fez um “eeh” fraco, parecia que havia quebrado as costelas, mas quando perguntei se ele estava bem, ele fez um sinal de positivo com a mão e endireitou a coluna. Acho que ele vai melhorar. Talvez. Não sei.
– Eu realmente estava esperando por vocês... – Rachel continuou, já andando de volta para casa, nos fazendo segui-la. – Vem, entrem você dois.
... Vocês dois?
Sinceramente, de primeira pensei que havia algum feitiço na casa em que ninguém podia entrar a menos que fosse notado pela dona. Mas assim que pus meus pés no piso rangido de madeira minha teoria fora por água baixo.
Já dentro da casa, percebi logo de cara as diferenças bastantes explicitas entre ela e Hazel. Claro, Rachel parecia menos maluca que Levesque, e também havia diferenças físicas, mas Hazel era sombria, e Rachel era... Florida.
Rachel se sentara em uma mesa por uma toalha roxa com detalhes de lua minguante, logo a frente de uma parede com janelas no chão ao teto. Nas outras paredes, a madeira vermelha foi deixada por pintar de propósito. Cavaletes de desenho pareciam brotar do chão aqui e ali, com pinturas modernistas contrastando com desenhos que pareciam de um futuro recente. Quero dizer, havia até um retrato meu, mas o que mais me chamara à atenção não fora o fato de que ela me desenhara e nem percebera minha presença, fora o que retratava a pintura. Era eu (dã) com um vestido branco rasgado, parecendo mais branca do que o normal. Aliás, eu definitivamente parecia morta. Com olheiras fundas e, mesmo em um quadro, parecia que minha vida se esvaíra totalmente. E, o mais importante de tudo, parecia que o mar queria me engolir. Como se estivesse flutuando sem poder afundar.
Um calafrio passou pelo meu corpo e desviei meu olhar do desenho, juntando-me aos outros na mesa.
***
– Faz tempo desde que nos vimos. – Rachel dizia. – Desde Jamestown.
– Eles te pegaram? – Percy perguntou.
– Sim, fizeram um monte de perguntas. – ela respondeu, dando de ombros logo em seguida. – Me fiz de burra.
– Foi difícil? – comentei.
Ela me olhou surpresa. Ou ela ficara assim por perceber que tinha mais alguém ou ela não sabia o que responder.
De qualquer forma, Annabeth 10 Rachel 0.
– E você quem é? – ela perguntou, olhando diretamente em meus olhos. Fiz o mesmo, o que dera a sensação que faíscas saíam de ambas.
– Annabeth Chase. E você é Rachel, certo?
– Rachel Elizabeth Dare. – ela respondeu com o sorriso mais falso que já vira. – Nunca te vi com a tripulação de Charlotte, Annabelle.
– Annabeth. – corrigi com os dentes trincados.
Percy pigarreou e o pequeno confronto fora adiado.
– Então, Rach, você sabe que estamos tendo alguns probleminhas com a Coroa Real...
– Vocês sempre têm. – ela comentou, mas Percy continuara como se não tivesse a ouvido.
–... E precisamos da sua ajuda. Você sabe, para despistar.
– Claro. Mas... Qual foi o problema dessa vez?
Percy e Grover se entreolharam, depois ambos olharam diretamente para mim.
Rachel levantara uma sobrancelha, como se não acreditasse que a causa de todo o problema fosse eu. Ela esticou o braço para mim, com a palma da mão para cima, e a olhei questionadora.
– Vai ler minha mão ou algo assim?
– É muito mais poderoso que isso. – ela respondera quase apática, como se não estivesse falando comigo, nem com ela, nem com ninguém. Ela indicara o braço novamente, revirei os olhos e cedi, esticando minha mão sobre a dela.
Assim que a toquei, seus olhos ficaram totalmente verdes, lembravam um caldeirão pegando fogo, até saía uma névoa igualmente verde deles. Ela arqueara o corpo e falara como se mais de uma Rachel:
– Vá até Londres, onde traidores usam cordões de corda injustamente. Caíra em uma queda tortuosa sem fim. Amantes na água aparecerão ao entardecer. E da filha da realeza, a história clareará enfim.
