Closer to the Edge
38 As Long as We're Together
Notas iniciais
P.o.V Annabeth de novo
Tive que recarregar a arma antes mesmo de sairmos do palácio.
Ninguém pareceu reconhece-me, nem mesmo com uma parte do vestido branco aparecendo. E se me reconheceu, era tarde de mais. Não havia outro jeito de escapar senão cair lutando. Atravessamos o jardim por entre as arvores até alcançar às grades de ferro com mais ou menos cinco metros de altura. Tinha barras de ferro na horizontal em dois lugares, um a meio metro do chão e o outro no topo.
Percy guardou a espada e deu três passos para trás antes de correr para o portão de ferro, se impulsionando para cima com um pulo na primeira barra e segurando a segunda, girando o corpo para fora das grades do palácio e caindo de pé no chão logo em seguida. Ele limpou as mãos uma na outra, como se não fosse nada.
Optei pelo modo tradicional e menos exibicionista, jogando as pernas para o lado de fora assim que cheguei ao topo, caindo logo em seguida. Nenhuma parte do vestido rasgou nas barras afiadas e, considerando o fato que meus sapatos ficaram para trás, a coisa foi bem mais fácil.
Percy assoviou e no minuto seguinte Blackjack estava do seu lado.
– Creio eu que um cavalo negro correndo desvairado pelas ruas seria algo meramente estranho. – comentei enquanto o observava subir com maestria.
– Aqui é Londres, — Percy estendeu uma mão, ao qual eu segurei até conseguir me ajeitar em cima do cavalo – diga-me algo que seria estranho aqui.
Não respondi, mas sorri, e ele entendeu como uma deixa. Coloquei o capuz preto na cabeça e entrelacei minhas mãos na sua cintura enquanto disparávamos pelas ruas londrinas.
Blackjack corria como se pudesse levantar voo, assustando algumas pessoas entre as vielas. O rio Thames se estendia brilhando por nosso percurso, sumindo e reaparecendo em várias ocasiões. A grande maioria da população provavelmente estaria esperando um casamento na porta de Westminster.
Mas, claro, algo tinha que acontecer.
Assim que o centro da cidade já não era mais visto, quando as ruas se rebaixavam em pequenas esquinas, um grupo de guardas desavisados não tardou em pegar armas e correr na nossa cola. A roupa azul os entregava: marinha. O porto estava perto e o fato de estar protegido não era um bom sinal. Conseguimos despistá-los, enquanto eles corriam para o lado contrário, o brilho da água estava cada vez mais perto.
No entanto, quando já se podia ver a entrada feita de pedra, contrariando todas as minhas hipóteses, só havia um único homem ali. Ele andava de um lado para o outro de um elevado de madeira, rodando a espada e assoviando descontraído. O elevado tinha um poste com uma corda na ponta.
Vá até Londres, onde traidores usam cordões de corda injustamente.
Maldita feiticeira.
Desci do cavalo e esgueirei-me por trás da monumental entrada de pedra. Consegui ouvir Blackjack correr para o outro lado e senti a aproximação de Percy. Ele parecia tenso, e pude imaginar o que estava planejando quando o homem parou de assoviar e se virou.
Ele não nos viu, e continuou sua canção e sua caminhada em círculos. Mas pude reconhecer a cabeleira loira e o porte orgulhoso.
Ah, droga.
– Não se precipite. – aviso.
– Ele não pareceu pensar quando atirou na minha irmã. – respondeu ríspido.
– William Solace iria atirar em você, Perseu. Creio eu que, agora, ele não vai tardar em te amarrar e te colocar naquela forca. – sussurro de volta – Aliás, aquela corda parece pronta para receber o seu pescoço.
Percy fez menção de responder, mas foi interrompido com uma risada de escárnio propositalmente alta.
Will estava nos encarando com divertimento no olhar.
– Eu sei que estão aí – ironizou, assoviando com graça – Não tentem se esconder pombinhos! Não irei...
Ele foi interrompido por uma bala em sua perna. Foi algo impulsivo, e quando dei por mim já tinha pegado uma arma da cintura de Percy e atirado certeiro acima do seu joelho. Will segurou bem o grito, lançando uma ofensa para mim.
