Closer
2 2 - O primeiro ensaio
Notas iniciais
"O que você está fazendo aqui a essa hora?" Otabek perguntou, algo entre o mal humorado e o sonolento.
O Yuri nem se deu ao trabalho de se justificar. Pegou o celular e mostrou a mensagem com o endereço e o horário: 5:30.
"Também não me alegra estar aqui tão cedo na merda da madrugada de um domingo, Otabek Altin, quando eu poderia estar dormindo e apreciando meu dia de folga." O louro reclamou.
"Desculpa." Otabek disse, entregando o celular de volta para o bailarino. "Eu deveria ter escrito 15:30."
Depois de passar bons minutos memorizando os atributos físicos chamativos do rapaz foi que Yuri reparou em seu rosto. Ele parecia cansado e com olheiras profundas ao redor dos seus olhos:
"Cara, você tá bem? Eu posso voltar mais tarde." O mais novo disse, discretamente consternado.
"Eu tô bem. Só preciso dormir um pouco. Tinha praticamente acabado de deitar quando você chegou." Otabek confessou, coçando a cabeça.
'Ele é mais falante quando está com sono.' Yuri avaliou e não achou ruim. A voz dele era bonita.
"Vai dormir, cara. Parece que você tá 24 horas no ar." Ele reafirmou.
"É tão óbvio assim? Eu precisava terminar um projeto de prazo apertado." Otabek riu. "Entra aí. Eu realmente preciso dormir, mas se você não tiver nada para fazer, pode ficar aqui e esperar."
"Tem certeza?" O bailarino perguntou.
O fotógrafo simplesmente deu passagem a Yuri, que viu um apartamento grande e espaçoso, com poucos móveis. O visitante os definiu como confortáveis, novos e sóbrios, já que naquele local as coisas eram ou pretas, ou de ferro ou de madeira, embora fosse tudo muito bonito e de bom gosto. Mas o grande chamariz foi a TV de 60 polegadas, o sistema de som multimídia e diversos consoles de video-game. Sua boca salivou perante a perspectiva de passar sua manhã de folga jogando.
"Só tira os sapatos antes de entrar." O moreno pediu, virando-se para ligar os aparelhos.
Yuri corou ao notar que seus olhos corriam pelas costas daquele homem. Os ombros largos, os braços fortes, a cintura fina, as pernas bem modeladas e as nádegas redondinhas e firmes, boas para apertar. O corpo daquele homem batia de frente com o de muitos bailarinos que ele já vira passar na sua frente em seus vinte anos de vida. Não estava morto para não observar o quanto Otabek era bonito e, verdade fosse dita, aquele homem o fazia sentir até bem vivo.
Otabek lhe mostrava como lidar com o funcionamento dos aparelhos, enquanto Yuri tirava os sapatos, o casaco e jogava a mochila em cima do sofá, depois lhe mostrou o banheiro e o levou para a cozinha:
"Pegue o que quiser." O anfitrião disse, abrindo o armário e se preparando para fazer café.
Quando Otabek estava prestes a ligar o fogão para esquentar a panela com água, sentiu Yuri pegar na sua mão e dizer, bem próximo de si:
"Onde fica seu quarto?"
"Fim do corredor à direita."
O dançarino o guiou corredor abaixo e Otabek apenas o seguiu, enfeitiçado, o balanço daquelas nádegas musculosas e o cheiro de flores que vinha daquele cabelo louro, longo e solto de forma selvagem. Seu coração batia rápido, nervoso. O que aquele rapaz tinha em mente? A perspectiva de algo menos inocente entre eles fez as intimidades do fotógrafo reagirem. Tentou pensar em algo menos erótico, mas quando deu por si, já estavam no quarto.
Viu Yuri afastar as cobertas e sentar Otabek nela. A mão direita do russo tocou seu peito e o deitou. A penumbra fazia aqueles olhos verde-azulados parecerem mais sedutores. Lutava para não ter uma ereção naquele exato momento em que Yuri estava tão próximo de si. Estava completamente rendido e a mercê que só conseguiu fechar os olhos quando o bailarino se aproximou de seu rosto, os lábios se pronunciando para um beijo. Sua testa ardeu em brasa e o corpo estremeceu quando Yuri lhe beijou suavemente ali. A mão brincou com os cabelos de Otabek, que teve arrepios sucessivos com o toque.
