Closer
6 6 - O quinto ensaio: Intoxicated.
Notas iniciais
Yuri fez questão de não chegar cedo dessa vez. Otabek sempre se virava sozinho e o deixava sentado, esperando. Pois ele esperaria dessa vez. Era a última vez que eles fariam aquele tipo de coisa, podia se dar ao direito de fazer as regras para variar.
Otabek estranhou o silêncio, o mau humor, o ar emburrado e a postura passivo-agressiva de Yuri, mas não sabia muito o que fazer. Lembrava bem da música que tinha escolhido e também do que havia sido suas últimas conversas secas e curtas com o bailarino. Não podia culpá-lo por estar chateado consigo, qualquer um estaria. Mas não achava brechas para fazer algo, fosse se desculpar ou simplesmente conversar. Deixou tudo pronto e disse:
"É tudo por sua conta hoje. Tudo que eu tenho para você é a música. Você está pronto?"
"Ótimo. Dê logo o play nessa merda e me deixe ouvir essa música de uma vez." Yuri retrucou, seco, nem se dignando a ficar no centro da sala, como fez das outras vezes. "Vamos acabar logo com essa porra."
Otabek botou o dedo em cima do play sem pressioná-lo e simplesmente rezou pelo melhor. Ele sabia que seria um homem morto de qualquer forma, apenas queria saber os meios de sua morte pelas mãos de Yuri. Pela primeira vez em muito tempo não estava inclinado a usar a câmera, mas não faria isso por ser antiprofissional. Apertou o play, ficou com a máquina fotográfica de prontidão, esperando.
Os primeiros acordes da música preencheram a sala e Yuri franziu o cenho, crispando os lábios. Cerrou o punho, sentindo a raiva fluir lentamente pelo seu sangue como se fosse ferro derretido.
"Filho da puta!" Foi o que Otabek leu nos lábios de Yuri.
I’m begging you not to, but you always make me so breathless. How can I resist you when you leave my heart being undressed?
[Eu imploro para que não o faça, mas você sempre me deixa sem ar. Como eu posso resistir a você quando você deixa meu coração desnudo?]
'Que porra de mensagem é essa, seu fodido de merda? Eu quero te matar, seu filho da puta. Ou foder com você até que morra de exaustão. Por que você faz isso comigo, seu pedaço de merda?' Yuri se perguntava, perdido na torrente de pensamentos que variavam entre o desejo sexual frustrado e o ódio puro e fervente em seu ser.
Otabek batia as fotos, mas seu foco estava longe da máquina. Olhava para Yuri com atenção, vendo aquele corpo quase imóvel casualmente encostado na parede. O único sinal que conseguia ler de fato era o olhar cheio de ódio que era capaz de queimar seu corpo. Não podia fazer muita coisa se a música estava escolhida há tanto tempo, mas o que ele menos esperava era que ela fosse ser tão... Perfeita para o que os dois passavam no momento e para expressar o que sentia.
Quando a música acabou, Yuri respirou fundo para simplesmente não virar a mão na cara daquele homem. Calmo e controlado, como bom bailarino que era, ele apenas disse:
"Tudo hoje é por minha conta? Luz, maquiagem, figurino, concepção... Tudo?"
"Sim." Otabek respondeu, sério.
"Então fora daqui, infeliz." Yuri sibilou, incapaz de esconder sua frustração. Não queria Otabek olhando seu processo de construção e o deixando desconfortável. "Quando tudo estiver pronto, eu aviso."
"Mas Yuri..." Otabek começou, chocado.
"Fora, porra!" Yuri retrucou de forma baixa e furiosa. "Se você não sair agora, eu vou embora e que se foda essa merda."
Otabek se conformou. Saiu pela porta e a ouviu sendo batida assim que ele botou os dois pés para fora. O barulho da tranca o deixou perturbado. Botou a mão no bolso e viu que o celular ficou na sala. Sabia que não deveria bater naquela porta se tivesse amor à vida, mas ainda estava no começo, então ainda tinha tempo.
Yuri suspirou assim que fechou a porta e sorriu de satisfação quando a viu trancada. Buscou organizar os pensamentos enquanto definia o que fazer naquela situação. Foi quando uma batida interrompeu seu fluxo de pensamentos.
"Yuri? Yuri! Por favor, eu esqueci meu celular aí dentro. Preciso dele para trabalhar." O moreno pediu de forma séria e educada, mas o tom de voz era suave e parecia pedir encarecidamente.
