Cloro
1 Cl
Mantive os braços cruzados na frente do peito, observando Mark arremessar uma latinha na cesta de lixo e comemorar ao vê-la bater na beira e entrar, ao invés de cair pro lado de fora.
Fiz menção de rir, mas senti meus olhos enchendo de lágrimas e comprimi os lábios, baixando o rosto. Meu peito estava apertado. Aquele dia havia sido péssimo, e eu não conseguia me desligar da lembrança de tantas notas negativas em algo que dei tudo de mim para ficar perfeito, a pior parte.
Ergui o rosto ao sentir um sopro em meu rosto, e ouvi Mark soltar um riso de zombaria enquanto eu afastava os fios, que ele tinha bagunçado soprando minha cara, da frente dos olhos.
— Ei, que foi? — perguntou franzindo o cenho, o sorriso provocador sumindo dos lábios tingidos pelo corante laranja do refrigerante que tínhamos dividido.
— Meu dia de merda. — murmurei irritada, minha voz falhando em alguns pontos.
Apertei os braços com mais força e olhei pra cima, tentando conter o choro iminente enquanto meu queixo tremia em sincronia com minha voz. O céu claro ficou embaçado e eu logo não conseguia enxergar muita coisa, princialmente quando um emaranhado de fios ruivos tapou minha visão enquanto Mark passava os braços ao meu redor de uma forma meio sem jeito.
— O que aconteceu? — ele perguntou, afagando meu cabelo com uma mão enquanto mantinha o outro braço em volta de mim.
Podia sentir seu olhar atento, então desabafei sobre o dia, contando sobre ter acordado atrasada em um dia de apresentação de seminário, então ter queimado minha camisa social favorita, — a rosé — em seguida ter ficado sem almoço por ter esquecido de levar, e ter recebido o resultado mais negativo possível na entrega das notas do seminário em grupo anterior, onde fiz tudo praticamente sozinha, e ainda tentando deixar tudo o melhor possível.
Ao fim, fechei os olhos e recostei meu rosto em seu peito, apertando a bochecha direita contra a pulsação calma de seu coração e chorei, soluçando, até sentir os olhos arderem. Foi o suficiente para sentir meu coração mais leve, e ouvir o de Mark tão perto ajudava. Ergui o rosto, apoiando o queixo nele e sorri.
— Daqui de cima você parece melhor, e daí de baixo? — perguntou erguendo uma sobrancelha, os braços ainda em volta de mim, o sorriso maldoso de volta ao rosto.
Revirei os olhos, ainda úmidos, e impulsionei o corpo para cima, ficando na ponta dos pés para beijar seu queixo.
— Bem melhor. — disse eu em resposta, balançando a cabeça pros lados, jogando meu cabelo em várias direções, o que vez alguns fios grudarem em meu rosto molhado. — Ai, socorro. ESTOU CEGA! — gritei quando um dos fios bateu dentro de meu olho direito, embaçando minha visão.
Mark me largou enquanto eu me contorcia pra afastar o cabelo do rosto, tentando voltar a enxergar.
— Você é doida. — afirmou cruzando os braços e olhou para o céu, fazendo uma careta com a luz do sol do fim da tarde que atingia seu rosto.
Minha visão do olho esquerdo não gostou de descaso com minha possível cegueira, mas dei de ombros momentaneamente, para me concentrar em jogar a cabeça para trás, segurando o cabelo e puxando os fios que grudavam em minha nuca e rosto para prender tudo em um coque mal feito.
— É, mas você gosta da doida aqui. — rebati ao ajeitar a postura, mostrando a língua para ele, que pareceu não dar muita importância ao gesto. — O que foi? — perguntei olhando para o céu, apertando os olhos, com o direito ainda ligeiramente embaçado.
— Gosto? — questionou baixando os olhos para mim. O fitei ofendida, baixando os braços. Ele riu e se inclinou, beijando minha boca enquanto segurava meu queixo. — Você é muito suscetível, Jules. — disse contra minha boca e me deu mais um selinho antes de afastar e colocar as mãos nos bolsos do jeans surrado. — Pare com isso, não combina com o resto.
— Que resto? — perguntei passando a língua pelos lábios, curiosa.
Ele revirou os olhos e fez um gesto amplo com as mãos para mim.
— Ah. — soltei ao entender. — Que fofo. — admiti franzindo o cenho, então pendi a cabeça para o lado. — Você está bem?
