Closer to the Edge
15 Apostas.
Notas iniciais
A brisa marítima e o ar noturno batendo em meu rosto quase me fez ficar com sono.
Estava no telhado do navio (se é que posso chamar assim), assim das cabines, deitada sobre uma fina toalha, daquelas usadas em piqueniques. Meus cabelos faziam um tipo de travesseiro loiro. As estrelas brilhavam e faziam do mar um espelho e, por mais que eu veja isso, sempre vou achar bem agradável.
– Achei – Percy disse, subindo como um gato, com uma garrafa de vinho em uma mão e duas taças de prata em outra – 1650. Toscana. Roubei da Silena que roubou de uma rainha na qual esqueci o nome. – ele deu de ombros, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Mas era o Percy, poucas coisas são esquisitas quanto a ele. – Espero que goste.
Ele abriu a garrafa e deixou o líquido vermelho-escuro cair nas taças, o cheiro forte de uva vinha até onde eu estava. Percy colocou a garrafa no chão (ou teto, sei lá) e sentou-se ao meu lado, estendo uma das taças para mim, bebendo um pouco da sua.
Eu recusei com a cabeça.
– Desculpe, eu não bebo.
Ele engasgou, mas depois de tossir umas três vezes ele voltou ao normal.
– Você já foi a alguma festa? – ele perguntou.
– Claro, mais do que você imagina.
– Já bebeu?
– Já disse que não.
– Já usou algum tipo de droga?
Revirei os olhos e me sentei.
– Não.
– Já foi para cama com desconhecidos? – ele sorriu – Ou desconhecidas?
– Perseu, claro que não!
Ele olhou para mim sem entender.
– Então porque caralhos você ia a essas festas?
Eu gargalhei e peguei a bendita taça, balançando a cabeça. Bebi um pouco, mas me afastei quase que imediatamente. Era doce, muito doce. Como suco de uva com dois pacotes de açúcar. Era um pouco amargo também, mas provavelmente era culpa do álcool.
– Então, o que achou? – Percy perguntou.
– Suco de uva com um trilhão de cubos de açúcar e a reserva de álcool de toda Inglaterra.
Percy sorriu e virou toda a taça na boca, assim, de uma só vez.
Fiquei abismada em como ele conseguia fazer isso sem se engasgar ou coisa do tipo.
Prática.
– Isso porque você não experimentou rum – ele sorriu um pouco sonhador – e tequila, uísque, conhaque, cerveja...
Dei uma tapa do braço dele, Percy apenas riu.
– Você está me levando para o caminho errado.
– E desde quando eu quis que a senhorita fosse recatada?
Eu o olhei.
– Então você quer que eu seja uma vadiazinha?
Ele assoviou.
– Uma taça, uma única taça, e o seu vocabulário decaiu. Que feio, garota.
Dei um beliscão em seu antebraço, forte o suficiente para fazer sua expressão mudar em uma careta de dor.
– Jackson. Responde. Agora.
– Que garota autoritária. – ele balançou a cabeça, murmurando “Tsc, Tsc. Que feio, garota.”
Voltei os olhos para cima e sussurrei um “dai-me paciência”, antes de dar outro beliscão em seu braço, dessa vez mais forte.
– Ai. Tá. – Percy disse, acariciando o lugar onde eu estapeei e belisquei – Bem, prefiro você com alguma rebeldia a sendo a princesinha de sempre. Aquela tosca.
– Ei! Aquela tosca é a garota que você dorme.
– Não, aquela tosca é a garota que dormia em um palácio em Londres.
– Tanto faz, besta.
Percy revirou os olhos e deslizou para perto de mim, junto com a garrafa de vinho.
– Você é um bêbado, Cabeça de Alga.
– Sei disso – ele falou, sem nenhum remorso na voz, enquanto colocava mais vinho na taça – Mas, sabe, “cabeça de alga” não é o melhor apelido do mundo...
– Você fala como se “Sabidinha” fosse a coisa mais linda do mundo. – comentei, mas ele continuou como se não tivesse me ouvido:
– Mas eu acho que a Thals e a Lotte podiam adotar um desses.
Estreitei os olhos e juntei as sobrancelhas.
– Sério? Por quê?
– Porque é melhor que Senhor Supremo do Banheiro.
Eu nem ao menos tentei segurar, gargalhei até não poder mais, quase rolando no chão e só parei quando minha barriga começou a doer. Ele tinha ficado bem rubro e um pouco desconfortável, que fofo.
– Senhor Supremo do Banheiro? — perguntei, ainda entre risadas.
– É. – ele respondeu um pouco constrangido. – Espere, deixe-me lembrar porque mesmo eu te contei isso.
– Porque sim. – pousei a perna por cima das dele e apoiei meu queixo em seu peito. – Agora desembuche.
– História engraçada. Para começar a noite.
– Bem, se é assim – estendi a taça – Pode encher.
– Bêbada. – Percy comentou enquanto fazia algo para agradar aos deuses e colocava vinho em minha taça.
– Sua culpa, querido. Anda, fala.
– Hm, bem, tá. – ele estreitou os olhos, como se tivesse que se lembrar do ocorrido – Eu devia ter, o que?, do... ze? É, doze. Era minha primeira “reunião de família” – ele fez aspas com as mãos – e a Thalia me apresentava todo mundo, porque, é sério, minha família é gigante. Até que uma garota gigantesca chegou e perguntou se eu era novato, aí o idiota aqui disse que sim. Ela me pegou pelo pescoço e me levou para o banheiro, dizendo que ia me mostrar a “iniciação para novatos”. Eu sabia o que ela ia fazer, e eu, de jeito nenhum, ia ter meu lindo rosto em uma privada. Aí, no último segundo, eu dei um jeito com os canos e a água jorrou na cara dela. Ela ainda me ameaça de morte sempre que a gente se encontra, mas eu sei que a Cara de Javali me ama.