Ela soltou a minha mão, caindo no encosto da meio tonta. Se aquilo era uma profecia, não fazia sentido. Nem rimava para começo de conversa. Não fazia sentido. Mas, pelo que ouvi, é exatamente assim que funciona.
– Porque estão me olhando assim? – Rachel disse, ainda desorientada – Espere, eu disse algo?
Ela olhou para baixo, para nossas mãos, e depois olhou para mim, com um olhar de desculpas. Ou era o que parecia. Ela retirou sua mão de baixo da minha e houve um silêncio constrangedor após isso.
– Duque Castellan, certo?
Nós três assentimos.
– Vocês precisam da minha ajuda.
Grover e Percy assentiram novamente.
– Você precisa da minha ajuda? – Rachel fixara o olhar em mim.
– Talvez.
Ela deu de ombros.
– Serve. O.K., estou indo. – ela se levantou, indo para a sala logo ao lado – Ainda bem que vocês chegaram. Não ia fazer nada mesmo.
Rachel continuara falando enquanto barulhos de vidros sendo mexidos perto um do outro eram ouvidos, mas eu não prestava atenção em nada ao meu redor. Ela era uma vidente, isso ficou óbvio, então suas pinturas podiam ser visões dela. Embora ela tenha dito “amantes”, duas pessoas, e no quadro só havia eu.
Senti uma pontada em meu peito, e olhei de relance para Percy.
Eu não pensara em nada, mas parecia que meu coração parando aos poucos e uma momentânea falta de ar. Pensar na morte dele, que poderia ser minha culpa. Não, isso não era nada bom. Nada bom.
Retirei esses pensamentos de minha cabeça quando Rachel voltou com um frasco com algo roxo nele.
– Aqui. – ela o estendeu para Percy. — Coloque um pouco em todas as partes do navio e está resolvido.
Ele analisou o frasco e deu de ombros, agradecendo e se levantando logo em seguida. Eu e Grover nos entreolhamos, nos levantando e seguindo Percy para a porta.
– Ah! – Rachel exclamou — Espere, tem mais uma coisa.
Ela andou até nós e agarrou a gola de Percy em direção a ela, o beijando logo em seguida.
Na boca.
Ela o beijou BEI-JOU na boca.
Ah. Mas. Eu. Vou. Quebrar. Os. Dentes. Dessa. Garota.
Dei um passo em sua direção e a cutuquei no ombro. Ela desgrudou de Percy — MEU Percy, se ainda não ficou claro para essa quenga – e olhou para mim com a maior expressão desgostosa do mundo. Eu sorri, para logo depois dar um soco certeiro na cara dela.
Ela caiu no chão, com a mão no nariz já ensanguentado.
Ops.
Rachel olhou para mim, a surpresa trocada por ódio, e começou a falar na mesma língua que Hazel falara.
Cthniano. Feiticêires. Tanto faz.
– Acho melhor corremos. – Grover sugeriu, se segurando a porta.
– Concordo. – respondeu Percy, andando de costas para a porta.
Ouvisse um uivo misturado à um latido ao longe, mas parecia que o que quer que tenha feito não era algo extremamente amigável.
– Essa é nossa deixa. – concluiu Grover, correndo logo em seguida, seguido por Percy e logo depois por mim.
O.k. não tinha medo de Rachel, mas do animal de estimação dela sim.
Corremos sem nem ao menos olhar para trás, o que fora um erro.
Uma sombra gigantesca cobriu o caminho, dando-nos a visão de olhos vermelhos enormes, no meio de uma massa preta, que, depois de um tempo, eu percebi que era um cão do tamanho de um rinoceronte.
E mais: não havia apenas um, mas sim três, nos cercando para todos os lados, menos as nossas costas. A droga é que eles não pareciam se interessar por todos nós. Apenas por mim. Annabeth, da próxima vez que for socar uma bruxa certifique-se que ela não tenha cães enormes como guardas.
