Closer to the Edge
32 Inglaterra? Inglaterra. A culpa é da autora.
Notas iniciais
P. o. V. Percy (só para vocês sentirem mais a dor da morte dela).
Quando me virei e em um reflexo segurei minha irmã, senti como se não existisse chão de baixo dos meus pés. Por um mísero segundo, as batidas do meu coração ficaram lentas até parar, voltando ao ritmo normal mais tarde. Engasguei quando o ar não foi suficiente, e minhas pernas bambearam quando a segurei, um braço de baixo dos joelhos e o outro confortando a cabeça tombada.
– Charlotte... – minha voz saiu um sussurro engasgado, e quando ela sorriu para mim fracamente como se estivesse tudo bem, nada mais importava. Uma bolha pareceu se formar, enquanto batalha se seguia a nossa volta.
– Oi, maninho... – ela respondeu, a blusa branca ensanguentada junto com o espartilho vermelho escarlate.
– Você... – murmurei, mal percebendo quando Annabeth tombou ao meu lado, já tirando a faixa da cabeça e prensando contra os tiros, não sem antes retirar as balas circulares, fazendo Charlotte se retrair e grunhir de dor. – Por que... Porque fez aquilo?
Ela pareceu achar graça.
– Sou apaixonada pela ideia de morrer – declarou – Ou simplesmente quis te salvar... – ela tossiu sangue, fazendo Annabeth se apressar com as mãos, tentando rapidamente salvá-la – Pensei que fosse óbvio. Ele tem mira boa, o tal Will... O qual idiota isso foi não? Colocar-me na sua frente...
– Então tente não morrer! – digo, logo depois percebendo o quão tolo aquilo soou – Ou ao menos resista, é a garota mais forte que eu conheço, sei que...
– Eu não vou morrer seu idiota – a voz fraca e cortada era quase irreconhecível. Mas depois do “idiota” não tinha como discutir – Ou talvez sim. Não sei. – deu de ombros com esforço antes de olhar para onde Annabeth tentava desesperadamente estancar o sangue. As duas se entreolharam, e em um acordo silencioso, Annabeth afastou a mão e retirou a faixa que outrora era azul, agora manchada de vermelho escuro. Charlotte baixou o olhar para as feridas e bufou, como se não passasse de um simples arranhão ao em vez de um ferimento à bala – Solace idiota. – depois de dizer isso ela se voltou para a loira, que parecia se esforçar para não derramar uma lágrima. – Cuide do babaca do meu irmão, sabe que ele não conseguiria sair de uma sacola de plástico sem você. – Annabeth assentiu, o cinza dos olhos brilhando – É mais inteligente do que qualquer um que tenha conhecido, mas se fizer alguma besteira eu volto e puxo seu pé no meio da noite. Serei sua assombração pessoal, Annabeth Chase.
A garota loira riu de nervoso e limpou uma lágrima rebelde.
– Quanto a você, Perseu Jackson – Charlotte tentou soar intimidadora, mas desistiu assim que ouvir a voz rouca e doentia sair – Torture até a morte aquele inglês de nariz empinado, começando pelo Castellan, ponha no meu testamento se quiser: “apenas Perseu Daniel Jackson pode terminar meu trabalho, de todas as formas, aliás.” – sua mão foi para o pescoço, tirando com um fraco puxão o cordão dourado com uma caveira retratada, me entregando logo em seguida e mantendo sua mão fechada junto a minha. – Faça com que nunca se esqueçam do nome desse navio. E não me olhe assim! – repreendeu – Não me deixe culpada no leito de morte. – ela respirou fundo, tentando recuperar energia o suficiente – Queria ser imortal, mas isso é algo banal ao qual todos querem. E eu não seguirei o plano de terceiros. O que te faz viver para sempre não é nunca morrer, é a sua história – ela piscou para mim e deu o típico sorriso torto – E quem disse que não viverei para sempre?
