Closer to the Edge
9 Bem-vindos à Baía Naufrágio
Notas iniciais
Abri meus olhos devagar, os forçando a se acostumar com a claridade do Sol refletida no mar.
Virei para o outro lado, com muito interesse em acordar, nossa. Percebi que estava na grande cama macia, vestida e sem nenhum sinal do Cabeça de Alga. Juntei as sobrancelhas e me sentei na cama. Olhei ao redor, do mesmo jeito de ontem de manhã, a única alma viva naquele recinto era somente eu.
Bufei, conseguindo fazer a proeza de tirar uma mecha de cabelo dos meus olhos, porque eu não estou surpresa?
Eu me levantei um pouco bamba e fui até o banheiro. Olhando no espelho, dava para perceber as marcas roxas no meu pescoço. Aliás, até as minhas pernas estavam assim. Foi quando olhei para baixo que reparei o que estava vestindo: a camisa de botões do Jackson e nada mais.
Bem, pensei pelo menos aquilo tudo não fora um sonho.
Voltei os olhos novamente para o espelho. Uma pequena dor se espalhou no meu peito. Decepção, talvez.
O que você esperava? Ele é o Jackson, incorrigível se lemba?
Cala a boca consciência.
Suspirei novamente. Por mais que odeie admitir, Percy era mesmo incorrigível. Isso não ia mudar. E, infelizmente, eu acho que estou começando a realmente gostar por ele ser assim: incorrigível, rebelde e...bem, eu gosto por simplesmente ser Percy Jackson.
–Bom dia, Sabidinha!
Percy praticamente arrombou a porta, gritando porta adentro, me fazendo dar um pulo tão alto que eu quase me pendurei no lustre. Eu olhei com os olhos totalmente arregalados para ele, minha vontade de matar aquele imbecil não era pouca.
Ele foi se aproximando, com os braços abertos e um sorriso de cegar os olhos.
Enquanto eu parecia uma zumbi, ele era um raio de Sol.
Divino.
– Então, você dor...
Não deixei ele terminar, fui na direção dele e fiz algo que nem eu sabia que tinha força para fazer. O peguei pelo pulso e o joguei por cima do ombro. Percy caiu com um baque surdo no chão e ficou lá, com uma careta de dor misturada com uma perplexidade realmente explicita.
– Acho que você a Thalia não deviam andar juntas, vocês estão começando a ter o mesmo prazer em me torturar.
– Muito engraçado. – revirei os olhos.
Ele se levantou com sorriso torto de volta ao rosto.
– Isso foi porque eu não fiquei aqui até você acordar?
– Não sou tão possessiva assim, Jackson.
– Percy.
– Entenda querido, eu não vou te chamar de Percy quando estou com raiva de você.
– E porque você está com raiva de mim?
– Porque você me assustou, paquiderme.
Ele deu uma risada e me deu um selinho, me abraçando.
– Para um pirata, você está muito romântico. – comentei.
– Ora, querida, eu sou um romântico impagável.
Eu gargalhei. Soltei-me dos seus braços e voltei para frente da pia do banheiro.
– Claro. – eu disse, ainda analisando como eu poderia esconder aquelas marcas. – Até Romeu e Julieta você sabe.
Ele fez uma careta quando eu mencionei isso.
– Lia clássicos forçado. – ele deu de ombros. – Pelo visto, isso deu certo.
Ele deu um sorriso malicioso para mim. Eu apenas revirei os olhos e perguntei:
– Então, gênio. Sabe de algum jeito de esconder essas marcas?
– Não acho que é preciso.
Eu o encarei.
– Percy, algumas deixaram o estágio roxo e foram para o negro.
– E daí? Todo mundo sabe o que aconteceu.
– Você contou para eles?
– E precisa? – ele sorriu. – Você geme um cadinho alto demais, Annabeth. Meio que todo mundo escutou.
– Ah, céus.
Eu me encarei no espelho, colocando os cabelos para trás. Tudo bem. Não é o fim do mundo. Todo mundo iria saber mais cedo ou mais tarde. E eu não me importo o que eles vão achar ou não. Apenas vou levantar a cabeça e não dar à mínima. É o que eu faço. É o que eu sempre faço.
– Mas se está tão preocupada – Percy disse. – a Silena mandou mais algumas roupas e um troço em pó bege.
Santa Silena.
Eu suspirei e peguei o montinho de coisas da mão dele. Percy piscou para mim e foi andando até a porta, antes de sair ele virou para mim e disse:
– Você poderia usar o corpete azul. – ele sorriu. – Deixaria esse pirata muito feliz.
Revirei os olhos com um mínimo sorriso e comecei a me arrumar. As roupas que a Silena me deu eram praticamente as mesmas: calça justa com botas da mesma cor escura, uma blusa de botões toda em renda e o bendito corpete azul, no mesmo modelo do outro. Fiz a mesma coisa que fizera da última vez com o lenço, colocando em volta da cintura, com a adaga logo acima. Silena também colocara brincos de argola grossas de ouro, que eram um pouco pesados, mas eu os coloquei mesmo assim. Ela também colocara uma bainha com uma pistola que fazia o estilo cinta-liga: a mesma que a Lotte usava para prender a arma na coxa. A pó-de-arroz deu um jeito nas malditas marcas, ainda bem. Deixei o cabelo solto e saí da cabine.
***
A Thalia me disse que o nosso destino era a Baía Naufrágio.
