Closed
1 Capítulo 1
Notas iniciais
“Vai ser legal Sydney” foi o que Gabriela me disse, quer dizer, ia ser só uma festa. E ela dizia que eu precisava superar meu ex, esquecer a morte da minha mãe, e fazer novos amigos, e festas são boas para essas coisas, não parecia uma má ideia. Ela disse que seria legal, e pelos primeiros minutos realmente foi. Eu gostava da música e das pessoas, mas agora, a festa já não esta mais tão boa assim:
— Qual é Sydney – O garoto bebado que me fechou contra a parede disse com sua voz embriagada – Você sabe que quer isso.
— Mas eu não quero – Eu tento em vão empurra-lo para longe.
— Você tem que aprender a curtir – Ele vai se aproximando de mim enquanto tento me desvencilhar dele, posso sentir seu hálito de álcool e estou pensando em gritar. Não queria que isso acontecesse. De repente um som alto corta meus pensamentos, e faz com que a música que tocava parecesse baixa, o som se repete, de novo e de novo. Só depois percebo do que se trata, tiros.
A festa que antes era animada com música alta e pessoas alegres agora é uma confusão de gritos e pessoas jogadas no chão. Eu também fui ao chão, mas não de forma voluntária, o garoto que a alguns minutos atrás me fechava contra a parede agora caiu em cima de mim, com um corpo já sem vida, me derrubando sem dificuldade. Acho que ele morreu com um tiro na cabeça, percebo porque, sinto o sangue dele escorrendo de sua nuca pela minha testa, é uma coisa nojenta e uma situação desesperadora, parece um sonho. Ouço o som de mais tiros em sequência, e logo depois, o som dos corpos caindo, quando o barulho para, chego minha cabeça ligeiramente para o lado, tentando ver alguma coisa.
É um garoto, com a arma em uma mão e uma faca na outra. Ele é loiro, e tão novo, eu nem sequer sei porque ele faria isso, ou quem ele é. Minha cidade é pequena, todos se conhecem, mesmo que apenas de vista, mas tenho certeza de nunca tê-lo visto antes. Ele esfaqueia as pessoas restantes lentamente, e não consigo absorver grandes detalhes porque fecho os olhos. Com os olhos ainda fechados começo a ouvir o som de passos de aproximando, quando o som se encerra posso sentir o corpo do garoto bebado sendo tirado de cima de mim. Se eu tiver sorte, o assassino vai pensar que eu estou morta, quer dizer, tem sangue na minha testa. Ele coloca a mão no meu pulso e no peito, e posso jurar que ele sentiu minha respiração, é isso então, eu vou morrer. Na rapidez de pensamentos do que podem ser meus últimos momentos de vida eu penso em um último pedido, ligar para o meu pai, ele nem sequer sabia que eu vinha a essa festa, e depois que mamãe morreu ele só tem a mim:
— P-por-por favor – Eu começo a gaguejar, vou pedir uma ligação, talvez ele tenha algum resquício de humanidade – Eu só queria...
— Dormir? – Ele me corta no meio da minha frase fazendo com que eu olhe pra ele confusa, ainda deitada no chão – você deve estar cansada
— O-oque? – eu sussurro em pânico, meu desespero vem do fato que eu não entendo o que está acontecendo ou o que ele quer dizer
— Tudo isso deve ter sido tão assustador pra você querida – Ele me pega no colo enquanto eu permaneço congelada, sem mover um músculo – está tudo bem agora – Eu sinto meus olhos se fechando.
Acordo confusa, em uma cama grande e pisco os olhos varias vezes para ajustar minha visão embaçada. Ao me mexer percebo que há dois ou três cobertores acima de mim, olho em volta, analisando o quarto, tudo é branco, a cama, a mesa, o armário e a penteadeira, tudo isso combinando com paredes brancas e um piso, adivinhe, branco. Antes que eu consiga olhar com mais atenção ouço a porta se abrindo e me escondo instintivamente de baixo das cobertas como uma criança:
— Bom dia querida – Ouço a voz dele soando, séria como da última vez – Eu assustei você? – Ele se aproxima da cama, puxa as corvetas devagar e coloca a mão na minha testa, meus olhos se enchem de lágrimas, porque eu estou com medo, não sei o que ele vai fazer comigo – Acha que está com febre? Está sentindo frio? – eu não consigo dizer nada apenas olho para o lado, eu queria que fosse um sonho – Sydney querida, precisa me dizer como se sente
— Eu... eu estou com medo – eu sussurro soluçando um pouco – O que vai fazer comigo?
— Eu vou cuidar de você – ele coloca a mão na minha bochecha – Não quero que sinta medo
Eu olho para os olhos dele, eles parecem tão frios e sem sentimento, isso faz com que seja difícil acreditar em suas palavras. Eu só quero voltar pra casa, voltar a assistir jogos de futebol com o papai, e a fazer cookies nos domingos, sinto falta até da minha cama desconfortável e da minha prateleira bagunçada:
— Pode descansar mais agora – Ele tira a mão da minha bochecha e vejo ele passando uma espécie de gel nas mãos logo depois – procure dormir.
O assassino dos meus amigos, agora meu sequestrador, sai do quarto a passos lentos sem olhar para trás. Quando minha mãe estava viva, eu dizia a ela que não tinha medo de morrer, porque é algo que acontece com todas as pessoas, mas agora que a morte parecia algo mais próximo eu percebi que tenho medo dela, do vazio que ela pode causar, da ideia de fechar os olhos e não conseguir mais abri-los mesmo que eu quisesse muito. A Gabriela está morta agora, e algumas lágrimas caem por ela, será que ela pode me ver?
— Gabi – Eu digo para o vazio – não devíamos ter ido àquela festa – mais lágrimas caem – Espero que esteja em um lugar melhor do que eu – Eu suspiro – Se eu morrer, podemos nos encontrar no céu, eu você e mamãe, ela gostava muito de você sabia?
Não consigo dizer mais nada, e durante longos minutos, eu apenas choro com meu rosto no travesseiro, o travesseiro tem cheiro de amaciante de lavanda, assim como na minha casa. Depois de algum tempo, levanto devagar da cama e sento na cadeira em frente à penteadeira, meu cabelo está lavado, e meu rosto também, não há resquícios da maquiagem de ontem. Abro a gavetinha e encontro papel e caneta, desenho algumas flores perdidas no papel e depois amasso e pego uma nova folha, e dai, começo um bilhete:
“Mãe;
Como vai aí no céu? Espero que bem. Aqui na terra as coisas não andam tão boas pra mim, me meti em uma enrascada. Acho que estou muito ferrada, muito mesmo. Não sei se vou conseguir voltar pra casa. Me desculpe por não conseguir cuidar do papai, e por aquela vez que o dinheiro sumiu da sua bolsa, eu menti pra você, fui eu que peguei. Sinto sua falta mãe, mande um abraço pra Gabi por mim.
Ass. Sua filha, Sydney”
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