O aperto de sua mão se afrouxou, soltando o cordão na palma na minha mão, nunca o metal foi tão frio. Os outrora brilhantes olhos verdes, aos quais sempre brilhavam quando sorria ou numa situação de quase suicídio, desfaleceram, se tornando vítreos e difíceis de encarar. Seu peito parou de subir. Os roxos e arranhões causados pela batalha se tornaram mais evidentes na pele cada vez mais fria.
Minha irmã.
– Percy? – Annabeth me chamou, sua voz melodiosa me trazendo de volta à vida real. Fechei as pálpebras da minha irmã e encarei os olhos cinza. Deus, se eu perder ela também...
– Hora de intervir? – perguntei, a garganta seca, as palavras saindo como ácido. Ela estava a ponto de cair em prantos, mas estava aguentando bem – Sabe que não há forma de acabar com isso, a não ser provar que não está morta e voltar para Inglaterra. A questão é: o que irá fazer agora?
Annabeth fungou, olhando em volta. Estava o caos a nossa volta, nossa pequena bolha de paz como uma parte do Céu no Inferno. Navios em chamas, despedaçados; corpos humanos, tanto de civis tanto de piratas, espalhados pelos conveses. A água do mar estava manchada de sangue escarlate.
– Eu... Bem, eu... – Ela olhou para mim, fascinada pelo fato de eu ainda estar vivo. Percebi que fazia o mesmo. O mundo estava desabando, e a única coisa que de fato me importava era que ela ainda estava viva. – Eu não tenho certeza. Não absoluta. Se tiver que voltar, farei o que é me é designado fazer. Combaterei a injustiça com justiça. Ser uma boa líder. Mas...
Ela não precisava continuar. Vamos estar distantes, longe um do outro.
– Faça o que têm que fazer. – digo – Ficará linda nos selos ingleses, aliás.
Annabeth sorriu, e isso fez com que eu tivesse esperanças de novo.
– Prometo que um dia voltarei para você. – disse, se levantando e passando as costas da mão delicadamente no meu rosto – Duvides que as estrelas sejam fogo, mas nunca duvides que te amo.
Então, ela andou até a amurada, com o pensamento de talvez nunca a veria de novo.
P. o. V. Annabeth
Meu coração afundava no meu peito e lágrimas nasciam nos cantos dos meus olhos enquanto procurava permanecer firme, a mandíbula endurecida e a cabeça para cima, andando até a amurada. Antes de pular para o navio inglês, retirei o colete azul com detalhes em ouro, passei a mão pelos cabelos até ficarem longe do meu rosto. Deixei a adaga prendida a coxa e desfivelei a bainha que cruzava meu peito e a deixei cair livremente. Peguei a pistola entre minha calça e minha cintura e a joguei no mar, pulando e aterrissando no convés do Interceptor.
Will Solace limpava calmamente a arma que acabar de usar, colocando novas balas no compartimento sem pressa. Assim que se virou e apontou a arma novamente, fiz questão de que o cano dela encostasse exatamente onde mirava o coração. Ele ficou pálido como folha de papel em segundos, soltando o revolver e deixando-o cair no piso de madeira aos meus pés.
– Ma... Mages... Magest-a-ade... – gaguejou, os olhos castanho escuros arregalados.
– Que foi Will? – debochei, inclinando a cabeça para o lado – Viu um fantasma?
Ele não respondeu.
Senti algo aterrissar desengonçadamente ao meu lado, e pelo canto do olho vi Piper arrumar a saia preta e se posicionar prontamente.
– Não achas que já é hora de acabar com isso? – ela perguntou a Will timidamente.
Will a olhou com desprezo.
– Não cabe a você decidir quando acabar...
– Tem razão. – corto-o – Cabe a mim decidir quando. E eu decido que agora é um ótimo momento para dar meia volta na frota.
– Mas, Majestade...
– Adora falar essa palavra não é? – observei, forçando um bocejo e levando a mão a boca – Estou cansada, Solace. Não tente me enganar, sei que esse navio tem uma janela nos fundos, sei se você irá cumprir minhas ordens diretas ou não. – ele não ousou abrir a boca enquanto falava, e presumi que, como bom oficial, iria fazer exatamente o que eu disser. – Sem mais delongas, rumo à Inglaterra.
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