O bailarino odiou ouvir a palavra trabalho. Aquele homem vivia para aquilo, ao que parecia. Foi esse o motivo pelo qual não se acertaram na semana anterior e nem se falaram direito. Queria deixá-lo sem trabalhar, mas tinha uma fraqueza quando aquele homem parecia implorar por algo, como se sua vida dependesse daquilo, ele notou, sorrindo levemente. E isso o enfureceu. Queria odiá-lo, mas não conseguia. Pegou o celular que estava em cima da mesa, abriu a porta.
"Yuri, eu..." Otabek tentou falar quando o bailarino abriu a porta, mas foi interrompido quando viu seu olhar irado e a mão dele enfiando o celular no seu peito, batendo-a logo em seguida.
"Obrigado." Ele disse alto o suficiente para se fazer ouvir, enquanto sorria e se recolhia à sua insignificância.
Yuri sorriu ao ouvir aquele agradecimento com aquele sotaque tão fofo e aquele tom suave que indicava que ele sorria. Começou a dar leves batidas no próprio rosto para acordar. Estava amolecendo e se derretendo por aquele de quem queria se vingar.
"Puta merda! Maldito seja você, Otabek Altin." O bailarino resmungou, recuperando o juízo.
Sozinho, abaixou o volume do aparelho de som o suficiente para que só ele ouvisse, selecionou a música e deu play. Agora que ouvia a música de novo, começava a se inspirar. Intoxicated não era sensual como Sobre amor: Eros. Ela era sexual, crua e, mesmo sofisticada, mexia com seus instintos mais primitivos. Se Otabek queria que ele dançasse aquela música, tinha algo parecido com aquilo em mente. Lembrou de quando o conheceu e pensou que ele fosse um pervertido. Agora tinha certeza que estava certo sobre sua intuição. Mas queria aquele pervertido em sua cama, sobre si enquanto gemia o nome dele e o fazia dar-lhe mais e mais prazer naquela noite. Seu corpo todo se arrepiou só de pensar na perspectiva.
"Tonight you’re all mine, Otabek. Se ele quer trabalhar, ele não vai conseguir, porque eu não vou deixar." Yuri decidiu, determinado.
Otabek usava o celular para jogar. Não conseguia trabalhar, prestar atenção em redes sociais, ler emails e nem nada que fosse importante, então jogava Mario Kart no emulador do celular, mas a pista simplesmente não fazia sentido e até o mais lerdo dos jogadores automáticos passava dele. Tudo o que ele pensava era Yuri. Foi quando recebeu uma mensagem em seu celular:
"Quando me ouvir destrancar a porta, conte lentamente em voz alta até trinta e entre. Quando estiver com seus equipamentos prontos, dê o play na música. Estou pronto para você."
"Estou pronto para você." Otabek leu em voz alta, sentindo o coração acelerar descontroladamente.
O celular apitou de novo e o moreno leu:
"Ps: Eu já liguei suas câmeras para filmar. Eu quero você de frente para cadeira e, por consequência, para o espelho. Não me questione e não fale comigo sob hipótese nenhuma até eu falar com você. Se você falar comigo, eu vou embora, entendeu?"
Otabek simplesmente mandou um emoticon de polegar para cima, travou a tela do celular, guardando-a no bolso e se levantou, ligando a câmera no processo. Esperou, ansioso, a porta destrancar. Quando o clique se fez ouvir, o fotógrafo começou a contar:
"Um... Dois... Três..." E o fazia de forma tão lenta que perdeu a paciência consigo mesmo.
Yuri ouvia a contagem atrás da porta, sorrindo com malícia ao notar que ele acelerou ligeiramente. Era hora do show. Ele se aproximou da cadeira que posicionou no centro da sala, respirou fundo de forma a expulsar a tensão de si, deixando o corpo de prontidão.
Otabek entrou na sala e ficou chocado com o clima burlesco que encontrou. Yuri tinha feito um milagre com a iluminação, deixando a sala em tons de azul e um rosa escuro, com um suave foco de luz branca em si, que casavam com a pele e o cabelo dele. O bailarino estava vestido com uma blusa preta justa de algodão e mangas longas e uma calça colada de malha também preta que destacava as pernas e a bunda dura, redonda e arrebitada do loiro. O cabelo estava preso em um coque alto. O ambiente cheirava ao perfume floral de Yuri que não falhava em enlouquecê-lo. Se todo aquele ambiente e os estímulos visuais já o deixavam fascinados, o que esperar da dança?