Como resposta ele me deu as costas e saiu andando com as mãos enfiadas nos bolsos dianteiros, atravessou a pista asfaltada e parou ao chegar debaixo da sombra de um freixo que ficava perto da entrada de um parque.
— O que você ainda está fazendo aí, Jules? — indagou abrindo os braços, impaciente. — Vem logo, pouca sombra.
Cruzei os braços, o lançando um olhar ferino.
— Como é?
— Vem logo. Tenho um lugar pra te mostrar. — anunciou com um ar sugestivo e um sorriso torto brincando no canto da boca.
Ergui uma sobrancelha, então balancei os ombros e olhei para os lados antes de dar uma corridinha até o outro lado da pista, mas tropecei ao pisar em uma fenda da rachadura na calçada e cambaleei alguns passos antes de retomar o equilíbrio.
Ajeitei a postura e apoiei os punhos nas laterais dos quadris, satisfeita por não ter caído.
— E depois eu que não estou bem. — Mark disse mal humorado, saindo de debaixo das árvores e se colocando atrás de mim, de onde segurou meus ombros e foi me guiando, para não dizer empurrando.
— Pra onde estamos indo? — perguntei enquanto passávamos direto pela entrada do parque e ele segurava minha mão, me levando para outra travessia, por onde passamos e dobramos em uma esquina onde casas de arquitetura clássica e muros baixos se estendiam por toda a rua situada em uma área nobre da região. Voltei meu rosto para o de Mark. — Marcus Barlow, pra onde está me levando? Eu tenho um futuro promissor demais para ser presa por invasão de patrimônio.
Ele não olhou para mim, apenas colocou o indicador da mão direita na frente da boca. Seus olhos estavam na numeração das casas, parecia procurar por uma em especial, o que eu tive certeza quando ele parou de frente para as grades do portão de entrada de uma delas e sorriu.
— Tenho o delegado Nolan na palma da mão, aquele velho não tem como dizer aos meus pais que seu sobrinho fora preso enquanto estava sob sua irresponsável custódia, então não tenho como ser preso. — ele me olhou. — O que inclui alguém que esteja comigo.
Ergui as sobrancelhas, mas então olhei da entrada da casa para ele e franzi o cenho.
— O que viemos fazer aqui?
— Sexo. — ele respondeu me empurrando contra a parede da entrada da casa, com as mãos em minha cintura, mas de uma maneira tão abrupta e sem seriedade que comecei a rir e o dei um empurrãozinho quando fez menção de me beijar, mas ainda senti um arrepiar quando seus lábios tocaram meu pescoço.
— Para de me provocar no meio da rua, Mark. — pedi colocando as mãos espalmadas em seu rosto para o afastar, ainda sentindo vontade de rir.
— Viu? Você quem pediu. — afirmou com a voz abafada por minhas mãos, que afastei de seu rosto, o olhando confusa.
— Pedi o que? Desde quando você gosta de mistério? Eu não tô gostando desse Mark, traga o meu de volta.
Ele riu e tirou as mãos da minha cintura, então abaixou e uniu as mãos em uma escadinha, com um sorriso malicioso.
— Pra entrar. — explicou erguendo os olhos para o muro baixo.
Segui seu olhar e depois olhei para suas mãos e entendi. Arregalei os olhos balancei a cabeça em negativa.
— Ah, não. Não mesmo. Me recuso a invadir uma casa. — protestei dando alguns passos para trás. — Por que diabos, com tantos garotos no mundo, eu fui me apaixonar logo por um vândalo juvenil? Me questionei internamente enquanto o via soltar um riso baixo, que serviu de resposta.
— Olha, você indo ou não, eu vou. Então põe logo o pé aqui, loirinha, antes que eu perca a paciência.
Balancei a cabeça novamente e sentei na calçada com as pernas estendidas e os braços cruzados na frente do peito.
— Antes me diga o que vamos fazer aí e como sabe que não vamos ser pegos pelos donos. — exigi, ao que ele ergueu uma sobrancelha, parecendo divertido com o questionamento.
— Vejam só… eu não sabia que tínhamos mais uma mente criminosa aqui. Estou impressionado. — disse com a voz carregada de zombaria, então soprou uma mecha dos fios ruivos que caíam em seu rosto pela posição em que estava e continuou. — Eu já vim aqui antes, os donos da casa viajam nessa época do ano. — ele sorriu. — Estive aqui ontem mesmo, então não se preocupe. Você precisa relaxar, garota, estou tentando te proporcionar isso.