Eu, Percy e Grover ficamos de costas um para o outro, encarando cada animal.
– Três para cada, então. – disse Grover.
– Está doido? – Percy falou – Annabeth não sabe lutar.
– Ei! – dei uma cotovelada nele – Eu vou ficar bem.
– Fatiada como pão de forma, mas bem. – Grover comentou.
– Calado homem-bode. – respondi.
Os três cachorros se aproximavam cada vez mais de nós, mostrando os dentes afiados e com os olhos vermelho-sangues semicerrados.
Até que atacaram.
Procurei manter em ordem minha mente e me concentrar, o que não fora tão difícil afinal. Rolei para o lado a tempo, já com a adaga em punho, e a finquei no lado de seu corpo. Isso pareceu deixa-lo mais lento, porém mais irritado também. Esquivei-me de suas garras e corri para o lado, pegando a adaga e fazendo uma ferida ainda maior nele.
Tive tempo de ver Grover tacando latas (?) em outro cão, mas parecia que esse método funcionava, deixando-o desorientado. Percy ficara com o maior, o alfa, presumi, o que acarretou em uma dificuldade a mais para ele, mas ele estava bem afinal.
Sobre o meu oponente canino: ele estava mancando no lado que finquei a adaga, mas estava rápido o suficiente para correr para meu lado. Em vez de correr para o lado e tentar despistá-lo, bolei algo mais eficaz e esperei até que ele partisse para cima de mim. E ele fez exatamente o que queria: saltou para me pegar, mas tive tempo de deslizar para de baixo dele e levantar a mão com a adaga. E, quando ele passou direto por mim, senti a adaga passar por toda a extensão de seu corpo e o sangue escorrer pela minha mão.
Abri os olhos e olhei para trás, para o cão se retorcendo, até não se mover mais.
Deu até uma pontada de pena, mas não tinha tempo para isso.
Levantei-me e vi que os outros estavam perdendo. Percy estava com um feio arranhão feito por garras em sua barriga, mal conseguindo levantar a espada. Grover estava perdendo tempo, já que suas latinhas haviam acabado e ele tinha que pegá-las do chão até achar outra opção para detê-lo.
Minha respiração parou quando Percy baixara a guarda e seu oponente conseguira fincar as garras nele novamente, deixando-o tonto e fazendo sua espada cair. Tinha que ser rápida para ajudar ambos.
Mirei no pescoço do cão de Grover, acertando em cheio com a adaga. Corri para a espada de Percy e pulei para cima do cão, agarrando-lhe no pescoço e tentando me equilibrar sobre ele. Parecia montar um cavalo selvagem, e isso eu já havia feito. Ele balançava freneticamente, mas peguei a força que me restava para rasgar sua garganta com a espada, caindo exausta dele logo em seguida. Ele bambeou até cair inerte no chão.
Olhei para o lado, e Grover estava cutucando o cão com o pé, averiguando se estava vivo. Aparentemente não. Ele arrancou minha adaga do pescoço no cão e me lançou um olhar agradecido. Sorri e caí ao lado de Percy, fazendo uma careta para as feias feridas. Mas, no geral, ele vai ficar bem.
– Eu vou pegar água – Grover fez uma careta – Sobreviva até lá.
– Eu vou tentar – Percy respondeu, dando um sorriso torto logo em seguida.
Grover balançou a cabeça e correu para a fonte de água mais próxima.
Cheguei mas perto de Percy e retirei sua blusa, averiguando o arranhão em seu braço, que começara a ficar muito vermelho nas extremidades de onde as guaras o atingiram.
– Fiquei longe o suficiente para que só pegasse de raspão – ele admitiu – Aliás, fora bem corajosa hoje.
– Fui, é? – sorri fracamente.
– Qualquer um que montasse um cão daqueles é corajoso para mim.
Senti meu rosto esquentar fracamente e baixei os olhos.
– Então, — falei – sei lutar mais do que você imaginava?
– Talvez. – ele respondeu.
Revirei os olhos.
Não era exatamente a resposta que queria, mas para mim, era o suficiente.
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