"Ua..." Ele sussurrou, interrompendo-se ao colocar a mão na boca. Não podia correr o risco de perder o que Yuri lhe prometia por simplesmente estar embasbacado demais com sua presença.
Verificou as câmeras que usaria pra filmar e ajustou sua máquina fotográfica. Estava tudo pronto, mas deu uma última olhada no bailarino, que estava tão bonito e sedutor. Era uma visão e tanto a pose do bailarino ao lado direito da cadeira, a mão esquerda tocando delicadamente no estrado enquanto a direita estava do lado do corpo. Os olhos estavam fechados, os lábios, neutros e o rosto relaxado. Com tudo pronto, Otabek falou as palavras mágicas de sempre:
"Música em três, dois, um..." E deu o play por controle remoto, pronto para tudo.
Os primeiros acordes da música se fizeram ouvir e o moreno esperou. Yuri lentamente levantou a mão direita, passando por sua coxa e tronco até chegar no rosto com carícia suave com os dedos pela bochecha. Sua face se virou para a direção do fotógrafo e seus olhos se abriram, encarando-o.
Os olhos verde-azulados se revelaram para Otabek e as únicas palavras que lhe ocorriam para aquele momento eram sexy e selvagem. A câmera abaixou-se sem que o fotógrafo notasse, ficando na altura do peito, por mais que o dedo do botão de disparo trabalhasse de forma tão automática quanto o bater do seu coração, que agora estava acelerado e forte, quase doendo. Via a carícia se arrastar de forma vagarosa da bochecha para a nuca até chegar no coque, que foi desfeito, revelando uma massa de cabelos louros e indomáveis como o próprio dono. O bailarino sentou na cadeira, esticando as pernas, enquanto a mão que estava no estrado desceu e passeou pela coxa, subindo para o abdômen e levando a blusa junto, revelando a pele alva e voltando, até chegar na intimidade, enquanto a outra mão passou pelo ombro e chegou até o peito. Enquanto a mulher gemia nos autofalantes, o russo mexia o quadril sensualmente, com a boca entreaberta e o olhar lânguido.
Otabek sentiu que estava ficando vivo no meio das pernas e ficou chocado com o próprio desejo se manifestar tão rápido. Viu Yuri sentar na cadeira, ereto, e passou a perna esquerda pelo estrado da cadeira, abraçando-a com os membros inferiores e deitando-se. O braço direito corria por aquele corpo novamente, fazendo o fotógrafo desejar que fosse suas mãos tocando aquela pele e brincando com aquela blusa. O bailarino voltou à posição normal, ficando de costas para o cazaque, as pernas bem abertas e a bunda arrebitada.
O russo tirava a blusa sem qualquer pressa, analisando as reações do moreno pelo espelho. Ele estava vidrado, enfeitiçado e o via com os dois olhos bem abertos, sem uma câmera na frente. Era uma vitória enorme, apesar do dedo ainda trabalhar no disparo da máquina. Jogou a blusa para o lado e virou-se de forma morosa, de acordo com a música, olhando sua presa por cima do ombro e dublou tal qual a música dizia:
"You’re all mine. You’re all mine."
Altin viu Yuri tirar a blusa, lançando-a para longe, olhá-lo por cima do ombro daquele jeito que o excitava tanto e leu em seus lábios levemente rosados o que ele dizia: 'Você é todo meu. Todo meu.' e se pegou respondendo sem voz, como se estivesse hipnotizado:
"Todo seu, Yura."
O bailarino apoiou os pés no chão, inclinou-se para frente e se levantou, empinando a bunda para o fotógrafo e balançando-a, com as pernas retas, de um lado para outro por duas vezes. Ele agachou e as mãos tocaram os calcanhares e foram subindo pelas panturrilhas, coxas e nádegas, brincando com o cós da calça e mostrando-lhe partes de pele de forma provocante, enquanto via que o moreno salivava e engolia para não babar.
Yuri ficou de pé, tocando o estrado da cadeira com o mesmo desejo em que tocaria aquele homem para quem dançava, enquanto circulava o objeto de forma lânguida e sensual, parando do lado esquerdo da cadeira e rebolando até agachar e começar a quicar, tirando a calça no processo. Levantou, abaixando a roupa até a metade das coxas e sentou na cadeira, ficando de lado para Otabek, esticando as pernas de forma elegante e removendo de vez a peça, atirando-a ao fotógrafo.