— Sua ideia de relaxamento é bem peculiar. — tentei escapar, mas virei minha cabeça para o lado, erguendo o rosto ligeiramente de onde dava para ver o gramado recém-irrigado por um aspersor automático. Era tão bonito.
— Eu não te traria aqui se não soubesse que vai gostar. Agora deixa de fazer cu doce e sobe, Jules. — ele disse me tirando do meu transe, ao que o olhei com os olhos apertados, cheios de indignação, mas eu agora queria ir, então levantei e bati as mãos no short para tirar a poeira da calçada e apoiei o pé direito nas mãos de Mark, que me deu impulso.
Ergui os braços e agarrei a parte superior do muro, então não soube mais o que fazer e senti uma pontada de desespero.
— Socorro, eu não sei como continuar daqui. Faltei às aulas de educação física em que ensinavam a pulas muros de residências. — reclamei debilmente agarrada ao muro, então ouvi a risada de Mark abaixo de mim. — Ria mais e eu chuto sua cara, Barlow.
— Chuta e eu te solto. — ameaçou parando de rir e me ergueu um pouco mais. — Põe o outro pé no muro e empurra o corpo pra frente. — instruiu com calma.
Eu o fiz, apoiei o pé direito no muro e, relutante, usei também o outro. Empurrei com as pernas, me segurando firme e impulsionei o corpo mais para cima, então fiz força com os braços e consegui subir. Ouvi um assobio longo e quase caí.
— Que foi? — perguntei lá de cima.
— Eu devia ter te ensinado a pular muros antes, é uma bela visão.
— Pois saiba que você é um péssimo professor. — resmunguei fazendo uma alavanca com a perna para impulsionar o corpo em direção ao outro lado enquanto me segurava no topo, até meu abdome ultrapassar a superfície. Passei a outra perna, torcendo para que meu pé acertasse seu rosto enquanto eu sentava sobre o muro, ainda com medo de cair ao ir para o lado de dentro. — Como faço para não torcer o tornozelo ao descer daqui?
— Péssimos professores não dão instruções. — ele disse em resposta, rindo. Então suas mãos agarraram a superfície reta do topo do muro bem ao meu lado, e em um movimento rápido e habilidoso, logo impulsionou o corpo para cima, com os músculos dos braços se tencionando e crescendo com o esforço. Após apoiar o joelho esquerdo no muro, saltou para baixo, caindo com as pernas dobradas e um sorriso presunçoso no rosto avermelhado pelo calor.
— Quer que eu bata palmas? Me recuso. — disse eu olhando para baixo, fitando ele enquanto o mesmo ficava de pé e retirava a jaqueta, que jogou por cima do ombro.
— Quero que pare de choramingar. Anda. — pediu erguendo os braços. — Não confia em mim? — indagou pendendo a cabeça para o lado.
— Não devia. — objetei inclinando o corpo para frente, dando impulso e caindo em seu abraço. — Mas confio.
Ele ergueu as sobrancelhas, sorrindo, então afrouxou o enlaço de seus braços, me deixando tocar o chão com os pés.
— Não devia ter dito isso. Vou usar contra você. Ah, e tire os tênis. — me disse antes de tomar a frente e seguir pelo gramado, em um corredor entre a entrada da casa e a parede lateral.
Fiz o que ele pediu e o segui relutante, caminhando com cuidado pela passagem um pouco estreita demais, então parei quando vi.
O final do corredor levava à área dos fundos do casarão, lá havia um aclive onde a parte central era formada por um caminho de pedras que levava até uma piscina de fibra de vidro. A água cintilava com linhas de luz solar refletidas em sua superfície.
— Uau… eu, hã, nossa. — balbuciei sem saber bem o que dizer, então olhei ao redor, procurando por Mark, mas não o via em lugar algum, até que senti meu corpo sendo erguido do chão enquanto ele agarrava minha cintura e corria comigo até a piscina, onde se jogou comigo enquanto eu gritava e ria, espirrando água para todo lado.
— É, eu sei. — disse rindo, me soltando livre enquanto mergulhava, emergindo em seguida, parecendo satisfeito em estar na água.
Eu ri e movimentei as pernas, indo até a borda, onde apoiei um dos braços do lado de fora enquanto puxava o short para baixo com certa dificuldade.