– Isso são modos de se falar com uma rainha? – perguntei, ganhando um olhar frio.
Solace se apoiou nos joelhos; sua mão já com o líquido vermelho escorrendo pelos dedos. Usando sua espada como alavanca, ele se impulsionou para frente com um berro, a arma brilhante levantada em minha direção. Meu corpo se restabeleceu da momentânea rigidez causada pelo choque tarde de mais, e Solace estava perigosamente perto quando levantei a pistola...
E uma sombra ficou na minha frente, parando o corte de Will. Percy o empurrou para o chão, fazendo-o cair como um saco de batata. O moreno tinha cortes feios à mostra e, com uma olhadela para trás, consegui ver quatro guardas caídos na entrada do porto.
– Eu cuido disso – garantiu, mas com o corte significativo na base do pescoço e sua pele pálida era difícil de acreditar. Quando hesitei, sua voz engrossou. – Annabeth. Agora.
Meu lábio tremia, mas antes que Will se levantasse, segurei a saia do vestido e virei-me.
O porto tinha uma rampa feita de da mesma pedra que toda a construção, dando para o gigantesco píer na margem. Na minha frente, tinha o fim de uma torre que começava já em baixo d’água e mantinha um sino de aviso. Corri na direção do sino, onde a entrada para uma escada interna que terminava no píer se encontrava.
Mas antes mesmo dos meus pés encontrarem o primeiro degrau, ouvi o disparo de uma arma e no instante seguinte uma queimação no lado do meu corpo. A dor latente percorreu o tronco; minha mão foi instantaneamente para o local, segurando o ferimento com firmeza. A bala perfurou minha pele nos flancos, e pude ver que quando saiu levou consigo uma parte de carne. Em instantes metade do vestido branco estava pintada de vermelho.
O mundo pareceu rodar e se tornar translucido. Senti os pés perderem o chão, e o que via era as ondas batendo fortemente nas pedras no fim do penhasco à minha frente. Quando tentei me segurar nas paredes, percebi que elas já não estavam perto, construções da cidade londrina se estendiam ao longe como um borrão.
Meus olhos já se fechavam quando fui acordada por um puxão no braço. Olhei para baixo, para o mesclado de pedras e água cinza, percebendo que estava pendurada há uma distância de, o que? Cinquenta? Cem metros da costa? Voltei meu olhar para cima e vi que Percy conseguiu agarrar uma saliência a cerca de cinco metros do topo e segurava-se ali com uma das mãos, enquanto a outra envolvia meu pulso. No entanto, o céu estava impossível de se encarar de tão cinza, trazendo ventos fortes e frios.
A única coisa que me impedia de cair era Percy, esse idiota inconsequente, e ele mal conseguia se segurar em uma saliência do tamanho de uma prateleira.
– Percy, me solte – soltei um gemido, a dor borrava minha visão de vermelho – Você não pode me levantar, sabe disso.
O rosto dele estava branco com o esforço. Era claro que sabia ser impossível.
– Nunca. – ele apertou mais forte o meu pulso, como uma ênfase.
Seu rosto estava sujo, arranhado e com sangue seco. Os cortes pelo corpo e, principalmente, o profundo perto do ombro, começavam a ficar seriamente feios. O cabelo estava sendo emaranhado, jogado para lá e para cá pelo vento insistente. Mas, quando os reconfortantes e tão familiares olhos verde encontraram os meus, pensei que ele nunca fora tão bonito.
– Vamos ficar juntos. – prometeu – Você não vai escapar de mim. Nunca mais.
Cairá em uma queda tortuosa sem fim.
A profecia, ou seja lá o que quer que tenha sido aquilo, de Rachel estava se concretizando da pior forma possível.
Minhas lágrimas rolaram quando ele se soltou, segurando-me em seus braços enquanto caíamos para a arrebentação. A dor pareceu cessar e a respiração ficou falha, mas não tirei minhas mãos dele.
E então, tudo ficou escuro.
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