Otabek sentiu a ereção começar a doer contra a calça quando o rapaz tirou a malha preta e a jogou em si e estava prestes a implorar por alívio quando o bailarino começou a brincar com o cós da cueca boxer preta que vestia. Não acreditava que ele iria tirá-la e quando os primeiros pêlos louros começaram a aparecer, o bailarino soltou o elástico da cueca. O cazaque olhou o russo nos olhos, apenas para vê-lo piscando, um olhar travesso e o indicador balançando charmosamente e indicando que não tiraria a cueca para ele. Não culpava Yuri, pois sabia que estava recebendo muito mais do que merecia. Mas se sentia compelido a conquistar mais do bailarino russo.
Altin estava enfeitiçado, vendo Yuri se posicionar com a cadeira entre as pernas com um espaço razoável entre os quadris e a base, como se tivesse alguém sentado ali. Com os cabelos louros e rebeldes caindo pelas costas, o russo rebolava o quadril em movimentos circulares e alternava em vai-e-vem como se estivesse se esfregando no colo de alguém, fazendo sua ereção pedir mais e... Era impressão dele ou a cueca tinha acabado de ficar levemente úmida de excitação?
Yuri trocou de posição na cadeira, ficando de frente para Otabek, rebolando e passando a mão na própria ereção enquanto acariciava os lábios com o indicador, mas foi quando o louro começou a lamber e chupar o dedo com aquele olhar brilhante e sensual que o moreno quase perdeu o controle. Queria substituir aquele dedo por algo maior e mais encorpado que também implorava por alívio tanto quanto o membro que o bailarino tinha entre as pernas. Verdade fosse dita, Otabek queria dar não só alívio ao rapaz, mas também muito prazer.
O auge da música acabou e a melodia ficou mais lenta, encaminhando-se para o fim. Yuri sentou na beira da cadeira, de frente para Altin, esticando-se em uma pose sensual que evidenciava as coxas, enquanto o rosto tinha a expressão de quem tinha acabado de ter um orgasmo, apesar do membro ereto se manifestar contra a roupa íntima de forma tentadora para o fotógrafo.
Otabek não soube o que fazer quando a dança acabou. Se desse vazão aos seus instintos, iria atacar Yuri feito um animal e poderia acabar machucando o garoto. Não queria aquilo. Yuri Plisetsky merecia mais.
O bailarino desfez a pose e o ar sedutor, fazendo força para ignorar a ereção dolorida que implorava por atenção, olhando para Otabek e notando que tinha algo errado. A ereção que ele tinha em mente para o cazaque estava ali, apertada na calça e parecendo interessante e atraente. Mas sua expressão o fazia parecer estar com dor e infeliz. Levantou-se e se aproximou do rapaz, preocupado. Abriu a mão para tocá-lo, mas o moreno se encolheu.
"Beka?" O loiro perguntou, consternado.
"Você acabou?" Otabek perguntou em um sussurro rouco, nervoso pela possibilidade de perder o controle, entregando sua câmera ao bailarino.
"Acabei." Yuri respondeu, com a voz baixa e tensa.
"Ótimo. Eu... Eu vou ali." O moreno disse, apontando para o vestiário e saindo do local com alguma rapidez.
O bailarino ficou preocupado, questionando-se se não tinha passado dos limites e perguntou:
"Você está bem, Beka?"
"Eu tive um dia duro." Foi a resposta que o russo ouviu ao longe.
Yuri riu do trocadilho não intencional do rapaz e abraçou a máquina de fotografia como se segurasse algo precioso ou mesmo fizesse isso com o próprio fotojornalista. Olhou ao redor e viu que as câmeras continuavam filmando e foi pará-las uma a uma. No fim das contas, talvez tivesse estragado tudo entre eles, mas poderia lidar com sua derrota por ter arriscado demais. Recolheu as roupas espalhadas pelo estúdio e começou a guardar o equipamento do fotógrafo. Depois de vê-lo fazer isso tantas vezes, era capaz de reproduzir o ato sem incidentes. Eram seis câmeras lhe filmando e captando sua dança. Imaginava o que o rapaz faria na edição dos vídeos e se pegou querendo ver a arte do outro homem, mesmo que não gostasse de assistir a si mesmo. Otabek estava demorando. Foi atrás do outro homem para ver se estava tudo bem.