"Durma, rapaz. Eu vou estar bem aqui quando você acordar." O louro disse com a voz suave e gentil. "Se até às 14:00 você não estiver de pé, eu venho te acordar."
"Seja gentil." O fotógrafo pediu, a voz grave e quente de excitação.
"Mau humor matinal?" Yuri provocou, não notando o quão sedutor soava em resposta ao tom de Otabek. "Vou pensar no seu caso. Bons sonhos."
Seguiu observando Yuri e seu andar suave e provocativo até a porta de forma atenta e ainda desejosa. Constatou que estava duro feito pedra, a ereção doendo e pedindo por alívio. Derrotado e humilhado, deu vazão às frustrações buscando aliviar a si mesmo numa tentativa de relaxar e dormir. Quando o prazer e o entorpecimento vieram, decidiu que se renderia a isso e lidaria com a culpa depois. Precisava dormir e assim o faria.
Assim que Yuri fechou a porta, sentiu o rosto ferver de vergonha. Não se reconhecia, tentando entender porque agiu como se tentasse seduzir Otabek. Adorando ver como aqueles olhos pareciam densos e enevoados enquanto o olhava e os lábios eram tão tentadores. A fragilidade e o desejo daquele homem belíssimo em suas mãos... Yuri teve a impressão de que aquele homem faria o que ele quisesse, bastasse pedir. Fechou os olhos e se viu sendo tomado por aquele homem, gemendo de prazer e correu para a cozinha para lavar o rosto, beber água gelada e tomar juízo. Não importava se aquele homem o seduzia, se queria enlouquecê-lo em resposta, se ele era belo como um Deus e se seu sotaque era uma gracinha, Otabek Altin era seu patrão e ele era um profissional. Manteria a cabeça no lugar e agiria como se nada daquilo tivesse acontecido.
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Otabek acordou com o cheiro de comida caseira no ar, que invariavelmente trazia aquele clima de acolhimento e de lar. Há anos que não sentia algo assim. Tentou voltar a dormir, achando que era coisa da sua imaginação, mas lembrou que Yuri estava em sua casa. Só podia ser obra dele. Levantou-se e fez uma higiene básica e rápida, pegando a câmera antes de sair do quarto. O cheiro só ficava melhor e, com a proximidade do compartimento da casa, os sons da comida cozinhando, das panelas e dos utensílios de cozinha também ficavam evidentes. Sorriu ao notar que Yuri cozinhava. A expressão do bailarino era tão linda que Altin automaticamente levantou a câmera, mirou, enquadrou e começou a fotografar de forma silenciosa. O sol das 13 horas que entrava pelas janelas abertas fazia aquele rapaz parecer uma entidade de luz. O olhar doce e concentrado, junto com o sorriso, enquanto as mãos delicadas embalavam com massa o recheio dos salgados com destreza. Todos os ângulos daquele rapaz pareciam certos e, mesmo sem saber, aquele homem falava com a câmera do jornalista.
Yuri sentiu que era espionado e olhou para a porta. Não era a primeira vez que tinha aquela sensação, mas agora ela se provava real com Otabek, ainda com aquela bendita e tentadora boxer preta, encostado na parede, fotografando-o de forma preguiçosa e relaxada.
"O que diabos você pensa que está fazendo, seu pervertido?" O louro perguntou, o sorriso desfazendo em uma careta de desagrado.
"Estamos trabalhando." Otabek respondeu.
"Você não me pagou para cozinhar para você." Yuri retrucou, sério.
"Mas paguei para você ser fotografado." O jornalista respondeu, ainda manuseando a máquina com habilidade. "Preciso testar seus ângulos, como sua pele funciona com a luz... Essas coisas de fotógrafo. E também que você se acostume com isso antes de te registrar dançando. E comigo, já que vamos trabalhar juntos."
"Você vai estar decentemente vestido quando for me fotografar dançando?" Yuri questionou com escárnio, aproximando-se do forno para não parecer que corava pela semi-nudez do fotógrafo.
"Sim." O moreno respondeu, captando o olhar tímido e o rubor naquelas bochechas com suas lentes.
"Então posso lidar com o resto." O bailarino respondeu. "O almoço está pronto."
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Quando ele conseguiu tirar a câmera do moreno e eles conversaram sobre casualidades, Yuri descobriu que Otabek não era má pessoa. O fotógrafo ainda falava menos do que ele gostaria, mas dizia coisas interessantes. Agora entendia como uma pessoa como ele poderia tirar as fotos que expunha em seu Instagram e a foto que ganhara o Pulitzer. Apenas precisava ir além daquela cara séria, quase amarrada.