– Uma garota quase colocou a cabeça do todo poderoso Perseu Jackson em um vaso sanitário? – minha voz saiu com um sarcasmo a mais. – Tenho que conhecer essa garota.
– Ah, não! Você e a Clarisse podem fazer minha vida um inferno.
– É essa a intenção. – sorri, bebendo mais um gole e acabando com o resto do navio – Então, ela ainda te ama?
– Modo de falar. – Percy deu de ombros – Ela está com um cara gente boa, mas eu tenho pena da coitada que pensar em colocar as mãos nele.
– Claro. O único que pode acabar com ela é o Senhor Supremo do Banheiro, a menos que ele queira colocar as mãos nesse “cara gente boa”.
– Uma loira como você do meu lado e você ainda pensa que eu tenho olhos para qualquer um?
– O.k., Cabeça de Alga não me faça ficar vermelha. – embora não seja de muita ajuda, já sentia minhas bochechas corarem. – Agora pare com esse sorrisinho idiota e me beija.
– Você que manda.
Então ele selou seus lábios nos meus, fazendo com que aquela sensação calorosa invadisse meu corpo novamente. Sua boca era uma mistura do já natural hálito de menta com o de uva, mas era agradável e o tornava ainda mais viciante.
Sentei em seu colo e entrelacei minhas pernas em sua cintura, brincando com seu cabelo negro e o puxando para mais perto.
Quando o ar faltou e nos separamos, um sorriso bobo e involuntário brotou sem querer em meus lábios.
– Ei. – Percy disse, mais para si mesmo do que para mim, como se tivesse se lembrado de algo. Eu saí de seu colo e me sentei ao seu lado, enquanto ele procurava algo nos bolsos. Quando achou, um colar dourado puxado para o bronze apareceu em suas mãos. – Considere um presentinho para você.
O pingente era uma coisa relativamente simples, com uma pedra azul-marinho no centro, mas não era gigantesca como nos colares que a minha madrasta costumava usar. Rodeando a frágil pedra, havia alguns entalhes no ouro, que parecia imitar algumas pequenas flores, tulipas, talvez.
– É... lindo. – eu o olhei. – Simples, mas lindo.
– Que bom que gostou. – ele sorriu – Era a única coisa que minha mãe tinha de valor, e eu não tenho muitas pessoas no mundo a quem confiar. E, se eu tivesse que escolher uma pessoa para colocar minha cabeça no lugar, esse alguém seria você. Vem, deixa que eu coloco.
Eu me virei de costas para ele, enquanto sentia o colar subindo pelo meu colo. Coloquei os cabelos para frente e sentia as mãos de Percy fechando o colar em minha nuca, sua respiração fazendo com que eu me arrepiasse por inteira.
– Então, sua mãe. –disse, me deitando, logo depois ele fez o mesmo – Qual era o nome dela?
– Sally, Sally Jackson. – ele falou, mas sua voz não soara embargada, mais parecia que ele queria falar sobre isso – Você e ela se dariam bem. Ela faria biscoitos azuis e ficaria com um sorriso de orgulho o tempo inteiro.
– Justo. Ela era sua mãe.
– É pode ser. Mas acho que uma coisa não é justa.
– O quê? – perguntei, apoiando o cotovelo na madeira do teto e o queixo na mão.
– Esse negócio do “é” virar “era”.
– A morte nem sempre é justa.
– Nem sempre? — ele perguntou, levantando a sobrancelha.
– Bem, se Luke estiver morto...
– Ele está. — Percy disse, convencido disto.
– Não tenho tanta certeza. — murmurei — Eu não sei... Mas parece que eu sinto que ele não está morto.
– Hm. — ele murmurou se distanciando um pouco de mim — Você sente, certo. Claro, até porque – Percy disse, a descrença em sua voz era apalpável – Explodimos um navio com ele dentro, muito longe da costa, em uma rota não muito usada por nenhum império. Querido, se tu tá vivo...
Revirei os olhos e me sentei, o encarando.
– Eu sei que parece loucura...
– Mas é. – ele comentou, mas eu continuei:
– Mas eu sei que ele está vivo. Eu sei que ele provavelmente está montando a maior vingança do mundo. – estreitei os olhos – O.k., nem tanto. Mas você me entendeu.
– Annabeth. Ou você está doente ou você é doente.
– Eu vou fingir que não ouvi isso. – murmurei – Mas e se eu tivesse naquele navio? Você ia acreditar que eu estava morta?
– Está me dizendo que o que eu sinto por você é o mesmo que você sente por Luke? – ele se levantou e eu fiz o mesmo. Se eu já me acho baixinha perto dele, eu ia me achar mais.
– Argh. – fiz uma careta de nojo – Não. E não desvie do assunto. – bufei – Quer saber? Uma aposta.
Ele me olhou, um sorriso torto brotando em seus lábios.
– Agora sim, estamos falando a mesma língua.
– Trinta moedas de ouro que ele está vivo.
– O dobro que ele está morto.
Dei de ombros e sorri do mesmo jeito que ele, em sinal de desafio.
– Já que você insiste. – estiquei a mão e ele a apertou – Apenas lembrando que você vai ficar me devendo 60.
Ele deu de ombros e me pegou pela cintura, nossos corpos se chocando e nossas respirações se confundido. Quando ele finalmente me beijou, suas mãos estavam nas minhas coxas, me levantando e eu as entrelacei em sua cintura. Eu arranhava suas costas da base até a nuca, retirando rapidamente sua blusa. Ele mordeu meu lábio inferior quando o ar falou mais alto.
– Vamos ver quem vai ficar me devendo, Chase.
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