— Podia ter me esperado tirar a roupa, né. — pontuei tentando desabotoar a peça, então senti as mãos de Mark por cima da minha, quando ele abriu o botão e puxou o zíper, escorregando o short por minhas pernas.
— Melhor agora? — perguntou em um tom malicioso, onde pude sentir o sorriso em sua voz. Assenti apoiando o outro braço fora da piscina enquanto virava o rosto em sua direção, o olhando de soslaio, então girei o corpo e submergi.
Mark acompanhou meu movimento, ao que joguei o corpo para o lado e empurrei o short com os pés de um jeito provocativo antes de nadar para perto dele e passar os braços ao redor de seu pescoço antes de ele voltar para a superfície junto de mim, quando olhei seus olhos por alguns instantes, observando meu reflexo refletido nas pupilas escuras no centro das íris verdes e soltei seu pescoço, segurando seu rosto antes de fechar os olhos. O beijei com calma, sendo correspondida com um pouco mais de força, aumentando a intensidade. Sua boca estava quente e seu hálito ainda tinha um gosto que lembrava o corante do refrigerante de laranja, mas com algo mais, algo que eu sentia o gosto toda vez que o beijava, e gostava de sentir. Arquejei e afastei a boca, recuperando o fôlego. Mark riu e acabei fazendo o mesmo, agora recostando o queixo em seu ombro.
— Obrigada. — murmurei perto de seu ouvido e beijei sua bochecha, então aninhei meu rosto nele, que segurou minhas pernas, as colocando ao redor de seu tronco, entendi e as prendi firme ali.
— Ainda não. — disse baixinho enquanto deslizava dentro da água até as escadinhas e saia comigo junto de si.
— O que? — perguntei sentindo o balançar de ele me carregando até uma porta de vidro que empurrou para o lado, entrando. Ficava depois do gramado que levava ao aclive da piscina, que podia ser vista de lá.
— Não me agradeça ainda. Não acabou. — explicou beijando meu pescoço. Eu sorri, mal lembrava de ter estado tão triste a menos de uma hora atrás, me sentia feliz agora.
Desenlacei as pernas dele e o observei abrir o frigobar envelopado, de onde retirou algumas latinhas de energético HND energy.
— Vai querer blueberry, cereja ou maçã? — perguntou me olhando por sobre o ombro, mas seu olhar parou no ponto abaixo da gola de minha blusa. — Porra, Jules. — disse em um tom que se misturava entre um arquejo e o que se usaria para fazer um elogio.
— O que? — indaguei baixando o rosto para a blusa, que estava colada e a cor clara a fazia estar praticamente transparente, deixando mostrar as tiras do sutiã branco em tule bordado sob o tecido, e o contorno dos seios. — Ah. — cruzei os braços em “x” sobre o peito e ri. — Cereja, por favor. — pedi afastando alguns passos para o lado, recostando o quadril em uma bancada de madeira.
— Que tal melão? — indagou fechando a porta do frigobar, com os olhos indo do meu busto para meus olhos enquanto ficava de pé, segurando as latinhas.
— Ai, que tosco, Mark. — joguei a cabeça pra trás, soltando uma risada alta. — Deixa meus peitos.
— Quem disse que eu estou falando deles? Você está muito narcisista, loirinha. — disse indo até mim e me estendendo uma das latinhas antes de abrir a sua e tomar um bom gole. — Burgueses politicamente corretos de merda, esqueci que eles não tem bebida aqui. — resmungou fazendo um movimento com o energético na mão, mantendo uma expressão irritada. — Na próxima eu trago. — completou com um sorriso aéreo e malicioso.
— Eu espero que esqueça de novo. — murmurei, puxando o lacre da latinha pra cima e provando um pouco da bebida, olhando Mark com uma expressão de inocência fajuta.
— Como é?
— Bom isso, né? Nossa, cereja tem um gosto maravilhoso. — desconversei olhando para o rótulo. Tinha um gosto bom mesmo.
— Gostinho de perigo. Você gosta, né? — provocou tomando mais um gole.
— Claro, eu namoro um delinquente. Olha você, perigo puro. — disse e fiz uma careta, franzindo o nariz. — O pior é que eu nem estou brincando.
Desse vez ele riu.
— Quer terminar? — ele sugeriu e eu engasguei. Comecei a tossir, tentando desengasgar. — Ei, eu tô brincando, garota. — disse largando a latinha quase vazia sobre o balcão enquanto eu tossia e tentava limpar a garganta do gosto ácido. — Bebe mais, vai ajudar a descer o que ficou. — sugeriu segurando minha mão que segurava o energético, a guiando até minha boca.