Otabek entrou no vestiário, tirou as roupas sem muito cuidado e se enfiou em um dos boxes para tomar um banho. Precisava daquilo para recobrar o juízo. Agora Yuri estava seguro, longe dele e de sua selvageria mal-controlada, mas sua ereção não baixava por nada desse mundo. Fechava os olhos para levar chuveirada gelada no rosto e só lembrava de Yuri dançando para si, sensual, selvagem, mexendo com seus instintos mais baixos e seu lado animal, deixando-o quase fora de controle. O garoto estava seguro e inteiro longe dele. Com parte da culpa aliviada, Otabek se permitiu tocar a ereção livremente e com vontade. Queria acabar com aquilo logo de uma vez, apreciando todo o prazer que aquele pequeno gesto de autoindulgência podia lhe fornecer. Não precisava de muito esforço quando suas memórias eram tão efetivas.
"Yura..." O moreno deixou escapar, gemendo gravemente e deixando sua mão agir, livre, imaginando o garoto rebolando no seu colo e na sua ereção enquanto acariciava a si mesmo de forma ritmada e constante, como se fosse o quadril do louro.
O orgasmo chegou sem demora e ele se sentiu aliviado, lavando-se em água quente e se recuperando.
"Beka?" Yuri chamou, deixando o cazaque nervoso.
Há quanto tempo ele estaria ali? Teria ouvido o que aconteceu? Respirou fundo e se acalmou. Quando estava prestes a tentar dizer algo, o garoto complementou.
"Eu vi que você não trouxe nada para tomar banho, então eu trouxe minha toalha e meus produtos de banho. Achei que iria querer ficar limpo e cheiroso depois de um dia duro."
O rapaz pegou por cima da porta do box as coisas oferecidas, incapaz de dizer uma palavra sem denunciar seu estado. Mas ele sorriu, grato e satisfeito, pois ficaria cheirando a Yuri e isso seria gostoso.
Yuri entregou a toalha e a bolsinha de plástico com xampú, condicionador e sabão líquido para Otabek e saiu sem dizer nada, apenas fazendo barulho o suficiente para mostrar que se afastava e dava a privacidade merecida do moreno.
Ele já tinha ouvido o suficiente, embora não tentasse criar tantas expectativas. Mas das duas possibilidades, apenas uma era possível: Yuri ainda tinha chance ou tinha estragado tudo a ponto da mão do fotógrafo ser melhor do que o corpo do russo. E teria que descobrir qual das duas era real.
Otabek saiu do banho e se enrolou na toalha. Sempre trazia consigo uma muda de roupas por precaução, mas na pressa acabou nem pegando. O bailarino viu o fotógrafo sem camisa pela primeira vez em muito tempo. Se na primeira vez que o viu ele já era um pedaço de mau caminho, agora ele era o mau caminho inteiro com aqueles pingos de água escorrendo pelo peitoral definido e a toalha mal amarrada. Em uma prece interna fervorosa, o russo implorou aos céus para aquela toalha cair. Mas a paciência era um atributo essencial para um bom bailarino, então ele simplesmente entrou pelo banheiro, tirou a boxer preta e iniciou seu banho, permitindo-se tomar uma boa chuveirada de água morna, sentindo os músculos relaxarem, sentindo suas tensões indo embora e o cansaço amainando.
Ouviu barulho de alguém se aproximando e ignorou. Aquele era seu momento sagrado. Quando se virou, achou a bolsinha plástica pendurada e a toalha. Não estava pegando fogo como Altin, mas seu corpo ainda estava em brasa de toda aquela jornada que era seduzir o fotógrafo que tanto desejava para si. Lavou os cabelos com calma, passando xampú e depois o condicionador. Enquanto esperava este agir, lavava o corpo com sabonete líquido. Era o segundo banho caprichado que tomava no dia. Mesmo estando com ódio de Otabek, tinha se preparado para caso sua investida desse certo e ele fosse parar na sua cama. Esperava, do fundo do coração, que não fosse tempo perdido.
Quando saiu do banheiro, devidamente arrumado, seu coração doeu. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, mas não tornava as coisas melhores. O fato era que odiava estar sozinho naquela sala vazia depois de revelar sua alma para o Otabek de um jeito que ninguém jamais mereceu ver. E a dor piorava ao pensar que estava tudo acabado. Não teria próxima vez que dançaria para o fotógrafo. Provavelmente não teria nem uma próxima vez que encontraria Otabek, verdade fosse dita. Pegou as coisas e saiu, perguntando-se se deveria pedir um táxi ou um Uber para voltar para casa já que era um tanto tarde. A noite estava bonita, mas caminhar estava fora de cogitação. Ouviu uma buzina não familiar e se virou. Estava sozinho na rua, só podia ser com ele.
"Posso te levar para casa?" Otabek perguntou, já dentro do carro, parecendo neutro. "Para sua casa, digo. Carona."
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