Agora jogavam video-game juntos, Mortal Kombat para Nintendo 64. Era inegável que Yuri se divertia e também que vencia mais do que perdia. Os risos eram inevitáveis, assim como as reclamações. Quando pararam, Otabek se levantou e pegou a câmera que ele tinha deixado em cima do tripé e começou a olhar as fotos. Yuri ficou intrigado quando ele sorriu. Aquele homem não tirava uma foto desde antes do almoço. Aproximou-se dele silenciosamente e viu uma foto de si jogando. Como ele tinha feito aquilo?
"Você não pode olhar ainda." O moreno respondeu, desligando a câmera. "Tem um parque aqui perto. Você gostaria de comer piroshkis comigo lá?"
Yuri assentiu silenciosamente. Sabia que o anfitrião da casa tiraria mais fotos de si e que seu trabalho aquele dia era ser fotografado, mas não conseguiu evitar o desconforto de ser alvo de tanta atenção quando aquele homem tão interessante não tinha metade da atenção que merecia.
No parque, as folhas amareladas caiam e as cores castanhas, vermelhas e amarelas predominavam em um dia um tanto frio. Yuri não conhecia aquele lugar e era lindo. Explorava o local com gosto a pedido de Otabek, por vezes esquecendo que estava ali com ele de tão a vontade que descobriu que ficava em sua presença. Era o melhor encontro que já teve em sua vida. Ou pelo menos seria se fosse um encontro. Olhou para o moreno, curioso, e sentiu a necessidade de inverter os papéis, de certa forma.
"Me empresta o celular para bater umas fotos, por favor?" Yuri pediu, relaxado. "Esqueci o meu na sua casa."
Seu celular estava lá com ele, mas a câmera daquele outro aparelho era melhor do que a sua. O homem lhe cedeu o aparelho, já na janela da câmera, e o louro começou a bater as fotos, ouvindo a câmera de Otabek agir com o abrir e fechar das lentes. Virou-se para o fotógrafo com o celular na mão e capturou o que via em fogo cruzado, já que Altin também o fotografava, sorrindo ao notar que o moreno sorria com a câmera na mão. Virou a câmera, tomando uma selfie deles dois. Por fim, aproximou-se do fotógrafo, baixou sua câmera e tirou mais uma selfie com ele. E mais outra quando o olhar chocado foi substituído por uma expressão mais amena e confortável.
"Está satisfeito por hoje?" O louro perguntou, provocativo.
"Talvez. Mas estou com fome." O moreno confessou.
Sentaram no banco do parque e conversaram casualmente enquanto comiam. Yuri corou perante o elogio que recebeu:
"Sua comida é tão boa quanto estar em casa."
"Meu avô fazia piroshkis para mim quando queria me mimar ou me animar. Aprendi com ele." O louro explicou, tímido por contar algo assim em um primeiro encontro.
Exceto que não era um encontro, ele pensou, corando. Otabek não se perdoou por ter perdido aquele olhar confuso e as bochechas coradas. Aquele menino sempre o surpreendia e sempre queria estar perto para ser ainda mais surpreendido. Aproveitaria ao máximo o tempo que passaria com Yuri, pois seriam momentos memoráveis.
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"Vai me mostrar as fotos ou não?" Yuri perguntou via mensagem.
Estaria mentindo se dissesse que não estava curioso para se ver pelos olhos de Otabek.
"No nosso próximo encontro, talvez." O moreno respondeu. "Qual é seu Instagram?"
"@yuri_plisetsky" O garoto simplesmente respondeu, ainda nervoso com o uso indevido da palavra encontro.
A notificação foi quase instantânea na tela de seu celular:
"Photobiker começou a seguir você."
Yuri sorriu.
"Otabek_Altin começou a seguir você."
A boca de Yuri se transformou em um pequeno "o". Uma conta de Instagram pessoal! Fuçou as fotos e a primeira que viu o deixou encabulado. Yuri reconhecia a fotografia que tinha tirado pelo celular do rapaz, mas corou ao notar a foto que ele tinha tirado do dançarino. O celular grande e moderno cobria uma parcela do rosto, incluindo os olhos, mas os cabelos dourados contrastando com a paisagem outonal e o sorriso travesso estavam ali. Gostou do que viu e marcou a si mesmo na foto. Aquela experiência com Otabek definitivamente seria interessante.
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