Tomei mais uns goles curtos, sentindo ele massagear minhas costas.
— Pronto, tô bem, tô bem. Viva! — falei erguendo os braços, então me virei para Mark. — Tô com fome. — anunciei fazendo um muxoxo com a boca, ainda com as mãos para cima.
Ele revirou os olhos e riu.
— Achei que ia começar uma DR, então você me diz simplesmente que está com fome. Faz sentido nenhum. — concluiu erguendo as sobrancelhas, falando mais para si. — E é por isso que eu só estava brincando. — atestou me segurando pela cintura, me erguendo para que sentasse sobre a bancada.
Sorri e baixei os braços, os apoiando estendidos sobre seus ombros.
— Se não me alimentar, vou morder você. — ameacei apoiando a testa na sua, fazendo minha melhor cara de má.
— É mesmo? Morda, então. — provocou com um sorriso torto, mantendo os olhos nos meus.
Ergui uma sobrancelha e inclinei o rosto, o beijando, puxando seu lábio inferior entre os dentes no intervalo de outro beijo. Senti suas mãos em minhas costas, me puxando para mais junto de si, apertando o tecido úmido de minha blusa entre os dedos enquanto erguia a peça, fazendo a água me causar um arrepio enquanto escorria pelo meio de minhas costas. Até que meu estômago roncou e afastei a boca da sua, tendo uma crise de risos.
— Epa. — falei segurando seus braços, apoiando o rosto em seu ombro, ainda com dificuldade para refrear o riso e sentindo seus ombros se agitarem enquanto ria, antes de ele suspirar a me soltar.
— Okay. O que você quer comer? — perguntou olhando para minha barriga, cruzando os braços.
— Você é mais educado com minhas gorduras que comigo, me sinto ofendida. — reclamei olhando para ele, logo baixando os olhos para minha barriga e a apertado.
— Elas gritam, eu não tenho culpa. Você mesma ouviu. — se defendeu erguendo as mãos, ao que o dirigi um olhar ofendido, abrindo a boca em um “o”.
— Como é? — comecei, mas minha fome aumentou e suspirei, derrotada. — Quero qualquer coisa que não vá denunciar nossa invasão. — pedi apertando minha barriga, fazendo uma voz grossa para simular sua fala.
Mark fez uma careta, soltando o ar entre os dentes em um riso curto, antes de me dar as costas, rumando para a geladeira por trás de uma parte mais baixa da cozinha por um degrau, de onde abriu a geladeira e retirou algumas coisas de lá. Empurrei o corpo para trás e deitei de costas no balcão duro, apesar de não tão desconfortável quanto imaginei ser. Fechei os olhos e fiquei cantarolando o refrão de Bon Appétit enquanto balançava as pernas, dando batidinhas no balcão com o calcanhar.
— Sério isso, Julie? — ouvi Mark reclamar da cozinha, enquanto ouvia também o estalar e chiados de carne sendo frita, possivelmente temperados com algo que parecia picante. Eu ri, então parei de cantar para apreciar o cheiro de comida que invadia todo o cômodo.
— Caramba, se o gosto estiver tão bom quanto o cheiro, dessa vez eu vou bater palmas. — falei erguendo o tronco e me apoiando nos antebraços, o olhando dali enquanto ele colocava maionese, tomate, alface e molho nos sanduíches.
— Que porra de palma o que, Jules, pra mim eu quero que você bata outra coisa. — protestou me olhando de lá com um sorriso malicioso.
— Ai que horror, Mark. — eu disse com a voz estridente, sentindo meu rosto esquentar. — Tô com fomeee.
— Tá me achando com cara de garçom? — indagou enquanto caminhava de volta para o balcão antes da mesa enorme da sala de jantar. — Toma, come até engasgar agora. — disse jogando o prato no espaço ao meu lado, pegando o energético que eu tinha deixado pela metade.
Mostrei a língua para ele e me endireitei, sentando e pegando o sanduíche com recheio quase transbordando. Mordi um pedaço grande e soltei um gemido de satisfação com o gosto. As partes picantes se misturavam ao molho agridoce e a maciez do pão com gergelim.
— Tão bonitinha gemendo, pena que tá fazendo com a coisa errada na boca. — comentou e estalou a língua, afastando para trás quando ergui a perna para o chutar.