Na verdade, era uma pequena ilha com uma floresta que mesmo de dia te dava arrepios. E só para melhorar as coisas ali era o lugar de várias feiticeiras nada amigáveis. Por sorte, íamos a mais pacifica delas, segundo o Leo. Mas, parando para pensar, o Leo também disse que pimenta malagueta não ardia muito.
Charlotte estava falando alto algumas ordens para que todos a ouvissem no convés. Percy estava do lado dela, mais interessado na ilha do que nas regras da irmã, que ele com certeza já ouvira muitas vezes. Beckendorf estava no timão, como sempre, tomando cuidado para não chegar perto da margem de mais e encalhar.
– Olá, Annabeth.
Charlotte apareceu sorridente ao meu lado, ela não me assustara, embora tenha chegado tão silenciosamente que eu nem percebera.
– Eu ia perguntar se você dormiu bem, mas é melhor eu deixar para lá. – ela comentou, tentando não rir, enquanto eu sentia meu rosto esquentar. – Mas, vamos a coisas mais importantes agora: Você vai conosco.
– O quê? Na Baía Naufrágio?
– Isso mesmo.
Eu deveria sentir medo, certo?
Errado. Eu me sentia um tanto quanto confiante depois dos treinos, sabia que poderia me proteger sozinha se caso fosse necessário. E eu sabia que uma ilha com uma floresta negra enfestada de feiticeiras não vai ser a pior coisa que vou enfrentar daqui para frente.
Eu dei de ombros e assenti. Ao longe, a floresta deu em uma praia grande com um navio totalmente negro com um buraco gigantesco no casco encalhado na areia branca.
– Aí está o motivo do porque o nome “Baía Naufrágio”. – ela fez uma careta. – Piratas não são bons em inventar nomes. Isso explica porque meu nome em francês significa “pudim de frutas”.
Eu dei uma risada.
– Ei. Não tem graça.
Mas mesmo assim ela abriu um sorriso, mostrando as covinhas.
Um prisioneiro (percebi pelas correntes) veio até nós e disse algo no ouvido de Charlotte. Ela assentiu para ele e subiu na amurada do navio, se virando para todos na tripulação.
– Então. – ela voltou a falar com o mesmo tom de voz. – Vai ser uma parada rápida. A Thalia a Reyna vão ficar no navio. Junto com Beckendorf. Então nem pensem em fazer gracinhas. Vamos eu, o Percy, o Leo e a Annabeth. Se alguém não voltar, bem... Vocês conhecem as regras.
Todos assentiram. E, com esse belíssimo comentário, ela pulou do navio sem nem ao menos se virar.
***
Percy foi à frente, tirando galhos quebradiços e folhas ensebadas do caminho, logo em seguida vinha Leo com um lampião, porque, mesmo de dia, a floresta era densa demais e bloqueava a luz do Sol.
Maravilha.
Logo atrás dele tinha eu e Charlotte atrás de mim, ela andava tão despreocupada que parecia que estava andando em um jardim totalmente inofensivo.
Não andamos muito, Charlotte disse que as feiticeiras construíam suas casas em lugares da floresta como se tivessem avisando o quanto perigosas eram: quanto mais para dentro da floresta ela morar, mais ela é temperamental.
– Mas se fosse por poder, a gente teria que andar até o fim dessa ilha para achar a Hazel. – Percy comentou. – E ela é legal, só não abusa.
– Me considere avisada. – resmunguei.
A floresta se abriu em uma pequena campina, suficientemente grande apenas para caber o casebre de madeira escura. Não era tão sujo o local, eu percebi, tinha uma horta com algumas ervas desconhecidas e até algumas flores negras nas jardineiras abaixo das janelas.
– Antes de qualquer coisa – Charlotte disse – Algumas coisinhas sobre a Hazel: ela tem 84 anos, é poderosa e o Leo pode acha-la legal...
– Ela é. – interrompeu Leo e Percy em uníssono.
– Claro. Só um pouco assustadora de vez em quando. Ah! E ela tem um irmão. – Charlotte sorriu, como se um pensamento a divertisse. – Annabeth, eu já te falei de um fato interessante...
– Charlotte Rebeca Green.
Percy se virou, com a espada em punho, um único movimento e ele cortava a garganta da irmã. Lotte não se moveu nem um centímetro, apesar de que ela devia estar hesitada ou alguma coisa assim, ela tentava não rir.
– Esquece. – ela disse para mim. – Apenas digamos que a parte de trás de um bêbado nunca tem dono.
– Eu prefiro não saber o que aconteceu. – falei.
– Sábia escolha. – ela sorriu.
Quando Percy finalmente se acalmou e guardou a espada na bainha, nós caminhamos até o casebre. Leo nem bateu na porta e ela fora aberta, deixando a mão dele no ar. Uma garota negra, com olhos extremamente dourados e cabelos cacheados cor de canela estava parada do outro lado da porta. O vestido cor de terra estava sujo com respingos de alguma coisa vermelha, que eu realmente esperava que fosse molho. Mas a faca com o mesmo líquido em sua mão dizia o contrário. Ela aparentava não ter menos de 13 anos.
– A Hazel é avó dela? – murmurei para Leo, mas infelizmente ela ouviu.
Ela virou os olhos dourados para mim, jogou a faca em algum lugar por cima do ombro dela e sorriu amigavelmente.
– Annabeth Chase. – o que me deixou estática na hora. Eu não me lembro de ter me apresentado a ela. – Eu sou a Hazel.
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