— Assim eu vou engasgar mesmo, seu libidinoso. Promíscuo. — reclamei no intervalo de outra mordida.
Ele me mostrou o dedo do meio enquanto bebia o restante do energético com o seu sanduíche na mão, ao que arregalei os olhos, cheia de indignação, quando ele riu e passou pelo meu lado, dando um beijo em minha bochecha antes de seguir para um cômodo a oeste da sala. Segui comendo até terminar o sanduíche. Olhei para a direção que ele tinha ido há uns cinco e minutos e franzi o cenho estranhando, então desci do balcão e atravessei a sala, indo até a cozinha. Tomei água e depois lavei as coisas, guardando o prato junto dos outros, tomando cuidado para secar e pia e ajeitar os utensílios em seus respectivos lugares.
Eu mal podia acreditar que estava fazendo isso para os donos da casa que invadi não perceberem que adolescentes pularam seu muro e descaradamente pararam para fazer um lanchinho, balancei a cabeça, ai ai, Mark. Aliás, o pensamento me fez sentir falta dele novamente, olhei para trás, vendo que lá fora começava a escurecer e acendi a luz da sala, tomando cuidado para manter a iluminação somente na parte menos visível para quem estivesse passando pelo lado de fora da casa, então segui pela sala a procura de Mark. Passei por detrás do sofá, correndo os dedos pelo encosto das costas das almofadas marfim e caminhei a passos curtos até o corredor escuro.
— Mark? Mark, você está bem? — chamei da entrada do corredor, sem muita coragem para avançar, mas como não obtive resposta, puxei ar para os pulmões e o soltei lentamente, seguindo em linha reta.
Tateei as paredes na procura por um interruptor, mas não consegui encontrar nada além de uma superfície lisa, até tropeçar em degraus. Xinguei baixinho e ergui a mão direita, conseguindo alcançar o corrimão, por onde me guei até outro corredor e fui repetindo a estratégia de me guiar pela parede, até esbarrar a mão em uma parte diferente, parecia madeira, desci a mão e sorri, uma maçaneta. Fiquei de frente para a porta e girei a maçaneta, empurrando a porta com cuidado em seguida.
— Mark? — chamei baixinho, relutante. Já começava a me afastar, quando senti um par de braços me envolverem de frente para si. Meu impulso foi gritar e o empurrar, mas tive minha boca tapada.
— Sou eu, loirinha. — ouvi a voz de Mark dizer, afastando a mão de minha boca, e relaxei.
Tateei seu peito, subindo até achar seu pescoço e rosto, onde dei um tapa.
— Idiota, achei que tivesse acontecido algo contigo. — ralhei zangada, então apoiei a mão sobre o ponto que tinha batido para me nortear e beijei seu rosto. — Não faz mais isso. — pedi baixinho, o abraçando.
— Aqui é tudo equivalente. — disse e senti um sorriso em sua voz.
Abri a boca para perguntar do que ele estava falando, mas acabei entendendo subitamente, quando sua mão direita desceu por minhas costas e bateu com força em minha bunda.
— Você estava com vontade de fazer isso desde que eu subi naquele muro não estava? — perguntei rindo baixinho.
— Ah se estava. — afirmou voltando a abraçar minha cintura, parando de falar para me beijar. Apoiei minha mão direita em sua nuca, por trás do cabelo molhado para ter mais apoio, até que ele afastou a boca. — Ah, te esperei vir aqui pra mostrar uma coisa, vem cá. — disse me puxando com calma. Fui seguindo seus passos, então ele me girou e ainda abraçando minha cintura com o braço esquerdo, tendo minhas costas apoiadas no peito, afastou o outro braço e de repente o cômodo foi iluminado por faixas de luz alaranjadas que vinham de um céu com nuvens brancas circundadas de amarelo e rosa vindos do sol que se punha.
Meus olhos se enxeram com a beleza daquela vista além do vidro da varanda do quarto que estávamos. Ficamos lá parados, com Mark deixando o queixo apoiado sobre o topo da minha cabeça e os braços em volta de mim. Parecia apreciar aquela visão tanto quanto eu, talvez até mais. Até que a lua minguante aos poucos tomou seu lugar em um ponto alto do céu escuro, com borrões de nuvens que se afastavam com o vento do início da noite. — Impressionante, não é?
— Ainda mais do que eu podia esperar. — admiti abrindo um sorriso derretido.
— É. — ele disse somente, ainda encarando o céu por algum tempo. — Vamos descer. — disse e afastou os braços de mim, erguendo as mãos para puxar a cortina blecaute.
Esperei no escuro ele ajeitar os recantos por onde ainda entrava um pouco da luz vinda da rua e senti sua mão esquerda segurar minha direita, me guiando no escuro para fora do quarto.
Voltamos pelo corredor e consegui não tropeçar enquanto descíamos as escadas e caminhávamos para fora, voltando à área com piscina.
Mark pegou as latinhas vazias, fechou a porta de vidro com cuidado e retirou a camiseta, que jogou em um espaço na grama perto da jaqueta seca antes de rumar para a piscina e mergulhar.
Caminhei para perto e sentei perto da borda, retirando minha blusa também, que já estava mais seca que molhada, mas ainda assim a ergui, tentando ver a lua através dos pontos transparentes.
— Quanto tempo será que já passou desde a hora em que eu comi? Quero entrar na água também. — choraminguei sem desviar os olhos do céu embaçado pelas linhas da blusa, até que um vulto ruivo surgiu por trás dela e soltei um gritinho enquanto tentava fazer Mark sair de cima de mim para parar de me molhar. — Ai, merda Mark. — ri tentando empurrar ele com os antebraços, sem muito sucesso, então parei de forçar e deitei a cabeça de lado. — Ó tritão ruivo, tu vencestes. — dramatizei fechando os olhos em uma pose de morte pós batalha.
— Ê porra. Esperei o dia todo por isso. — riu, apoiando os joelhos nas laterais do meu corpo.
Abri os olhos quando ele afastou os braços.
— Ah, não. Você não ous… — interrompi a frase para cobrir o rosto enquanto ele espremia a água do cabelo em meu rosto.
Quando parou, abri um espaço pequeno entre os dedos para o olhar, então apertei os olhos, tentando demonstrar irritação, apesar de estar tendo que comprimir os lábios para não continuar a rir.
Ele abriu os braços, com as sobrancelhas erguidas e um ar debochado.
— Você ainda duvida de mim, Jules? — indagou se inclinando sobre mim, com as mãos apoiadas ao lado do meu rosto.
Balancei a cabeça em negativa e abri um sorrisinho enquanto afastava as mãos do rosto e dava um beijinho na ponta de seu nariz.
— Seu tosco. — ri, erguendo as mãos um pouquinho, segurando uma mecha de alguns dos seus fios alaranjados no ponto acima de sua boca, fazendo um bigodinho falso nele.
Ele balançou a cabeça, espalhando o cabelo úmido pras várias direções, me fazendo rir mais pela cócega que os fios fizeram em meu rosto.
— Agora sim você pode agradecer. — disse indo para o lado, sentando com a mão esquerda apoiada no chão e a direita apoiada sobre o joelho dobrado.
Olhei para o lado e apoiei os antebraços no chão, tomando impulso para erguer meu tronco e sentar, voltada para ele e de costas para a água. Sentei sobre minhas próprias pernas e estendi as mãos para o rosto dele, afastando os fios da frente de seus olhos, os penteando com os dedos com cuidado para o lado, mas ele ergueu a mão direita, segurando meu pulso.
— O que? — perguntei parando, será que tinha puxado algum fio e o irritado? Me perguntei internamente, mas não vi nenhum traço de raiva em seu rosto, pelo contrário, ele parecia calmo enquanto observava meus olhos com atenção, então me puxou pelo pulso, inclinando o rosto para me beijar. Seus lábios tocaram os meus de uma maneira diferente de antes, com uma suavidade que eu mal lembrava conhecer, sua língua tocou a minha com anseio, mas sem pressa. Passei a perna esquerda por cima de seu colo, sem afastar a boca da sua, sentindo sua respiração quente enquanto me encaixava em seu colo. — Obrigada, problem boy. — sussurrei contra seus lábios com um meio sorriso e lhe dei um selinho antes de apoiar o rosto na curva de seu pescoço, afagando seu cabelo com a mão esquerda, enquanto passava as pontas dos dedos da direita por suas costas, dando voltinhas em círculos.
— Quer nadar? — perguntou após algum tempo.
— Uhum. Entra comigo. — pedi sorrindo, afastando o rosto dele para olhar seus olhos. Ele devolveu o sorriso e anuiu, então levantei e virei de costas pra ele, dei alguns passos para trás, seguidos de um salto curto, entrando na água.
Estava quentinha, bati as pernas para ir mais fundo e então usei os braços para voltar para a superfície, afastando o cabelo molhado do rosto para trás das orelhas. Mark espirrou mais água em mim quando entrou, mas então franzi o cenho, estranhando não estar tão escuro, mesmo sendo noite. Foi aí que notei que haviam lâmpadas com sensor de luz por trás de árvores altas nas laterais do lugar. Deixei meu corpo afundar um pouco mais na água, deixando somente o rosto para fora enquanto balançava os braços ao lado do corpo com leveza, formando ondinhas na minha frente enquanto observava as luzes, até que me assustei quando Mark tocou minhas pernas, nadando entre elas e em seguida emergiu à minha frente.
— Assustou?
— O que você acha? — devolvi erguendo uma sobrancelha, então voltei a olhar as luzes, ficando de costas para a beirada da piscina. — Mark, tem certeza que não tem câmeras aqui? Tem até luzes, talv… – ele tapou minha boca com a mão.
— Certeza, absoluta. Não estrague seu momento de relaxamento, apenas aproveite. Não precisa ser certinha e racional o tempo todo, Jules. Só tem dezessete anos, ainda tá na idade de fazer merda, garota. — argumentou e eu ri.
— É, até que tem razão. — admiti e ergui as sobrancelhas. — Uau, você é realmente uma má influência pra mim.
— Péssima mesmo. — concordou balançando a cabeça, soltando um riso curto. — Vem aqui, sinto que ainda não te corrompi o suficiente. — disse segurando minhas mãos por baixo da água e as apoiando em si enquanto me empurrava mais um pouquinho na água, fazendo minhas costas encostarem nos azulejos da beira. Mark então beijou meu pescoço, mantendo a mesma calma e suavidade com que beijara minha boca instantes mais cedo, o que me fez fechar os olhos, soltando um suspiro bom enquanto pendia a cabeça um pouco para o lado. Senti sua respiração quente quando sua boca tocou meu pescoço e beijou o ponto pulsante abaixo de meu maxilar, então subiu para meu queixo, depois beijou o recanto de minha boca antes de pressionar os lábios nos meus, com suas mãos subindo por minhas costas até o feixe de meu sutiã. — Posso…? — perguntou em um sussurro rouco ao afastar a boca da minha, com as mãos parando onde estavam.
Passei a língua pelos lábios e anui, ele então empurrou a parte de cima do feixe, o abrindo, e deslizou as alças por meus ombros e braços, deixando a peça flutuar pela água. Senti meu rosto ruborizar quando senti meus seios nus contra seu peito, com minhas orelhas esquentando, mesmo que ainda estivesse escuro demais para ver algo por baixo da água.
Achei que ele fosse apertá-los e me imaginei um pouco desconfortável com a situação, ao lembrar que Lucas sempre o fazia nas horas mais impróprias, mas Mark simplesmente me abraçou, os braços fortes à minha volta enquanto flutuávamos na água praticamente, mantendo apenas um balançar lento das pernas para permanecer na superfície. Sorri e apertei minha bochecha esquerda contra a sua, estava fria, mas o contato parecia suficiente para esquentar.
— Até que ser corrompida não está sendo tão ruim. — murmurei em um tom malicioso e sonolento.
— Ah, é mesmo?
— Uhum. Mas eu estou ficando com os dedos enrugados. — ri, apertando meus braços em volta dele.
— E eu perguntei algo sobre eles? — indagou com um tom arisco, descendo a mão direita por minhas costas, traçando uma linha reta com os dedos anelar e médio, e eu podia sentir o sorriso debochado em sua voz. Mas antes que eu pudesse responder a provocação, ele segurou meus braços, os apoiando por cima dos ombros e me segurei enquanto enlaçava as pernas em seu tronco, sendo levada para fora da água, até o início do caminho de pedras, onde ele sentou comigo no colo, em seguida deitou devagar e me encaixei por cima dele, com o rosto apoiado sobre seu peito.
Após alguns minutos assim, ergui o rosto, notando que ele observava o céu atento, então me aninhei nele, tentando trazer algum calor de seu corpo para o meu. Não sei ao certo quanto tempo demorou até que o céu escurecesse mais e ele puxasse a jaqueta, da qual eu já havia esquecido a existência, para cima de mim, me fazendo sentir confortável o suficiente para adormecer ali, junto dele e o cheiro de grama úmida misturada ao cloro de nossos cabelos e corpos.
Fale com o autor